Bulletproof Grower
23 Hipoglicemia
Notas iniciais
O Estrela do Destino subiu no ar, enquanto a terra estava em festa. As crianças de Daegu pulavam de alegria ao ver aquele objeto mágico ganhando altura. Os Min estavam emocionados, mantendo por perto os mestres e o Juízo, todos muito contentes com a realização, embora no fundo soubessem que sentiriam falta deles.
Yoongi estava curtindo a música enquanto tentava se distrair para o fato de os dois estarem partindo. A ausência de Florzinha era difícil, mas ele já estava acostumado. À ausência de Junggie, seu filho de sangue, nem tanto. No entanto, a tentativa de distração continuava e fazia Omelas desaparecer ao seu redor, como se só existisse aquele céu infinito e o balão que diminuía cada vez mais no horizonte, ficando cada vez mais difícil de ser visto.
De repente, o mundo voltou a ser sentido quando uma mão aterrissou no seu ombro, sem nenhuma delicadeza. Não havia pousado, mas praticamente sido jogada. Ele olhou para seu lado esquerdo, onde estava Minji. Mesmo não estando tão próximos ultimamente, ele fazia questão de mantê-la por perto enquanto ela estava em Omelas, por saber que ela se sentia deslocada.
Minji encarava o nada, com o peso da mão jogado no ombro de Yoongi, que franziu o cenho.
— Minji? — ele a chamou, dois segundos antes de notar o quanto aquele peso em seu ombro era familiar. Aquele peso, aquele olhar, aquelas pálpebras vacilantes. — Essa não — murmurou ele, quando ela já começava a desmoronar. Todos aqueles anos de sua infância passaram pelos olhos de Yoongi enquanto ele a segurava, como tinha feito tantas vezes. — Minji — murmurou ele, preocupado, apesar de saber que ela já estava dormindo. Foi acomodando-a em seu colo de um jeito muito prático, enquanto as pessoas mais próximas já notavam o acontecimento.
Yoongi não hesitou. Abriu as asas e levantou voo em meio à multidão. Contornou a Casa do Juízo até a entrada da cozinha, onde aterrissavam as carruagens que vinham da Fazenda com os mantimentos. Entrou correndo e a deixou no balcão que ficava logo abaixo da prateleira que ele precisava. Não a deitou; manteve-a sentada, apoiada em seu peito, enquanto pegava o açucareiro na prateleira. Ele o abriu pegou uma colher de açúcar, abrindo com cuidado a boca dela para derramar o conteúdo. Ficou, então, na expectativa por uma reação. Poucos segundos depois, ela mostrou algum sinal de estar acordando.Yoongi se permitiu ficar um pouco mais tranquilo, mesmo ainda preocupado com a palidez dela, e com o que uma crise de hipoglicemia poderia significar no mundo sem doenças.
Sunghee apareceu na cozinha, parecendo ter alguma urgência.
— O que aconteceu com ela? — perguntou, preocupada.
— Falta de açúcar. Como sempre.
— Ela não deveria ter isso aqui.
— Eu sei — murmurou a menina, abrindo os olhos lentamente. Ainda parecia fraca.
— Já teve isso antes desde que chegou? — perguntou Yoongi.
— Não. Eu continuei com o açúcar por costume, mas não tanto quanto estava viva. Com o pouco que comi de doce, já deveria ter tido uma crise, se elas fizessem efeito aqui.
— Tá querendo dizer que é recente? — perguntou Sunghee.
— Alguma coisa naquele balão… Jin disse que as doenças só existem em casos muito especiais, não é isso?
— É — concordou Sunghee. — Ele ficou doente por causa de uma… Conexão. — Sunghee e Yoongi se entreolharam. Eles pareciam estar pensando a mesma coisa. — Cuida dela, eu vou chamar a Michung.
Sunghee saiu correndo da cozinha. Yoongi voltou seu olhar para Minji, tentando fingir que não estava morrendo de medo de que ela estivesse apaixonada por seu filho.
~
Yoongi ajudou Minji a se sentar quando ela se sentiu um pouco melhor. Depois disso, tentou se afastar um pouco, recomendando-lhe que respirasse, mas ficou ao alcance. A verdade era que ele estava começando a ficar nervoso. A chegada de Michung parecia estar demorando uma eternidade, tempo suficiente para que a mente de Yoongi fosse preenchida por pensamentos que ele não queria ter. Desde a separação em Daegu, a relação deles não era a mesma coisa, embora memórias daquele tempo fossem afetivas o suficiente para sugerir o contrário. Era fato que os dois não se viam mais da mesma forma, mas, parando para analisar, Minji e Junggie tinham passado por algumas conversas particulares. E ela não tinha hesitado em dizer que ele era parecido com o pai, que a defendia nas crises da doença. Ele não era parecido com aquele Yoongi do Juízo; era parecido com o Yoongi da infância. Como ele mesmo dizia, um “Minisuguinha”. Ou seria, agora, um “Miniasgust”?
— Me contem — disse Michung, entrando meio esbaforida. Yoongi não conseguiu não se sentir incomodado com a ausência de Sunghee. Aquilo era demais para ela?
— Hipoglicemia. Ela tinha essa doença em vida, mas não deveria tê-la aqui. Segundo ela, a manifestação é recente e tem algo a ver com o balão.
— Não está conseguindo visualizar — notou Michung, se aproximando. — Sabe que tem algo naquele balão que está faltando em você, mas não consegue entender o que é, certo? Bom, vamos tentar afastar essa névoa.
De longe, Michung já sabia que Yoongi estava nervoso, então colocou a mão em seu ombro ao passar por ele, discretamente lhe transmitindo um pouco de calma.
— Dê-me sua mão — pediu Michung, ao que Minji obedeceu.
Michung começou a ler as emoções de Minji. Estavam claramente confusas, perturbadas e sem doce. Faltava açúcar, ou melhor, faltava algo para completar Minji. Para Michung, seria Byun Baekhyun, mas ele não tinha nada a ver com o balão. Michung começou a afastar as sombras para que realmente pudessem sentir o que havia de tão incrível no Estrela do Destino.
— Tem alguém muito importante pra você naquele balão — constatou Michung, apesar de não ser necessariamente uma novidade. — Alguém que você ama muito. Alguém que… — Michung hesitou. — Alguém que veio do seu ventre.
O coração de Yoongi disparou. Agora, seus pensamentos estavam a mil. Até onde ele sabia, aqueles no balão eram seus filhos.
— Como assim? — ele não conseguiu segurar a ansiedade.
— Já consegue ver? — perguntou Michung.
— Sim — disse Minji, parecendo cada vez mais emotiva. — Sim — repetiu ela. Seus olhos começaram a se encher de água. Era algo um tanto natural quando se é examinado por Jung Michung, mas aquela situação era um pouco mais grave. Yoongi estava se roendo de curiosidade. — Ela é minha filha. Ah Peuro.
— Sua filha? Tipo, de verdade?
— É — confirmou Michung. — Em uma de suas vidas passadas, Minji teve a Florzinha. Geralmente, memórias de vidas e existências passadas não vêm à tona, principalmente se forem tão antigas. O que possibilita isso é o fato de Flor não ter reencarnado desde então. Elas nem ficaram tanto tempo juntas aqui, mas o choque do afastamento causou isso. Vamos ter que cuidar do seu nível de açúcar até ela voltar.
Michung olhou para Yoongi, que parecia estar processando aquilo tudo. Afinal, ele sempre a teve como filha, mas sabia que não era pai dela de verdade. Junggie era seu único filho legítimo.
— Tudo bem com você? — perguntou Minji.
Yoongi olhou para ela, surpreso. Esperava essa pergunta da Michung, não da Minji.
— Sim. Eu tô de boas. Essas coisas loucas acontecem aqui, mas… — Yoongi voltou a se aproximar dela. A situação estava bem diferente do que ele imaginava. — Eu tenho uma pergunta. Se você é a mãe da Florzinha, quem é o pai?
Minji olhou para algum lugar qualquer, pensativa.
— Eu não sei. Eu não me lembro.
— Não acho que isso importe — argumentou Michung. — Pode ser qualquer pessoa, pode ser alguém que está encarnado agora, pode ser alguém que nunca vimos.
— Pelo que eu conheço da história da Flor, não era um cara muito legal — disse Yoongi.
— Acha que pode ser o Baekie? — perguntou Minji.
Yoongi não sabia o que pensar. Ele sempre tentava ignorar o passado sombrio do Baekie, ignorar que ele era um criminoso, que havia matado Jungkook, que havia se casado com sua irmã de infância… Mas tudo isso ele aturava. Se ele aparecesse como pai biológico da sua filha adotiva… Ele não saberia lidar.
— Não importa, gente — insistiu Michung. — Isso não faz diferença agora. Minji, coma mais açúcar e vá se deitar. Você precisa se recuperar, isso que importa. Vou falar com o Jin para saber se ele tem alguma medida.
Michung saiu da cozinha, deixando os dois novamente sozinhos. Eles se encararam por algum tempo, sem deixar de ficar incomodados com aquela coisa toda. Finalmente Yoongi pegou o açucareiro. Sem dizer nada, ofereceu a ela mais algumas colheres de açúcar antes de guardá-lo novamente.
— Consegue andar?
— Acho que sim — disse ela, descendo do balcão.
Ainda em dúvida, Yoongi a fez colocar o braço sobre os ombros dele, enquanto a levava para o aposento onde ela costumava ficar em suas visitas. Ele a ajudou a chegar até a cama e deitar. Cuidar dela, mesmo depois de tanto tempo, parecia natural, embora a recente revelação deixasse tudo muito estranho. Não só pelas confusões no parentesco, que parecia tensioná-los, mas havia algo diferente: Yoongi estava muito preocupado com o estado dela, coisa que não acontecia desde a infância, e isso, de alguma forma, os tornava mais próximos novamente. Ele queria sair correndo dali, mas também queria cuidar dela.
— Você vai ficar bem? — perguntou ele, sentado na beirada da cama.
— É claro. Eu sou forte, lembra?
Yoongi sorriu. No fundo, a declaração era um alívio. Se ela ainda se considerava forte, não precisaria de mais uma injeção de força, coisa que Yoongi realmente não queria oferecer, e mesmo se quisesse, não poderia. Ela era importante para ele, mas não mais que Sunghee. Nunca poderia ser.
— Tudo bem, então. Qualquer coisa, mande um espectro me chamar. Eu vou tranquilizar os outros.
Yoongi se levantou para ir embora.
— Espera. Tem mais uma coisa.
O mais velho teve um pouco de medo do que viria. Voltou a olhar para ela, levemente hesitante.
— Fala.
— É… A Michung me mostrou mais uma coisa. Sobre o pai da Peuro… É alguém que voltou a ser afetivamente importante para mim na última vida. Então, ao contrário do que ela sugeriu, não é um desconhecido.
Yoongi ficou um pouco preocupado com o que ela estava insinuando, mas fez questão de desviar.
— Deve ser o Baekhyun, então. De qualquer forma, a Mi disse que não importa. Tente não pensar nisso e trate de descansar.
Yoongi sorriu um pouco antes de sair do quarto, e tentou seguir aquele mesmo conselho.
~
No hall de entrada, o Juízo já estava ficando a par das notícias. Do lado de fora, as crianças ainda estavam se dispersando em direção a Daegu.
— Ela está bem — garantiu Yoongi, aos que perguntaram.
Todos ainda estavam um pouco chocados com o retorno da hipoglicemia e com a mais recente notícia sobre a família de Florzinha. Nana falou um pouco sobre o que sabiam daquilo.
— Pode ir para a Ilha quem chega sem mãe, sem pai ou sem filhos. Alguns se encontram, mas há inúmeras possibilidades, como a mudança de ilha e a reencarnação. Além disso, alguns nunca chegam à Ilha. Acontece muito de recebermos uma criança e, depois de um tempo, a mãe dele, ou o contrário. Nesse caso, ambos saem da Ilha. Mas o mais comum são esses desencontros. Quando cheguei, Florzinha já era da Ilha. Eu sempre soube que a mãe dela tinha morrido antes dela, mas... ou Minji nunca chegou à Ilha, ou reencarnou antes de Florzinha aparecer.
— Ela também pode ter reencarnado depois de ficar algum tempo na Ilha — acrescentou Jimin.
— Não sabemos muito da história delas — continuou Nana. — Afinal, são muitas crianças, mas isso é o que a maioria sabe. Vocês devem saber mais — ela se dirigiu aos pais adotivos.
— É — disse Sunghee, pensando no que sabia. — Sempre soubemos que ela teve uma vida curta, é claro, e ela nos contou que só teve o pai a maior parte do tempo, já que a mãe morreu. Eles eram muito pobres, e se sustentavam com a venda de fósforos. Ou seja, o pai sempre a obrigou a trabalhar.
— Não era um cara muito legal — concluiu Jungkook. — E como a Minji morreu?
— Florzinha não sabia, então nunca soubemos — explicou Yoongi. — Só sabemos que ela era bem pequena quando aconteceu.
— Minji não tem lembrança sobre isso — disse Michung. — Ela não lembra de nada, na verdade. Não acho que nada disso faça diferença. O importante é elas se reencontrarem.
— A falta de uma família… — refletiu Yoongi. — Sempre deixou Florzinha muito triste. Várias crianças da Ilha eram assim, mas ela viveu pouco, quase não teve a mãe, então foi mais pesado.
— Ai, gente, que assunto desagradável — murmurou Jin. — Podemos parar por aqui, não é? Temos coisas a fazer e… Enfim, tenho certeza de que tudo vai se resolver. Como a Mi disse, Minji só precisa de açúcar, descanso e tranquilidade até que Florzinha volte, o que deve resolver de vez o problema.
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