By her side
1 One Short
Estava escuro, as luzes da cidade não eram o suficiente. Estava frio e a chuva castigava a todos que estavam na rua àquela hora, inclusive a mim. Corria por ruas sem me importar com o que estava ao meu redor, frequentemente empurrava as pessoas na rua sem me importar se me xingariam ou me olhariam feio. As placas nada mais eram que borrões, os veículos buzinavam quando eu passava, alguns motoristas até gritavam, mas eu não os ouvia. A única coisa que me importava era chegar ao meu destino.
Meu sangue corria como nunca, minhas pernas doíam, minhas lágrimas escorriam frias, mas não me importava com elas, meus pulmões imploravam por ar, minha mente estava atordoada, mas nada se comparava ao meu coração que, embora descompassado, parecia ter se enfiado em um emaranhado de arame farpado. Ele sangrava como nunca sangrara antes, mas não podia parar.
Cheguei ao meu destino e me joguei no balcão. Respirava com dificuldade, parecia que não conhecia o ar há anos e ele era mais que bem vindo aos meus pulmões. As palavras saíam de minha boca com dificuldade, mas consegui pronunciá-las.
- Anna... Anna Writte... Ela...
- Acalme-se, meu rapaz. – Escutei a recepcionista dizer. Ela era uma senhora, não devia ter menos de 70 anos. Seu cabelo era tingido de loiro, dava para ver, pois as raízes estavam desbotadas. Foi a única coisa que reparei. – Você está muito afobado. Coitadinho, está encharcado e tremendo de frio. Quer que eu ligue para os seus pais?
- Não! Eu quero vê-la! Por favor, tem que me deixar vê-la! Eu preciso vê-la! Eu preciso...
Voltei a chorar. Chorava com força a ponto de escorregar para o chão e me encolher contra o balcão. Não me lembro de quando começou a escurecer e muito menos de quando adormeci, tudo o que percebi era que já me encontrava mergulhado nas trevas. E pensar que hoje de manhã eu a tinha visto tão bem!
Tudo começou nesta manhã. Era uma manhã como qualquer outra, um dia de aula como qualquer outro. Lembro-me de olhar pela janela do meu quarto, Anna estava no portão da minha casa trajando o uniforme escolar com o cabelo castanho bem escovado e com um belo sorriso a enfeitar o rosto. Ela me esperava como sempre fizera para ir à escola, mesmo quando eu dizia que não ia e faltava a escola e esse era um desses dias.
- Anda, James! Vamos nos atrasar e você ainda está de pijama.
- Mas a escola é chata, eu prefiro ficar aqui.
- Mas hoje tem aula do professor Woolf e você sabe que precisa tirar boas notas na matéria dele.
- Ele me odeia, tenho certeza de que ele me dá notas baixas por conta disso. – Ela riu, seu riso era tão doce quanto uma brisa de primavera.
- Mas admita que a culpa é sua. Você vive dormindo na aula dele.
- O que eu posso fazer se literatura dá sono?
Escutei novamente seu riso e depois continuamos até ela perceber que eu não ia de jeito nenhum e ir embora. Eu teria dado tudo para voltar atrás e ter ido com ela, mas mesmo assim eu não poderia fazer nada, então seria melhor poder voltar atrás e convencê-la a não ir, nem que eu tivesse que trancá-la na minha casa.
Era um pouco mais de duas da tarde, eu estava em casa vendo televisão. Não me lembro bem do programa, só me lembro da notícia que o interrompeu. Um idiota sem nada na cabeça entrou na escola e começou a atirar pra todo lado. A polícia foi chamada junto com a ambulância e a imprensa fazia a cobertura. Estagnei ao ver a notícia, era a minha escola que tinha sido alvo desse massacre, eram meus colegas e meus professores que estavam na televisão. Vi alguns sendo retirados em macas encobertos por um lençol branco. Não falavam se estavam vivos ou mortos, essa notícia era a primeira, então não tinha como ter certeza. Mais alguns barulhos foram ouvidos. Continuou assim até encontrarem o corpo do atirador com um tiro na cabeça. Esse infeliz merecia destino pior.
Não esperei os nomes das vítimas serem anunciados. Corri para o quarto, peguei a primeira jaqueta que encontrei e o primeiro par de tênis à vista, voltei a passar pela sala e saí de casa. O céu começava a escurecer e grossas gotas de chuva começaram a cair. O hospital ficava a dois ônibus de casa, mas não os peguei, resolvi correr até ele com a mente atordoada e o coração apertado.
Acordei em um sofa com uma grossa manta. As paredes brancas me davam arrepios, mas fiquei aliviado e ao mesmo tempo angustiado por não estar em um quarto, pelo contrário, estava em uma sala de espera. Devo me lembrar de agradecer a recepcionista pela ajuda, mas o mais importante é encontrar Anna, saber como ela está ou se ela está aqui e não no necrotério. Não fiquei para saber se ela ficou entre os mortos ou os feridos, mas creio que devem ter sido trazidos ao hospital antes de seguirem para o necrotério.
Olhei ao redor. Havia outras pessoas no recinto, muitas estavam apreensivas, outras mais tranquilas, outras conversando com os médicos. Com certeza eram parentes de pacientes, mas não vi nenhum pai ou mãe de aluno, pelo menos não que tenha visto na reunião de pais e mestres do mês passado. Vi um médico passar e fui atrás dele.
- Com licença, doutor. Sabe onde está Anna Writte e o que aconteceu com ela? – Perguntei um tanto apreensivo. – Ela estava na escola na hora do massacre.
- Você é parente dela?
- Na verdade eu sou um amigo dela. Somos muito próximos.
- Sinto muito, mas eu não posso dizer, garoto.
- Por favor, doutor! Eu tenho que saber como ela está! Ela está bem? Está ferida? Está... – Engoli em seco enquanto sentia o meu sangue gelar. – Morta?
- Eu sinto...
- Se quiser eu posso entrar em contato com o pai dela, mas por favor, deixe-me vê-la! Por favor...
Senti meu rosto umedecer novamente. As lágrimas tinham voltado a escorrer, percorrendo toda a extensão das bochechas e terminando no queixo para enfim cair pelo abismo que o separava do chão. O médico deu um suspiro cansado e voltou a me fitar.
- Está bem, eu irei te levar até ela.
- Muito obrigado, doutor!
- Mas preciso que pare de chorar. E também preciso do telefone dos pais dela.
- Darei todos os contatos do pai.
Os pais de Anna são divorciados, a mãe mora em outra cidade mais ao sul e é o pai que possui a guarda dela. Não quero imaginar a cara do Sr Writte quando ouvir as notícias da filha. O médico me deu papel e caneta e rapidamente escrevi o número do celular, do fixo e do trabalho do Sr Writte.
Segui o médico por uma infinidade de corredores brancos. Tudo que eu desejava era não estar tomando o caminho do necrotério do hospital. Quando passamos pela porta da UTI senti um grande aperto no coração, mas ao mesmo tempo senti alívio. Pode parecer estranho por ser contraditório, ainda mais por se tratar da UTI, mas pelo menos não era o necrotério. Paramos em frente a um quarto cuja cortina estava aberta. Anna estava lá deitada na cama, com uma camisola de hospital, ataduras envolvendo a região do peito e uma agulha injetada na veia ligada a uma bolsa de soro.
- Eu posso entrar?
Ele me deu espaço e abriu a porta. Caminhei até o lado da cama, me ajoelhei e peguei a mão dela.
- Como ela está?
- A condição dela é instável. Felizmente a bala atingiu a costela, mas receio que tenha perdido muito sangue antes de chegar aqui e um pouco mais na cirurgia para remover a bala. Ela precisa de uma transfusão de sangue. A boa notícia é que não respira com ajuda de aparelhos.
- Eu posso doar sangue.
- Não, você não pode e não será a sua teimosia que vai fazê-lo doar. Vamos achar um doador, mas antes preciso contatar o responsável dela.
O médico saiu do quarto me deixando sozinho. Fiquei ao lado dela o tempo inteiro. Estava feliz por ela não estar morta, mas estava preocupado porque ela não acordava. Não sei quanto tempo se passou, só sei que não deixei de observá-la e muito menos de soltar a mão dela. Só parei de fitá-la quando a porta se abriu bruscamente.
- Anna! Minha filha!
O senhor Writte era um homem corpulento e barrigudo, tinha o nariz achatado e a cabeça calva. Ele estava desesperado, assim como eu estive quando vi a notícia. O Sr Writte correu até o leito e se apoiou nele.
- Ela está...?
- Viva. – Respondi abaixando os olhos para a mão dela entre as minhas. – Mas disseram que ela precisa de uma transfusão de sangue.
- Isso vai ser complicado. Anna não é do mesmo tipo sanguíneo que eu ou a mãe.
- Eu disse que poderia doar sangue.
- Ora essa, James, seja tolo! Agradeço por sua bondade, garoto, de coração, mas você ainda é um menino e não pode doar sangue. Mesmo que pudesse doar, você não sabe se seus tipos sanguíneos são compatíveis.
- Mas eu poderia saber.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Um silêncio constrangedor que só foi quebrado quando o Sr Writte se pronunciou.
- Como foi o massacre? Você estava lá, não estava?
- Na verdade não estava. Eu faltei hoje, mas Sr Writte, se eu soubesse o que estaria por vir, eu juro que não teria deixado sua filha ir.
- A culpa não é sua, garoto. A culpa é do desgraçado que invadiu a escola! Onde já se viu isso?! Entrar em escolas e atirar em todos como se fossem patos?! Dá pra acreditar nesse mundo que vivemos?!
Não prestei atenção nas outras reclamações do Sr Writte, ele estava tão indignado quanto eu e outros pais. O médico de antes entrou no quarto com uma bolsa de sangue.
- Tive sorte de encontrar uma bolsa de O+ no estoque.
- Mas Anna é B+! – Reclamou o Sr Writte.
- Eu sei senhor, mas graças a esse massacre, nosso estoque de sangue foi esvaziado. Já tínhamos essa carência antes e depois de hoje, achar uma bolsa com o sangue correto é difícil. O tipo O é o mais procurado.
- Como um hospital pode estar carente de sangue? – Perguntei irritado.
- Porque as pessoas não doam sangue com a frequência que gostaríamos, garoto. As pessoas só pensam em doar quando um parente seu está deitado em um leito como esse precisando do líquido vital.
- Então tragam a droga da agulha que eu doarei o meu!
- Creio que o senhor saiba que isto não é possível, Sr Writte. – O médico dizia enquanto realizava o procedimento em Anna e abria uma agulha descartável. – O seu sangue é AB-, o da sua ex-esposa era O+ e o da sua filha é B+.
- E o que isso tem a ver? – Dessa vez quem fez a pergunta fui eu.
- Meu jovem, sangue não é algo que você pode doar a qualquer um. – Ele pendurou a bolsa e colocou a agulha no braço de Anna. – Pessoas que possuem o tipo A e o tipo B não podem doar sangue uma para outra porque o organismo rejeita e ao invés de salvar, o sangue pode matar. Pessoas do tipo AB só podem doar para pessoas do tipo AB e pessoas do tipo O podem doar para todos os outros tipos, mas mesmo assim é preciso cuidado com este tipo. Para receber sangue é só fazer o caminho inverso: pessoas do tipo O só podem receber do tipo O, as dos tipos A e B não podem receber uma da outra e as do tipo AB podem receber de todos os outros. E ainda não falei do fator Rh.
- O que é isso?
- Pelo visto vejo que andou faltando às aulas de biologia. – Eu fiquei irritado, mas era verdade, não gostava dessa aula. – O fator Rh é o que determina se nosso sangue será positivo ou negativo. Pessoas com o Rh negativo podem doar para qualquer um, mas só podem receber de outra com Rh negativo enquanto pessoas com Rh positivo podem receber de todas, mas só podem doar para as que possuem Rh positivo. Pelo visto o melhor é desenhar.
Após terminar o procedimento e a explicação, o médico pegou papel e caneta e começou a rabiscar. No final, ele me deu o papel que continha toda a explicação que mostrava o grau de dificuldade da doação e da recepção de forma simples.
Doação:
O- > O+ > A/B- > A/B+ > AB- > AB+
Recepção:
O- < O+ < A/B- < A/B+ < AB- < AB+
- Eu não vim até aqui para saber biologia.
- Se pretende cuidar de sua amiga, é preciso saber. Pelo menos para verificar se os enfermeiros e residentes estão trocando as bolsas de sangue usadas pelas corretas.
Os dias passaram e Anna continuava no hospital. Ela ainda não tinha acordado, mas eu ia visitá-la todos os dias e ficava no quarto dela desde o começo do horário de visitação até o término dele, só saía quando as enfermeiras tinham que dar banho nela. A comoção com o massacre foi tanta que a comunidade se mobilizou. Pais de alunos fizeram campanhas de doação de sangue, então Anna e os outros sobreviventes que precisavam de transfusão tiveram suas bolsas de sangue, mas segui o conselho do médico e verifiquei as bolsas durante todos os dias e durante as trocas para ver se não colocavam nenhuma errada. Uma vez tive que repreender uma enfermeira que tentou dar uma bolsa de sangue A- pra ela.
Tinham-se passado 11 dias desde o massacre quando ela acordou. Eu ainda segurava sua mão entre as minhas. Ela mal me olhou e me abraçou. A senti tremer entre meus braços e chorar.
- James, que bom que está aqui! Eu tive tanto medo...
- Está tudo bem agora. Você está bem. Está salva.
- Ele veio do nada... Eu achei que ia morrer...
- Anna, está tudo bem. – Livrei-me do abraço e segurei uma de suas mãos enquanto secava suas lágrimas co a outra. – Ele não pode mais te fazer mal. Acabou. Você está salva agora.
- Eu estava com tanto medo...
- Eu também tive. – Me inclinei e beijei sua testa. – Meu medo era te perder.
- James...
- Eu te amo, Anna. – Desci de sua testa e beijei seus lábios em um beijo terno e suave, que foi correspondido, mas logo eu o quebrei. – E estarei ao seu lado, como estive durante todos esses dias em que esteve desacordada neste hospital.
Ela sorriu, era aquele sorriso que eu amava. Colamos as nossas testas, entrelaçamos nossas mãos e iniciamos outro beijo. Ela estava bem e eu estava ao seu lado de prontidão para tudo que pudesse acontecer desse momento em diante, era isso que importava.
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