But... I Love You

4 Capítulo 4 - Verdade


Os dias passaram. Durante esse tempo, conversei bastante com a Jeane, e percebi que apesar de tudo ela é muito legal. É óbvio que eu não esqueço o que ela fez no passado. Sei que ela não me conhecia, mas começar a se interessar em alguém só porque este se tornou popular não é uma atitude digna de aplausos. Mas talvez ela tenha mudado, talvez ela tenha se arrependido, talvez não tenha acontecido nada entre eles. Talvez... Será?

Essas dúvidas começaram a surgir dentro da minha cabeça depois que comecei a ter afinidade com ela. Mas depois de tantos risos que demos juntas, pensei em perguntar. Mas eu precisava tomar cuidado. Eu me conheço, sei que se ela desconfiasse de algo eu não conseguiria disfarçar. No intervalo eu estava conversando com ela quando Ronald começou a nos fitar. Quando ela percebeu e começou a evitá-lo, eu criei coragem e perguntei:

– Ei, Jeane...

– Eu já te disse, você pode me chamar de Taty se quiser. Por que não me chama assim?

– Eu não sei, não posso te chamar de... Hm... Jay?

– Fazer o quê. — Ela suspirou, revirando os olhos. — Jay é bonito também.

Eu não consegui voltar ao assunto, que nem tinha começado. Então fiquei calada.

– Então... — Ela disse. — O que você queria me falar mesmo?

– Ah... — Tentei não parecer nervosa. — Você... Conhece aquele garoto? — Apontei para ele com o nariz.

Ela olhou, abaixou a cabeça e permaneceu calada. Eu não sabia se fingia que não tinha dito nada ou se tentava consertar o que fiz.

– Hm... Desculpe.

– O quê? — Ela levantou a cabeça, sorrindo. — Está tudo bem. Eu conheço ele sim, mas parei de falar com ele faz um tempinho. Por quê?

– É que ele tem te observado muito, desde que eu te conheci...

– Você acha? Acho que é impressão sua, ou talvez ele só tenha me achado bonita.

Ela estava visivelmente nervosa. Eu tentei ao máximo fingir que acreditava, mas é difícil fingir quando você sabe de toda a verdade. Aliás, um trecho da verdade.

– Ok, eu não sei mentir. — Ela se entregou, sem graça. — E você já me conhece bastante, sei que não acreditou. — O silêncio predominou durante alguns segundos. Ela respirou fundo e continuou — Esse garoto estudou comigo no jardim de infância e no primário. Nós éramos muito próximos, até que ele começou a dizer que estava gostando muito de mim. Mais do que o normal.

Quando ela disse isso eu reparei que eu tinha me preparado para fazer a pergunta, mas não para aguentar a resposta. Mas não demonstrei nenhum sentimento e a deixei continuar.

– O que ele não sabia é que eu já gostava dele. Só que eu nunca tive coragem de dizer, e achava tolice tudo aquilo que eu sentia, já que eu era muito nova. Por isso acabei me distanciando e, mesmo que sem querer, não correspondi visivelmente aos sentimentos dele. Mas nunca deixei de amá-lo. Então eu prometi para mim mesma que eu me declararia pra ele no ginásio. E eu fiz isso, sabe? — As mãos dela começaram a tremular. — Criei coragem e confessei o que eu sentia pra ele. Ele ainda gostava de mim, eu tenho certeza! Mas ele me rejeitou... Me disse coisas horríveis... Ele disse que eu nunca o correspondi, que eu nunca dei valor ao que ele sentia, que todo aquele tempo ele só sofreu por minha causa e que só depois que ele se tornou popular que eu fui falar com ele. — Conforme ela falava, seu corpo ia fraquejando e seu rosto entristecendo. — Ele me chamou de interesseira e disse que jamais desejou se apaixonar por alguém como eu. Eu tentei me explicar, mas ele não deixou. E disse que mesmo que o que eu sentisse fosse real, coisa que ele duvidava, nada mais adiantava. Ele estava apaixonado por outra garota. — Uma primeira lágrima caiu.

Eu não sabia o que dizer, ou o que fazer. Eu passei boa parte da minha vida odiando alguém que não merecia ser tão odiada. E pior, eu fui mexer em uma ferida já cicatrizada, e agora eu tinha, do meu lado, uma menina soluçando de tanto chorar por minha causa. Se fosse em qualquer outra situação eu a teria consolado. Mas eu estava pálida, chocada com tudo aquilo. E com muito peso na consciência por tê-la odiado e a feito chorar. Eu coloquei a mão no ombro dela, pedi desculpas e disse que não sabia que isso tudo havia acontecido e que ainda era tão doloroso para ela. Ela pareceu ter se acalmado, mas ainda chorava muito.

Olhei para Ronald. Ele continuava nos olhando, sem disfarçar, já que estava sozinho. Ele parecia não ligar se a gente percebia ou não. E também não demonstrava curiosidade. No seu rosto tinha um sorriso irônico no canto da boca. Era difícil compreender que sorriso era aquele.

O sinal bateu. Eu permaneci no mesmo lugar, consolando Jeane, até que senti alguém tropeçar na minha cadeira. Era um garoto que parecia estar com muita pressa. Quando ele tropeçou, derrubou algo no chão, mas não prestei atenção no que era, e voltei a olhar para Ronald. Ele estava lendo algo no celular, e pela sua concentração parecia ser algo interessante. Ele fitou o celular por mais um instante e subiu para a sala. Jeane e eu fizemos o mesmo, e aos poucos ela foi se acalmando.

Jeane me desculpou na aula, e disse que eu não tive culpa, afinal eu não sabia de nada. Foi só uma dúvida minha e ela quem quis esclarecer. Ela pensou que não ia chorar, já que conseguiu ficar sem pensar nisso durante muito tempo.

Quando eu cheguei em casa a minha cabeça estava girando. Joguei a mochila pro alto e deitei na cama. Era realmente difícil engolir tudo aquilo. Eu até pensei na hipótese dela estar mentindo, e ser uma... "Má garota", como eu pensei esse tempo todo. Mas, por mais que eu a tenha odiado tanto, percebi que o que ela dizia era verdade. E mesmo que fosse mentira, que motivos ela teria para mentir para mim? Ela nem sabe que eu conheço Ronald, e a teoria dela bate com o trechinho que eu já conhecia.

Eu estava cansada. Eu queria relaxar e dormir, mas com tanta coisa na minha cabeça eu não consegui, e passei horas pensando nisso tudo, tentando entender o que isso me fez sentir e como meus sentimentos tinham mudado tanto de uma hora pra outra.

Eu também não consegui parar de pensar no porquê dele não querer ficar com ela... "Ele estava apaixonado por outra garota." ... Será mesmo? Ou ele disse aquilo só da boca pra fora, na hora da raiva? E se ele estava mesmo apaixonado... Quem poderia ser? Será que eu a conhecia?

Será que essa garota está na Mr. Ly Academy?