Butterfly
3 03 — Eu quero viajar no vento
Notas iniciais
❀Butterfly❀
" Parece que a dor faz parte das pessoas. Mas é graças a dor que há a alegria. Não existe sentido em sorrir sem jamais ter chorado."
❀Butterfly❀
III
Já há longos três dias ele estava naquela cama, olhando para a janela. Elisa sentia-se tentada a desistir de falar com o filho, mas sabia que isso poderia tornar tudo pior. Miguel não era assim perto de Dan. Suspirou, também sentia imensa falta dele.
Estendeu a mão em direção os fios negros do rapaz, hesitante, e logo a recolheu, torcendo para que o moreno não tivesse notado. Era ainda muito cedo para demonstrações de carinho, Miguel estava frágil como vidro e ela temia quebrá-lo.
Dezessete anos e um fardo tão pesado a carregar. Tanta dor num pequeno coração, da qual ele não fazia questão de tentar livrar-se. Pobre menino de olhos opacos, pensava.
A mulher de cabelos dourados, desejava, mais que tudo, tirar seu filho de tanto sofrimento, vê-lo sorrir novamente, como quando estava ao lado de Dan. Começava a achar que apenas ele era capaz de fazer seu menino feliz, no entanto...
— Miguel, você precisa comer! — disse uma outra vez, sem saber ao certo se ele a ouvia ou não. Há dois dias o garoto não se alimentava direito. — E precisa dormir, olhe só essas olheiras, Miguel! Não vai sair daqui tão cedo se não se esforçar, filho.
— Tá. — respondeu sem se virar, sem entender realmente as palavras da adulta, concentrado na visão que tinha da paisagem ao lado de fora.
Contudo, algo veio a lhe chamar a atenção. A bela borboleta azulq ue dançava no céu, próxima a sua janela. Tinha certeza de que já a tinha visto antes, em algum lugar, por mais impossível que fosse, existiam tantas borboletas azuis por aí!
Elisa parecia tambêm tê-la notado, e levantou os vidros para que ela pudesse entrar, e assim foi feito. O pequeno inseto bailava pelo ar, acompanhado por uma melodia inexistente, que fazia o peito de Miguel se apertar.
Ela pousou aos pés de sua cama, e o parecia fitar por um tempo, então levantou vôo e saiu pelo mesmo lugar que entrou. A mulher loura ainda ficou olhando-a se afastar, até que ouviu um baixo soluço e se virou, encontrando o filho com o rosto banhado por lágrimas.
❀Butterfly❀
Elisa se retirou do quarto aos prantos, sem saber como reagir diante das lágrimas tão sofridas do filho. Por que isso tinha que acontecer desse jeito? Por que ele tinha de ser tão fechado. Por que somente Dan o fazia sorrir, e não ela? Pensava nisso com uma pitada de ciúmes, logo se recriminando. Não podia culpa-lo por um erro que era somente dela.
Enxugou os olhos com as costas da mão, sentindo-se impotente e envergonhada de voltar aquele quarto depois de simples ter saído... Ter fugido da tristeza da pessoa que mais amava na vida. O que Miguel estaria pensando dela? A chamando de covarde, talvez.
Doía imaginar isso. Doía ainda mais que a indiferença do moreno para consigo. Tinha de entender. Precisava entende-lo melhor, para assim talvez, apenas talvez, criar um laço mais forte com ele.
Encostou-se na parede branca do hospital, respirando fundo e com o pesar que feria seu peito. Deveria voltar lá e falar com o rapaz, pedir desculpas por se retirar daquela maneira e obrigar o menino a conversar, a contar suas dores e aflições. Miguel não devia guardar tudo para si, e agora Elisa era a única que podia ajudá-lo a carregar tantos fardos.
Deixou que os lábios se curvassem ao pensar nisso, lembrando-se do garoto quando mais novo, que sempre lhe vinha correndo contar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Isso até a começar a crescer, a começar a ser um adulto — ou se achar um adulto —, e aí apenas Dan resolvia tudo. Ah, Dan. Será que ele imaginava a falta que fazia?
Provavelmente não.
Seria muito bom se ele estivesse ali, ajudando seu menino a voltar a sorrir, fazendo cócegas em sua barriga, mesmo que fosse a força. Elisa até deixou um riso escapar por sua garganta ao se recordar disso. Ah, se pudesse viver momentos assim novamente!
— Ah, meu menino, como eu desejava te ver bem... — murmurou e fechou os olhos, deixando que uma leve gota salgada escorresse por sua bochecha. Estava determinada a lutar o quanto fosse necessário. Por Miguel e por si mesma.
Resolveu que seria melhor se desencostar da parede e voltar ao seu quarto, explicar toda a situação para ele e tentar outra vez conversar. Depois, também levaria uma nova comida bem quentinha para ele. Quem sabe sentisse fome?
No entanto, por algum motivo, sentia que, quando voltasse, não o encontraria onde o havia deixado. Poderia ser seu coração de mãe, a avisando de alguma coisa. E estava completamente certa.
❀Butterfly❀
Já se passara dez minutos desde que sua mãe saira do quarto aos prantos, provavelmente por vê-lo chorando. E Miguel se achavam um miserável por isso. Amava a mulher, de todo o seu coração, e só a fazia sofrer. Elisa não merecia ter como filho um garoto tão problemático assim.
Por isso, mal ela havia desaparecido de seu campo de visão, e ele saiu da cama, saiu do quarto, desapareceu das vistas de qualquer um, sem que notassem. Os médicos e enfermeiros deviam estar ocupados com as crianças e demais adolescentes internados ali.
Andou despreocupado pelos corredores vazios e silenciosos. Gostava disso nos hospitais, do silêncio confortante presente ali. Era ótimo, tirando o clima de morte existente e as famílias que sofriam com tudo isso. O pior de tudo era o sofrimento alheio.
Pensava nisso. Apenas nisso. O mundo seria maravilhoso se não houvesse sofrimento. Ou melhor, se as pessoas não sofressem com a morte das outras. Ah, o quão perfeito tudo isos seria! Elisa não mais choraria por ele se por acaso algo acontecesse.
— Ela não sentiria tanta dor. — sorriu sem vontade, talvez até com certa tristeza ao alcançar a varanda, olhando para o chão abaixo de si. Uma grande distância os separava.
Observou os poucos que trasitavam lá em baixo, rindo, gritanto, fingindo que tudo estava bem, que aquilo não era um hospital. Via até mesmo crianças, que dias antes ouvira dizer que tinham menos de uma semana de vida, se divertindo como se não existisse amanhã. Porque para elas realmente não existia.
Conseguiu sentir até um complexo de piedade dos pequenos e dos seus pais. Quanto falta fariam? Ao mundo, nenhuma. Mas aos adultos abririam uma ferida e tanto. Uma ferida profunda e dolorosa. Contudo, sempre fora ensinado que, no fim, uma ferida se fecha, restando apenas uma cicatriz.
Assim aconteceria a Elisa. A ferida dela simples se fecharia. Enquanto a dele, se continuasse ali, somente sangraria mais e mais, de uma maneira que não seria capaz de continuar suportando.
Nem notou quando sentou-se nas grades de proteção, colocadas para que ninguém caísse. Engraçado, era exatamente isso que Miguel queria. Cair num sono eterno. Sentiu seu corpo começar a escorregar pelas grandes de metal, mas antes que qualquer coisa lhe acontecesse, antes que fosse levado abaixo, aqueles braços o envolveram.
Aqueles braços tão quentes e confortantes.
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