Burning
42 Capítulo 35
Notas iniciais
CAPÍTULO 35
– Mantenha os olhos fechados e se concentre, Lorena! – pediu Nathan, a voz impaciente.
Nós já estávamos treinando há, mais ou menos, uma hora e eu não tinha conseguido nenhum resultado positivo. É claro que, sozinha no reformatório, eu aprendi a controlar meu dom um pouco, contudo, nunca conseguira fazê-lo quando era assaltada por algum tipo de emoção. E nesse momento, as mãos quentes e macias de Nathan em meu rosto e sua proximidade considerável, eram uma distração e tanto. Era difícil me concentrar em alguma coisa com o meu corpo fervendo e os meus lábios desejando os deles imensamente.
– Estou tentando. – falei.
– Não está, não. – discordou. – Você não está conseguindo nem acender uma chama nas próprias mãos. – disse ele exasperado. – Você fazia isso brincando há alguns dias atrás!
– Eu sei, é que... – não queria dizer a ele que o motivo era sua proximidade, porque eu não queria que ele se afastasse. Mas eu simplesmente não conseguia pensar em nada que não envolvesse um beijo dele. Suspirei. – É que, você... – eu corei. – Você está perto de mais! E eu quero te beijar! – as palavras saíram de uma vez, em fôlego só e eu não ousei encará-lo enquanto falava.
Respirei fundo uma vez e ergui nos olhos para olhá-lo a tempo de ver um sorriso presunçoso se espalhar por seu rosto.
Nathan olhou para os lados e para trás furtivamente – afim de ver se havia alguém nos observando do outro lado das paredes de vidro, depois, sorriu maliciosamente para mim, antes de levar as mãos que estavam em meu rosto para os meus ombros e puxar meu corpo para o seu. Eu arfei quando seus lábios famintos tocaram os meus. A urgência do beijo estava explicita a cada toque: dos lábios, das mãos e meu coração galopava tão rápido que pensei que teria um ataque cardíaco. Nathan separou sua boca da minha abruptamente e levou-a à minha orelha. Sua respiração roçava meu rosto – tão rápida e superficial quanto a minha – e lançava calafrios pelo meu corpo.
– Eu sei que eu sou irresistível, mas nós temos que treinar. Prometi ao Jerry que treinaria você profissionalmente. – ele fez uma pausa. – Mas depois – ele pressionou os lábios em meu pescoço e eu tremi soltando o ar. – posso compensar você.
Eu podia sentir um calor irradiando de meu corpo, mas não era como o calor das minhas chamas internas e sim, o calor que eu e ele produzíamos juntos. Algo mais forte e inevitável do que o meu próprio dom.
– Tudo bem. – concordei, ainda sem fôlego. – Mas mantenha-se afastado. – pedi.
– Como quiser. – disse Nathan e então pressionou os lábios nos meus mais uma vez e se afastou. – Tente de novo.
Eu assenti.
Fechando os olhos suavemente, procurei o meu dom dentro de mim, como sempre fazia quando o utilizava. Demorei um pouco para encontrá-lo, uma vez que minha cabeça parecia girar por conta do beijo, mas por fim consegui fazê-lo e, alguns segundos depois, senti minhas mãos esquentarem.
– Muito bem! – elogiou Nathan quando minhas mãos se tornaram duas bolas de fogo. O sorriso em seu rosto era enorme. – Primeiro passo concluído!
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– A aula acabou. – anunciou Nathan, depois que eu consegui arremessar algumas faíscas em um amontoado de lenhas dois metros á minha frente, fazendo uma brasa surgir timidamente antes de se apagar. – Você está indo bem. – ele me elogiou e eu sorri.
Depois de ter conseguido fazer com que minhas mãos pegassem fogo, não foi difícil o restante do treinamento, e descobri que seria uma ótima aluna, contanto que Nathan ficasse a uma distância segura de mim.
– E aí? Está afim da recompensa agora? – perguntou ele se aproximando de mim.
– Acho melhor deixar isso para depois. – avisei dando um passo para trás. – Prefiro fazer tudo o que tenho que fazer primeiro... ou não vou conseguir me concentrar depois. – Ele riu.
– Muito bem então. – rendeu-se. – Que tal almoçar primeiro?
– Acho uma boa idéia. – concordei. Não havia comido direito no café da manhã e meu estômago vazio já começava a me incomodar.
– Eu te levo até a sua casa, então. – propôs. – Mas antes, temos que arrumar a sala, para a próxima sessão.
Antes de responder, olhei em volta e percebi que havíamos feito uma bagunça no CT. A sala estava cheia de carvão; havia pedaços de madeira carbonizado nos cantos e o ar lá dentro cheirava à queimado.
– Tem razão, — concordei. – isso aqui ta uma bagunça!
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Depois de almoçar e ajudar Jéssica a arrumar a cozinha, decidi encarar logo o treinamento de luta. Sabia que não podia ser tão ruim, provavelmente a pessoa que me ajudaria, sabia que eu nunca havia lutado antes, então tentei manter isso em mente enquanto caminhava sozinha até o CT1. Nathan havia se oferecido para me acompanhar, mas sabia que ele tinha as suas tarefas diárias e eu, provavelmente só o estava atrasando.
Quando o CT1 surgiu na minha frente, eu senti meu coração acelerar de nervosismo e ansiedade, e tive de obrigar os meus pés avançarem. Respirei fundo antes de abrir a porta.
Visto de dentro, o CT1 era ainda mais impressionante. Ele era composto de várias salas – todas elas cercadas por paredes de vidro, assim como as paredes de fora. A estrutura era como uma cúpula de vidro circular, onde todas as portas das salas davam para um espaço mais amplo; lá havia um conjunto de prateleiras grandes com vários equipamentos, como espadas, adagas, arco e flecha e dardos afiados; além de equipamentos de proteção, como luvas acolchoadas, caneleiras, coletes, joelheiras e outras parafernálias desse tipo. Olhando em volta notei que todas as salas estavam ocupadas, mas em apenas uma delas a pessoa que a ocupava (uma garota, no caso) não estava treinando – então supus que aquela era a minha instrutora. Aproximei-me hesitante e a porta automática se abriu, permitindo a minha entrada. Entrei e a garota se virou, fazendo-me congelar no lugar. A garota que ocupava a sala era a Sarah. Controlei o impulso de sair correndo.
– Pontual. – falou ela assim que entrei. – Espero que esteja pronta para sua primeira aula de luta. — o tom de voz dela era sínico.
– Acredito que sim. – respondi baixinho.
– Ótimo! – respondeu, embora sua postura e sua expressão facial contradissessem o que ela acabara de falar.
O silêncio se instalou no ambiente enquanto Sarah se virava para pegar alguns objetos no canto da sala. Ela os pegou e estendeu-os para mim.
– Coloque isto. – eu peguei os objetos desconhecidos e notei que era algum tipo de armadura, só que mais flexível. Havia um colete preto que vinha até a altura de meu quadril e uma luva vermelha sem os dedos, ambos acolchoados. Vesti-os rapidamente. – Acredito – disse Sarah quando terminei de colocar a última luva. – Que você não tenha experiência com luta, estou certa? – não deixei de notar que o seu tom de voz, quando falava comigo, era desagradavelmente mal humorado.
– Sim, esta certa.
– Muito bem, então... Vou te ensinar alguns movimentos de luta corpo a corpo. – eu assenti nervosa.
Sarah me olhou nos olhos por um tempo, parecia ponderar alguma coisa e quando abriu a boca para falar, ouvimos o som da porta automática se abrir e, ao mesmo tempo, viramos a cabeça a tempo de ver Jerry Bennet entrar na sala.
– Tio Jerry? O que faz aqui? – perguntou Sarah franzindo o cenho. Lancei-lhe um olhar surpreso quando ela o chamou de tio – ninguém mais aqui, parecia chamá-lo assim. Foi então que me lembrei dos olhos dele, cinzentos, exatamente como os dela.
– Vocês, são...? – perguntei, incapaz de me conter.
Jerry riu.
– Sim, Sarah é minha sobrinha. O pai dela era meu irmão.
– Ah. – murmurei, ficando quieta enquanto ele se virava para ela.
– Vim ver como estava indo sua primeira aula.
– O que é, acha que não sei ensinar luta? – perguntou ela, afetada.
– Claro que não, só que... eu queria estar presente na sua primeira sessão como treinadora! Coisa de tio coruja, sabe como é. – disse Jerry, dando de ombros.
– Sério tio? Eu gostaria de privacidade... O máximo que essas paredes de vidro permitem! – rebateu. E embora sua voz transparecesse rebeldia, o olhar que ela lançava a ele era afável.
– Tudo bem, você está certa! – ele ergueu as mãos acima da cabeça, como se estivesse se rendendo. – Boa aula para vocês! – e então se retirou – a porta automática fechando-se atrás dele.
Sarah voltou os olhos cinzentos para mim por alguns segundos e então saiu da sala. Pelas paredes de vidro, pude vê-la ir até as prateleiras e pegar um par de caneleiras e algo como um saco de pancada. Ela voltou à sala e prendeu o saco em um gancho no teto, antes de me entregar as caneleiras.
– Vista-as. Hoje vamos praticar chute simples. – anunciou.
Por fim, apesar dos olhares hostis e mal humorados, Sarah era uma ótima treinadora. É claro que fiquei meio insegura no início; primeiro porque era ela a me ensinar e segundo, porque eu não tinha nenhuma referência nesse tipo de assunto. Mas, para a minha própria surpresa, acabei gostando de aprender a lutar. Eu me sentia mais segura, mais corajosa enquanto aprendia os golpes.
Quando a aula acabou e eu voltei para casa, fui direto tomar uma ducha. Eu me sentia cansada, porém com uma sensação maravilhosa de dever cumprido. Demorei mais do que o previsto no banho e quando voltei para o quarto, vestida no roupão branco, levei um susto. Nathan estava deitado na minha cama: as mãos atrás da cabeça, os pés descalços e um sorriso de triunfo lindo nos lábios. Ele me lançou um olhar penetrante assim que entrei no quarto, analisando cada detalhe meu minuciosamente.
– Eu devia invadir seu quarto com mais freqüência. – disse ele por fim, uma rouquidão leve na voz.
– Não, não devia. – discordei. – Você me assustou!
Ele sorriu.
– Desculpe. – disse ele zombeteiro. – Eu só queria te convidar para um passeio noturno. Como um encontro. — Eu sorri e andei até a cama, sentando-me na beirada, ao lado dos seus pés. Ele se sentou, encostando as costas na cabeceira da cama.
– Seria uma ótima idéia, se eu conseguisse me vestir para comparecer. – falei.
– Na verdade, — começou ele, a voz tingida de malícia. – não me importo muito com roupas. Poderia ir assim se quisesse.
–Ei! – exclamei. – Você é incorrigível!
– Você acha?
Sacudi a cabeça em descrença.
– Se me der licença, gostaria de me vestir. – pedi.
– Fique a vontade. – ele disse, mas não se moveu. Eu bufei.
– Nathan! – repreendi-o. Ele soltou uma gargalhada ruidosa e se levantou da cama, ficando de pé ao meu lado.
– Só estava brincando! – se defendeu. – Apesar que... Não seria uma má idéia você ir assim...
– Sim, seria uma má idéia. – interrompi-o, tentando soar autoritária e sem obter sucesso, por conta do riso que ameaçava romper-me. – Agora, dê-me licença!
– Como quiser. – ele disse e eu fiquei de pé, esperando que ele se afastasse imediatamente, contudo, não foi o que aconteceu.
Antes que eu pudesse ler a idéia em seus olhos, as mãos dele agarraram minha cintura e meu corpo se chocou contra o dele. Seus lábios tomaram os meus e um calor intenso irradiou desse encontro. Foi um beijo terno porém urgente, cheio de fogo e desejo de ambas as partes. Sua mão direita agarrava minha cintura e a esquerda permanecia em meu rosto, afagando-o em intervalos regulares. Eu podia sentir cada parte do corpo dele contra o meu e eu tremi involuntariamente. Nathan pôs fim ao beijo com um roçar suave de lábios antes de me soltar e dar um passo para trás.
– Eu disse que iria compensá-la, não disse? – os lábios deles estavam levemente inchados por conta do beijo e seus olhos eram como duas chamas azuis. Queimavam e ardiam como fogo, incendiando-me. Nathan se aproximou de mim novamente e depositou um beijo no canto da minha boca. – Eu te espero lá fora. – sussurrou em minha pele.
E então ele saiu do quarto, deixando-me ofegante e desnorteada.
Com um suspiro apaixonado, joguei-me de costas na cama, enquanto aguardava minha respiração voltar ao normal e meu coração se acalmar.
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