Nunca me sentia bem, com o fato de ter a consciência pesada. Qualquer situação, a culpa já começava a se debater, tentando se livrar daquela prisão. Estava certo matar monstros, mas uma pessoa? Seria considerado crime? Por mais que fosse por legítima defesa, ver seus olhos abertos, sem vida, dava a vontade de passar a lâmina em mim. Não faria isso, porque não tinha essa coragem, mas quando se comete algo por impulso, é totalmente diferente.

Os cabelos castanhos se manchara com o sangue que escorria de seu pescoço. Havia também sangue seco, que podia muito bem ser o meu. Por um momento, senti pena de Luiza. Os deuses destruíram sua família, e o pai... a única pessoa que tinha, foi morto. Além de tudo, fora privada de sentir o amor. Talvez, a morte a acolheu com um carinho, que jamais teve. E ela tinha razão. Perto de sua história, eu devia agradecer mais pela vida que tinha.

Me sentei, sentindo que a pequena força que conseguira reunir naquele meio tempo em que ela me dera, já não existia mais. Havia Ambrosia jogada no chão, e eu não podia desperdiçar, ainda mais naquela hora, em que eu precisava tanto.

Em seguida, fui rastejando até a garota, e tentei arruma-la do melhor jeito possível, porque eu não conseguiria tirar seu corpo da caverna. Com muito custo, levantei, e lentamente, fui até a saída. Não era cedo, mas não podia passar das quatro. Eu me sentia horrível. Faminta, suja, fraca.

O dia estava nublado, e trovejava, como se quisessem que eu colocasse uma música depressiva de fundo, e começasse a chorar por tudo.

Coloquei a mão no bolso de minha blusa, e tirei de lá, a pedra que ganhara.

Faça um desejo, a voz de meu pai ecoava em minha mente, repetindo a mesma frase... me avisando que chegara o momento certo.

Tinha que ser as palavras perfeitas. Um erro, e já ia jogar tudo fora.

Encostei na parede, e como se fosse planejado, a chuva começou a cair. Fina e gelada, mas com a intensidade maior do que conseguia. Minhas roupas molhavam, e o cabelo pingava. Fechei os olhos, e com as duas mãos, segurei forte a pedra. Minha mão esquentou, e maravilhosamente, o presente virava água.

– Quero me encontrar com Ares — sussurrei.

O pouco que vi, foi o brilho saindo entre meus dedos, e me sugando para dentro de um portal.


...


Ser deixada delicadamente, com toda a segurança do mundo, estava fora de cogitação. Fui arremessada, e sai rolando, até me chocar contra uma parede.

Quando me recuperei, consegui distinguir em que tipo de lugar me encontrava. Vários homens musculosos, com os braços tatuados, bebendo mais do que deveriam, me encaravam. Talvez, porque eu era a única garota daquele lugar.

– Olha só — um deles se aproximou — Temos um brinquedinho. Será que ela aguenta divertir todos?

As gargalhadas se fizeram presente, e vários outros vinham até mim.

– Ela é novinha — o outro disse, enquanto passava o polegar pelo meu rosto — Do jeito que queríamos.

Fechei meus olhos, e senti o pânico me dominando. Sem precisar pensar duas vezes, soquei o rosto do homem.

– Não toque em mim — falei.

Ele tirou a mão do local onde o atingira, e eu vi, um roxo em seu olho.

– Então está decidido — disse — Eu vou ser o primeiro.

Instantaneamente, me puxou pelos braços, e começou a arrastar meu corpo pelo bar, como se eu fosse uma boneca de pano. Não sei como eu consegui, mas cravei minhas unhas em seu braço, com tanta vontade, que comecei a sentir sangue escorrendo em meus dedos. Fui jogada no chão.

– Maldita — praguejou, e infelizmente, percebeu que eu corria entre a multidão — Peguem essa criança! Não deixe que o animo de vocês fuja!

De imediato, todos os outros, tentavam me pegar, mas eu conseguia desviar com tamanha facilidade, a ponto de me deixar com algumas dúvidas.

Por Zeus!, pensei O que eu estou fazendo aqui?

Não sabia que caminho ir, porém, eu sentia que a direção certa, era aquela em que eu tomava.

De relance, olhei para trás, e todos aqueles homens me seguiam. Se me encurralassem, estava perdida. Dei de cara com duas possibilidades: direita ou esquerda. Deixei o instinto falar mais alto, e segui à esquerda. E é bem por aí, que eu gostaria muito de ter a oportunidade de parar e pensar.

Não havia saída, e os sons de gritos e passos me alcançavam. Me virei, e observei uma maçaneta. Como era possível, não ter porta, mas sim uma maçaneta?

Comecei a girá-la com toda a força que eu tinha, só que estava trancada.

– Qual é — murmurei — Abra! Abra!

As tentativas se tornavam inúteis, e desistir, parecia uma boa.

– Ora, ora, ora — a voz grossa riu — Se não é a mocinha que decidiu lutar comigo, usando a unha. Venha querida, temos algo a fazer.

Eu tremia de medo, e voltei a tentar abrir aquela estúpida porta que nem se quer existia. Quando senti uma mão pesada e áspera pousando em meu ombro, uma brilho cegante começou a sair. Na verdade, cegante aos olhos de um mortal, porque eu consegui enxergar o que havia lá dentro, e antes que a oportunidade desaparecesse, eu entrei.

Fechei a entrada, batendo com agressividade.

Fiquei encarando um grande salão, com armaduras, todo tipo de arma em qualquer canto, e imagens de antigas guerras. O chão era de mármore, e as paredes de rochas. Os castiçais pendiam no teto.

Eu fui levada a Ares, mas antes, tive que encontra-lo.

Notas finais
Reviwes?