Cálice de Sangue
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Emily
HOJE, 12 DE MAIO DE 1862, DEVERIA SER O INÍCIO DE MINHA NOVA VIDA.
Embora eu esteja nervosa com a ideia de vir a desposar com Alec, a lembrança do que aconteceu há três anos me obriga a refletir se devo persistir na promessa. Mas para entender o que de fato ocorreu, são necessários relatos vivenciados por minha pessoa para esclarecê-los.
Permita-me recita-los:
Tudo começou numa noite tempestuosa.
Lá estava eu, lendo sob a luz fraca de duas velas a carta de meu primo Victor, que estava em Londres.
Querida Emily,
Os dias aqui em Londres são pavorosos. A cidade é de um negrume intenso. Agora entendo a razão das histórias que sempre líamos juntos quando éramos jovens — as de terror -; foram, em grande maioria, baseadas nesta cidade. A neblina veste o céu de cinza e impede os raios SOLARES
de entrarem. As pessoas são pálidas e carrancudas. Você, sendo alegre e extrovertida, odiaria sem dúvidas este lugar.Estou com saudades. Tanto que nem posso suportar. Sei que minha pesquisa ainda encontra-se em pleno processo de desenvolvimento (na verdade é vergonhoso dizer que não tive resultados
convincentes para esclarecer minhas suspeitas), mas de nada vale se você não estiver ao meu lado. Por isso estarei voltando a Paris em dois dias.Seu primo,Victor.Victor estava pesquisando algo considerado tolice pela sociedade, e até por mim; a única a acreditar em seu potencial. De acordo com ele e suas anotações que preencheram diversos cadernos ao longo dos anos, existe VIDA
após a morte.
Mas não é algo divino ou bonito. Na verdade, a VIDA
que Victor se REFERE
, é a própria morte.
Durante minha adolescência, fui embalada na hora de dormir por histórias de terror contadas por tia Martha, a mãe de Victor. Ela era considerada a louca da família, mas eu a amava. Coitada, teve seu fim no inverno do ano passado. Morrera de anemia. Todos — Victor e eu -, permanecemos em seu leito a prantear-se.
Claro, eu a adorava. Digamos que o medo auxiliou em meu crescimento psicológico. Mas receio em informar que os contos não tiveram o mesmo efeito em Victor; já que em uma noite, quando retornara fadigado da Universidade de Direito, ele contou para a família de que fora atacado por um ser que não é deste mundo.
Ninguém acreditou, muito menos eu. Então, com isso, deu-se início à nossa separação.
Sua descrição em relação à criatura, de nada me surpreendeu. Pois pensei comigo: '' Pobre de meu primo. Os professores o estão explorando, só pode ser isso. O trabalho subiu-lhe a cabeça. ficou alucinante, criando formas e pessoas inexistentes.''.
O monstro descrito por Victor tinha uma estrutura esquelética e umbrosa. Vestia preto da cabeça aos pés, e a pele era de um branco marcante. Seus olhos brilhavam num vermelho eletrizante e demoníaco. Disse que veio ao encontro dele com a boca escancarada, mostrando os caninos bem definidos.
O que aconteceu depois não vou poder lhe contar, pois Victor foi encontrado desacordado em uma esquina, perguntando-se de como estava vivo.
Os guardas o trouxeram para em casa, então me acalmei. Victor estava transpirando e falando asneiras. Ele me olhava com aqueles grandes olhos castanhos assustados, segurando pesadamente meus ombros à cada sussurro incoerente que saía de sua boca. Disse-me coisas como: '' Demo, sangue e morte''.
Eu não lhe dei ouvidos. Continuei a passar o pano umedecido por sua testa suada, a avaliar cada parte de seu corpo para certificar-me de que estava bem. Nenhuma ferida, além de uma estranha vermelhidão no peito. Ele estava febril e tossindo muito.
Por quatro dias, Victor permaneceu são. Mas seu estômago recusava cada alimento que era ingerido. Tomava apenas líquidos, remédios indicados pelo Dr. Miller para abrir-lhe o apetite. Logo ficou doente e mirrou. Notei que, apesar da fraqueza exercida em seus membros, ele não demonstrava sentir fome ou sede. Um dia, fiz com todo carinho um ensopado de lebre. Sentei ao seu lado da cama e enquanto mexia a colher no prato, esperando o ensopado esfriar, o indaguei.
O enfermo lembrava tia Martha em seus piores dias. A pele assumiu um branco amarelado e sombras formaram-se debaixo dos olhos semiabertos. O cabelo perdera o brilho, e os lábios, antes carnudos e rosados, agora finos e ressecados. Parecia que o sangue se esvaía de sua face à cada dia. Victor ficara franzino e sem energia.
Temi pelo o que aconteceria se a doença se prolongasse. Eu sofreria se Deus resolvesse levar este também.
Há uma SEMANA
, eu poderia detalhar minuciosamente as belas tardes em que Victor e eu passávamos juntos. Mas agora essa vontade se foi — temporariamente. Vejo apenas a sombra de um homem que já foi um dia, e que o enterro deste se aproxima. A alma vaga e geme pela CASA
, negando-se a se entregar aos braços da morte.
Conheço Victor o suficiente para saber que ele não recusaria um passeio ao parque. Hoje, quando lhe fiz o pedido, ele de fato fez um esforço e se levantou da cama. Mas quando pôs os pés para fora da casa, este minguou. Retornou às sombras da mansão, contorcendo-se em gemidos lamuriantes. Cobriu todo o corpo com o lençol e a próprio se ninou. Ele repeliu minha mão várias vezes, dizendo para eu deixa-lo só.
Depois cantou uma canção que vovô Theo ensinou para nós na hora de dormir. Eu permaneci ao seu lado, mesmo sendo repelida a todo instante.
Seis dias se passaram. Eu já havia perdido as esperanças de Victor melhorar, quando o encontrei, milagrosamente, em pé de frente ao espelho, abotoando o colete. Deixei a bandeja que carregava a sopa cair, e o som da louça se quebrando foi o bastante para me trazer de volta à realidade. Victor olhou para mim e sorriu. A saúde voltou a tingir a sua pele da cor rosada e, sua boca, tanto quanto os olhos, cheios de vida, brilhando angelicalmente.
Prendi o ar em meus pulmões e juntei as mãos em forma de reza. Deixei um suspiro aliviante escapar e corri para abraçá-lo. Me acomodei em seus braços, e meu coração se encheu de alegria ao sentir seu corpo transmitir calor para o meu.
— É um milagre! — dizia eu — COMO
se sente, meu primo?
— Muito melhor, Emily. — disse ele — Sinto-me VIVO
! — e olhou para a própria mão em forma de garra, vangloriando-se.
Havia algo de estranho em seu olhar. Algo que não fazia jus á sua personalidade; pois a AUTO
idolatria não combinava com a sua fama de rapaz humilde e tímido.
O convidei para ir ao parque. Victor aceitou.
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