Burning Desires
1 Capítulo Único.
Notas iniciais
– Aí, Marcão, dá pra vir aqui lutar comigo? Pelo menos o Zé aprende como é que se faz... – debochou do amigo.
– Foi mal, Duca, é que eu prefiro mil vezes agarrar aquela coisinha ali, — apontou para Pri, que endireitava suas luvas. — do que o seu suvaco catinguento.
Marcão explodiu em risos, o baiano sempre desconfiara dos sentimentos do amigo.
– Nossa, parceiro, mas você tá cheio de moral pra falar do Zé...Já tô no ringue e você aí com essa cara de pamonha. – falou para Duca.
– Nem fale de pamonha... – passou Karina como um vulto, com Pedro gargalhando ao seu lado. Com certeza aquela “declaração” ficara pra história.
– Duca?
– Foi mal, Marcão, eu... – nem encarava o amigo, seu olhar estava fixado à porta.
Natália Barreto, ou simplesmente Nat, conversava animadamente com Lobão. Ele já pedira exorbitantemente para que ela se afastasse, mas a validez do pedido era completamente nula para a garota. O gênio difícil da lutadora justificava todas as suas “cortadas” no preferido do mestre.
Será mal de academia? Pensava Duca. Só aquilo para explicar tamanhas personalidades explosivas, no grupo feminino do “Centro de Artes Marciais do Gael”. Já isentara Fabi dessa lista, mas desde o dia em que ela quebrou o dente de Marcão por fotografar sua calcinha, mudara o conceito.
– O treino já vai começar, Nat. – pronunciara o neto de D. Dalva, com expressão austera.
– Oi, Carlos Eduardo. Bom dia pra você também. – comentou Lobão, sarcástico.
– Eu não te dei bom dia. Pessoas da sua índole não merecem qualquer tipo de saudação. – o dono da Khan ergueu os braços numa simulada rendição, prosseguindo a conversa com Nat.
– Mas, pensa bem no que eu te falei, gatinha... – piscou para a moça, que no momento estava impaciente com os olhares do moreno ao seu lado. – Deixa eu ir, preciso treinar lutadores de verdade. – frisou as últimas palavras.
– O que esse babaca queria contigo?
– Algo que não lhe interessa. – sorriu cínica.
– Anda, Nat, fala. O que ele perdeu aqui?
– Quanto a ele,não sei, mas você com certeza perdeu sim: a noção, pra achar que pode se meter na minha vida. – ia passar, quando sentiu seu braço ser puxado.
– Qual é a tua, Duca? Vive no meu pé e agora quer pagar de preocupado?
– Mas... Eu me preocupo. – ela amoleceu num instante. Logo, voltou à indiferença. – Nat, esse cara não presta. Você sabe disso e mesmo depois de tudo insiste em dar trela pra ele?
– Duca, tenta entender, eu...
– Desculpa, mas eu não vou entender nunca. – interrompeu com os olhos fixos nos dela. Tinha o desapontamento estampado em seu semblante.
Assim, retornou à academia, deixando-a pensativa. O resto do dia não trocaram palavras, muito menos provocações, o que atiçava a curiosidade dos demais lutadores.
“Nat, esse cara não presta. Você sabe disso e mesmo depois de tudo insiste em dar trela pra ele? “
Mesmo após algum tempo, a frase dele permanecia dominando sua mente. Quando chegara na cidade, a garota fora incentivada por Lobão a frequentar sua academia. Lutar era sua principal motivação na vida, desde que perdera os pais. Sem familiares próximos, alugara uma quitinete num bairro próximo ao Catete e investia ferrenhamente no seu sonho. Quem sabe não virasse uma lutadora famosa e mudasse de vida? Esse seu desejo era, por várias vezes, acendido por Lobão. Este,enchia-lhe de esperança e promessas... Numa academia de lutadores tão temidos e profissionais, era difícil não levá-las a sério.
Certo dia, Lobão convenceu-a a ficar por mais tempo treinando. Usara como artifício uma competição próxima para novatos e ela, sem pestanejar, aceitou. Num esforço nulo, logo mostrou suas reais intenções. Tentara assediá-la, o que, obviamente, fez com que a mesma se descontrolasse. Aplicava-lhe empurrões, tapas, porém, ele não saía do lugar. Além de ser visivelmente mais forte, já era mais do que experiente em lutas. Voltando pra casa, Duca ouviu o barulho da discussão e interviu, mas obviamente teve o pior saldo.
Já em sua casa, o rosto, cheio de machucados, era cuidado por Nat, que sentia vergonha por ter aparentado fraqueza e ao mesmo tempo culpa, pelo estado do garoto. Ao ver que ele pertencia à academia rival, fora extremamente rude. Coisa, aliás, que a fizera se arrepender dias depois...
Gael, após Duca contar-lhe todo o acontecido, ficou interessado em tê-la no seu estabelecimento. De início, recusara, mas preocupada com o seu futuro e sabendo que a academia era uma das melhores, ingressara lá, o que em nada agradou o amigo de Zé e Marcão. Nat havia até tentado se aproximar, mas de cara já fora recebida grosseiramente por ele, que ainda desconfiava de todas as suas atitudes, só porque ela viera da Khan. Desde então persistira a constante sensação de combate, sempre que estavam presentes no mesmo local. Agora, Duca já não desconfiava dela, mas notoriamente, as provocações continuaram. Já havia virado algo costumeiro.
– Sai da minha cabeça! – resmungava, curvada em frente ao espelho. No banheiro da academia, jogava água em seu rosto, a fim de aliviar a tensão.
– Falando sozinha, Nat?
Fabi aparecera de repente.
– Oi, Fabi. – sorriu. – Só pensando alto mesmo...
– Eu juro que nunca vou entender esse seu relacionamento com o Duca.
– O quê? Mas, quem falou em Duca aqui? –endireitou-se apreensiva.
– Nem precisa! Vocês praticamente se ignoraram o dia todo...O que não é comum, claro, já que um vive para irritar o outro.
– Só tô um pouco pilhada com o Duca e essa mania dele de se meter em tudo que eu faço. Uma hora ele me trata mal e inferniza a minha vida. Em outra já fica atrás de mim o tempo todo. Parece até mania de perseguição!
Fabi riu.
– Vocês são perfeitos juntos, sabia? Dariam um belo casal “morde e assopra”.
– Você também ficaria perfeita... Sabe com o que? Um esparadrapo na boca! – brincou.
– Mas, sério, qual foi o motivo dessa vez?
– O de sempre, né? Lobão.
O mestre da Khan, mesmo com toda a confusão que ocorrera, não havia deixado de atormentar Nat. Mas, apenas com piadinhas incabíveis mesmo, pois sabia que se ousasse encostar nela, o “politicamente correto Gael”, como ele dizia, tomaria as rédeas e ele não gostaria de perder sua academia por conta de uma mulher.
Já ela, mesmo irritada com Lobão, amava o estado que Duca ficava ao vê-los juntos. Mas, agora, além disso , estava preocupada, pois o dono de sua atual academia era inflexível quanto a participação de mulheres em campeonatos . Karina se via louca com o jeito intransigente do pai e eles viviam em briga. Por isso, o ex-treinador enchia sua cabeça com propostas relevantes. Ela não pensava em voltar, claro, mas Lobão conhecia investidores importantíssimos, a exemplo de Heideguer e ela precisava muito no momento.
– Vamos logo, Fabi, antes que Gael nos leve arrastada pra treinar! – riram.
******
– Espera aí, sua maluca! Pra onde é que cê vai?
– Que foi, Fabi? Vai ficar de babá? – brincou, sorrindo de leve. – Eu vou fazer o que mais estou precisando pra esquecer esse dia insuportável: beber!
– Ai, mas você não tem jeito, né? – riu.
– Vem comigo?
– Claro que não,Nat, amanhã acordo cedo pra treinar. Além do mais, eu sou a responsável da relação, esqueceu? – brincou.
– Ok, minha esposa...Agora já vou. Preciso me arrumar que a noite me chama!
– E o barman também, né?
– Se ele for gato...Quem sabe? – soltou beijo para amiga, não deixando de notar o olhar do lutador, atento à sua conversa. – Enfim, tchau, Fabi. Até amanhã!
[...]
– Ô Duca, vamos sair hoje? Vai rolar inauguração de uma boate lá perto de Marechal Hermes. – convidou Zé, na porta da academia.
– Não sei não...Boate dia de semana?
– Ah, para de ser certinho, cara! – resmungou Marcão. — Aproveita a oportunidade que a vida tá lhe dando de curtir e ainda pegar umas gatinhas! – esfregou as mãos uma na outra.
– Tá, eu vou.- disse consistente. – Aliás... não vou poder. Quem vai ficar com a minha avó se a Sol tem ensaio hoje?
– Não se preocupe, querido. – chegou de surpresa, acompanhada por Wallace. – O ensaio da “galera da Ribalta” foi suspenso...Então eu posso ficar com a D. Velha hoje.
– Ótimo! – disse Zé. – E aí, Wallace, vem com a gente na boate nova?
– Nem morta que eu vou deixar o meu negão solto num lugar cheio de “piriga”! O que olhos não veem, a testa não sente. – simulou chifres.
– Eu prefiro ficar com a minha gata. – abraçou-a por trás, depositando um beijo em sua bochecha. – Outro dia a gente marca uma saída.
Após todos se despedirem, Duca foi para sua casa se arrumar. O mesmo com a garota, que logo saíra, afinal, não sabia o quanto poderia demorar para um táxi aparecer.
[...]
Chegando lá, ele percebera o lugar lotado, até porque era inauguração. No mini bar, localizado próximo ao palco, olhara repetidas vezes para uma garota sentada próxima ao balcão. “Não...não podia ser.”, pensava.
Chegando mais perto, pode concluir a coincidência dos fatos: Nat. A ex-aluna de Lobão virava o copo, de uma bebida não reconhecida por Duca. Estava maravilhosamente bela em sua calça jeans apertada, com rasgos e jaqueta de couro preta.
– Eu sabia que você era louca por mim, mas vir até aqui para me acompanhar não estava nos meus planos... – disse Duca.
– Eu, louca por você? – gargalhou. – Nem nos meus piores pesadelos! E a propósito, cheguei primeiro...É muito mais fácil eu acreditar que VOCÊ veio me acompanhar. – sorriu desafiadora.
– Tem razão... – fez reverência. – Eu até ouvi você falando com a Fabi alguma coisa sobre dar uma saída, mas, juro que foi realmente uma coincidência te encontrar. – fez sinal com os dedos, como se oferecesse um juramento.
– Senta aí... – indicou o lugar ao seu lado com a cabeça. — Bebe alguma coisa. Pelo menos sai daquela pose de certinho, de politicamente correto, por um dia, ou melhor, noite...
–Agradeço o convite, mas não vou beber hoje. – Nat revirou os olhos. – No máximo um drink. Pelo jeito que Zé e Marcão estão empolgados, acho que eu terei que dirigir na volta. – sentou-se onde ela havia indicado.
– Me dá mais um desse aqui. – falou com o barman, apontando para o líquido restante no copo. Voltou a encarar Duca. – É. Pensando por esse lado, você tem razão.
– Aqui está sua bebida. – o Barman entregou a ela.
– Obrigada.
– Eita! Vai devagar, garota! – repreendeu, ao vê-la entornar o drink de vez. – Quer entrar em coma alcóolico?
– Tô começando a achar que a Fabi te contratou pra me vigiar. – brincou, fazendo Duca rir.
– Quem te contou?!? – fingiu espanto. – Mas sério, Nat, manera aí!
– Relaxa...Não é como se eu fosse ficar travada, doidona, ou coisa do tipo...
[...]
– ÔÔÔ, ÔÔÔ ÔÔÔÔ, ALEGRIA, ALEGRIA... ♫ — Pulava no centro da pista, esbarrando em várias pessoas. – Ôpa, me dá esse aí. – pegou uma bebida da bandeja, no mesmo instante em que o garçom, de corpo esguio, passava.
– Mas, esse drink é para aquela mesa ali e...
– Shiiiii... – pôs o dedo indicador nos lábios do jovem funcionário. Este, decidiu não discutir, notoriamente a sobriedade da garota esvaíra-se há tempos...
– Nat! – chamava o neto de D.Dalva, indo ao seu encontro, porém fora barrado pelo mesmo garçom de anteriormente.
– O Sr. está com ela? – Duca permitiu-se rir pela forma da qual fora chamado. “Senhor” era, no mínimo, engraçado para um rapaz de 19 anos, cursando economia, que ainda morava com a avó.
– Sim, estou.
– Aqui está a nota do drink que ela acabou de pegar. – Retornou ao trabalho, ao passo que Duca guardava o pequeno papel em seu bolso.
Por um minuto a perdera de vista, mas logo foi possível tê-la em seu campo de visão. Batia o cabelo de um lado a outro, chamando a atenção da maioria.
–Vem comigo, Nat...NAT,OLHA O PÉ DA MOÇA. – sorriu sem graça para a loira que passava. – Desculpa. – ela saiu irritada. – Vamos embora que você já tá “em alta” aí. Daqui a pouco está fazendo besteiras!
– Você parece um velho...Aliás, até a D. Dalva é menos antiquada que você. – ele bufou. – Não se preocupa não, lutador, eu estou ótima.
– Uma pessoa que se embriaga com... – remexeu o bolso da calça, procurando o papel. – “Levanta capeta”, não parece estar tão bem assim não.
– Ai, tá, tá...Eu prometo que vou me comportar. Vou até sentar contigo ali no balcão, satisfeito? – deu um sorriso cínico.
– Muito. – devolveu o sorriso.
*****
– Oi, você está sozinho aqui? – uma morena com cabelos, que mais pareciam uma cortina negra fluindo sobre suas costas, atirava-se sem o mínimo de disfarce.
– Na verdade não...Eu tô com ela. – apontou para a lutadora, que ergueu o copo em direção da mulher, debochadamente. Assim que o fez, recebera em resposta um olhar contendo uma carga tão negativa que não caberia na narração.
– Só uma dança...Tem certeza que não pode ir? – insistiu.
– Tenho. – o garoto já estava impaciente, odiava mulheres atiradas. Nat, gargalhou, deixando a moça de nome não revelado ainda com mais raiva.
– Adorei o bracelete... – comentou a “acompanhante” do lutador.
– Obrigada. – sorriu falsa.
– O bracelete, não você. – Duca passou a mão no rosto, constrangido.
– Credo! Que grosseria, garota!
– Acredite, é minha maior qualidade... – sorriu, tentando se equilibrar.
– Chega, Nat! – olhou para os lados, notando que a moça havia saído de perto deles. – Vem, vou te levar para casa.
– Huuum... – olhou-o com malícia.
– Não nesse sentido! – ela fez bico.
Logo, a expressão frustrada mudara para uma genuína alegria.
– Eu.Amo.Essa.Música! WIGGLE,WIGGLE,WIGGLE ♫ — correu, chegando aos tropeços, no meio da pista.
Duca não pode deixar de sorrir, indo atrás dela.
– Dança comigo, vai? – a morena iniciou uma dança, que para ela era sexy, mas quem via de fora achava, no mínimo, cômica.
– Vamos embora, sua louca. – ria, enquanto ela enlaçava seu pescoço. — Do jeito que te conheço, tenho quase certeza de que você vai pedir pra morrer quando te contar o que fez hoje.
– Então vamos aproveitar enquanto estou viva...
Encaravam-se como se um pudesse ler a alma do outro, pura e intensamente. Foi quando ela o beijou. Apenas um selinho, mas isso não o desmerecia em nada. Era tão profundo quanto demais carícias.
Repreendendo-se pelo estado da garota, Duca afastou-se dela, mantendo a promessa de leva-la de volta, claro, após se resolver com Zé e Marcão:
– Você é um chato!
– Acredite, é minha maior qualidade... – debochou, repetindo sua fala de anteriormente.
[...]
Já no apartamento dela, o rapaz concebeu a ideia de dar-lhe um banho. Só a água fria para trazê-la mais rápido à sobriedade, pensava. Se bem que após os minutos em que passara com ela no elevador, a sós, poderia afirmar estar igualmente necessitado.
– Nat, consegue tomar banho sozinha?
– Acho que sim... – foi cambaleante até o seu quarto. Ele a seguiu.
– Olha, toma seu banho que eu vou fazer um café bem forte, tá? – assistia ela se jogar com tudo em sua pequena cama de solteiro. – Onde é que você coloca xícara, talheres, essas coisas...?
A aluna de Gael explodiu em gargalhadas ao cair no chão.
– É...acho que terei que procurar sozinho...
[...]
Quando retornou para o quarto e encontrou-o vazio, voltou preocupado a procurá-la. Estava ainda no banheiro vomitando até as tripas, se duvidassem. Após ajuda-la a lavar o rosto, Duca a trouxe para o quarto:
– Toma isso aqui. – ofereceu a xícara, com o líquido quase intragável pelo amargor. – Vai ajudar.
A lutadora expôs uma careta, após bebericar um pouco do café.
– Isso é horrível!
– Mais horrível ainda será sua ressaca, se você não tomar.
Ao fazê-lo, recostou-se em sua cama. O moreno preparava-se para sair, quando ela puxou-o de volta.
– Fica...
– Eu não vou embora. – sorriu. – Só vou deixar essa xícara na pia.
Na volta, sorriu ao vê-la agarrada ao travesseiro, toda encolhida. Estava de olhos fechados, mas não dormindo, aproximando-se do colo do rapaz.
Ele lhe afagava os cabelos, enquanto a analisava por completo. A forma que dependia dele naquela noite, que lhe conferia certo ar de fragilidade, a sutileza presente em seu rosto, que tanto fazia questão de esconder. Tudo. Tudo o encantava no momento.
– Tô doido, meu Deus... – sussurrou, com um sorriso que ousou escapulir.
Aliás, desde que entrara na academia, deixara-o assim. Doido.
– Duca... – articulou quase inaudível.
– Oi, Nat.
– Obrigada...
– De nada, marrenta.
– Não te acho tão chato assim... – a declaração fez com que ele sorrisse.
– Não te acho tão implicante assim... – respondeu.
Ela fechou os olhos ficando aos poucos com a respiração mais leve. Não demorou muito para que ele cochilasse também.
[...]
– Bom dia, “Maria cachaça”!!! – o rapaz a cumprimentou com um entusiasmo surpreendente para quem acordou diversas vezes, devido ao desconforto que o velho móvel propiciara. – Quer dizer...Quase dia, né?
– Oi, Duca. – caminhou até a porta, olhando o relógio de parede. Eram 5h da manhã. – DUCA?!?!? – Parou de súbito. – Quê que você tá fazendo aqui? – questionou, tentando se cobrir por conta da curta camisola que vestia.
– Muito obrigada, querido Duca, por ter me tirado de uma festa cheia de caras dando em cima de mim, enquanto eu, bêbada, dançava “Wiggle”, no meio da pista. – imitou desastrosamente a voz dela.
– EU FIZ O QUÊ?!? – sentou na cama, incrédula.
– Isso mesmo que você ouviu.
– Eu.Quero.Morrer.
– Sabia que você ia falar isso... – sorriu. – Aliás, sabe o que você me respondeu?
Ela meneou a cabeça, negando.
– Que a gente deveria aproveitar, enquanto você estava viva. – A lutadora tapou o rosto, envergonhada.
Duca sentou ao seu lado, removendo as mãos que estavam em sua face.
– E o que mais? – pronunciou Nat quase em sussurros, encarando-o.
– Você se aproximou de mim... – assim o fez. – aí a gente se olhou... — a encarava, realizando todos os atos descritos por ele. – e então a gente...
– A gente...? – Encorajava-o a falar, numa proximidade significativa.
– A gente... – Estava prestes a beijá-la, quando um barulho rompeu toda a conexão que mantinham.
– Desculpa, é o meu despertador. Programo-o para tocar diariamente, esse horário, para eu me arrumar pra academia.
Ele assentiu, a observando colocar os fios bagunçados do cabelo, por trás da orelha.
– Espera um pouco, eu vou aqui e já volto. – pronunciou a morena.
Após realizar todo o seu ritual de higiene dentária, retornou para o quarto, estranhando a expressão do garoto.
– Por que você tá com essa cara? — Ele sorriu torto. – Ih...Você tá muito estranho, Duca. Quê que foi, hein? – cruzou os braços.
– Nat, quer sair comigo amanhã à noite?
Encarou-o confusa, com um sorriso brincando nos lábios.
– Tá, eu sei que amanhã é dia dos namorados, mas, sei lá... – iniciou ele, nitidamente nervoso. — a academia não vai funcionar, K vai sair com Pedro, Sol com Wallace, Zé quer levar a Pri pra sair, fora a Bia com o João – citou o mais novo casal de namorados do Catete. – Gael com a Dandara e...eu tô falando sem parar! – riram.
– Enfim, Nat, eu não quero gastar um dia de folga, assistindo a uma programação repleta de romances previsíveis, com direito à músicas romanticamente depressivas e ouvindo sobre histórias de casais. Acredito que você também não, certo?
– Certo. – sorriu.
– Então...Sai comigo? – Pediu, de frente para ela.
– Vou pensar... – enrolou uma mecha de cabelo. – Quem garante que eu não terei algo importante para amanhã? Acha que eu sou tão fácil assim, lutador? – arqueou uma das sobrancelhas, fazendo-o rir.
– Olha, eu vou ter que ir agora. Sol precisa voltar pra casa e não posso deixar minha avó sozinha.
Virou-se, tomando como apoio uma pequena cômoda de madeira envelhecida, na qual rabiscava o que parecia ser um envelope antigo de depósito bancário.
– O que é isso aí, Duca? – tentou se aproximar, mas ele a puxou para o outro lado, impedindo-a de ver.
– Tchau, marrenta... – beijou o topo de sua testa, saindo em seguida.
Curiosa, pôs-se exatamente onde ele havia estado, segundos atrás. Ao abrir o papel, não pode deixar de sorrir:
“ 20h no D’Rizzi. Passo aqui para te buscar. P.S: Vá bem vestida, afinal, sabe como funciona essas coisas do “dia dos namorados, né?”
No mesmo instante, ouviu o soar do seu aparelho telefônico, indicando uma nova mensagem:
“ P.S²: Não é um encontro...Só um passeio descompromissado, antes que você pense em me dar um bolo. Certo? “
– Certo, lutador... – vociferou, pensando na noite seguida.
******
Às 20h como o combinado, o “menino dos olhos” de Gael, estacionara seu carro, em frente à residência da amiga de Fabi.
Seus olhos mal puderam acreditar no que viam. Nat transcendia todo e qualquer conceito de belo. Usava um vestido preto, condizente com a ocasião, que delineava todas as suas curvas muito bem definidas. Com o uniforme da academia dava para se ter uma leve noção do corpo impecável, mas com trajes mais curtos, tornara-se quase um atentado à sanidade.
O cabelo, com leve ondulação, fluía sobre sua face meticulosamente maquiada. Os lábios, no tom mais provocante de vermelho.
– Nossa... – Exclamou o rapaz, boquiaberto.
– Creio que isso seja um elogio... – sorriu. – A propósito, você também não está nada mal. – provocou-o, encostando-se na lateral esquerda do carro.
– Espera! Eu abro. – levou-a para o outro lado, acomodando-a no banco dianteiro.
– Desse jeito eu vou achar que é mesmo um encontro... – ponderou, observando-o ocupar seu lugar. Esse, apenas sorriu com o mencionado, dando de ombros.
[...]
– O que gostariam de pedir?
– Hum...Acho que “massa ao pesto”, para mim e “Ravióli ao molho de cogumelos”, para a moça. – piscou para Nat.
– Ótima sugestão. – disse o garçom, anotando o pedido. – E para beber?
– Um vinho. Como não entendo muito, prefiro que o senhor escolha, mas, por favor, uma garrafa pequena, tá?
– Certo, com licença.
Nat ria numa sonoridade quase nula, parecendo um tanto perplexa.
– O que foi? – Perguntou Duca.
– Como você adivinhou que eu gostava de ravióli? E pior: de cogumelos também?!?
Ele apenas sorriu torto, de forma que lhe conferia um ar de mistério.
– E por um acaso, o tamanho da garrafa de vinho foi uma indireta para mim? – franziu o cenho.
– Desculpe se soou como uma afronta, senhorita. Eu jamais imaginaria que tens alguma relação conturbada com o álcool. – riram.
– Como estou me saindo? – Ele questionou.
– Bom...Por enquanto eu te daria um 7,0.
– Só?
Ela deu de ombros.
– A noite está só começando...
[...]
Minutos depois, o garçom retornou com os pedidos. Após o “pseudo-casal” aprovar o vinho, ele os comunicou:
– Espero que gostem do menu. Vocês pagarão apenas metade do que consumirem.
Pareciam confusos, então o homem grisalho complementou:
– Desconto especial para os namorados. – Nat e Duca se entreolharam, sendo a primeira, quem logo desviou.
– Mas, nós não...Obrigada. – desistiu de explicar, por fim, deixando Duca mais do que satisfeito.
Sorriram, após uma intensa troca de olhares.
– Tenham uma boa noite. – O senhor retornou aos seus afazeres.
[...]
– E então, marrenta... – iniciou, parando de frente à porta da aluna de Gael. – Que nota eu mereço agora?
– Hum...Acho que um 9,0.
– Só isso?
– É. Por ter me chamado de “marrenta”. – cruzou os braços. – Tá...9,8 pra você não ficar se achando o máximo.
– Vou considerar como um 10,0. – sorriu.
Após certo tempo, num pleno e torturante silêncio, Nat resolveu quebrá-lo:
–Então...
– Então... – repetiu o rapaz, aproximando-se dela.
Os olhares de ambos percorriam o mesmo caminho: os lábios um do outro. Não contendo-se mais, Duca puxou-a pela cintura, beijando-a com ímpeto. Pareciam querer devorar a boca do outro, num sentimento recíproco de volúpia. Nat fora imprensada na porta, sentindo o corpo definido do lutador encobrir o seu. Da mesma forma ágil que o beijo começara, chegara ao fim. Por ter sido tão voraz, suas energias logo se esvaíram, cessando também o controle de suas respirações.
Já afastados, ouviam o ofegar de ambos, esperando quem tomaria a iniciativa de uma conversa.
– Eu havia ensaiado na minha cabeça como seria essa noite. – sussurrou Duca. – Várias e várias vezes... – A morena sentiu o palpitar de seu coração, após absorver a informação dada pelo neto de D. Dalva. Esperou ele dar continuidade. – Mas, acho que esqueci de planejar o que acontece nessa hora.
Ela sorriu, com a mão em sua nuca.
– Você não faz mesmo a mínima ideia? – questionou, quase que retoricamente, buscando em sua bolsa a chave da porta.
Ele piscou vezes seguidas, pensando estar equivocado. Então ela puxou-o pela mão, levando-o para o seu quarto. Foi quando ele enfim percebeu.
– Nat...Tem certeza?
A motoqueira acariciou o seu rosto e eles se beijaram novamente. Dessa vez, num ritmo mais lento.
– Absoluta. – a voz falha, pelo nervosismo, saiu como um sussurro.
Após trancar a porta de seu quarto, sentiu arrepios com as mãos do moreno explanando suas costas. Arfou quando os dedos dele foram em direção ao zíper do seu vestido. Abrindo-o, lhe foi revelado um corpo digno do melhor dos elogios, e esses, pareceriam ícones do eufemismo, perante silhueta tão bem definida e curvilínea, debaixo da lingerie preta, com esboços de renda.
Nat retirou os sapatos com destreza, enlaçando-se ao lutador, que a deitara em sua cama de solteiro, subindo em cima dela. Com o gesto, despencaram do estreito móvel, chocando seus corpos contra o tapete felpudo, posicionado ao chão.
– Acho que isso não estava no script...
Comentou Duca gargalhando, em seguida, com a garota. Ao cessarem os risos, toda a vontade de pertencerem um ao outro retornara assiduamente. A lutadora retirava a camisa do rapaz, até então por cima dela, passando a mão pelo seu peitoral.
Brevemente, ele retirou a calça jeans que vestia. Erguendo-a delicada, porém, firmemente, pode alcançar o feixe de seu sutiã. Prestes a abri-lo, notou que a mulher defronte a ti fechara os olhos, com a bochecha levemente ruborizada.
Suspiravam pesadamente. Duca aplicava beijos por todo o pescoço de Nat, quando interrompeu bruscamente, fazendo-a abrir os olhos:
– Que foi, Duca? – perguntou ofegante. Suas bocas, a centímetros irrelevantes de distância.
– Você não vai me expulsar depois, como a “Nat marrenta” faria, vai?
– Claro que não! – riu incrédula.
– Sei lá, quem sabe poderia ser algum tipo de vingança...Ou alguma zoação...ou então uma...
– DUCA. – interrompeu. – Cala.a.boca!
Sorriram, promovendo o encontro de seus lábios.
De imediato, as brigas, as provocações e diferenças, dissiparam-se perante a descoberta de um sentimento tão completo. Amor. Sabiam, mesmo que internamente, a dimensão e veracidade dele. E inebriados em tal sentimento, que logo se entregaram um ao outro. Logo tornaram-se um só...
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