Burimyu (remasterizada)
2 Capítulo 2 - Tentando entender
Capítulo 2 – Tentando entender
Era noite, ela acabara de terminar um ensaio fotográfico. Sentou-se em uma cadeira na varanda que tinha no andar de cima, sentindo o vento fazer seus cabelos longos esvoaçarem e acalmando sua mente confusa. Apertou o casaco contra o corpo, puxando-o com as duas mãos para proteger-se do frio. Estava empolgada pela participação que faria no musical, mas o que havia acontecido ali? Nunca simpatizara tanto com uma pessoa vendo-a pela primeira vez. E não acreditava naquela história velha de “amor à primeira vista”, era algo mais profundo. Talvez eles estivessem ligados há muito mais tempo. Não entendia aquela doçura tão intensa com a qual ele a olhara e talvez ele também não. Depois desse pensamento, ela repreendeu-se. Ele parecer uma pessoa tão legal não queria dizer que fosse uma ou que estivesse agora tão confuso quanto ela. Ela saberia disso com o tempo. Haruki, que trabalhava na edição de fotos e era alguém com quem ela sempre conversava e confiava muito, entrou na varanda e sentou-se ao lado dela. Ele era bem mais alto que ela, mas tinham a mesma idade. Ele tinha cabelo castanho escuro, quase preto, meio ondulado e se alguém perguntasse se ele tinha copiado o corte de cabelo do vocalista do Asian Kung-Fu Generation, sim. Ele amava aquela banda. Ela poderia dizer que ela e Haruki eram irmãos de sangue, não eram, mas se sentiam assim.
— Muito trabalho hoje – ele passou as mãos pelo cabelo e depois pousou-as no colo – como sempre suas fotos saíram excelentes Miki-chan.
Ele estranhou ao ver que ela não respondeu, continuava fitando, confusa, as nuvens de chuva que se formavam no céu, que estava azul escuro, e laranja no ponto em que as nuvens se formavam.
— Miki-chan? Aconteceu alguma coisa? Não gostou do ensaio de hoje? Sabe que estou aqui pra te ouvir. Parece meio perdida.
— Não, eu só estava pensando... Haru-chan...
— O que?
— O que você acha que é o destino? E o futuro? – ela perguntou, não só pelo acontecimento da manhã, mas sempre achara que as pessoas misturavam muito aquelas duas coisas.
— Olha... penso que as pessoas tem uma definição errada do destino. Elas o confundem com pré-destinação. Pra mim, o destino não é o futuro já estar escrito, é a profunda ligação que existe entre todos os seres vivos do planeta, a mesma que faz sua vida de repente se cruzar com algo ou alguém totalmente inesperado ou reencontrar algo ou alguém que você deixou há muito tempo. Acho que essas ligações já existem antes de você nascer, você só tem que encontrar o ponto onde elas se cruzam e seguir adiante. Eu e você nunca nos vimos antes de você entrar por aquela porta pra seu primeiro ensaio aqui. Você conhece todos aqui e está junto deles o mesmo tempo que está de mim, mas comigo você tem uma relação mais forte e até hoje nós dois não sabemos porque. É isso que faz as pessoas confundirem. Não é pré-destinação, é só uma ligação que existia por algum motivo, mas não é ela que vai decidir o seu futuro, só vai influenciar nele. Se nós não tivéssemos nos encontrado você ainda seria atriz e eu ainda seria fotógrafo, mas nos encontramos. De certa forma influímos na vida um do outro. Se tudo fosse pré-destinado não faria sentido existir e lutar todos os dias. Não adianta as pessoas atribuírem a culpa a Deus, a Buda, ao universo... espero que tenha me entendido.
Sua passagem pelo estúdio da Pierrot voltou a sua cabeça. Ela poderia dizer que ele lera seus pensamentos se soubesse que aquilo era possível. Ele falara de alguém inesperado, de uma ligação profunda.
— Entendo. Eu pensava que as pessoas confundem, mas nunca pensei tão profundamente quanto você agora. Foi o Asian que te deixou assim? – Ela brincou e riu, ele riu também.
— Não, só ajudou. Eu já te falei o que penso dos animais terem alma?
— Não – ela riu durante algum tempo.
— Pra mim eles tem. Não sei é se eles tem espírito. Se seu coração é bom ou capaz de sentir emoções, você tem uma alma. A alma é o espírito do coração. O espírito é o espectro, o que se separa do corpo quando você morre. Os animais também tem sentimentos. Já alguns seres humanos, os que não tem, esses tem espírito, mas não tem alma. Você tem uma alma e eu posso senti-la agora. E algo me diz que há algo de errado com ela.
Ela não se surpreendeu, não era a primeira vez que ele percebia seu estado de espírito.
— Não é nada ruim. Hoje fui ao estúdio da Pierrot e encontrei uma pessoa. Sentimos uma simpatia um pelo outro, não sei explicar. O olhar dele parecia muito doce e emanava um sentimento de proteção.
— Então é isso. Acho que esse tipo de coisa acontece com todo mundo, mas não é por isso que você deve ignorar. Talvez vocês tenham uma ligação profunda, de muito tempo, e não sabem. Estou começando a parecer um daqueles anciões que falam do universo nos animes.
Ela soltou uma longa gargalhada. Ele sorriu.
— Não se preocupe. Espere pra ver como se construirá o futuro. Mas por que esteve no estúdio da Pierrot?
— É verdade, ainda não te contei. Lembra que eles vão fazer um musical de Bleach e eu fui fazer o teste naquele dia?
— Sim.
— Vou ser a Rukia.
— Que?! Você?!! A Rukia?!!! Como ousa demorar tanto pra me dizer?!!!
Ele levantou e puxou-a da cadeira para um abraço. Ele a tirou do chão e começou a girar e pular com ela enquanto ambos morriam de rir.
— Parabéns! Isso é ótimo! Estarei na primeira fila! Conte-me tudo! – Ele a soltou e os dois se sentaram de novo.
— Ainda não sei muito. Fui até lá pra me ouvirem cantando e verem uma pequena atuação da cena em que Ichigo se torna shinigami. Contracenei com Isaka Tatsuya.
— Nossa! Ele é um grande ator!
— Ele será o Ichigo. Foi dele que falei antes. Você acha que tem algo haver?
— Não. Você não é o tipo de pessoa que se confunde por causa disso. Não se preocupe com isso agora, vamos lá dentro dar a boa notícia a equipe e comemorar! Depois você pode nos falar mais de como foi lá.
— Obrigada Haru-chan.
— Não foi nada Miki. Vamos.
Eles se levantaram e entraram.
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Estava sentado no sofá perto da janela com um sorriso bobo e o mesmo olhar doce de horas atrás. Ele já encontrara muitas garotas, mas nunca sentira nada por elas. Não podia deixar de estar confuso, mas não podia negar que estava feliz. Ao mesmo tempo estava preocupado. Não queria misturar sentimento com trabalho. Ele era Ichigo e ela era Rukia, só isso. Fariam o musical juntos e depois cada um seguiria seu rumo novamente. Aquele pensamento deixou seu coração apertado. O que havia com ele? Devia estar imensamente feliz com sua nova ocupação, mas em vez de comemorar estava preocupado. Olhou para os primeiros volumes de mangás de Bleach em cima do centro, ele andara relendo a Saga Soul Society. Estava começando a se parecer com Ichigo, confuso daquele jeito. Encarou a capa do primeiro volume e disse:
— Viu o que você fez comigo cabeça de cenoura? Absorvi sua personalidade e parece que estou revivendo sua história até fora do palco. Como vou saber agora se estou misturando as coisas ou não se nem entendo o que foi aquilo. E se acontecer algo e ela pensar que estou me aproveitando dela? Esse negócio antigo de amor a primeira vista tá muito batido e você confirmou isso. Será que está acontecendo aqui na vida real também?
Ele continuou encarando o rosto de Ichigo no mangá, sem vê-lo realmente, refletindo sobre o que acabara de dizer.
— Até parece. Acho que eu tava voando. Por que ela sentiria o mesmo ou estaria tão confusa quanto eu agora? Nunca nos vimos pessoalmente antes.
Ele pegou o controle e ligou a TV.
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— E então diretor?
— Todos os que estiveram aqui hoje estão confirmados. Parecem todos dispostos ao que os espera e estão felizes com isso.
— Pode me dizer os nomes dos personagens confirmados? Quero dar baixa e deixar algumas coisas preparadas.
— Ichigo, Rukia, Toushirou, Momo, Matsumoto, Gin, Renji, Zaraki, Ikkaku e Kira estão confirmados. Ainda temos que acertar com o serviço de construção, maquiagem, roupas e outras coisas. Quando terminamos o levantamento, você pode informá-los sobre a reunião.
— Tudo bem senhor – se retirou.
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