Butterfly Efect

2 Capítulo 1 - 2034


Notas iniciais
Capitulo introdutório da história. Espero que seja o que vocês estavam esperando e que tenha valido a espera. Obrigada pelos comentários! Até o próximo capitulo.

Capitulo I

2034

“(...) Eu sempre achei que era vivo/ Parafuso e fluído em lugar de articulação/ Até achava que aqui batia um coração/ Nada é orgânico, é tudo programado/ E eu achando que tinha me libertado.” – Admirável Chip Novo, Pitty.



Estamos em 2034.

Café e chocolate são substancias ilegais e há câmeras em todos os lugares habitados de nosso mundo. O governo universal finalmente é uma realidade; somos regidos por um único e poderoso sistema. O homem mais poderoso do mundo se chama Celsius e nós nunca vimos o seu rosto. Mas apesar dos pesares, nossa tecnologia beira ao surrealismo. Estamos conscientes de que não somos os precursores dela, no entanto fomos únicos a utilizá-la de modo inteligente.

Antes de nós houve Os Esquecidos, ninguém realmente sabe para onde eles foram ou se ainda existem. Embora não aceitemos o último fato, não descartamos a possibilidade. Os Esquecidos deixaram suas marcas para trás.

Estamos no mundo da repreensão.

Tudo o que se veste, ouve, come, faz e sente é fruto de uma disposição do governo. Celsius sempre sabe onde você está e, consequentemente, o que está fazendo. Bem, na maioria das vezes, ao menos. Somos seres frios. A nova definição de humano é um sinônimo de perfeito. Sentimentos são perca de tempo. Amar é cair em desgraça. Por isso evita-se como se evita uma praga. Apesar do conhecimento que se tem sobre a natureza maligna do amor, o sexo é valido. A reprodução está em alta como nunca antes esteve. Somos um povo mínimo, a ordem do dia é aumentar os números. Gostar de alguém do mesmo sexo que o seu em 2034 é ser uma pobre vítima do Complexo de Eros, uma das doenças mais letais do nosso tempo.

Sou apenas um garoto comum em um mundo incomum. Um pouco propenso a emoção, ligeiramente errático para ser perfeito. Cresci em um orfanato, o melhor lugar para se crescer hoje em dia. Acabei de começar para a faculdade de Medicina Experimental. Eu gosto muito de música, talvez seja o meu único pecado realmente.

Uma vez por mês a maior banda de rock de todos os tempos, a Asleep, faz um show secreto no Hall dos Esquecidos. Ninguém que não queira estar ali vai ao show desses garotos. Eles são um grupo de jovens secreto que faz música para outros grupos de jovens secretos. Suas músicas poderiam ser consideradas perigosas se expostas ao mundo de 2034, mas ninguém nunca vazou nenhuma delas.

Meu nome é Dave Senna, tenho 19 anos. Antes da noite passada, eu não teria nada de realmente interessante para contar. Mas então fui a um show secreto em um lugar onde não há pessoas a quem se possa reconhecer. Somos todos fantasmas ali.

Acabei salvando o maior astro de rock dos últimos tempos.

Em 2034, se essa informação caísse em ouvidos errados, eu estaria morto em menos de 2 segundos.


Archer estava deitado na cama de um hospital localizado no centro da cidade, só que, ao contrário do que se possa pensar, ele não estava abatido. Só parecia irritado. Mas em compensação, ele sempre parecia irritado. Bem, e eu? Eu estou na sala a frente da dele. Meu braço está enfeitado com um curativo que me parece enorme e há um copo de vitamina meio bebido na mesinha de cabeceira ao meu lado. Acabei de salvar o cara que canta em meus sonhos. Se você alguma vez já fez isso, sabe como me sinto. A notícia está se espalhando por todos os arquivos nocivos espalhados pela área escura na net. As únicas coisas que eles não conseguiram foi minha identidade ou uma foto minha.

HOMEM NÃO RECONHECIDO SALVA ASTRO DA BANDA ASLEEP

“Na última segunda-feira de show da mais famosa banda de rock do século, o vocalista e guitarrista, Archer, foi ferido por uma bala vinda de nenhum lugar em especial. Uma onda de tristeza abateu-se sobre o Hall dos Esquecidos naquela noite. Isso se transformaria em desespero se não fosse por um jovem desconhecido que doou sangue para Archer, consequentemente, salvando sua vida. Bem, parece que os anjos realmente existem.”


Era uma matéria assinada pelo jornalista John Dallas. O cara costumava ser muito polêmico, mas eu gostava dele e, aparentemente, ele gostava da Asleep. Difícil mesmo era não gostar da banda. Eles eram proibidos, talentosos e sedutores. Tudo que era atrativo para qualquer pessoa normal.

Levantei-me um pouco sobre meus pés erguidos para tentar descobrir mais alguma coisa, bem a tempo de ver os pais dele caminhar em direção ao meu quarto. Franzi a testa e me sentei novamente em minha cama fingindo estar entretido com os relevos sóbrios em meus tênis azuis. A mãe dele empurrou a porta transparente com um gesto elegante de suas mãos, o marido vindo logo atrás. Quando me olhou, ela sorriu docemente. – Olhe só o nosso herói!

A mãe de Archer era uma linda mulher, jovem o suficiente para parecer atraente até para mim que era um “pirralho” em comparação á ela. Tinha olhos azuis claros como o céu, cabelos lisos que escorriam por suas costas como água dourada. Ela tinha altura mediana, mas sobre seus saltos chegava um pouco acima dos ombros de seu marido. Vestia um vestido de verão de cor escura que realçava sua pele clara, o corpo esguio mostrava um claro esforço para estar em forma, como parecia ser um costume dos que nasceram neste século. Já seu pai era um homem taciturno, exalava um ar de poder natural. Tinha olhos escuros e cabelos grisalhos, mas era tão atraente quanto a sua esposa. Enquanto a mãe de Archer era comunicativa inerentemente, seu pai combinava mais com o silêncio.

– Só fiz o meu dever como cidadão. – respondi.

Perguntei-me naquele momento se seus pais sabiam sobre a Asleep, ou se a história que lhes fora contada para justificar a estadia de Archer no hospital partia de uma mentira. Por via das dúvidas escolhi minhas palavras muito cuidadosamente.

– Ah! — ela suspirou juntando as mãos finas de unhas bem feitas. – Nosso herói é do tipo humilde. Uma característica charmosa em um rapaz igualmente charmoso.

– Você vai deixá-lo mais vermelho do que já está, Iris. – a voz masculina interrompeu meu embaraço fazendo-me agradecê-lo mentalmente. Em seguida, ele trancou seus olhos cinza sérios nos meus. – Obrigado por salvá-lo, Sr Senna. – disse ele, a voz de barítono exprimindo respeito. – É uma pena que ele não dê tanto valor a sua vida quanto os outros.

– Garret! – foi uma repreensão vinda da mãe de Archer.

Fingi que não havia notado a frase estranha em seu agradecimento e balancei a cabeça em um assentimento. Dei a ambos um sorriso de lábios fechados. – Custou apenas o meu sangue.

Eles riram.

– Oh, que grosseria a minha! – a mulher loura tampou os lábios com uma expressão horrorizada. – Nem perguntei como você estava, querido!

Sorri educadamente. – Me sinto ótimo, obrigado.

– Então você já pode vir receber os agradecimentos de Archer. – Puxou-me com as mãos para acompanhá-la. Cambaleei sobre meus tênis para tentar acompanhá-la enquanto atravessávamos o curto caminho do meu quarto até o de Archer, o pai dele vinha atrás de nós. Meu coração começou a palpitar mais rápido em velocidade gradativa. Eu estaria em frente ao dono da voz que mais ouvia, além da minha. Perguntei-me se ele seria pedante, ranzinza, o que ele acharia de mim? Perguntei-me se ele ficaria feliz em me ver. Sentir-se-ia realmente agradecido?

Comecei a me perguntar se, como seu pai havia insinuado ainda a pouco, Archer realmente queria ser salvo.

Poucos segundos se sucederam a esse questionamento em minha mente, os quais se provaram inúteis, pois, momentos depois que meus pés tocaram o chão do quarto de Archer, tudo em minha mente se perdeu. Exceto uma coisa.

Oh cara, eles chegaram tão perto.

Ele estava recostado nos travesseiros, parecendo muito pálido, mas dava para perceber que odiava a situação. Poucos sabiam, mas a bala havia passado apenas de superficialmente, embora tenha sangrado muito. Voluntariei-me segundos depois de saber que ele precisava de um doador de sangue. Não sabia nem qual era o seu tipo sanguíneo, mas sabia que eu era um doador universal. No final, Archer não estava tão mal assim, mas havia uma possibilidade real de ele ter morrido.

Pensar nisso fez algo estranho se mover em meu estômago.

– Então você é Dave. – disse a voz naturalmente arrastada.

Olhei para trás de mim, como se houvesse outra pessoa com o mesmo nome que o meu. Percebi muito tarde que seus pais haviam nos deixado sozinhos. – Sim, — clareei a garganta. – sou Dave Senna. – estendi a mão em direção a ele, um cumprimento tão antigo quanto o mundo.

– Você ficou maluco? – ele perguntou ao invés de segurar a minha mão. – O que diabos você estava pensando, garoto?

Não me surpreendi com sua atitude fria, – a maioria das pessoas de hoje em dia vestiam-na como uma tendência. – mas com o tom amargo que sua voz assumira. Eu que só havia ouvido a melódica cadência dela embalando meus sonhos em tons quentes e vivos.

– Perdoe-me, eu não entendo...

Archer me interrompeu. Os olhos verdes tecidos por pequenos pontos multicolores me olhavam com raiva. – Você não deveria ter feito aquilo.

– Por quê? Isso tem algo a ver com o que seu pai disse? Sobre você não querer ser salvo? – perguntei em voz baixa e calma, porque, apesar de tudo, eu ainda tinha educação. – Você é o maior astro de rock do mundo, a personificação das esperanças e sonhos de muitos jovens. Acha mesmo que deixaria você morrer quando poderia fazer algo para evitar? Você ficou...

– Aquele tiro foi proposital.

–... maluco? — parei subitamente ao ouvir o que ele disse. Meus olhos se arregalaram e senti o ar em minha língua quando abri a boca em espanto, tinha gosto de horror. – O que? Como? Por quê?

Uma mecha grossa cabelo cor de mogno de Archer caiu sobre sua testa quando ele inclinou a cabeça para o lado. – Você mesmo disse: eu acendi uma fagulha em um lugar onde há coisas proibidas para se ver. Eu traduzo o pensamento de uma massa de jovens com o mesmo desejo que o meu, o que você acha que Celsius faria, Dave? – O sorriso que ele deu falava sobre sangue, suor e luta. – Ele tem esperado por essa oportunidade há anos.

– Ele já tentou te matar antes?! – Estranhamente, dentre todas as coisas que Archer me dissera, essa era a que mais me horrorizava.

Ignorando minha pergunta, ele puxou a agulha intravenosa que estava em seu braço, e, para meu completo desespero, vi quando o líquido incolor começou a escorrer para fora do furo onde antes a agulha estava hospedada. Logo foi a vez de seu – e meu – sangue fugir também. Archer não parecia nem um pouco preocupado com aquilo, seus olhos estavam trancados na porta. Ele começou a se despir.

– O que você está fazendo? – Questionei num fio de voz. Meu rosto começou a esquentar como se não houvesse amanhã, e eu tinha a consciência de que se ele virasse seus olhos, que tinham a exata cor da esperança temperada com um pouco de glória, veria o meu embaraço de forma precisa. O fato de que ficar vermelho por ver outro homem despindo suas roupas não era, digamos, um fato comum.

Mas para meu profundo alívio, ele estava mais ocupado em tirar suas roupas do que com a possibilidade de eu estar envergonhado por isso. – Eu estaria sangrando até o inferno em minha sepultura agora se não fosse por você. De qualquer forma, Celsius usou uma dose inteira de Nêmeses naquela falsa bala, meu sangue estava quase todo infectado. A transfusão eliminou a letalidade do composto, mas te colocou bem na linha de fogo. Por isso eu não vou te agradecer, mas obrigado mesmo assim. – ele parou de falar, franzindo a testa por um momento. – Eu deveria temer o fato de você não ter me questionado pelo significado de Nêmeses?

Ele finalmente olhou em minha direção, pareceu ter notado meu embaraço, — o que me deixou mais corado ainda — pois uma curva insinuante de interesse se instalou em seus lábios. Uma de suas mãos grandes parou no cós de sua calça jeans recém-colocada, os dedos longos brincaram de acariciar a pele oculta atrás da faixa de tecido rústico. Desviei meus olhos até estar encarando a parede pintada em tons pastéis atrás da cabeça dele.

– Sei que Nêmeses é um composto extraído de plantas tóxicas encontradas nas florestas dos países do sul. A junção delas forma um veneno altamente letal que, quando em contato com o plasma, causa uma série de reações. Desde graves delírios, perda de memória, paralisia e, sobretudo, dor, até o óbito. – Disse mecanicamente lembrando as aulas de Impropérios Biomedicinais que tive já na segunda semana da faculdade.

– Não me lembro de ter estudado isso nas aulas de biologia. – Disse Archer. Eu que ainda estava olhando para as paredes, voltei a encará-lo nos olhos novamente. Minha cabeça estava super confusa. Rezei para ele não está pelado ou coisa parecida.

Ele não estava, mas seu torso nu mostrava uma ou três tatuagens bem desenhadas. Alarmes soaram em minha mente. Celsius proibiu as tatuagens permanentes há pelo menos cinco anos atrás. Entretanto, mesmo antes disso, elas já não eram bem aceitas quando expostas. O ato de rebeldia contra o governo era uma sombra que pairava sobre a cabeça de Archer. Aliás, ele mesmo já era um ato de rebeldia em carne, osso e voz hipnótica. Tudo em mim se revoltava com esse pensamento, essa atitude. Veja bem, mesmo que eu tivesse uma tendência a ser impressionado pela diferença, ainda era um fruto da sociedade de 2034 e Archer era para mim escandaloso e errado, um gosto amargo demais para engolir.

– Medicina Experimental. – disse depois de uma pausa. – Sou um calouro.

Archer assobiou. – Isso parece complicado.

– Nunca me vi fazendo algo diferente. – Dei de ombros.

Nós nos entreolhamos, embora segundos depois eu tenha desviado meus olhos para as tatuagens marcadas em sua pele bronzeada. Todas elas pareciam citações de alguma coisa e, enquanto me perguntava o que possivelmente poderia estar escrito ali, minha boca se contorceu em reprovação. Ouvi o riso baixo de Archer. Levantei os olhos para conhecer em que tipo de situação me encontrava, bem a tempo de vê-lo inclinando-se em minha direção.

Talvez porque meus olhos estavam arregalados em espanto, pude notar a constelação de sardas bem pequenas que ele tinha acima do nariz. Os cílios eram tão longos quanto os de uma garota, notei, mas não havia nada os colorindo a não ser o mogno macio brilhante que era a cor de seu cabelo. Recusei-me a olhar para seus lábios, todavia sabia que eles eram dois molejos erráticos rosa escuro, o inferior era maior. Senti o ar de sua respiração espalhar agulhadas de formigamento por todo o meu rosto. Os rótulos “imperfeito”, “louco” e “doente” brilharam em minha mente como os olhos mentolados de Archer o faziam agora, me afastei rápido. – O que...?

Archer franziu as sobrancelhas irônicas. A inocência em seu rosto seria perfeita se não houvesse aquele desvio malicioso em seus lábios. – Só pegando a minha camisa. – ele mostrou o tecido de cor preta em suas mãos.

Soltei o ar.

– Nós temos que ir. – ele anunciou após estar completamente vestido. Os óculos escuros ocultavam seus olhos, um modelo vintage descolado que ficava bem em poucos e qual eu morria para ter.

Balancei a cabeça, confuso. – Para onde? Ouça Archer, você quer que eu chame os seus...

Ele segurou meu ombro, obrigando-me a prestar atenção no que ele dizia. – Saia dessa, Dave. Você ao menos imagina o que seu ato significa? Eu sou a maior ameaça ao governo de Celsius agora e ele até conseguiria me aniquilar... se não fosse por você. – Ele sorriu um pouco inconformado, ou triste ou abandonado. Eu não sabia de nada quando ele sorria assim. – Acho que você é o homem mais procurado dos últimos tempos e Celsius com toda certeza vai querê-la em uma badeja de prata. – Apertou o lugar onde segurava. – Me perdoe por ter te colocado no meio do tufão, eu não tenho palavras para me desculpar. Mas preciso fazer o que estiver ao meu alcance para impedir que ele ponha suas mãos em você, afinal tenho uma dívida de sangue contigo. Literalmente.

Engoli em seco. – E o que acontece agora?

Ele me soltou e sorriu. Minha mente ficou em parafuso novamente. – Agora, criança, eu te mostro o lado selvagem das coisas. – ele disse ao me guiar por uma porta oculta naquele quarto que eu nunca, nunca, poderia adivinhar estar ali.

Se me esforçasse um pouco ainda poderia sentir suas mãos em mim mesmo depois de muito, muito tempo.



Notas finais
Comentários são bem vindos! Estou realmente curiosa para saber o que vocês acharam. Dúvidas, sugestões e criticas construtivas?