But... I Love You

6 Capítulo 6 - Confusão


Eu não sou de ficar até tarde acordada. Na verdade, tenho um sério romance com o meu travesseiro, por isso sempre vou vê-lo cedo. Mas essa última noite foi complicada. E era mesmo de se esperar, não era? Ronald falou comigo como se fôssemos amigos de longa data, e que não se viam há muito tempo. E até agora ainda sinto a respiração dele fluindo no pé do meu ouvido.

De tanto pensar nisso eu não consegui pregar os olhos. No dia seguinte pensei até em não ir à escola, mas eu ainda tinha que tentar revisar a matéria que deixei de revisar antes.

Taty estava na escola. Ela alegou ter faltado porque perdeu a hora, mas não acho que tenha sido esse mesmo o motivo. Mesmo assim não contrariei. Ela também percebeu que eu não dormi na noite passada. — Não foi muito difícil de se notar, já que eu dormi na primeira aula. — Quando ela perguntou o motivo eu meio que me enrolei, mas disse que atrasei algumas horas de sono preocupada com ela. Imagino que ela também não deve ter acreditado.

Eu finalmente consegui revisar, mas só um pouco. Decidi que eu iria ficar depois da aula na biblioteca, estudando. A matéria enfim, não era um bicho de sete cabeças. Com um pouco de esforço eu conseguiria me adaptar a ela.

Durante o intervalo, Ronald agia como sempre: Nos fitando. Quero dizer... Eu acho que ele estava a nos fitar. Eu não olhei para ele, não consegui. Eu até dei uma espiada pelo canto do olho, mas logo abaixei a cabeça, super corada. Ele estava nos fitando sim, pelo que vi. E com o mesmo sorriso enigmático de sempre.

Taty estava quieta, mas dava pra notar de longe que algo a incomodava. E esse "algo" tinha nome: Ronald. O desabafo que ela fez na nossa última conversa realmente a abalou. Suas mãos estavam entrelaçadas e inquietas sobre a mesa, como se brincassem entre si. Ela não erguia a cabeça, como se tentasse esconder alguma expressão. Isso fazia com que seu longo cabelo dourado caísse, cobrindo o seu rosto. Durante toda a conversa, eu só recebi "sim", "é", "aham", "verdade" e coisas do tipo vindas da boca dela. Eu até pensei em perguntar o motivo dela estar assim, mas era melhor não. Primeiro porque eu já sabia o motivo, e segundo que se ela estava tentando agir normalmente, era melhor eu fingir que eu não havia notado nada de diferente nela.

A "conversa" foi seguindo até eu olhar para Ronald. Aliás, olhar para onde ele estava. Procurei ao redor com os olhos, mas não o avistei. "Ah, tanto faz", pensei. Quando eu ia voltar a falar com a Taty vi que ela estava com o olhar fixo em algo atrás de mim. Senti algo tocar meu ombro: uma mão.

– Ei, Melody! — Aquela voz com certeza me era familiar.

Não podia ser. Sim, era ele. Bem atrás de mim, falando comigo e no pior momento possível. Respirei fundo e olhei para trás. Avistei uma camiseta azul-marinho com listras horizontais finas e brancas, e subi o olhar até passar pelo colarinho e encarar os seus sedutores olhos verdes.

– O-Oi...

– Tudo bem? — Ele sorriu. — Posso me sentar com você...s? — Ele olhou para Taty, como se não a tivesse visto antes. Eu até pensei em responder, mas ele já havia se sentado. — ... O que aconteceu? Você está diferente, parece mais nervosa do que na última vez que nos falamos.

Ah, meu Deus! Por que ele foi falar aquilo? Eu não sabia o que fazer nem o que dizer. Olhei para Taty, mas me arrependi. Ela estava quase se matando pra conseguir segurar o choro, e me olhava do pior jeito possível. O que ela devia estar pensando com certeza não era coisa boa. A indignação estava estampada no seu rosto.

– Não sei se vocês já se conhecem, mas... — Tentei sutilizar as coisas — Essa é Taty, minha amiga. Hm... Taty, esse é Ronald...

– Ah, olá Taty! Muito prazer. — Disse Ronald fingindo nunca tê-la visto antes. E fingindo muito bem, por sinal.

– ... — Taty me olhava, agora séria, com um olhar frio.

– ... Ela não é muito de fal...

– Oi. — Ela engoliu o choro. — Desculpe, eu estava distraída. Prazer. Vou deixá-los a sós. Melody, conversaremos depois. — Ela empurrou a cadeira para trás com brutalidade, levantou-se e foi embora.

Naquela hora eu realmente não sabia o que fazer. Eu não conseguia raciocinar, e não fazia ideia de como conter o pânico. Criei coragem e voltei a olhar para Ronald, e me assustei quando vi que ele estava rindo discretamente. Ele tentou conter o riso quando percebeu que eu estava olhando, mas não conseguiu.

– Desculpe, tenho que ir. Até depois. — Falei, indiferente.

Fui atrás da Taty. Eu até teria perguntado ao Ronald o porquê dos risinhos dele, mas ele sabe mentir/fingir tão bem que eu não saberia se ele estaria me enrolando ou falando a verdade. Sem falar que eu precisava esclarecer as coisas com a Taty. Eu a procurei por toda a escola. Onde ela estava? Enquanto eu a procurava comecei a pensar na reação do Ronald em meio a uma situação tão complicada. "Ele fingiu não conhecer Taty... Por quê? E por que ele veio até a nossa mesa? Não foi pra falar comigo... Se ele quisesse mesmo falar comigo, não falaria com a Taty por perto. Não por ele estar falando exatamente comigo, mas sim porque ele e ela não se falam mais... E no fim de tudo ele riu. Talvez porque ele já esperava uma reação da Taty. É... Ele foi na nossa mesa para provocá-la... E ele ainda mencionou a última vez que ele falou comigo, pra fazê-la pensar que nos falamos várias vezes anteriormente... Ele... Ele só falou comigo anteriormente pra poder se aproximar da Taty! Só para provocá-la! Ele planejou tudo isso... Ele meio que me usou!"

A vontade de dar meia volta e ir até ele falar um monte para ele foi enorme. Mas de nada iria adiantar. Minhas pernas fraquejavam. Minha cabeça latejava. Meus olhos lacrimejavam. O intervalo estava para acabar e eu não achara Taty. Depois de tanto procurá-la voltei para a sala, cansada. E lá estava ela. Somente ela, encostada na parede no canto da sala, chorando baixinho.

– Jeane... Eu...

– Some daqui. — O tom frio dela me deu arrepios.

– Me deixe explicar...

– O que você tem para explicar? Diga! Eu já entendi tudo, não precisa explicar mais nada.

– ... — Senti que nada do que eu dissesse adiantaria. Ah... Eu e essa minha mania de achar que nada do que eu disser vai adiantar...

– Eu te considerei minha amiga... Confiei em você... Como pôde?

– Taty, eu...

– Quieta! — Gritou. Ela fez uma pausa para chorar, e depois continuou. — Você foi falar com ele logo depois que percebeu como eu o olhava, não foi? Ou foi depois de eu ter te contado tudo?

A vontade de dizer "na verdade foi bem antes disso tudo, Jeane" foi grande, e eu ainda não sei porque eu não disse. Jeane é do tipo apaixonada, cega de amor. Aquele tipo de pessoa que não acredita tão facilmente nos outros quando está iludida... Ou desiludida, nesse caso.

– ... Depois. — Menti.

– Depois de saber de tudo? Você estava interessada nele, não estava? Eu não te culpo, ele é atraente... Mas depois de saber toda a minha história... Você ainda foi falar com ele?

– Eu só falei com ele porque... Eu quero juntar vocês dois. — O quê? Eu disse mesmo isso? Eu não sabia o que dizer... Aliás, eu não sabia o que estava dizendo!

– ... — Taty ficou paralisada, olhando para mim. As lágrimas continuavam escorrendo pelo seu rosto, mas ela parecia não saber o que estava sentindo. Ela ficou um bom tempo assim, sem reagir, me olhando... — Eu realmente... Não sei o que dizer...

– Pode acreditar, nem eu. — Sem sombra de dúvida. — Eu devia ter te contado... Eu... — Fui interrompida por um abraço. Um super abraço, daqueles que você jamais espera, em que a pessoa "se joga" em você e te aperta o quanto pode.

– Ninguém nunca fez algo assim por mim... — Ela chorava ainda mais. — E eu ainda te tratei mal... Você tentando me ajudar, e eu sequer dando chance para você se explicar... Me perdoe! Eu jamais pensei que você estivesse fazendo isso... Mas não por você... É que ninguém nunca se importou tanto comigo... — Ela soluçava de tanto chorar.

– Tudo bem, calma...

– Mel... — Ela levantou a cabeça, ainda abraçada, e olhou para mim. — Você quer me juntar com o Ronald... Por pena? Você sentiu pena de mim? Esse foi o único motivo de voc...

– Ei, ei... Acalme-se. Não foi por pena. Não sei muito bem o motivo — Na verdade não sei nem se quero juntar vocês dois.–, mas eu senti que precisava fazer isso. Sem falar que você é minha amiga, não é? — Tentei sorrir.

– Sou sim! — Ela respondeu com um largo sorriso.

Eu sou um monstro, pensei. Me meti na maior confusão. O bom é que eu poderia descobrir mais sobre o Ronald... E o que ele pensava a respeito da Taty. O ruim é ter que descobrir como fazer isso... Sem falar que eu teria que tentar juntar os dois a partir de agora, e contra a minha vontade. Não era isso o que eu queria, eu também gosto dele!

Taty continuou chorando, e abraçada a mim. Apoiei seu rosto em meu peito, e ficamos lá, no meio da sala, quietas.

O sinal bateu. A sala, aos poucos, foi enchendo. Sentamos nos nossos lugares e voltamos a nos focar na Mr. Ly Academy.