Burn

2 A realidade arde mais que fogo


— Héstiaaa, vamos logo por favor! — Maia gritava do lado de fora

Nunca tive problemas com meu cabelo, e logo hoje que começava as aulas, ele resolve ficar horrível. Acabei prendendo em um rabo de cavalo alto, e deixei que os cachos caíssem de forma natural. Sai correndo e gritei um "tchau pai!" no meio do corredor, ele respondeu e me encontrei com Maia. Ela estava com a cara fechada, ao contrario de mim que me coloquei uma blusa negra e um jeans justo, Maia simplesmente colocou uma blusa de frio cinza e uma calça escura, tinha o cabelo solto que sem o menor esforço brilhava mais que fogo vivo.

— Não precisa ficar emburrada, já to aqui — Parei ao seu lado

— Você sabe que se chegamos atrasadas recebemos uma punição —

A punição não era nada leve, enquanto humanos tinham uma leve advertência em forma de carta para os pais, nós as "bestas" da sociedade, recebíamos uma punição de humilhação, aonde nos colocavam no meio da escola (mas precisamente na parte dos humanos) e ficávamos de joelhos em pedrinhas que perfuravam nossas peles, isso durava o primeiro tempo de uma classe. Esse não era o principal problema, a pior parte era quando você chegava atrasada mais de 3 vezes, então literalmente te humilhavam diante de toda escola...

— Vamos correndo — pedi

A escola era dividida em 2, uma parte era a dos humanos, onde tudo era lindo e bem construído, e a outra parte era a nossa, que parecia mais um presidio. As janelas tinham grades de "proteção", e de qualquer sala podíamos admirar o lado dos humanos, o que nos separava era uma grade alta.

O ensino também era diferente, na minha sala não tinha humanos, o único humano era o professor que dava o básico de uma educação, além do mais, ele tinha autorização de fazer qualquer coisa com qualquer aluno, até porque "educar uma besta exige um esforço maior".

Nessa época eu tinha 15 anos, e foi quando percebi que minhas habilidades eram perigosas.

Por sermos odiados pela sociedade humana, todos da classe sempre eram amigáveis, sabíamos a quem odiar, e não fazia sentido odiar a nossa raça. Maia era uma das meninas mais lindas da sala, e por conta do seu cabelo ruivo e olhos azuis claros, chamava a atenção são só dos meninos como também dos professores.

— Maia, vamos comer algo? — Ottis perguntou

— Nem fodendo que você vai tirar minha companhia para o lanche — Respondi

— Vocês duas vivem juntas! Um dia não vai te matar, eu sou um cara legal — Ottis retrucou sorrindo

Claramente não me incomodava ficar sozinha por alguns minutos, até porque conhecia outras pessoas, e com 15 anos já tínhamos idade para gostar de certos meninos, ao menos eu gostava de um menino chamado Kane, era de outra sala e sempre conversávamos durante o recreio. Porém nunca vi Maia se interessando por alguém, é sempre tão reservada.

— Que estranho... aonde esta Maia? — Kane perguntou

— Esta comendo com Ottis, insisti que aceitasse, ele é um cara legal —

— Você não acha que talvez ela não aceite ninguém porque... gosta de você? — Perguntou

Soltei uma risada, era muito comum que as pessoas falassem isso de nós duas, já que sempre estamos juntas.

— Não não, é que somos amigas desde que tínhamos 8 anos, ela é praticamente minha irmã, somos vizinhas então por isso sempre estamos juntas — Respondi

kane sorriu, e não perguntou mais nada. Depois o sinal tocou para que fossemos para sala, Kane me acompanhou até a sala e nos despedimos. Sentei esperando Maia voltar, e assim que entrou Ottis estranhei a demora de Maia.

— Ottis, aonde esta Maia? — Perguntei

— Ela disse que eu podia seguir na frente, porque ia ao banheiro — Respondeu

Ok, talvez Ottis tenha feito algo que ela não gostou... Ou talvez ela simplesmente tenha ido ao banheiro... Maia me avisaria... Porém eu tava ocupada com Kane... Algo não esta certo...

Aproveitei que o professor não tinha chegado e sai da sala enquanto todos estavam conversando. o banheiro ficava no primeiro andar, em um corredor afastado das salas. Assim que entrei chamei por Maia e ela não atendeu, então comecei a ficar preocupada.

— Maia? — Chamei enquanto passava pelas salas dos corredores

Eu tinha que tomar cuidado, porque se algum humano me encontrasse, poderia levar punição. Minha preocupação começou a aumentar e se misturar com ansiedade, e uma coisa que sempre fazia era agarrar o isqueiro vermelho e ficar ascendendo e apagando. Toda vez que fico assim, minha percepção muda, é como se eu recebesse uma dose de adrenalina, tudo fica mais aguçado, e uma sensação de medo fica me atormentando.

Foquei no pequeno fogo que criei no isqueiro, e me concentrei naquilo enquanto tentava respirar profundamente para manter a calma. Até que escutei um pequeno ruído, que vinha de uma sala, além do ruido a sala emanava uma mistura de suor e perfume masculino...

Quando abri a porta, o isqueiro vermelho ainda estava aceso. A sala não tinha iluminação, mas graças ao pequeno fogo pude ver claramente o que estava acontecendo.

— Héstia, se retire da sala agora — O professor ordenou

Automaticamente agarrei meu cordão, e recordei do significado que ele carregava. Ver sua melhor amiga, com o rosto vermelho, chorando, com uma mordaça na boca, com os braços atados e usando apenas calcinha não era nem de longe algo agradável.

— Héstia, não vou repetir -

A adrenalina voltou, mas não acompanhada pelo medo senão pela raiva. Aquele pequeno fogo subiu por todo meu braço direito, queimando parte da minha roupa. O professor, que usava apenas uma blusa de botão, ficou assustado e antes que pudesse gritar por ajuda, tapei a boca dele e escutei o grito abafado angustiante da dor de ser queimado vivo, rapidamente subiu um cheiro de carne queimada que me despertou do transe.

— Porra Maia... Ele chegou a... — Eu nem conseguia terminar a frase de tanto nojo

Ela negou com a cabeça, e enquanto eu desamarrava suas mãos, a unica coisa que eu pensava era "É minha culpa". Assim que se soltou ela me abraçou com tanta força, que a unica coisa que pude fazer era retribuir e dizer que esta tudo bem.

— O que vamos fazer com ele? — Perguntei

Ela novamente parou por alguns segundos, e nesse momento eu sabia que estava usando sua habilidade de prever as melhores possibilidades de sair ileso dessa merda.

— Temos que queimar a escola — Respondeu

— O que?! Mas... —

— É a unica maneira de não encontrarem o corpo, você precisa queima-lo — disse

Até o momento ele tava inconsciente. Então busquei algo inflamável e atirei pela sala inteira.

— Okay, me espera do lado de fora — Pedi

Maia saiu e eu ascendi no corpo do professor, enquanto ele resmungava algo eu sussurrei no seu ouvido: É quase um prazer ver você queimar, imundo.

Sai rapidamente da sala e corremos para o banheiro.

— Ok, agora toma, usa esse casaco para esconder a blusa queimada — Me entregou a blusa de frio que usava.

— Agora esperamos? — Perguntei

— Sim, na verdade aquela sala vai explodir e vai começar um incêndio pelo corredor, que vai se espalhar pelo teto.... e depois vai subir uma fumaça negra... Nesse momento temos que acionar o alarme. — Respondeu

E tudo que ela falou aconteceu, assim que acionei o alarme, todos os alunos do andar de cima saíram correndo e nós nos misturamos. Do lado de fora, escutamos depois de 20 minutos os bombeiros chegarem, Maia segurou minha mão e eu retribui com um aperto forte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.