Cá entre nós

4 Restauração


Notas iniciais
Boa leitura!

III — Restauração

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Não me movo, mal respiro — com medo de destruir esse frágil instante. Eu finalmente o tenho em meus braços, a cabeça descansando em meu peito nu e as pernas entrelaçadas às minhas, pele contra pele. Caído de amores, sinto sua mão agarrada à minha cintura num gesto possessivo.

Eu o adoro silenciosamente. Shura está coberto de fascínio. Sua beleza, ainda que ferida, me arrebata sem dó e de um jeito que me faz querer chorar. Se eu já não estivesse perdidamente apaixonado por ele, creio que seria este o momento em que Cupido me flecharia desprevenido. Aprecio seus olhos ciganos cerrados em sono pacífico, seus lábios finos, seus cabelos curtos despenteados, e não resisto ao impulso de beijar sua testa. O toque é leve, reverente, quase temeroso. Não pretendo acordar nós dois deste sonho tão cedo. Quero permanecer com você em ninho de ternura pelo resto dos tempos.

E dizer que estávamos de novo lutando, até momentos atrás. Por mais que eu flutue numa espécie de Nirvana, minha mente ainda consegue vaguear pelos últimos ocorridos.

Havia cinco dias que eu não via Shura, pois ele havia se trancado em sua casa com seu cosmo turbulento e vibrante de emoções negativas. Eu, como seu vizinho, podia senti-lo em toda sua intensidade, ciente de que eu mesmo espelhava um halo entristecido. As flores do meu quintal morreram em plena primavera e a água nas torneiras de Sagitário corria enlameada e fétida. Vivia minha própria parcela de sofrimento, tão insuportável que, atormentado, até tentei subir as escadarias que nos separavam para mendigar sua clemência. No entanto, Capricórnio estava impenetrável; deparei-me com uma barreira de energia sinistra — um alerta.

Eu o amava tanto, por que o sangrava? Tornara-me a maior desgraça na vida de quem eu mais queria bem. Tinha destruído minha dignidade e trazido Shura para dentro do meu buraco negro. Não passava de um monstro, tanto quanto ou mais perverso que nossos inimigos, e agora amargava minhas atrocidades sozinho.

Felizmente, minha angústia não passou despercebida aos olhos de Saga, que sugeriu que eu tirasse minhas folgas acumuladas no comando da guarda do Santuário. A essa altura, tinha quase certeza de que ele estava a par do que acontecia entre mim e Shura, mas Gêmeos não ousou me acusar de nada — apenas me substituiu como um favor. Assim, passei aqueles tempos nefastos dedicando-me ao máximo ao treinamento do meu caçula, a única companhia que me trazia algum conforto. Aiolia continuava me admirando incondicionalmente e tentando me copiar, o que me provocava mais nojo de mim mesmo.

Foi num destes dias de aula que Shura ressurgiu na arena. Elevei minha cabeça juntamente com a massa de cavaleiros curiosos: seus passos esmigalhavam o solo e seu cosmo enegrecido impregnou o ar com um cheiro pútrido. Mesmo Máscara da Morte torceu o nariz.

Considerei deixá-lo em paz para o bem de todos, porém minhas pernas decidiram por mim e me levaram contra minha razão para perto dele. Ele parecia recuperado, o corte no lábio inferior estava em cicatrização e as escoriações nos seus braços tinham um aspecto menos cruento. Todavia, uma marca roxa no canto de sua boca gritava para o mundo que eu o havia esbofeteado. Vi as ataduras ao redor de seu pescoço e fraquejei.

"Fique longe!", ele cuspiu e num reflexo veloz partiu o chão entre nós com sua Excalibur. Analisei a fronteira que ele imprimiu na terra, profunda e precisa. "Não se aproxime, ou é isso que vai lhe acontecer."

"É uma ameaça?", perguntei sem emoção, meu humor depressivo.

"É uma promessa.", sua boca tremia de raiva. Eu só ansiava por abraçá-lo e acalentar seu coração despedaçado. "Vou me vingar de tudo que fez comigo!"

"Então você quer uma revanche?", eu sugeri com um quase sorriso, que deveria ter sido irônico. Eu não era mais eu e ele também não era mais ele. Estava disposto a aceitar qualquer condição, contanto que pudéssemos juntar nossos cacos, e mesmo que para isso meu amado precisasse antes nos estilhaçar um pouco mais.

"Eu vou te matar!", ele sibilou e tentou me atingir com um soco.

A plateia exultou; Aiolia até sentou-se sobre os ombros de um gigante a fim de assistir melhor nossa rinha.

O início do combate foi enérgico e sincronizado, como costumavam ser nossos treinos, mas havia algo de diferente em nós. Nossos cosmos cresceram rápido demais e chocavam-se, criando uma turbulência descuidada. Estávamos mais do que medindo forças — estávamos expiando nossos crimes, nossos demônios. Cada chute, cada murro era uma dívida quitada. Uma troca de golpes era um diálogo mudo.

Por que você não me ama também?

Por que você não entende que eu não posso te amar como você deseja?

Ele acertou meu rosto exatamente onde eu o agredi da última vez — na rima dos lábios.

Rolamos pelo chão aos socos, ele me atirou na arquibancada, eu avancei sobre suas pernas, voltamos a nos engalfinhar...Era pura batalha corpórea; os únicos poderes que usávamos era a força de nossos músculos.

Em nosso último confronto eu levara a melhor, mas ali foi Shura que me dominou. Estava à mercê de sua retaliação.

Nos afastamos um do outro a uma distância segura, ofegantes e exaustos, e tive um acesso doloroso de tosse. Os cavaleiros ao nosso redor incentivavam a luta e gritavam bestialmente para que Shura acabasse comigo de uma vez. Ele soltou um riso diabólico e dei-me conta tarde demais que sua mão fechada havia se enterrado em meu abdome. Senti gosto de sangue e cambaleei, até que por fim caí como presa fácil em seu controle. Ele me jogou de barriga contra o chão de pedregulhos e montou-me, agarrando meus cabelos com uma mão, como se enfim domasse uma fera selvagem. Não sem antes atritar minha face contra o cascalho, ele deu um puxão que me obrigou a gemer e exibir a todos meus abrasões e minha derrota.

Então, senti sua outra mão em riste contra meu pescoço, em posição de espada. Mal podia crer no que estava acontecendo, mas recebi a ameaça de seu golpe de misericórdia com serenidade.

"Eu poderia executá-lo aqui mesmo", ele rosnou no meu ouvido, deliciado. "Será que Máscara da Morte gostaria de ter sua cabeça pendurada em Câncer?"

"Mate-me, Shura", eu o desafiei, tão cansado dos nossos desentendimentos que o desconsertei com minha rendição. "Mate-me e liberte a nós dois."

"Hijo de puta", ele rangeu, mas não hesitou em pressionar minha garganta. "Está duvidando de mim?"

Eis que me torci o bastante para mirá-lo insolentemente, sua mão deslizando perigosa sobre minha pele. Shura estava coberto de ferimentos, mas era espantosa sua semelhança com um deus inclemente, segurando minha vida em seus dedos. "Mate-me", repeti com firmeza.

Ele estremeceu por um segundo decisivo. Foi tudo que precisei para trocar de lugar com ele, aplicando um soco em seu queixo que o fez cair para trás.

Eu o prendi sob meus quadris, suas pernas chutando a esmo, enquanto segurava seus pulsos acima de sua cabeça. Nossos narizes quase se tocavam e eu me aprofundei naqueles olhos negros cheios de revolta. Ele arfava como um animal, seu corpo suado reproduzindo a mesmíssima dança de quando eu o possuo. Senti uma satisfação mórbida em tê-lo enredado na minha armadilha.

Então, Shura se aproveitou de minha distração e inverteu novamente nossas posições, sentando-se sobre meu ventre. Desta vez ele não brincou em serviço e manteve-me preso ao chão pelo meu pescoço, entre suas mãos.

"É isso que você queria?" ele reprisou minha fala e seus olhos arderam de fúria. Não conseguia respirar e levei meus dedos aos dele, como garras ao redor de mim. "É assim que você gosta?"

Uma lágrima caíu no meu queixo.

Tentei pronunciar as sílabas de seu nome, em vão. A visão de seu rosto ganhou contornos borrados e minhas mãos deslizaram, fracas. Como numa alucinação, ouvia Aiolia chamando meu nome. Enfim, Shura urrou e acertou outro soco no meu rosto antes de se levantar, decepcionado. Busquei ar em longos arquejos, minha voz um mero estridor em meio a acessos de tosse.

Havia terminado.

Aiolia correu até mim aos prantos, mas tudo que vi foi Capricórnio deixando a arena e uma plateia de cavaleiros impressionados. Shura seria capaz de me matar, só não o fez porque meu irmão menor interveio. Apesar de sua famosa crueldade, ele jamais o faria tão indignamente sob o olhar de uma criança, quanto mais um membro de minha família. Ainda assim, ele me derrotou e me envergonhou diante de Aiolia. Recebi a atenção do meu irmão com gentileza, mas sem o encarar — não me sentia digno de ser seu mestre. Tinha feito tantas coisas erradas...

Pedi delicadamente que o garotinho não se preocupasse e que treinasse sozinho por hoje. Não dei mais satisfações e me recompus, decidido a seguir o espanhol.

Podia adivinhar o olhar misterioso de Saga sobre mim quando serpenteei através da multidão atrás do rastro de Capricórnio, entretanto, eu já estava arrasado demais para me preocupar com seu julgamento. Tudo que precisava era da redenção do único ser que eu enxergava.

Shura.

Encontrei-o no vestiário, desenfaixando as ataduras no pescoço com uma careta sutil de dor. Ele não se opôs à minha aproximação e nem esboçou resposta alguma quando me sentei ao seu lado no banco de madeira. Quieto, continuava a descortinar a pele sem olhar-me. Ele estava esfolado por inteiro, mas eram os vestígios de meu desacato em seu colo que me atentavam.

"Posso?", eu indiquei os ferimentos na nuca, meio sem jeito, mas consistente. Ele sabia o que eu queria e seu corpo se arrepiou como o de um gato arisco que pressente perigo. Contudo, terminou por dar as costas para mim em sinal de acesso, suas pernas grossas ladeando o banco.

Com a garganta presa, imitei sua posição no assento e retirei sua camiseta azul de treino. Havia na pele pálida que tanto me atrai marcas profundas de mordidas, hematomas e arranhões, os quais me provocavam reação dividida entre arrependimento e excitação. Ele gemeu assustado debaixo do meu toque, por mais leve que fosse, quando contornei suas feridas.

"Shura, algum dia você vai me perdoar por tudo?", perguntei com a voz partida. Pressenti que começaria a chorar a qualquer instante e tentei me manter firme.

Ele nada disse, apenas suspirou. Estávamos ambos trêmulos de emoções afloradas.

"Não precisa ser agora. Só me perdoe algum dia, está bem?", implorei, abraçando-o.

Ele tentou fugir do meu aperto, sem muita convicção, e me desesperei, aumentando a pressão ao redor de sua cintura. Cheio de saudades, aspirei seu perfume amadeirado. A pequena luta durou o tempo de eu distribuir beijos suaves sobre seus machucados, a textura da minha barba por fazer provocando-lhe mais prazer que dor. Shura estremeceu, rendido, e pude senti-lo soluçar.

"Você me bateu com muita força", ele chiou, afinal.

"Você também. Estamos quites." eu sorri sobre uma marca de mordida. Era verdade — meu corpo ardia até os ossos, moído de contusões. "Vamos para a minha casa? Eu vou cuidar destes seus ferimentos, como sempre faço..."

Ele se virou e encontrou minha face esperançosa. Seus olhos se tornaram vagamente piedosos ao alisar os esfolados em minha bochecha — obras dele. Beijei as pontas de seus dedos e ofereci-lhe minha mão.

Não fui perdoado, mas Shura aceitou meu convite.

Com nossos cosmos apagados, nos refugiamos na nona casa. Então, despimo-nos à procura de toda e qualquer mácula. Lambemos as feridas um do outro, consolamo-nos através de gestos tão carinhosos e que em nada lembravam a guerra que travamos na arena. Cuidei-lhe, inundado de esmero, mas não me atrevi a dizer as palavras proscritas. Não disse nada do que ele não queria ouvir, e, no entanto, o idolatrei de um jeito que não poderia significar qualquer outra coisa, senão o que ele renega.

Por fim, nós chegamos aos limites do tolerável e nos rendemos à atração de nossos corpos repletos de cicatrizes. Foi quando me entreguei de boa vontade ao seu domínio. Shura tinha fome, mas a dor em nossas carnes e almas obrigaram que tudo acontecesse de forma arrastada, cálida. Deliciosa.

Meu amado desmoronou após a consumação e concordou com um abraço acalentador, escondendo adoravelmente o rosto na curva do meu ombro. A felicidade é plena com seus braços quentes e firmes ao meu redor por pelo menos mais esta noite. Muito corado, ele se inclinou para beijar um pedido de desculpas no meu pescoço, onde vergões com o formato de seus dedos começavam a brotar.

Ele quase me matou na arena, mas eu não consigo culpá-lo, simplesmente não consigo — e isso é a prova do quão grande e doentio é meu amor por ele. Eu até permitiria que levasse minha vida, se essa fosse sua condição para finalmente aceitar tal amor.

Por favor, fique comigo, eu rogo a todas as divindades que conheço. Enquanto zelo por seu sono, tenho delírios de um apaixonado. Dou a pensar em coisas absurdas, como por exemplo — e se não fôssemos cavaleiros? E se nós pudéssemos nos assumir?

É com pavor e encantamento que compreendo: você se tornou a única invariável na minha vida. Assim sendo, estarei extinto no dia em que você não mais fizer parte dela.

Por favor, fique comigo.

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Em princípio, dei-me por morto e fui enterrar-me na minha casa, quando, na verdade, eu só queria fugir do mundo inteiro — principalmente de você. Contudo, mesmo isolado, me vi em cativeiro de pesadelos vívidos daquele dia e passei a delirar de desespero e cólera. As paredes do templo tingiram-se de vermelho e as superfícies espelhadas da casa partiram-se — eu nem suportava me refletir nelas, já que o trauma estava impresso em minha pele. Fiquei à beira de precisar de uma camisa de força e foi assim por dias que duraram uma eternidade sombria.

Então, devagar, me afoguei num rio de remorso. Arrependimento se mesclou à raiva e acrescentou ao vermelho um azul profundo, melancólico; passei a enxergar em roxo. Eu repugnava você, Aiolos, mas me detestava também. Era imundo ao meu próprio modo, tendo entregado-me e contribuído com a decadência de nós dois. Por mais que eu soubesse que talvez não existisse esperança para nós, comecei a reconhecer os pontos onde eu também havia errado — e percebi-me tão ou mais estúpido que você.

A única coisa que eu priorizava era a minha deusa, a quem havia me voltado numa espécie de devaneio místico. Rezava dia e noite para Atena e sentia que seu poder me curava aos poucos e conduzia-me de volta para a missão da vida santa que ela me concedera e que eu havia tornado miserável.

Por fim, concluí que viver como eremita não era uma opção viável, e que não havia outra saída além de enfrentá-lo mais uma vez. Estava convicto de que só o assassinato de um de nós pelas mãos do outro poderia resolver nosso problema e precipitadamente decidi matá-lo. O engraçado é como a questão de quanto isso afetaria minha sanidade parecia ridiculamente pequena ali — coisas de uma mente cega de revolta.

Assim, em alguns dias, o sofrimento se transmutou em extremismo religioso. Estava pronto a tornar-me outra vez o guerreiro mais fiel a Atena e eliminar o cavaleiro impuro que tentara me converter ao pecado. Porém, quando saí de meu casulo de ódio, revelei-me um monstro. Toda a podridão que gestei n'alma estava prestes a romper-me o peito, como se às vésperas de parir um demônio, fruto de sua violência. Pois desci à arena com o cosmo em chamas para esmagá-lo...mas titubeei ao vê-lo treinando sob a luz da aurora, suas asas douradas como as de um anjo de verdade. Quem teria coragem de matar um anjo?

Assombrado com minha covardia, apenas o evitei e fui treinar só. Mas você nunca me deixaria em paz, não é mesmo? Veio provocar e instigar-me a uma revanche...foi quando o fantasma que habitava meu coração se viu livre para causar todos os estragos que desejava.

Eu até tentei matá-lo, juro que eu tentei me forçar a atravessar a pele frágil do seu pescoço com a Excalibur, todavia, não fui capaz. E eu sinto muito alívio por isso. Toda a minha fachada de cavaleiro obstinado fragmentou-se quando você se ofereceu em sacrifício. Você se puniria pelos seus erros comigo, ficou claro que sofria tanto quanto eu em decorrência deles. Eu deveria sentir ojeriza da sua infidelidade à Atena, mas não sou também um infiel?

Aiolos, eu jamais conseguiria tirar-lhe a vida.

Portanto, mereço que você tire a minha, mas creio que também não seria capaz de fazê-lo. Veja, que tragédia do destino! Não merecemos ser chamados de elite do Santuário, concorda? Resta-nos sermos obrigados a viver a uma escadaria de distância um do outro até que nosso propósito com Atena se cumpra. Talvez essa distância possa ser ainda mais curta do que uma escadaria, se você continuar me olhando desse jeito, parado na porta do vestiário... Sou ridículo.

O que de pior você poderia ter me causado para que eu finalmente reagisse com a dignidade esperada de mim? Para que toda minha fome de vingança não esfriasse com apenas um olhar arrependido seu? O que poderia ser pior do que você me fez? Minha leniência me assusta, estou completamente rendido. Completamente rendido.

O fato de você me tratar como uma princesa não ajuda muito. Com alguns carinhos e pedidos de perdão, estou de volta à Sagitário, no leito onde conheci prazer e dor. Você se aproxima demais de mim, então me esquivo na cama e o encaro com desconfiança, mas tudo que você faz é plantar um beijo sobre um corte no meu supercílio.

Prazer e dor. Há um sentimento pesado crescendo em mim que não sabe dissociar uma coisa da outra e que me mantém refém dos seus caprichos. É assim que você se sente também? Porque agora nossas atitudes são tão parecidas que eu posso até acreditar que estamos em sintonia pela primeira vez desde que iniciamos essa loucura.

Aiolos, que feitiço é esse que você colocou em mim, que simplesmente não consigo deixá-lo?

Notas finais