Butterfly
1 01 — Borboletas azuis
Notas iniciais
Beijos e até lá em baixo ♥
❀Butterfly❀
" Conta uma antiga lenda, que quando uma borboleta voa perto de você, é a alma de alguém que já morreu e sente saudades. "
❀Butterfly❀
M iguel abriu os olhos e fitou o teto branco acima de sua cabeça, demorando um pouco até despertar totalmente. Os raios de Sol que adentravam pelas pequenas aberturas da veneziana iluminavam seu rosto sonolento e melancólico, de quem não queria ter acordado naquela manhã.
Ele se virou para o outro lado, espalhando ainda mais o lençol azul pelo colhão, sem se cobrir por inteiro. Tudo o que o rapaz desejava no momento era voltar a dormir, cair num sono profundo o bastante para assim ficar até que suas lembranças se apagassem completamente e ele pudesse nascer de novo.
Há semanas ele vinha estando daquela maneira. Quieto. Triste. Abalado. Não comia direito, apenas ficava na cama, dormindo. O tempo que permanecia acordado parecia uma tortura, tanto para ele, quanto para seus pais e amigos. Todos preocupados com seu comportamento.
Era como se ele não percebesse. Miguel parecia viver dentro de uma bolha de sabão prestes a estourar e deixá-lo cair em meio sua dor, e isso arrasava o coração da pobre mulher que lhe amava com a própria vida, aquela que o vinha chamar para enfrentar mais um dia em meio a tortura do mundo.
Desespero e tristeza eram tudo que Elisa podia sentir quando ao seu menino, que vinha se encontrando mais frágil que nunca. Lembrava que, nem mesmo nos dias mais difíceis, o vira daquela forma, pedindo para morrer. Isso deixava seu coração em pedaços, principalmente or saber que nada podia fazer para ajudar a trazer de volta o sorriso aos lábios dele.
Ela o visualizou pela mínima abertura na porta, vendo a maneira com que se deitava e encarava a parede, os olhos castanhos sem brilho algum, sem vida, fitando o nada, como se não estivesse ali. E não estava. Sua alma não estava.
Sua mãe sabia disso, sabia que quem estava ali não era Miguel. Não o seu Miguel. Era apenas um corpo. Uma casca vazia do que um dia fora um dos dois maiores motivos de sua alegria, nada, além disso. Uma casca. Apenas uma casca.
Um casulo vazio.
— Meu querido, é hora de levantar. — disse, tentando controlar o tom de voz. Mas acabou por sair agudo demais, sofrido demais. Elisa se repreendeu mentalmente por isso quando o olhar do filho caiu sobre si. — O que é isso? Já passa das duas da tarde! Não pode ficar na cama o dia inteiro! — completou forçando um sorriso.
Eu gostaria de ficar aqui para sempre, mãe. o rapaz pensou, porém permaneceu calado e se levantou. Suas olheiras profundas eram bem visíveis, manchando a pele clara com aquele tom que Eilsa tanto odiava. Miguel dormia, não descansava.
— Vou tomar um banho. — anunciou ao passar pela mulher, que mal teve tempo de responder e já viu o filho desaparecer pelo corredor.
❀Butterfly❀
Miguel trocou a temperatura da água do chuveiro para fria e estremeceu quando os primeiros pingos tocaram seu corpo desnudo. Contudo, isso não seria suficiente para despertá-lo daquele pesadelo em vida. As gotas geladas escorriam por sua pele e pelos fios negros que se colavam no rosto conforme ficavam ainda mais molhados.
Encostou as costas na parede do banheiro e ergueu a face, deixando-a encharcar com as gotas frias e quentes. A água do chuveiro e as lágrimas salgadas.
Para o jovem, as lágrimas se tratavam de coisas incríveis, as únicas capazes de lavar algo que o sabonete não podia alcançar: a alma. E isso tornava cada uma delas única, especial. Eram elas, as lágrimas sinceras, que provavam o quanto era fraco. O quando era humano.
Deixou-se escorregar até o chão, parando agachado sobre os azulejos esverdeados do box e abraçou os joelhos, enfiando a cabeça no meio deles e deixando que um ou outro soluço escapasse por sua garganta. Não saberia dizer quando tempo ficou ali. Saberia apenas que o tempo não seria suficiente para lavar toda a dor que ainda tinha dentro de si.
Era como uma lagarta, presa em um casulo.
❀Butterfly❀
Os gritos. As risadas. A falação. Todos esses barulhos pareciam lhe atormentar os ouvidos sempre que saia de casa, por uma obrigação imposta por sua mãe. Que, preocupada, achava bom que o filho visse mais gente, talvez se alegrasse com isso.
Elisa estava extremamente errada. Não sabia o quão tortuoso era o simples ato de sair de casa. De sair do casulo e enfrentar a selva do lado de fora, cheia de predadores impiedosos. Também não sabia o quanto era perigoso deixá-lo andar pelas ruas sozinho, estando ainda daquela forma.
Miguel sequer olhou para os lados, ou para o sinaleiro antes se atravessar a avenida. Chegou a imaginar ter ouvido alguém buzinar, mas considerou um fruto qualquer de sua imaginação. Os orbes castanhos continuavam da mesma maneira, sem brilho, mirando o nada, fixos na frente.
Ele sequer notava quando trombava com alguém, ou quando ralhavam com a sua pessoa. Talvez por não ligar, ou talvez por simplesmente estar desligado demais para isso. Desligado da vida.
A única coisa capaz de chamar a atenção de Miguel naquele momento foi aquela borboleta azul, que parecia brincar e acariciar as flores em que pousava. Uma borboleta leve, bonita, e que o havia encantado. Por algum motivo lembrou-se de Dan, mas a lembrança logo foi apagada com o barulho alto de uma buzina, que o fez despertar de seus pensamentos.
E, como se pressentisse o que acontecia, a borboleta voou.
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