Burning
19 Capítulo 17
Notas iniciais
CAPÍTULO 17
Era hoje. Mal podia conter minha ansiedade, mal podia disfarçar minha felicidade por finalmente ir embora daqui. Se fosse por mim, eu o faria imediatamente, contudo seria muito arriscado. Apesar disso, de alguma forma, consegui agir normalmente enquanto andava em direção ao jardim, após o café da manhã, com Nathan ao meu lado. Estávamos em silêncio desde que nos encontramos no refeitório e a ansiedade era evidente em ambos.
Ao invés de nos sentarmos no banco como normalmente fazíamos, sentamo-nos na grama, embaixo de uma das duas grandes árvores que faziam sombra em boa parte do jardim.
Continuamos em silêncio, eu olhando as nuvens e ele encostado no tronco da árvore com os olhos fechados.
Depois de um tempo imersa em pensamentos, olhei para baixo e vi sua mão a meio caminho de encostar-se à minha. Ele a movimentava devagar, hesitante. Porém quando faltavam centímetros para as nossas mãos se tocarem, ele suspirou e afastou a sua.
Fiquei confusa por alguns segundos. Normalmente quando ele queria me tocar, não ponderava, simplesmente o fazia. Então me lembrei do que ele dissera há alguns dias atrás, que iria fingir que não havia nada entre nós até que eu decidisse parar de fingir. Eu devia estar feliz com isso, mas o problema é que eu não tinha certeza se realmente queria que ele ignorasse os sentimentos turbulentos que vinham à tona quando nos aproximávamos. Suspirei.
– Algum problema? – perguntou Nathan abrindo os olhos para me fitar com uma expressão curiosa.
– Não, nenhum. – falei. Ele não pareceu acreditar e continuou me encarando. Encarei-o de volta e, como sempre me perdi nos seus olhos azuis como o céu. Depois de alguns segundos ele deu de ombros e desviou o olhar.
– Lorena? – chamou ele depois de mais alguns segundos de silêncio.
– Sim?
– Você tem certeza do que está fazendo? – perguntou, aproximando-se de mim para que pudesse escutá-lo, pois sua voz não passava de um sussurro agora. – Tem certeza de que é isso o que você quer?
– Isso o que? – perguntei, alienada.
– Vir comigo. É o que realmente quer?
– Porque está me perguntando isso? Não quer que eu vá? Pensei que essa fosse sua missão aqui. – falei. Minha voz traindo-me ao transparecer a pontada de dor que eu senti em ver que ele pensou em ir embora sem mim.
– É claro que quero que você vá! – ele disse isso como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. – Sei que a Academia de Não Humanos vai fazer bem a você, assim como fez bem para mim. É só que... – ele engoliu em seco. – Eu não quero que sofra com a ausência dos seus pais... do seu irmão...
– Ou irmã. – lembrei-o. Ele sorriu.
– Sim, ou irmã. – concordou. – Enfim, não quero que sofra. – seus olhos brilharam intensamente quando ele disse isso. – Não vai poder levá-los com você, sabe disso.
– Eu vou sofrer de qualquer jeito, Nathan. – disse a ele, a voz suave. Não tinha como não baixar a guarda quando ele se preocupava desse jeito. – A diferença é que se eu ficar aqui vou fazê-los sofrer também e isso não é justo. Sem contar o fato de que vou me sentir ainda pior se causar mais dor a eles.
– Tem razão. – falou ele por fim.
– Sim, eu tenho.
– E você está pronta? – perguntou.
– Na verdade estou muito ansiosa. – respondi. – Não vejo a hora de passar por aqueles portões! – acrescentei em um sussurro.
– Eu também não. Esse lugar é um inferno!
– Eu que o diga! – suspirei.
– Mas ele tem um lado bom... – ele deu um sorriso malicioso, mas parecia distraído.
– Sério? – perguntei sarcástica. – E qual seria esse lado bom?
Sua expressão passou de maliciosa para sobressaltada.
– Eu não acredito que... Esqueça o que eu disse, ok?
– Mas, Nathan...
– Eu não disse nada. – insistiu.
– Tudo bem, então.
Dito isso ele voltou a fechar os olhos e ficar em silêncio, deixando-me curiosa sobre o que ele chamava de “lado bom” nesse reformatório. Mas depois de algum tempo pensando, percebi que eu também conseguia ver um lado bom em todo esse tempo trancada aqui, e isso me assustou. Porque, por incrível que pareça, o único fato que eu classificaria como “lado bom do reformatório”, era o fato de tê-lo conhecido.
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