Cá entre nós
2 Barganha
Notas iniciais
I — Barganha
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Deito-me de costas e fito o teto, tentando normalizar a respiração. Aconteceu de novo e isso já é muito mais do que eu poderia prever. Lanço um olhar furtivo a Shura. Desta vez foi ele quem se entregou a mim e eu, cãozinho apaixonado que sou, só pude aceitar acolhê-lo em meus braços.
Quero dizer alguma coisa — tentar me explicar, fazer com que ele se explique -, mas vejo seus olhos fechados no rosto suado e seu tórax tremulando nos últimos espasmos de prazer... E decido adiar minha verborragia.
Estou outra vez no paraíso, é melhor aproveitar cada segundo.
Por ora, prefiro apreciá-lo com minhas mãos. Acaricio seu peito forte numa investida para trazê-lo de volta à Terra e — por que não? — também numa tentativa de obter algum romance. Shura abre os olhos de súbito — aqueles olhos oblíquos e astutos — e me encara surpreso. Percebo o quanto fui inadequado e recolho minha mão. Então, ele se vira de costas para mim e sussurra depressa um "Estou cansado, preciso dormir um pouco. Boa noite".
Eu antecipo que ele fingirá dormir e depois irá embora na calada da noite, como da outra vez. Irritado, percebo que isso me machuca de um modo muito injusto.
Faz duas semanas e um dia que eu me entreguei a ele nesta mesma cama, pela primeira vez. Em nenhum destes quinze dias eu consegui focar em outra coisa que não nas memórias daquela noite — suas mãos, seu gosto, seu calor. Não acerto mais a pontaria das minhas flechas e mal me alimento.
Depois da noite de Dioniso, pensar no espanhol consumiu minha existência nos primeiros dois dias, nos quais ele me evitou integralmente. Até aí, nenhuma surpresa. Mas, no terceiro dia, comecei a ficar ainda mais preocupado ao vê-lo sentar-se no extremo oposto da nossa mesa no refeitório para tomar café da manhã completamente só. Shura era um rapaz maduro, sensato e decidido; e eu acreditava que em algum momento ele viria ter comigo para acertar as coisas entre nós — para bem ou para mal. Eu não contava com o gelo que estava recebendo por mais de 48 horas. Nunca havia sido desse jeito, nem nas nossas piores discussões. Shura não era birrento. Suas atitudes denotavam a gravidade da situação.
Eu o fitei continuamente durante o desjejum, tentando chamar sua atenção, e ele fisgou a linha. Quando nossos olhares se encontraram, senti uma descarga de eletricidade passear por meu corpo e até suspendi a respiração. O maxilar dele parou de mastigar nos segundos em que seus olhos me perfuraram, algo mais sérios do que o normal, e logo voltou a mover-se assim que ele decidiu retornar ao seu omelete, que liquidou em três grandes garfadas para se levantar apressadamente. Desesperei-me com a possibilidade cada vez maior da temporada de esquivas não ter fim.
Então, ele veio à minha casa ao entardecer.
"Aiolos, precisamos conversar", afirmou e eu apenas assenti, convidando-o a entrar. Sua recusa desconfiada me magoou instantaneamente: "pode ser na varanda?."
Contornamos o templo de Sagitário até os fundos, onde fica meu jardim, e sentamos sobre o banco de pedra no qual costumávamos aproveitar algumas tardes de folga com longas conversas. O ambiente familiar deveria me acalmar, mas me trouxe uma nostalgia aguda. Aquele lugar estava marcado pela presença de meu melhor amigo, e eu jurei tolamente para mim mesmo que nunca mais me sentaria ali se nos separássemos.
Shura olhava para algum ponto no horizonte, suas sobrancelhas elegantes franzidas, como se o pôr-do-sol agredisse seu rosto. "Eu não vim aqui para tentar diminuir meus erros. Sei da falta que cometi", ele começou, solene.
"Shura, me desculpe, a culpa é toda..." eu já fui explodindo em súplicas, as quais ele calou com sua mão espalmada. Nada poderia ter me preparado para o seu ponto de vista:
"Escute primeiro, eu...eu deveria ter tido essa conversa com você antes, mas fui um covarde e preferi não me envolver com as suas paixões. Sei que você andava com essa curiosidade de deitar-se com alguém do mesmo sexo há um bom tempo, Aiolos, e já vinha notando mudanças no jeito como você me tratava...mas não tive coragem de colocar as coisas em pratos limpos. Veja, eu não vim aqui para brigar ou condená-lo, afinal, tive minha participação no que aconteceu. Só quero deixar claro que não se repetirá, certo? Espero que você compreenda. Agora vamos esquecer tudo isso e voltar à nossa vida normal."
Observei sua postura impassível com incredulidade. Shura interpretava como um fetiche o amor que eu tentava a todo custo controlar e, já que eu havia saciado meus apetites, acreditava que poderíamos ser adultos e seguir como se nada houvesse se passado.
Como meu melhor amigo, ele conhecia muitos detalhes a respeito da minha sexualidade, inclusive minhas fantasias; eu só não esperava que ele me julgasse tão mal por elas. Eu lhe segredara algumas vezes, em indiretas muito diretas, que cultivava desejo de experimentar os prazeres entre homens. Contudo, nunca havia especificado um alvo ou muito menos me inclinado a flertar com qualquer rapaz, exceto o espanhol.
Quebrar o nariz dele naquele momento seria uma excelente resposta, mas minha decepção me manteve preso ao banco, desanimado demais até para revidar.
"Shura, você é cego?", derramei, um pouco ríspido. "Acha mesmo que eu treparia com qualquer homem só por curiosidade, como você diz?"
Capricórnio me olhou confuso e sem saber aonde eu queria chegar. E eu estava a um fio de expor meus sentimentos absurdos por aquele tolo, dos quais ele nem era merecedor! Contive minhas lágrimas ofendidas e minhas confissões, apenas me levantei e me distanciei o suficiente para esconder meus olhos marejados.
"Se é o que o está pensando, não acho que você seja promíscuo. Compreendo que queria uma experiência segura", ele tentou remendar.
Inspirei fundo e chutei um graveto no chão com raiva. Quase não acreditei no que faria, no entanto, estava convicto de que era a conduta mais certa. "Ah, Shura, me poupe! Aceito suas desculpas, se é isso que você quer, mas fique longe de mim por um tempo."
"Mais tempo?", ele quase engasgou.
Encarei-o com mágoa. "Até agora esse foi o seu tempo para digerir o que aconteceu. Eu ainda preciso do meu."
Doze dias. Esse tinha sido todo o meu tempo necessário para ceder novamente.
Shura retornou à minha porta no final da folga de domingo com uma garrafa de vinho em mãos e eu o recebi. Tinha notado seus olhares insistentes me perseguindo durante toda a semana e lutado contra o impulso de devolvê-los. Foram dias longos e duros, cheios mau humor, desatenção e tristeza. Com certeza até o guarda mais idiota do Santuário deve ter percebido minha frustração amorosa.
Sim, por mais humilhado que estivesse, eu ainda o amava.
Ele veio tímido, pedindo companhia, e se forçou a beber em silêncio comigo. Tentei ser franco sobre aquela visita; estava decidido a não permitir que o espanhol me ferisse outra vez: "Shura, eu ainda não sei se estou pronto para ser seu amigo de novo."
"É por causa do que eu disse? Ou por causa daquela noite?", tão direto e displiscente que fazia ter dúvidas se aquele era mesmo Shura de Capricórnio.
A resposta ficou presa na garganta. Ele deu um gole generoso antes de continuar:
"Te conhecendo como conheço, acho que foi a noite."
Soquei o braço da poltrona onde eu estava antes de me erguer e marchar de um lado para o outro, perdido. "Ótimo, você veio até aqui para me ofender ainda mais?"
"Por favor, Aiolos, precisamos nos entender. Meu amigo, eu sinto tanto a sua falta!" os belos olhos dele estavam vazios e sua voz quase se partiu. Eu teria me rendido ali mesmo, se ele não tivesse entrado logo em seguida numa discussão besta sobre o código de ética do Santuário. Sobre como dois cavaleiros não deveriam nutrir um pelo outro sentimentos maiores que a devoção por Atena. Sobre como era mal visto um cavaleiro que se deitava com outro.
"Eu sei que não podemos ficar juntos! Mas não estamos juntos, ou estamos? Foi só uma noite!", quase gritei, já com vontade de quebrar a garrafa de vinho na cabeça dura dele. Eu tinha um ponto. Por mais que eu já fosse um herege pelo fato de amar Shura, por mais que para mim possuísse um significado muito maior, o que nós tivemos não passou de um encontro regado a álcool.
Eu estava fora de mim, mas também Capricórnio se via alterado, era visível nas suas bochechas coradas.
"Por que está nervoso desse jeito? Foi tão bom assim para você?", ele acertou em cheio meu ponto fraco.
Passei as mãos em meus cabelos durante uma risada meio descrente, meio ansiosa. Que arrogante! Para quê tantas alfinetadas? Se queria saber mesmo, havia sido ótimo. Não, perfeito! Mas não disse nada daquilo, apenas fiquei mudo enquanto procurava um jeito de me desvencilhar de seus ataques.
"Você tem medo de querer de novo, não é? É por isso que está me evitando", ele resmungou. A verdade deveria estar escrita na minha testa.
Então, Shura veio em minha direção, derrubando a garrafa vazia na mesa de centro, e me segurou pelos ombros. Senti fagulhas onde ele me tocava e seu perfume incendiou meus instintos; meu desejo por ele era quase primal, irrefreável e vergonhoso. O pior é que ele me adivinhava como num jogo de palavras-cruzadas facílimo, totalmente ciente do fascínio que exercia sobre mim. Ele me analisou por segundos infinitos com um olhar tão perdido como eu nunca vira, até que tomou uma atitude. Seu rosto era triste e quase resignado quando pediu que eu não me afastasse dele. "É meu melhor amigo, Aiolos, não suporto ficar longe de você. Se esse é o problema, então eu faço o que você quiser, até me deitar com você! Só não me deixe e nem me peça compromisso", ele implorou, antes que eu me rendesse à ânsia de beijá-lo.
E foi assim que voltamos ao ponto de partida.
Meu corpo está satisfeito, mas minha alma ferve de inquietude. Ele assumiu que também não vive sem mim...todavia, não se sente do mesmo jeito que eu, isso é óbvio. Ofereceu-me seu corpo, apenas uma parte do todo que eu desejo, enquanto o resto continua completamente inacessível.
O que houve indica um começo — um recomeço equivocado. Ele descartou qualquer compromisso, mas eu me conheço, sua carne não será suficiente. Sei que ele teme ceder a outros amores além de Atena, devoto como é; se eu quiser que me corresponda, terei que dobrá-lo com muita paciência, ainda mais do que lancei mão até agora.
Contudo...E se eu falhar em conquistá-lo? Posso acabar me perdendo nesse acidentado caminho que agora se abre diante de nós.
Suspirando, viro-me de costas para ele também e puxo o lençol sobre meu ombro, como se estivesse vestindo a capa de minha armadura para uma batalha.
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Recolho-me na beirada da cama com meu prazer e minha vergonha. Eu nunca havia feito nada do tipo e nem em delírio teria me imaginado entregando-me a um homem. Que dirá então cogitar que este homem fosse você, Aiolos?
Estou tão perdido e não posso sequer pedir conselho, porque foi meu único amigo quem virou minha vida do avesso. Estou tonto pelo álcool que me ajudou a consentir, mas isso não abranda meu senso de moral.
A frase que meu mestre dizia sobre como persistir no erro é prova de tolice emerge no meio do remorso. Sou um tolo consciente.
O que nós temos é sim um envolvimento entre dois cavaleiros: brigamos feito namorados e agora fizemos as pazes na cama.
O que você quer de mim? Por que me trouxe a desonra? Você era meu amigo e amigos não arruínam uns aos outros, nem os obrigam a abdicar de suas crenças. Como eu posso adorar a deusa e traí-la ao mesmo tempo? Se para você as tradições não tem significado algum, para mim elas regem e dignificam a minha existência.
Eu não quero feri-lo com expectativas desonestas, mas você me pede coisas impossíveis, Aiolos. Todavia, eu não vou conseguir me negar aos seus caprichos se isso significa eliminar você da minha vida. Se é tudo ou nada, eu estou pronto para jogar, mas espero que entenda que não temos saída e não haverá vencedores — restaremos perdedores com nossa perdição. A nobreza do nossa amizade foi desvirtuada e não há como voltar atrás. Eu fui abatido em minha essência, jamais serei o cavaleiro soberbo de antes. E você vai se cansar, uma hora ou outra.
O que dói mais é que fui eu quem pedi por isso, pedi para que não me deixasse, mesmo que para isso eu tivesse que ceder à chantagem. Você não voltou para mim durante todos estes dias e eu tive que tomar uma decisão. Aflito e sem outra alternativa, usei minha única moeda de troca.
Aiolos, meu amigo, minha existência é um bocado mais vazia sem você e sabemos como as coisas por aqui já são difíceis. Não posso escolher ficar somente com meus deveres, caso contrário vou enlouquecer. Eu preciso de você, da sua companhia leve, do seu bom senso, do seu sorriso.
Que antes eram incondicionais.
Tantas coisas me foram roubadas de uma só vez, Aiolos. Se eu pudesse escolher, escolheria, de algum jeito, não tê-lo cativado. Todavia, agora olho para trás e não consigo ver a transição entre o Aiolos que era meu irmão e o Aiolos que passou a me cobiçar.
Não tenho coragem de me virar e encará-lo, temo ultrapassar ainda mais limites. Não estou pronto, Aiolos, e acho que nunca estarei; não recebi nenhum treino para isso. Fui ensinado a abominar o tipo de coisa que fizemos, e dissociar-me de minha educação é como tirar você de mim — é insustentável.
"Isso é errado", eu quase lhe suplico, como numa oração. Não obtenho resposta. Então, me levanto procurando separar minhas roupas emaranhadas às suas, me visto e fujo outra vez.
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