Burning
23 Capítulo 20
Notas iniciais
CAPÍTULO 20
A liberdade é uma coisa indescritivelmente maravilhosa! É impressionante como dez minutos caminhando em meio às árvores, fizeram-me sentir mais leve, simplesmente pelo fato de saber que nunca mais vou ter que voltar para aquele hospício.
Mas por trás de toda a euforia, eu escondia uma pontada de medo. Eu nunca estive em uma floresta antes e era um pouco intimidador andar por um lugar onde eu não conseguia me localizar. Contudo, era bem reconfortante o fato de eu não estar sozinha e de que Nathan parecia saber por onde estava indo.
Nathan e eu andávamos lado a lado, a apenas um palmo de distancia e ele segurava uma lanterna acesa, pois eu não quis usar meu poder aqui com medo de incendiar a floresta inteira. Apesar disso, ele me avisara que uma hora ou outra eu ia ter que ceder, pois as pilhas da lanterna não iriam durar para sempre.
Caminhamos por horas em um silêncio confortável, olhando quase sempre para frente, pois vez ou outra nossos olhares se encontravam, mas nós desviávamos o olhar imediatamente.
Depois de aproximadamente três horas de caminhada, Nathan parou. Olhei para ele sem entender.
– Vamos acampar por aqui. Não vamos conseguir chegar a lugar nenhum cansados como estamos. – eu assenti, embora não estivesse nem um pouco cansada. Na verdade, eu estava tão alerta, que acho que não conseguiria pegar no sono esta noite. – Me ajuda a montar a barraca? – perguntou.
– No escuro? – questionei erguendo uma sobrancelha.
– Podemos fazer uma fogueira. – sugeriu.
– Nós não temos fósforo... – me interrompi no meio da frase, só agora entendendo o que ele estava dizendo.
– Mas temos você. – falou sorrindo. Ele se agachou, e começou a juntar alguns gravetos que estava no chão.
– É. – falei baixando-me para ajudá-lo.
Depois de alguns minutos, havia uma quantidade boa de gravetos amontoados e eu me preparei para acender a fogueira. Cinco segundos depois, o fogo brilhava sobre os gravetos, crepitando cheio de vida. Levantei o olhar, e vi que Nathan me encarava.
– O que foi? – perguntei constrangida.
– Nada, eu só... acho fascinante ver você fazendo isso. – ele apontou para a fogueira, para enfatizar o que dizia.
Corei e olhei para baixo.
– Vamos montar a barraca? – perguntei depois de um momento.
– Claro. – concordou levantando-se. Eu me levantei também e fiquei observando enquanto ele retirava as coisas de sua mochila. Corei quando percebi que teríamos que dividir a barraca, já que só tinha uma, porém não protestei. Fiquei aliviada quando terminamos e notei que ela era grande o suficiente para que não precisássemos dormir perto um do outro.
Juntei algumas folhas secas no chão e me sentei, pegando minha mochila e a colocando no colo antes de abri-la. Cavei as peças de roupa até encontrar o diário que minha mãe me dera. Eu nunca escrevera nele, nunca tive vontade de relatar a minha infelicidade, pois não é uma coisa que eu queira me lembrar sempre. Pelo contrario, eu queria desesperadamente esquecer a época infeliz da minha vida, como se nunca tivesse existido. É claro que eu tinha consciência de que nunca iria ser plenamente feliz, eu sempre ia sentir culpa pelas pessoas que matei e que machuquei, e sempre ia sentir falta das pessoas que amo, da minha família. Mas eu tinha que me dar a chance de ter uma vida. Até por que, nesses últimos meses, a única coisa que eu não fazia era viver.
– Está quieta. – comentou Nathan me tirando de meus devaneios.
– Estava pensando. – murmurei.
– Pensando em quê? – perguntou curioso.
Eu sorri.
– Eu não preciso contar a você tudo o que penso.
– Não, você não precisa. Mas eu queria saber.
– Eu estava pensando – comecei. – em como vai ser as coisas daqui para frente. E estava me perguntando se um dia eu poderei ser feliz de verdade. – suspirei.
– Ah. – disse ele simplesmente. Olhei para ele. Seus olhos estavam profundamente tristes e angustiados, depois do que eu disse. Ele desviou o olhar do meu para pegar a mochila que estava ao seu lado. – Está com fome? – perguntou procurando alguma coisa na mochila.
– Não. – falei com sinceridade.
– Bom, eu estou. – falou retirando uma maçã de dentro da bolsa e dando uma dentada.
Um silêncio desagradável pairava no ar, e eu comecei a ficar inquieta. Então resolvi ir me deitar, embora, eu tinha certeza, não ia conseguir dormir tão cedo. Eu me levantei e ele desviou os seus belos olhos azuis da maçã que comia e me olhou com uma sobrancelha arqueada.
– Acho que vou me deitar. – informei.
– Boa noite, então. – respondeu voltando a comer.
– Boa noite. – respondi antes de entrar na barraca.
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