Burning
7 Capítulo 6
CAPÍTULO 6
Não consegui me apressar no banho, embora eu não tenha acordado tão cedo assim. Provavelmente eu já perdera a hora do café da manhã, mas eu realmente não me importava.
Assim que saí do chuveiro, vesti minhas roupas de cores neutras e me olhei no espelho que ficava em um canto isolado na sala de banhos. Não sei porque fiz isso, uma vez que a vaidade é uma coisa totalmente desproporcional à esse lugar. Mas mesmo assim, não consegui conter o impulso de olhar minhas feições pela primeira vez em meses.
A garota que me olhava de volta, era quase igual ao meu “eu” anterior. Porém, meus cabelos castanhos e lisos estavam um pouco maiores agora, quase na altura da cintura; eu estava aparentemente mais magra e meus olhos castanhos, antes cheios de vida, agora estavam tristes. Porém não tão tristes quanto eu achei estariam.
Não sei por quanto tempo fiquei me encarando em frente ao espelho, mas por fim, desvio o olhar da garota infeliz na minha frente e vou direto para o jardim — já que está muito tarde para eu tomar meu café da manhã — e assim que atravesso as portas de vidro, olho em volta, procurando. Não foi difícil encontrá-lo. Ele estava deitado de costas no mesmo banco em que eu estava sentada quando conversamos pela primeira vez.
Penso em dar meia volta e me esconder na minha cela o dia todo. Mas me detenho. Estava mais do que na hora de eu fazer algo legal com relação à Nathan. Ele vem tentando ser meu amigo nessa última semana, e eu podia muito bem cooperar com essa missão, certo? Eu não podia culpá-lo por me sentir como me sinto quando estou perto dele, porque a culpa é totalmente minha.
Ando hesitante e cautelosamente até ele, e assim que me encontro em pé ao seu lado, percebo que fui hesitante e cautelosa demais, pois ele não percebe minha presença. Continua com os olhos fechados e a expressão tranqüila. Será que está dormindo?
– Posso me sentar ao seu lado? – pergunto.
Imediatamente ele abre os olhos, fazendo meu coração disparar e minha respiração ficar presa na garganta. Por que meu corpo reage sempre assim quando estou perto dele?
– Agora quer se sentar do meu lado? – diz ele, os lábios se abrindo em um sorriso debochado. — Pensei que não quisesse ser minha amiga.
– Pensei que você quisesse ser meu amigo. – disse por minha vez.
Ele ri.
– O que é isso? Um pedido de amizade? – perguntou, sentando-se.
– Interprete como quiser – disse me sentando ao seu lado.
Ele me olha desconfiado por alguns segundos.
– Vai levantar a bandeira branca, agora? – pergunta.
– Pretendo. Mas preciso da sua colaboração.
– Como quiser! O que devo fazer?
– Trata-se do que você não deve fazer. – digo.
– Está bem, então, o que eu não devo fazer? – perguntou rindo.
–Primeiramente: Sem piadinhas sarcásticas.
– Ok...
– Segundo: Não deve tentar invadir minha privacidade. Quando eu estiver pronta para falar certas coisas, eu mesma abordarei o assunto. E terceiro: — continuo – Não deve invadir meu dormitório no meio da noite.
– Eu não invadi seu dormitório no meio da noite!
– Mas tentou...
– Em nenhum momento eu tentei quebrar o cadeado. – informou ele.
– Tudo bem. Só estou avisando para não tentar.
– Mais alguma coisa?
– Não, só isso. – digo.
– Ok, então... Prometo não fazer nada disso. – cita. – Amigos? – pergunta estendendo a mão.
– Amigos. – suspiro e pego sua mão. Porém, ao invés de apertar minha mão como era de se esperar, ele vira as costas da minha mão para cima, e deposita um beijo ali. Uma corrente elétrica me atinge no lugar em que seus lábios tocaram minha mão, e eu fico paralisada com os sentimentos que me assaltam naquele momento. De repente, sinto uma vontade intensa de beijá-lo, mas me contenho. Devo estar ficando louca.
Rapidamente retiro minha mão da sua e olho em volta, procurando algo para dizer.
– Agora que somos amigos... – começo.
– Sim?
– Pode me dizer como conseguiu sair do seu dormitório essa noite?
– Claro que não! Também preciso de privacidade.
– Está certo – suspiro. Ficamos alguns minutos em silêncio. E eu me perguntava se ele não tinha nada para dizer ou se esperava que eu dissesse alguma coisa. Mas por teimosia, eu fiquei calada. Se ele quisesse falar, ele que quebraria o silêncio, pois eu já me esforcei de mais por hoje!
– Preciso arrumar um apelido para você... – disse ele pensativo.
– O quê? – pergunto.
– Qual é o problema? Somos amigos, podemos apelidar um ao outro...
– Nem pensar! Gosto do meu nome! – disse, me arrependendo amargamente de não ter feito a regra número quatro.
– Eu também gosto. É um nome lindo, assim como você.
Eu corei.
– Então porque quer mudá-lo? – digo, tentando demovê-lo.
– Tem razão. – diz.
Nesse momento minha barriga roncou, me deixando mais envergonhada ainda.
– Está com fome? — pergunta.
– Sim, eu me atrasei para o café da manhã...
– Você precisa comer!
– Tudo bem, eu como na próxima refeição. – tranqüilizo-o.
– E se você desmaiar?
– Eu não vou desmaiar! – digo revirando os olhos.
– Como pode saber? — era uma pergunta retórica, por isso não me dei ao trabalho de responder. – Venha, eu posso dar um jeito nisso.
– E nós vamos para onde? – pergunto.
– Para a cozinha...onde mais se consegue comida?
– Como vamos pegar comida fora do horário de refeição? – questionei.
– Essa parte você deixa comigo, ok? – ergui uma sobrancelha. – Vamos? – perguntou novamente.
– Tudo bem!
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