Burning
6 Capítulo 5
Notas iniciais
CAPÍTULO 5
Choro sem cessar até escurecer. Não consigo encontrar forças para me levantar e fazer minhas refeições ou ir ao banheiro. Simplesmente sento em minha cama e choro. Choro pela crueldade do ser humano, choro pela minha inocência, mas choro principalmente pelo maldito dia em que tudo isso começou. Pelo maldito dia em que deixei de viver, o dia em que me tornei um nada. Pois é exatamente assim que me sinto agora.
– Lorena! – alguém me chama, sussurrando. – Lorena!
Sobressaltada, levanto os olhos para descobrir de onde vem a voz.
– Aqui! – ouço novamente e quando me viro para grade da minha cela, vejo uma silhueta masculina do lado de fora dela. Imediatamente sinto meu coração acelerar. Mal consigo distingui-lo na escuridão densa, apenas os olhos azuis, ainda mais brilhantes na escuridão, me avisam quem é que me chama. Nathan.
– O que faz aqui?- pergunto na defensiva.
– Queria saber como você estava. Você sumiu o dia todo, e parecia tão triste hoje de manhã....eu fiquei preocupado. – disse.
É claro que meu coração se aqueceu com as palavras dele. Era extremamente bom saber que alguém além de meus pais se preocupava comigo. E, mesmo não querendo admitir, era melhor ainda saber que esse alguém era ele. Mas por mais que suas palavras tenham me deixado tranqüila, lisonjeada e emocionada, eu não deixaria transparecer. Pelo menos não para ele.
– Bom, se era só isso, acho que já pode ir embora. Já viu como eu estou. – minha voz não demonstra sentimento nenhum, embora eu saiba que se ele pudesse ver meus olhos, saberia que não era isso o que eu queria dizer.
– Por que tem que ser sempre tão rude comigo? – pergunta ele de repente.
Abro a boca para responde-lo, mas não sai som algum.
– Acho que mereço uma resposta. – a tristeza é evidente em sua voz, agora.
– Eu... não... – por que não consigo dizer simplesmente que o odeio? Que não o quero perto de mim? — Me desculpe. – é a única coisa que consigo dizer.
Ele suspirou, parecendo frustrado.
– É que eu não estou acostumada a ter amigos, e aí você chegou e... – suspirei.
– Tudo bem, eu entendo. – disse ele simplesmente.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu queria dizer alguma coisa mas não sabia o que. E isso estava me deixando agitada.
– Bom, você tem razão. É melhor eu ir, antes que alguém me veja aqui... Boa noite! – disse e se virou no intuito de voltar para a sua cela, mas eu o impedi.
– Nathan! – chamei e ele se virou.
– Sim?
– Como conseguiu sair? – perguntei, curiosa.
Seu lábios se curvaram num sorriso sarcástico, e de repente, ele era o mesmo Nathan que havia me irritado e fascinado desde a primeira vez que conversamos.
– Tenho meus truques. – disse ainda sorrindo, e encaminhou-se para a sua cela.
E eu fiquei olhando-o curiosa, até ficar impossível enxergá-lo.
Assim que ele sumiu de vista, comecei a me sentir estranhamente vazia. Comecei a me sentir culpada, certa de que o havia espantado. Ele ainda estaria aqui se eu não tivesse sido mal educada, disse a mim mesma, Porque eu não consigo ter uma conversa civilizada com alguém? Talvez porque os bons modos tenham sido arrancado de mim, quando fui mandada para cá.
Esse foi meu último pensamento antes de, com lágrimas nos olhos, eu cair na inconsciência.
Acordo com o com do portão da minha cela sendo aberto. Sento-me na cama e vejo Dorothea me encarando. Esfrego os olhos tentando amenizar o sono.
– O que foi? – pergunto pois ela continua me olhando.
– Você sumiu ontem o dia todo. – Disse ele simplesmente.
– Devia saber que eu estava na minha c...meu dormitório. – respondo.
– Por que ficou trancada aqui por tanto tempo?
– Isso não é da sua conta. – digo.
– É claro que é da minha conta, sou sua enfermeira. Tenho que saber o que se passa na cabeça da minha paciente...
– Não sou obrigada a lhe contar tudo. – interrompo-a.
– Prefere que eu fique te seguindo como uma sombra, para cima e para baixo, assim como fazem os outros enfermeiros? – diz cínica.
– Não! – minha voz saiu mais alta do que eu pretendia. – Já é ruim o suficiente te agüentar alguns minutos por dia!
– Então pode começar a falar, queridinha!
– Eu fiquei o dia todo lamentando o dia em que vim para cá!
Ela sorri.
– É bom saber que está lúcida o suficiente para reconhecer que aqui é um lugar ruim...Tem pacientes que estão tão enlouquecidos que acham que aqui é o paraíso! – ela solta uma risada sarcástica.
– Quanto à isso, pode ficar tranqüila, pois nem quando eu estiver no auge da minha insanidade, considerar isso um paraíso. – informo-a.
– É bom saber disso – sua voz continua tomada pela ironia.
– Agora se me der licença, vou tomar um banho. – dito isso, passo por ela, seguindo para o local onde ficam os chuveiros.
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