Burning Eyes

3 Street of Dreams


Notas iniciais
Prontinho! Desculpem se demorei um pouco para postar, um bloqueio criativo horrível me atingiu ;/ Enfim, espero que gostem!

“A cidade de Wookfield é bem perto de Londres”, ela dissera. “São só algumas horas de viagem”, ela dissera. “Você chegará em um piscar de olhos”, ela dissera. Nota mental: nunca mais falar com a tia Mary sobre distâncias.

Atravessávamos uma avenida que parecia não ter fim. Apesar de já serem dez horas da noite, ela não estava deserta: uma porção de outros carros fazia o mesmo percurso, as luzes dos faróis movendo-se em zigue-zague ao nosso redor. Apesar de quase cegante, a iluminação permitia que eu observasse a paisagem local. Imediatamente à esquerda, formações rochosas margeavam a estrada; mais ao longe, uma extensa cadeia de montanhas quase tocava o céu noturno.

Durante as primeiras horas de viagem, Ethan e eu permanecemos em silêncio, o qual era quebrado apenas pela voz cortante do aparelho de GPS fixado ao carro.

– Sério, você precisa mesmo desse negócio? – perguntei, finalmente. Eu já estava com a cabeça encostada no vidro da janela, os cabelos escuros presos em um rabo-de-cavalo.

– A meger-, digo, Mary insistiu para que eu comprasse – ele fez uma careta. – Tenho a leve impressão de que ela não confia no meu senso de direção.

Não pude deixar de sorrir. Lembrei-me de todas as vezes em que havíamos ficado perdidos em acampamentos de família, simplesmente porque Ethan esquecera a bússola ou estava lendo o mapa de cabeça para baixo.

– Pensando bem, terei que concordar com ela. Você realmente precisa disso.

Fizemos uma curva brusca à direita, o que, se eu não estivesse usando cinto de segurança, teria me derrubado do banco do passageiro e causado algumas lesões graves. Virei-me para Ethan, dando meu melhor olhar de reprovação.

– Desculpe – ele me lançou um olhar de culpa, como uma criança quando faz algo sem o consentimento dos pais e acaba sendo descoberta. – Vou tentar me redimir ligando o rádio, que tal?

Rapidamente, meu primo alcançou um botão circular em um aparelho logo acima do GPS. Bom, não era um mistério que eu adorava música. Ouvia de tudo, contanto que a letra me agradasse, mas não escondia minha preferência por rock clássico. E, quando reconheci as palavras iniciais de uma música do Guns N’ Roses, minha expressão severa logo se desdobrou num sorriso.

– Sabia que você ia gostar – ele apontou para um pen drive preto, conectado ao aparelho de som. Parecia que alguém havia feito uma pesquisa de campo sobre meu gosto musical. Não que aquilo fosse ruim, pelo contrário; até que estava gostando bastante.

Após esse breve diálogo, continuamos viajando sem conversar muito, apenas comentando de vez em quando sobre o quão boa aquela banda era ou coisas do tipo. Voltei a observar a paisagem, desta vez focando nas estrelas que preenchiam o céu, ao mesmo tempo em que uma música dos Beatles começava a tocar. Porém, contra minha vontade, senti minhas pálpebras pesarem.

Fechei os olhos por um único instante, mas o suficiente para que Ethan percebesse.

– Hey Rubs, vá dormir um pouco – aconselhou ele, olhando-me com preocupação. — Prometo que não vou roubar seus livros.

Lancei-lhe um olhar relutante. Não queria admitir, mas ele tinha razão: estava realmente exausta. Eu acordava bem cedo todos os dias e, naquele dia em questão, passara o tempo todo arrumando a bagagem. Porém, por um motivo em especial, não podia me dar ao luxo de fechar os olhos por mais de um minuto. O mesmo motivo que me fazia acordar de hora em hora, todas as noites. Medo.

Lutei com minha própria consciência para resistir ao impulso de fechar os olhos mais uma vez. Porém, em um momento de distração, acabei cedendo — e nunca me arrependi tanto de algo. Naquele mesmo instante, as lembranças daquela noite voltaram à minha mente, como se nunca tivessem ido embora.

Eu estava no banco de trás do carro, encostada em um travesseiro. Havia um mapa em uma de minhas mãos, e uma garrafa d’água na outra. Um sorriso iluminava meu rosto, algo que não acontecia há muito tempo.

Na direção, havia um homem de mais ou menos quarenta e cinco anos, de quem eu herdara os cabelos escuros. Seu semblante era sério, mas havia certa doçura em seu olhar. Ele deu um sorriso tímido ao virar-se para trás, conferindo se eu estava bem. Ao seu lado, uma mulher aproximadamente dois anos mais nova estava com os olhos azuis fechados, sorrindo como se nada mais importasse. O vidro da janela estava aberto, e a brisa balançava levemente seus cabelos claros.

E eu não poderia estar mais feliz.

Porém, essa felicidade durou apenas um segundo. Só me lembro de uma luz muito forte vindo em nossa direção, tão rápido que seria quase impossível parar. Depois, o barulho. Aquele barulho ensurdecedor da colisão. Senti algo metálico atingir minha cabeça, e perdi completamente a consciência.

Logo depois, estava de volta àquela cama de hospital, com vários tubos finíssimos fixados em minhas mãos. Ouvia inúmeros sons, mas não era mais o barulho do trânsito, e sim vozes que vinham do corredor. Respirava com dificuldade, e com o auxílio de uma máquina posicionada imediatamente ao meu lado. Tentei me levantar, mas sentia uma dor insuportável em todo o meu corpo. Minha cabeça latejava e minha visão estava girando, mas consegui distinguir algumas pessoas sentadas à minha frente. Minha família. Mas não estava completa.

Não, não. Havia algo errado. Onde eles estavam? O que acontecera enquanto estava inconsciente?

Lágrimas rolavam pelo meu rosto, enquanto ouvia as palavras que esperava nunca ter que escutar.

– Rubs! Rubs!

Aquela voz familiar fez com que eu voltasse à realidade. Acordei com um salto, apoiando-me na porta esquerda da picape. A luz do sol batia diretamente em meu rosto, machucando meus olhos. Fitei rapidamente o visor do GPS: seis horas da manhã.

– Nossa, o que houve? – Meu primo perguntou, visivelmente alarmado. – Você está com cara de quem viu um fantasma.

– Ahn, não é nada, eu só... Tive um pesadelo. – Ajeitei-me no banco, enquanto ele me passava uma garrafa d’água.

Ethan arqueou a sobrancelha e ficou me encarando durante alguns instantes. Porém, antes que eu pudesse perguntar se havia algo errado, ele fez aquela pergunta.

– Ruby... Está tudo bem mesmo?

Detectei a preocupação em sua voz, e na mesma hora soube que ele não estava falando sobre o pesadelo. Estava falando sobre o acidente.

– Tudo ótimo, não precisa se preocupar.

Eu definitivamente não sabia mentir, então desviei o olhar. Aquilo já estava se tornando um hábito. No colégio, nas ruas, em todos os lugares, as pessoas me faziam aquela mesma pergunta. Não podia culpar Ethan; afinal, era a primeira vez que ele me via desde o funeral. Porém, pelo menos uma vez, gostaria de dizer a verdade. Gostaria de dizer que não estava tudo bem. Gostaria de dizer que aquilo me marcara profundamente, e que nunca conseguiria superar.

Reprimi uma lágrima, negando meus próprios pensamentos. Querendo ou não, não gostava que me vissem em meus momentos de fragilidade. Era mais fácil mentir do que deixar que as pessoas soubessem meus verdadeiros sentimentos.

Foi quando eu percebi que o carro estava parado.

– Hey, já chegamos? – Perguntei, distraída. Era melhor mesmo mudar de assunto.

– Veja com seus próprios olhos – ele apontou para a paisagem à minha frente.

Admito que fiquei sem palavras. Já o vira na fotografia no folheto que tia Mary me entregara, mas não imaginava que o castelo de Wookfield fosse tão... tão... tão incrível. Já lera tudo o que podia sobre castelos medievais, mas nunca vira um pessoalmente, o que só me deixou mais maravilhada. Suas altas paredes eram feitas de pedra, para protegê-lo de invasores – já que não era circundado por um fosso com água. Também não havia a tradicional ponte levadiça dos castelos da época, mas isso não o tornava menos encantador. Havia uma porção de torres, onde provavelmente se posicionavam os arqueiros. A construção apresentava poucas janelas, mas estas eram bem distribuídas, e imaginei que tivesse sido construída no século XII, no máximo no século XIII.

– Uau. – Foi só o que consegui dizer.

Na grama em torno do castelo, um grupo de mais ou menos quinze pessoas admirava a arquitetura do local. Pelas mochilas que carregavam, imaginei que aqueles seriam meus colegas de acampamento, com os quais conviveria durante dois meses. Logo à frente deles, um homem alto que deveria ser o instrutor apontava para a construção, pronunciando algo que não consegui entender, devido à distância.

Aposto que meu primo percebeu o brilho em meus olhos, porque se apressou em abrir a porta da picape.

– Você não quer ficar só admirando, suponho. – Ele se dirigiu ao porta-malas, sorrindo ao perceber que eu realmente não conseguia desviar o olhar do castelo. – Então, o que acha de nos juntarmos a eles?

Notas finais
Obrigada por lerem! ♥ Bom, acho que já deu para notar a paixão da Ruby por castelos... e_e
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.