Bulletproof Wings

9 Desabando novamente


Notas iniciais
É agora, galera. Prepara o kokoro ♥

Eles estavam preparando as coisas para dormir. Jungkook estava tomando banho. J-Hope e Suga já tinha ido dormir. Os outros ainda conversavam na sala, em voz baixa. Jin estava na cozinha americana, comendo mais alguma coisa e prestando atenção no papo dos que estavam no sofá.

— Vocês deviam dormir — disse ele, mastigando.

— E você?

— Eu já vou, Taetae.

Os três disseram tchau e foram para o quarto. Pouco depois, V voltou com um sorriso travesso e um objeto em suas mãos.

— Jin Hyung — sussurrou ele.

— O que foi? — V apenas exibiu sorridente o aparelho brilhante em suas mãos. — O que tem o celular?

— É do Jungkookie! — V parecia criança com brinquedo novo.

— E daí?

— Tá tocando!

— E daí?

— É a Sunghee. Podia atender!

— Eu? Por que você não atende?

— Anda, hyung, ela vai desligar! Fique em silêncio.

Jin pensou que estaria agindo como criança… mas não era isso que queriam dele.

— Tadinha da menina, — disse ele, pegando o celular com um sorriso de lado. — Vai ficar preocupada.

Jin atendeu o telefone e colocou na orelha, sem dizer nada. V tentava não fazer barulho enquanto ria. Jin escutou alguns ruídos, até que finalmente ouviu uma voz.

— Alô? Jungkookie?

O sorriso de Jin desapareceu muito lentamente. Ele virou a cabeça tentando entender. V parecia alerta.

— Amor? Fala alguma coisa!

Jin permanecia parado. V tentava adivinhar o que o hyung estava ouvindo. Finalmente, ela desligou.

— O que ela disse? — Perguntou V, imediatamente.

— Ah… — Jin tentou disfarçar. — Ela… Chamou por ele. — Jin tentou rir. — Pediu pra falar alguma coisa.

V riu baixinho, pra não acordar os outros.

— Me dê. Vou apagar a chamada pro Kookie não desconfiar.

— Devolva logo ao seu lugar. Ele deve estar saindo.

— Vamos, hyung. Vamos dormir.

— Certo. Vamos.

J-Hope estava dormindo no quarto dos mais velhos, por algum motivo. Rap Monster já tinha começado a transportar os colchões.

— Parece que vamos dormir todos juntos — disse ele. — No quarto dos hyungs.

— Tá — disse Jin, ainda pensativo.

V devolveu o celular de Jungkook bem a tempo, pois o maknae logo saiu do banho. Eles rapidamente prepararam tudo para dormir, se amontoaram nos ninhos e apagaram a luz.

Jin não conseguiu dormir. Ficou pensando na voz que ouviu. Se parecia tanto… Era possível ser tão parecido? Ele chegou a cochilar por poucas horas, mas teve um péssimo sono, e seus poucos sonhos não ajudaram a tirar o assunto da cabeça. Permanecia acordado. Estava começando a amanhecer quando ele decidiu levantar. Não olhou ao redor. Foi para o quarto dos mais novos, que estava vazio, por sorte. Ele revistou a mochila de Jungkook, ainda feita da viagem e finalmente achou um envelope volumoso. A letra de Jungkook informava “Polaroids”.

Jin estava prestes a abrir quando ouviu um barulho no banheiro. Ele arrumou as coisas rapidamente, amassando o envelope no bolso da calça.

— Jin Hyung? — Ele ouviu Jimin no corredor, e tentou fingir que estava normal, se afastando da mochila. Jimin abriu a porta em seguida. — Aí está você! O que está fazendo de pé tão cedo?

— Não consigo dormir. Então vim pra cá, pra não atrapalhar os outros. Mas… sabe… Acho que não vai adiantar.

Jin saiu do quarto. Rapidamente passou no seu próprio. Pegou um casaco e a chave do carro, pensando que nunca teria paz o suficiente para olhar aquelas fotos. Não ali, não naquela casa cheia. Jimin permaneceu no corredor.

— O que vai fazer?

— Vou dar uma volta — disse Jin, já na porta da sala. Jimin o seguiu.

— Tá. Só não demora. Temos treino, tá? — O tom foi de brincadeira, pois Jimin estava imitando seu hyung. Mas Jin não sorriu, nem respondeu, só entrou no carro de seus pais. O sorriso de Jimin se transformou em uma expressão confusa, enquanto o carro saia da garagem e sumia na esquina. — O que tem de errado com ele?

Jin dirigiu pelas ruas de Seoul, que clareavam com o nascer do sol. Mil pensamentos se misturavam em sua mente. Aquela voz… AQUELA voz. Não podia ser… O envelope em seu bolso parecia ganhar vida, parecia pedir ME ABRA. Jin pensava na voz que ouviu, e pensava em tudo o que Jungkook havia falado sobre aquela garota. Nada tão relevante… A não ser o que falara na festa. Ele tinha contado sobre o café, sobre o beijo, sobre tudo que fizeram juntos e como estavam apaixonados.

Mas não podia ser, podia? Seu amor havia ido para longe… E Jungkook também. Parecia mesmo estar tratando-o de modo diferente, desde que havia chegado. Mas será que Jungkook seria capaz de fazer aquilo com ele? Não… Jamais. Era seu maknae…

Uma criança com os hormônios à flor da pele. Será mesmo que ele não faria?

Jin estacionou no píer, próximo ao andaime. O lugar onde sempre ficavam. Ele respirou profundamente, tentando manter a calma. “Está tudo bem”, ele disse pra si mesmo. As mãos estavam agarradas ao volante do carro parado. Ele tentava controlar sua respiração. Procurou os antidepressivos no porta-luvas, mas não estavam ali. Tinha deixado em casa.

Ele se concentrou no horizonte. O limite longínguo entre a água acinzentada e o céu branco formavam uma linha perfeitamente reta que dividia as duas cores. O envelope ainda parecia estar se contorcendo.

Jin finalmente o pegou. Olhou fixamente para a palavra “Polaroids” por vários segundos. Muito devagar, ele rasgou o envelope pelo lado e pegou apenas uma foto. Era uma selfie de Jungkook dentro do avião. Ele colocou o polaroid no banco carona e pegou mais uma foto. Uma nova selfie, dessa vez no ônibus. Parecia estar chegando mais perto. A terceira foto mostrava um Café Latte e um Caramel Machiatto, exatamente como ele descrevera. Jogou a foto. Finalmente, a quarta foto.

Jin deixou tudo cair no seu colo. Não podia ser.

Era ela. Yumii. Ela estava na foto, ao lado de Jungkook. Eles pareciam muito felizes. Mas a inocência de Jin não deixou que ele se convencesse. Ele jogou a foto no carona como se fosse radioativa, e pegou mais uma. As imagens eram cada vez mais reveladoras.

Um pouco mais próximos. Um abraço. Ela lhe beijou o rosto, enquanto ele exibia seu sorriso como uma criança feliz. E, finalmente, apareceu. O temido beijo.

Jin achou que choraria muito, mas só uma lágrima escorreu pelo lado direito do rosto. Ele olhou para seu próprio peito, para ter certeza de que seu coração não estava sendo perfurado por um milhão de balas. Pensou em muitas coisas.

Como Jungkook tinha coragem de fazer aquilo? Como Yumii tinha coragem de fazer aquilo? Como eles ousavam manter aquele crime oculto? Eles não se importavam com os sentimentos de Jin?

Ele se lembrou da sua casa de cartas desmoronando. Porque aquilo era a vida dele, desde que Yumii havia entrado. Ele montou a casa de cartas, ele a conquistou. Ela partiu, e tudo desabou. Depois disso, ele havia tentado tantas, tantas vezes erguer aquela casa. Tentava levantar a si mesmo, mas sempre desabava. Os antidepressivos não eram o suficiente. Os amigos não eram o suficiente. Porque ele não era à prova de balas, como pensava. Ao menos às balas de Yumii ele não era imune. Mesmo longe, ela atirava, a casa caia, e ele sofria. Não sabia como suportar aquilo. Não era algo que pudesse dividir.

Mas, afinal, de que adiantava tentar montar aquela casa de cartas, se ela sempre desabava? E de que adiantava viver, desabado? Como poderia viver, com o coração já granulado de tanto ser baleado, de tanto sofrer?

Não havia respostas.

Não havia mais nada a fazer.

Jin abriu a janela do carro. Amassou as fotos, rasgou algumas, destruiu tudo aquilo, jogando fora do seu carro. Aqueles dois não mereciam estar naquele carro. Não podiam estar ao lado dele naquele momento, porque nunca estiveram. Jin triturou o envelope, acabou com tudo o que havia ali, e tudo aquilo caiu no píer. Finalmente, ele fechou a janela, como se fosse um campo de força que o separasse da maldade que havia ali fora. Mas não adiantou. Ele não parou de sofrer.

Kim Seokjin olhou novamente para aquela linha no horizonte, desejando alcançá-la. O que haveria lá? Ele também sofreria lá? Ele não sabia. Só sabia que não podia ficar ali.

Ele engatou a primeira marcha, sem tirar os olhos da linha. Seus dedos tortos envolveram o volante com força. Ele respirou fundo. Piscou longamente. Fincou o pé no acelerador, como se não houvesse amanhã. Ele não queria que tivesse.

O carro foi projetado metros além do píer, e caiu na água com um grande ruído. Ele afundou cada vez mais. Jin observava pela janela a água tomar conta de tudo. Permanecia seco. Os vidros fechados dificultavam o trabalho da água, que entrava devagar. Elas mal cobriam seus tornozelos quando seu rosto se encharcou como se tivesse sido tomado por ondas. O choro tomou-lhe o ar, mas ele não se importou. Só queria chorar, chorar muito, para que aquele carro se enchesse mais rápido. Ele continuou com as mãos no volante. Não havia quantidade para suas lágrimas. O som do seu choro era alto e disputava com o barulho da água entrando. Ele bateu sua cabeça no volante várias vezes, punindo a si mesmo por ter sido tão burro a ponto de se apaixonar. A ponto de achar que era à prova de balas.

A água subia. Cobriu-lhe metade do corpo. Ele lavou o rosto com a água do rio, embora seus olhos não parassem de derramar água. Eram torneiras incessantes. As águas tomavam conta de seu carro e de seu rosto, cada vez mais. Era tudo o que ele queria. Queria que tudo acabasse logo.

Demorou, mas a água cobriu o seu rosto. Ele inspirou, e a água feriu seu nariz. Ele se moveu com agonia, procurando o ar por causa dos reflexos, mas ele não queria respirar. Brigou consigo mesmo por seu corpo protestar. Ele não tinha esse direito. O corpo tentou expulsar a água. Mas tudo ao redor dele era água, cada vez mais profunda, cada vez mais escura, até que se tornou breu.

Notas finais
Nada a declarar nesse final... Só espero que tenha se emocionado como eu me emocionei. Até o próximo capítulo.