Buried Alive
3 III - I'll peel away the skin
Notas iniciais
(Zacky P.O.V)
A enfermeira me entregou uma compressa com gelo para eu colocar no olho, e falou que se eu quisesse podia ligar pros meus pais e voltar pra casa, mas eu não queria ir pra casa sabendo que Kristy estava com aquele cara. Eu queria ter certeza de que ela estaria bem pelo menos até o fim do dia. Depois de um tempo com o gelo no olho, a enfermeira me assinou um bilhete e me liberou. Com esse bilhete eu poderia entrar na aula sem precisar entrar escondido pelas portas do fundo.
Quando voltei pa ra sala, entreguei o bilhete pro professor e fui pro meu lugar. Acho que meu olho ainda estava bem roxo, porque todos me olhavam. Me sentei no meu lugar, atrás de Kristy. Ela ainda estava na escola, isso era um bom sinal. Peguei um pedaço de folha do meu caderno e escrevi:
" Kristy, are you doing okay ? " *Kristy, você está bem?*
Entreguei o papel a ela, que me olhou confusa mas depois se virou pra frente de novo. Ela abriu o bilhete, escreveu alguma coisa e depois me devolveu.
" sim. "
Por algum motivo esse 'sim' me pareceu falso, mas achei melhor não insistir no assunto.
A aula passou rápido, já que eu tinha chegado atrasado por ter ficado na enfermaria cuidado do meu maldito olho roxo. Na hora do almoço, passei no banheiro para ver o estado do meu olho antes de ir pro refeitório. O banheiro não tava tão lotado, tinha alguns garotos fumando e conversando. Percebi que no meio deles estava Luke. Fingi que não tinha o visto e parei na frente de uma pia, me apoiando nela e olhando pro espelho. O estrago tinha sido feio. Pelo reflexo, vi Luke se aproximar de mim. Me virei para ele e lhe encarei, olhando direto nos olhos.
– O que você quer? — perguntei.
– Só quero saber se aprendeu a lição .. — ele respondeu, sorrindo
– Porque eu deveria ficar longe dela?
– Porque ela é minha garota.. — ele falou, segurando meu pulso.
Não tive tempo de reagir, novamente. Esse cara era estranhamente rápido com seus movimentos. Ainda segurando meu pulso, forçou meu braço pra trás, me obrigando a ficar de costas para ele e de frente para o espelho. Sua outra mão foi de encontro ao meu pescoço. Seus dedos eram frios como de um cadáver. Ele subia os dedos devagar, o que chegava a ser torturante por causa de sua temperatura. Era tão frio que parecia queimar minha pele. Seus dedos se enroscaram em meu cabelo, puxando-os pra trás e depois empurrando meu rosto com força de encontro ao espelho do banheiro. O espelho rachou na mesma hora.
– Caralho, porque você gosta tanto de me bater? — perguntei, levando a mão a cabeça e sentido o sangue escorrer do canto da minha testa.
– É divertido. — falou rindo, saindo do banheiro em seguida e me deixando sozinho.
Limpei o sangue da minha testa com a barra da camisa mesmo. Caminhei até o refeitório e me encontrei com o resto do pessoal. Me sentei a mesa junto com o pessoal de sempre, Brian, Jimmy, Jon, Matt, Chelle, Val e Leana.
– Ei cara, o que aconteçeu com seu olho? — Matt veio logo perguntar
– Nada não, só me machuquei. — menti
– Tem certeza que 'tá tudo bem, fofinho? — Val perguntou, apertando minha buchecha.
– 'Tá s-sim — respondi, corando pelo gesto dela.
(...)
Jimmy fez questão de me acompanhar até em casa depois do que aconteceu com Luke. Queria ter certeza que nada aconteceria no caminho de casa, segundo ele Luke só não me matou porque estavamos na escola. Fora dela, eu estava em perigo. ...
( Luke P.O.V )
Joguei a mochila no chão do quarto quando cheguei em casa. Droga, se Jimmy não tivesse na cola daquele gordo eu tinha acabado com ele hoje mesmo. Quanto mais cedo, melhor. A única desvantagem de morar só é que não tem sua mãe pra arrumar seu quarto. Onde estavam meus dracmas dourados mesmo? Vasculhei o guarda roupa, os bolsos das calças espalhadas pelo chão. Tropecei em um tênis que tinha no meio do quarto, quase caio de cara no chão. Mas pelo menos isso me fez achar um dracma perdido dentro desse tênis.
Me sentei na cama com o dracma em uma das mãos, fechei os olhos e expandi minha mente. Precisava urgente falar com Shamira, e o único jeito era através do plano astral. Plano Astral nada mais é que um espelho sem cores do mundo humano, por onde vagam fantasmas e almas perdidas. Quando acessamos o plano astral, nossa alma sai do nosso corpo mas continua conectada à ele por meio de um fio dourado, tipo um cordão umbilical. Ainda de olhos fechados, senti como se tivesse emergindo da água. De repente, um frio tomou conta do meu corpo, eu abri os olhos e vi que tudo tinha perdido a cor. Eu estava no plano astral.
Caminhei até o banheiro, lugar com água mais próximo de onde estava. Abri a torneira e deixei a 'água' cair. O que saia da torneira não era água, era uma especie de liquido prateado, um pouco mais denso que água, era sangue de unicórnio. Enquanto a 'água' enchia a pia, olhei pra trás e vi meu corpo sentado na cama ainda em tranze. Fui até ele e peguei o dracma na mão esquerda. Voltei para o banheiro e parei de frente a pia, já cheia do liquido prateado. Fechei a torneira e me olhei no espelho. Desejei ver minhas asas de volta no canto. Joguei o dracma dourado na pia, esperei ele afundar no liquido e então falei:
– Shamira veux parler au troisième ciel *Shamira,estou me referindo ao terceiro céu*
O liquido da pia foi escurecendo, ficou avermelhado da cor de sangue humano. Sua voz preencheu todo o ambiente. Era ela.
– Diga — disse ela, com uma voz suave.
– SHAMIRA! Eu estava com saudades! — respondi, eufórico.
– Luke! Você não se cansa de me surpreender, garoto!
– Então, como estão as coisas por ai? — falei, meio sem jeito.
– O que você quer? Já tem anos desde que partiu à terra para sua missão suicida. — ela falou, sarcástica — Eu quase me sinto como uma senhora de idade recebendo o telefonema de um amor platônico do colegial. Mas por algum motivo, receio que as notícias que você me traz não sejam boas.
– Por que está dizendo isso, Sham?
– Sabe Luke, os anjos andam comentando algumas coisas , e a maioria é assustadora. — ela falou, em tom preocupado — Não posso ficar de olho em você 24h por dia, você precisa se cuidar..
– Eu sei, mas é que eu estou com medo, Shamira.
– Você não pode ter medo. — ela falou, agora um pouco mais calma — Tem que ser forte se quiser seu corpo celeste de volta. Quem mandou se revoltar contra Miguel? Agora está condenado a vagar na terra até achar um escolhido e completar a missão.
– Eu sei. Eu vou completar minha missão.
– Luke, tenho que desligar, estou cheia de trabalho aqui no céu, os querubins estão com confusão no pátio do quinto céu, preciso correr lá e separar a briga. Boa sorte na sua missão, mal posso esperar pra te ter no céu comigo de novo...
Antes que eu pudesse responder, o liquido vermelho voltou a ficar prateado. A ligação tinha sido encerrada. Era eu e eu mesmo daqui pra frente. Espero que Shamira esteja bem, ela é o único motivo pra eu querer meu corpo celestial de volta. Não aguento mais ter que ficar longe dela, conversando apenas por raras ligações curtas, quando acho dracmas perdidos por minhas viagens pelo mundo. Ela deve continuar linda como sempre foi, afinal, anjos não envelhecem.
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