Burning
1 Prólogo
Notas iniciais
Abro os olhos para uma escuridão tão densa, que não consigo enxergar nem minhas próprias mãos diante de meu rosto. Sento-me na cama, de colchão tão duro que é o mesmo que me sentar sobre uma barra de ferro. Fecho os olhos e concentro toda a minha energia em minhas mãos. Depois de alguns segundos, sinto um calor emanar delas, e abro meus olhos só para ver as chamas alaranjadas que saem dos meus dedos, iluminando toda a minha cela. É um quarto, mas se parece tanto com uma cela de prisão, que não consigo pensar nele de outro jeito.
Olho pela janela, que na verdade é um buraco na parede com grades para impedir a saída dos “pacientes”, e percebo que ainda não amanheceu. O silêncio reina em todo manicômio.
Ainda com a cela iluminada, deixo minha mente vagar, e como sempre ela vai para o único pensamento que eu quero evitar: O motivo de eu estar aqui. Nesse lugar terrivelmente enlouquecedor.
Ao contrário de outras lembranças, essa continua intacta em minha mente. Lembro-me perfeitamente daquele dia.
“O céu estava lindo! Iluminado por um sol escaldante. Era dia 23 de novembro, e todos os terceiros anos iam a uma excursão de despedida, já que nos formaríamos dali duas semanas. Estávamos todos na frente da escola esperando o ônibus chegar, para nos levar ao melhor parque de diversões da cidade. Eu usava um vestido azul escuro e sapatilhas corais.
Stella – minha melhor amiga – havia acabado de chegar, e nós duas conversávamos animadamente em um dos bancos de cimento que ficava na entrada do colégio. Perecia um dia perfeito.
Foi então que um carro parou derrapando, e dele saíram dois homens armados. Um deles anunciou o assalto. Todos entregamos nossos pertences a eles, mas quando passaram por nós, eles reconheceram Stella.
Stella é filha de um dos empresários mais ricos do estado, por isso havia várias fotos dela em revistas. E quando os assaltantes a viram perceberam que um seqüestro renderia mais dinheiro do que um simples assalto em frente a um colégio do ensino médio. Então agarraram-na pelos pulsos e a imobilizaram. Eu estava paralisada, não sabia o que fazer... Foi então que um deles apontou a arma para a cabeça dela.
Naquele momento, vendo minha melhor amiga nas mãos de seqüestradores, eu perdi a cabeça.
Sem pensar no que estava fazendo, avancei neles para tirar Stella dali, mas assim que encostei em seus braços, eles entraram em combustão.
Stella fugiu para o mais longe de mim e das duas tochas humanas que continuavam a queimar. Seus gritos penetraram em mim, torturando-me. Mas eu não sabia o que fazer para ajudá-los. Na verdade eu nem sabia como havia feito aquilo.
O som de sirenes ecoou no local, mas eu ainda não conseguia me mexer. Não conseguia mexer um músculo sequer. Estava completamente em choque. Nesse momento senti uma pancada na nuca, e então tudo ficou escuro.”
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