Finalmente, esse é meu último dia aqui no Rio de Janeiro e eu irei aproveitá-lo ao máximo, dormindo. Eu pretendia fazer isso, até que recebo uma ligação de minha única amiga, Amanda e é a mãe dela que fala comigo.
— Beatriz — É 'Beatrice', eu penso, mas ela parece estar tão nervosa que eu nem vou reclamar. Percebo que ela está chorando enquanto tenta voltar a falar. — Eu internei a Amanda em uma clínica de rebilitação!
— Eu vou visitá-la hoje mesmo! — Digo com esperança de acalmar a Senhora Sampaio.
— Ela não fala comigo, ela está me rejeitando ainda mais. — Ela soluça por um bom tempo e finaliza dramaticamente. — Minha filha me odeia!
— Eu estou saindo agora de casa, fique forte.

Mentira, ainda estou me levantando da cama. Coloco minha calça jeans rasgada, meu moletom com o símbolo dos 'Rolling Stones' e um all-star preto, para mim bastava. Guardo as chaves na mochila, pego a mala e entro no elevador. Para meu azar encontro Daniel, meu ex namorado e ele fica me encarando.
— Perdeu alguma coisa?
— Não. — Ele olha para o chão sem graça. — Fiquei sabendo que você vai embora.
— Aleluia, implorava por esse dia. — Digo tentando encerrar minha conversa com ele. Inesperadamente, ele me beija e eu retribuo, mas depois dou um tapa na cara dele. O elevador se abre, eu saio. — Você só pode ser louco, garoto! — Entro no carro e acordo o motorista, Ernesto trabalha com a gente desde que nasci, é como se fosse meu avó. Ele me deixa na clínica de reabilitação, eu não digo para ele o que vim fazer aqui e peço que ele não me espere. Ele com certeza contaria ao meu pai, que me proibiria de andar com a minha única amiga e eu não queria isso.

A clínica é luxuosa, eu sabia que não iriam colocá-la em qualquer lugar. Vou direto na recepção, os funcionários se vestem com aquele clássico 'azul de hospital' e a moça sorri para mim.
- Posso ajudá-la?
— Sim, eu procuro Amanda Sampaio, foi internada ontem.
— Sei, ela está — Ela mexe no computador e conclui. — No sétimo andar, quarto 702 e a enfermeira está com ela.
— Obrigada. — Tento falar o mais gentil possível. Pego o elevador com um garoto acompanhado por uma moça da clínica, ele tem olhos avermelhados e então, ele é o paciente. Eles descem no sexto andar e minhas mãos tremem enquanto imagino em que situação ela pode estar. O elevador se abre, eu nunca tive medo de encarar minha amiga, até agora.
Bato na porta e uma das três mulheres da clínica abre-a, procuro Amanda pela a sala e vejo a porta do quarto, antes que eu possa abri-la outra moça me repreende.
— É melhor não abrir, ela está alterada.
— Eu conheço ela desde os três anos, sei lidar com ela. — A moça mexe a cabeça como quem diz 'Vai logo, sua babaca!' e eu entro. Amanda está sentada com uma tiara nos cabelos loiros, seus olhos azuis estão levemente avermelhados, eu queria esganá-la por estar fazendo isso comigo, sua família e com ela mesma. Mas ao invés disso eu me sento ao seu lado na cama e a abraço, enquanto ela chora eu seguro as lágrimas para 'transmitir' força para ela.
— Eu vou embora para Londres, A. — Seguro sua mão, ela começa a chorar mais. — Olha, você precisa ficar forte e se cuidar, parar com isso!
— Você não pode! — Ela soluça, grita, chora, ela adora um escândalo assim como a sua mãe. — Eu não vou ter ninguém, ninguém! Vou ficar nessa merda de clínica, eu odeio esse lugar, eu odeio!
— Você tem os seus pais, que sempre estiveram ao seu dispor e agora você pode aproveitar isso. — Sorrio, mas parece que isso só piorou a situação. Sua pele branca agora esta vermelha de raiva e eu sempre soube que ela não gostava de tocar nesse assunto, nem comigo.
— Eu odeio eles, eu queria que eles estivessem mortos! — Ela grita enquanto se levanta.
— Fica quieta! — Eu me levanto tentando conter as lágrimas, uma cai, mas consigo impedir as outras de cairem. — Você é rica, tem uma família estruturada e eu? Eu não tive mãe, e nem pai, ele só vive em função do trabalho!
— Onde será que eu acho outra ruivinha sardenta pra mim?- Ela me abraça tão forte que penso que quer me esmagar. — Olha só pra você, tão geek!
— Como vou viver sem você, loira? Vou estar sempre te ligando ou escrevendo, vou fazer questão de saber da sua recuperação! Promete para mim que vai conseguir! — Ela faz que sim com a cabeça e é péssimo para mim ter que vê-lá naquele estado. — A, agora eu tenho que pegar minhas coisas na recepção daqui. Eu vou entrar em contato com você! Se cuida, te amo.
— Eu também te amo, vou me esforçar muitom eu prometo. Ligue sempre que quiser, me conte as novidades! — Ela grita acenando para mim que já estou no elevador.
Me vem um aperto no peito, eu nunca fui de muitas amizades e agora me despeço da única que tive na vida. Pego minha mala, minha mochila na recepção e chamo um táxi para ir ao aeroporto. Meu pai já esta lá mexendo no iPad, com certeza é algo do trabalho e eu cutuco ele para que note minha presença.
— Olá, filha.
— Olá, pai. — E assim encerramos a conversa de pai e filha mais emocionante do mundo! São poucos os momentos que ele tem sozinho comigo e ele nunca aproveita, desde que minha mãe morreu ele não conversa mais comigo. Não demora muito e anunciam que o avião acabou de chegar. Não demora muito e já estamos voando, eu gosto do friozinho na barriga. Abro a minha mochila, pego o iPod e os fones de ouvindo. Pronto, agora eu estou literalmente nas nuvens ouvindo 'BulletProof Love', do Pierce The Veil.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.