Burning Red

1 No fim da rua


Era uma bela manhã no Japão. O Sol raiava e despertava os moradores da pequena cidade, preparando-os para mais um dia de vida. As ruas foram, aos poucos, ganhando um ar movimentado, até se encontrarem tumultuadas, abarrotadas de pessoas. De cada casa, saia um morador com um ar cansado, preparado para mais um dia de trabalho, as vezes com um copo de café em mãos, as vezes com o dinheiro do café da manhã.

Hideki, um menino de estatura média, 16 anos e pele branca, era uma dessas pessoas. Seus pais ainda dormiam quando o menino saiu de casa para seu ultimo dia de aula. Olhou-se no espelho. O cabelo muito arrumado o incomodou e ele tratou de bagunça-lo bem com uma das mãos. Afrouxou ainda mais a gravata de seu uniforme e saiu de casa, com sua mochila em suas mãos.

No exato momento em que Hideki pisou do lado de fora de sua casa, a porta da casa do outro lado da rua também se abriu. Dela, saiu um garoto não muito mais velho do que Hideki, mas mais alto e com os cabelos mais claros. O uniforme completo e impecável.

- Oe, Hikaku! — chamou Hideki, com a mão levantada.

- Oe! — respondeu o menino do outro lado da rua.

Hikaku andou até Hideki e os dois sorriram, cumprimentando-se silenciosamente mais uma vez. A dupla de amigos, então, seguiu caminho até a escola. Passaram pelas casas de muitos conhecidos seus, adultos, idosos, adolescentes, e até mesmo crianças.

Uma garotinha, com no máximo 3 anos de idade correu ate os dois meninos e levantou os braços. Hideki riu e se abaixou, para pegar a garotinha no colo.

- Booooooom dia, Neko-Chan! — cumprimentou Hideki, alegremente, fazendo referencia aos bigodes de gato desenhados no rosto da pequena.

- Bom dia Hideki-san! Hikaku-san! — respondeu a menina — Vocês vem brincar hoje lá em casa? Mamãe mandou perguntar.

Hikaku sorriu e respondeu:

- Claro que sim, Sakura-Chan. Promessa é promessa!

Sakura bateu duas palminhas e Hideki a pôs no chão. Ela, então, correu até os pais e entrou em casa novamente.

- O que que a gente tem que fazer na casa deles mesmo? — perguntou Hideki, claramente perdido.

Hikaku suspirou.

- Babás. Estamos sendo pagos. Lembra?

- Uuuuuuh! É mesmo! — respondeu o mais baixo, rindo de si mesmo — Quase me esqueci.

O mais alto dos dois revirou os olhos e continuou andando. Hideki iniciou uma conversa sobre o que tinha feito na noite anterior, se assustou com seus deveres de casa não feitos. "Ninguém disse nada sobre uma redação!" argumentou o menino. Então, Hikaru parou de rir das piadas do amigo e tornou a ficar sério novamente.

- Aconteceu de novo ontem a noite — ele disse.

Hideki ficou em silencio, até que conseguiu por duas palavras em ordem.

- Quanto tempo?

- A noite toda.

- Só uma mulher ou ouviu mais duas?

- Mais uma.

- Ah...

Silencio novamente. Depois de alguns segundos, os dois olharam para trás, por cima do ombro. Lá estava, no final da esquina, a casa abandonada. Tinha dois andares e era feita de madeira (que agora apodrecia). A vegetação crescia desordenadamente e duas arvores secas tornavam o ambiente ainda mais sinistro. Desde que os dois meninos se lembravam, as arvores nunca haviam florescido, nem mesmo na primavera.

Os dois soltaram um logo suspiro e passaram pelo velho mercado da rua, seguindo caminho até a escola. Hideki chutava uma pedra em sua frente ao longo do caminho, pensativo.

- Sabe — disse ele — Um dia, a gente tem que entrar lá.

Hikaku sorriu.

- É, um dia, quem sabe?

~#~#~

A escola foi entediante como sempre foi. Pelo menos para Hideki. Hikaru se fascinava por cada palavra que o professor cuspia para fora de sua boca arrogante. Anotava com fervor e seria capaz de decorar as virgulas daquele professor bigodudo que Hideki tanto odiava. Quando o professor finalmente anunciou o final da aula e os alunos se levantaram em solenidade, esperando que o professor saísse de sala, Hideki quase deu um pulo.

Férias! Finalmente férias.

Os dois correram de volta para casa e jantaram (sim, jantaram. As aulas daquele dia foram muito longas). Encontraram-se duas horas depois, com roupas normais e foram até a casa da pequena Sakura.

O pai dela, o sr. Ikari, abriu a porta e os dois entraram. A mãe, srta. Heiwa, deu um sorriso e explicou para os dois como seria. Ela e o sr. Ikari iriam sair com uns amigos e voltariam antes das 21 horas.

- Ei Sakura-Chan! — chamou Hikaku — Quer fazer o que?

- Quelo kalaoke — disse a menina. Ainda eram sete horas da tarde e a menina dormia as oito.

Hideki e Hikaku se olharam e deram de ombros. Teriam muito tempo ainda, e nada os proibia de se divertir. Certo?

Ligaram o aparelho de Karaokê da menina e dançaram enquanto Sakura cantava uma musica de um dos Vocaloides, os meninos nunca se interessaram por eles. Mas dançaram e fizeram a menina rir por bastante tempo, até que ela se cansou e dormiu.

Os pais da garota chegaram assim que Sakura foi dormir e os garotos foram bem pagos e agradecidos. Saíram da casa da menina e ficaram parados um tempo na rua deserta. Faltava poucos minutos para as nove e Hideki estava com fome.

- Fome?! — perguntou Hikaku — Caralho, você é um poço sem fundo!

Hideki deu de ombros.

- É um dom — ele respondeu — Vou lá no mercadinho comprar um chocolate.

Hikaku revirou os olhos.

- Eu vou pra casa. Carregar a Sakura-Chan nas costas e correr por aí foi um pesadelo! A menina pesa como se fosse chumbo!

Hideki fez um sinal de indiferença com as mãos e foi para o lado contrário do que seu amigo seguiu. Cantarolava uma das músicas que Sakura-Chan havia cantado. Era uma musica de criança e seria absolutamente ridículo ficar cantarolando ela por aí. Mas estava de noite e não havia ninguém na rua. Cantarolou com fervor. "Ah, foda-se. Tenho fama de maluco mesmo...".

Entrou no velho mercadinho e viu que só haviam duas pessoas lá: o sr. Furui, o dono do mercadinho, e uma menina de costas, comprando canudos.

Continuou cantarolando, pegou seu chocolate favorito, o ao leite, e andou até o sr. Furui para pagar. Demorou um pouco para chegar até o caixa, pois andava no ritmo do seu cantarolar.

Então, Hideki percebeu que a menina dos canudos também havia começado a cantarolar a mesma musica. Ele sorriu, achou cômico. Quando ele finalmente chegou ao caixa (uma jornada de dois minutos e meio, em que cada segundo deixava o velho senhor impaciente), a menina deu uma risada, como quem ri de si mesmo.

Hideki deu um pulo, a risada dela fez com que descargas elétricas percorressem por todo o seu corpo.

- Você gosta dessa música? — ela perguntou, a voz tão suave que Hideki quase pediu que ELA cantasse para ele dormir.

- Ahn... É, hum... Sim. Quer, dizer, não! — ele disse, dando um tapa no próprio rosto depois. Que papel de imbecil — Não, é só que... Fui cuidar da minha vizinha hoje, e ela estava cantando isso pra eu dançar.

- Ah — disse a menina se virando — Então você dança essa música?

Naquele momento, Hideki percebeu duas coisas:

1)- Ela era linda. Cabelos mel em ondas que chegavam até a cintura, um suéter um pouco roxo e frouxo para ela, uma saia azul marinho curta e sapatos pretos. Os olhos eram de um mel profundo, e usava óculos de armação. Tinha, porém, uma cicatriz enorme no rosto, que ia da ponta da boca até a mação do rosto.

2)- Ele nunca tinha visto a garota na vida. E ele conhecia todas as pessoas da rua. Entre outras coisas, apenas as pessoas que moravam naquela rua usavam o mercadinho do sr. Furui (ninguém iria ali pelo ótimo atendimento e hospitalidade).

Enquanto Hideki processava isso, a menina já tinha passado na sua frente e pagado os seus canudos e uma barra de cereal. "Pra que tantos canudos?", ele pensou consigo mesmo.

- Bom, "dançarino de vocaloid", tenho que ir. Já são quase nove horas — disse a garota. Hideki sacudiu a cabeça saindo de seu devaneio particular e pagou seu próprio chocolate — Espero que a gente não se veja por um tempo.

E saiu. Espera, ele levou um pé na bunda antes mesmo de tentar alguma coisa? Não, não pode ser... Ele correu para o lado de fora do mercadinho e gritou:

- Ei!

A garota parou de andar e olhou para trás, um pouco vermelha, como quem fez algo errado.

- D-diga!

- Qual o seu nome?

Ela sorriu.

- É Suzukaze. Amaya Suzukaze.

Ela se virou e continuou andando. Não havia ninguém na rua, ninguém olhando quando ela fez o que ela fez. Mas Hideki estava lá e Hideki viu. Ele não era louco. Ele se certificou de que não estava sonhando, mas não sabia se era pior estar sonhando ou acordado. Não importa, ele viu.

Deu uma boa olhada enquanto Amaya Suzukaze andava a rua toda e entrava na ultima casa da esquina.

Na casa abandonada.