Burning
29 Capítulo 25
Notas iniciais
CAPÍTULO 25
Enquanto eu andava cercada de árvores e arbustos, em direção a cachoeira que Nathan encontrara, o sonho que eu tivera enquanto dormia sozinha na floresta não saia da minha mente. As imagens iam e vinham à minha cabeça e eu não conseguia parar de pensar em como eu queria desesperadamente tudo aquilo. Era óbvio que o meu sonho nunca seria real, as minhas escolhas me levaram para longe da minha família e a minha natureza sobrenatural vetaram qualquer chance de eu um dia me formar em Stanford.
– Chegamos. – Nathan anunciou.
Com o meu pensamento distante, eu mal havia notado o som das águas correntes da cachoeira, que agora estava extremamente alto, bloqueando os outros sons sutis da floreta.
A cachoeira tinha águas cristalinas que cintilavam sob a luz do sol que atravessava a copa das árvores. Haviam pedras grandes, algumas delas cobertas de musgo, posicionadas aleatoriamente na margem e pedras pequenas forravam o chão debaixo das águas.
Sem pensar duas vezes, corri até a margem da cachoeira, me abaixei e enfiei as mãos em concha na água, levando-as à boca e bebendo desesperadamente.
Assim que minha sede foi erradicada, levantei a cabeça e vi que Nathan me encarava.
– O que foi? – perguntei envergonhada. Devia estar parecendo uma selvagem bebendo água desse jeito.
– Nada. – respondeu desviando o olhar.
– Não vai beber? – perguntei apontando para a cachoeira.
– Bebi um pouco antes de ir buscar você. – admitiu, tirando a mochila das costas e pegando as garrafas vazias e se agachando ao meu lado para enchê-las.
Nathan havia acabado de pegar no sono e eu estava deitada de costas no chão poeirento com o meu exemplar de Orgulho e Preconceito em mãos. Vez ou outra eu desviava os olhos das páginas gastas e encarava a água convidativa. Fazia quase um dia um dia desde que eu tomara banho pela última vez e já estava suada e suja o suficiente para querer fazê-lo de novo. Olhei para Nathan. Ele dormia profundamente em baixo de uma árvore há dois metros de onde eu estava. Olhei novamente para a água. Não me parecia uma idéia ruim tomar banho agora, desde que eu me apressasse e terminasse antes de Nathan acordar.
Fechei o livro e o coloquei no chão cautelosamente. Peguei minhas coisas tentando não fazer barulho e caminhei até a margem da cachoeira. Sem tirar os olhos do garoto adormecido, despi-me rapidamente e entrei na água gelada, feliz com a temperatura.
Tomei banho o mais rápido que consegui, esfregando minha pele para retirar os vestígios de suor e terra que a deixavam grudenta e pegajosa. Certifiquei-me de que Nathan ainda estivesse dormindo antes de sair da cachoeira e me secar com o moletom cinza que eu havia trazido e provavelmente não iria usar, levando em conta o calor que fazia por aqui.
Estava vestindo a última peça de roupa, quando ouvi o farfalhar de folhas secas e Nathan se sentou com os olhos abertos e alertas. Ele me lançou um olhar confuso quando me viu com o cabelo molhado e trajando roupas limpas, porém, depois de um momento, pareceu entender e sorriu maliciosamente.
– Seria muita sorte se eu tivesse acordado há alguns minutos atrás. – falou.
– Nesse caso, — disse. – é sorte minha você ser tão azarado.
Ele riu e se levantou me olhando com os olhos azuis profundos. Como pretexto para não ter que olhá-lo de volta, me agachei recolhendo minha roupa suja do chão e guardando-a na mochila de qualquer jeito. Virei-me para ele e notei que não me encarava mais e sim a cachoeira a sua frente.
– Acho que vou seguir seu exemplo... – antes que eu pudesse compreender suas palavras, ele retirou sua camiseta preta desbotada, sobressaltando-me. Mesmo surpresa com o seu gesto inesperado, não pude deixar de admirar seu corpo forte e musculoso. Meu olhar foi interrompido quando ele se abaixou para tirar os sapatos. Rapidamente, virei as costas para ele, antes que pudesse me distrair novamente. – O que foi? O que esta fazendo? – ele parecia confuso, julgando pelo tom de voz.
– Dando-lhe privacidade. – informei-o.
– Eu não me importo que você...
– Mas eu me importo – o interrompi. Eu sabia que ele devia estar sorrindo agora, provavelmente zombando da minha inocência, mas não me importei. Segundos depois, ouvi um som que indicou que ele acabara de imergir nas águas.
Continuei de costas para ele e andei até onde havia colocado meu livro e me sentei no chão para ler enquanto esperava.
Não foi fácil me concentrar no livro, a idéia de Nathan tomando banho atrás de mim me incomodava, me constrangia. Sem contar que ele ficava cantarolando uma canção desconhecida, tornando ainda mais difícil a minha leitura. Por isso, quando finalmente terminei de ler a página na qual estava fazia uns dez minutos, não tinha idéia do que havia lido. Depois de ler a mesma página mais de cinco vezes, ele me chamou.
– Pode olhar agora, Lorena.
Não sabia se acreditava ou não nele, então dei uma espiada pelo canto do olho para me certificar de que ele estava devidamente vestido antes de me virar completamente.
Ele sorriu e se sentou ao meu lado.
O sol já estava se pondo e um tom alaranjado cobria todo o céu, tornando-o ainda mais belo.
– Já vai escurecer. – comentou.
– Sim.
– O que acha de acamparmos por aqui hoje? Podemos compensar na caminhada amanhã. – dei de ombros e ele se levantou para montar a barraca. O céu já estava completamente negro quando ele se sentou ao meu lado com sua tarefa concluída. – Você está quieta. Algum problema? – ele pareceu preocupado.
– Não, eu estou bem. – menti.
Na verdade tinha um problema. Eu não conseguia esquecer o meu sonho e nem conseguia deixar de querer tudo aquilo desesperadamente. Imersa em pensamentos, não percebi que sua mão ia em direção a minha até sentir seus dedos macios tocando as costas da minha mão, fazendo com que uma eletricidade gostosa passasse entre elas. Instintivamente virei a palma da minha mão para cima e ele entrelaçou nossos dedos.
– Tem certeza de que está bem? – perguntou de novo, após alguns minutos de um silêncio agradável, sentindo o calor de sua mão na minha. Eu não queria contar a ele sobre o sonho, contudo não agüentava mais ficar remoendo isso sozinha, precisava falar para alguém.
– É que... – hesitei. – Eu tive um sonho hoje à tarde...
– Algum tipo de pesadelo?
– Não, pelo contrário. – tranqüilizei-o. – Foi o melhor sonho que já tive.
– Como foi? – perguntou. Ele parecia curioso, e eu ruborizei ao lembrar-me do beijo que ele me dera no sonho – O que? Não vai me dizer? – perguntou quando não respondi. Sacudi a cabeça e ele sorriu quando o rubor em meu rosto ficou mais forte. – Por acaso eu estava nesse sonho? – ele aproximou seu rosto do meu lentamente, me olhando diretamente nos olhos. Seus olhos tinham um poder incrível de persuasão e, mesmo sabendo que ele não estava usando seu dom, fui induzida a dizer a verdade.
– Sim, estava também. – sussurrei, respondendo a sua pergunta.
– Também? – ele arqueou uma sobrancelha. — Quem mais estava lá?
– Meus pais. – suspirei. O aperto em minha mão ficou mais firme.
– Sente falta deles, não é?
– Sim, muita.
– Queria poder te ajudar com isso. – disse tristonho.
Um vestígio de dor atingiu meu peito ao ver que eu o estava angustiando com os meus problemas. Não queria que ele se entristecesse por minha causa.
– Não se perturbe. – pedi. – Eu estou bem, ou pelo menos vou ficar bem. – garanti.
– O que posso fazer para ajudar? – perguntou.
Eu sabia que ele não podia fazer nada para resolver meu problema, mas tinha uma coisa que ele podia fazer para que eu o esquecesse por enquanto.
De repente uma ousadia extrema tomou conta de mim e eu me ajoelhei, ficando de frente para ele.
– Tem uma coisa que você pode fazer para me ajudar a esquecer... – comecei, com a voz rouca.
Ele sorriu entendendo.
– Não precisa pedir duas vezes. – falou um segundo antes de seus lábios tocarem os meus, fazendo-me esquecer todo o resto do mundo.
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