Bubble Wrap

2 Capítulo II - When you said your last goodbye, I died a little bit inside


Notas iniciais
Eu queria agradecer pelos comentários do capítulo 1. Sério, vocês são uns amores. Eu diria alguma coisa útil aqui, mas to com um pouco de pressa por conta de um negócio da escola. Boa leitura!

This is the last time

I give up this heart of mine

A garota não esboçou nenhuma reação.

Num piscar de olhos, fechava a porta em silêncio enquanto um Leo estupefato a encarava com as sobrancelhas erguidas.

– Reyna!

Leo enfiou o pé entre o vão da porta, impedindo-a de se fechar por completo e em seguida empurrou a madeira com uma mão só. Reyna o olhou como se ele fosse algum tipo de anomalia.

– O que você quer aqui, Valdez? – perguntou.

No fundo, ela rezava para que ele não notasse seu tom de voz choroso. Podia sentir as lágrimas se formando nos cantos dos olhos só de ver aquele sorriso estúpido.

– Eu quero falar com você. – Leo balançou os ombros, como se não fosse óbvio.

– E eu não quero falar com você.

Foram inúteis as tentativas de fechar a porta. Eles passaram pelo menos três minutos numa disputa silenciosa. Ela, com uma expressão irritada, tentando deixá-lo do lado de fora e ele, se segurando para não rir, tentando abrir uma fresta grande o bastante para que pudesse passar.

Naquela tarde, os olhos de Valdez se fixaram na garota de vestido azul. Ela movia a cabeça conforme o ritmo da música que tocava em seu iPod e parecia tranquila, embora as mãos segurassem um livro de capa escura com força. Ela o olhou. Sorriso tímido. Leo piscou, fazendo com que suas bochechas já coradas adquirissem um tom rubro. A garota desviou o olhar no mesmo instante.

Fora no mesmo dia em que ele decidira tomar um rumo na vida e superar os problemas. Saiu do consultório do Dr. Leitzke com uma receita em mãos e, não, daquela vez ele não iria ignorar o fato de que realmente precisava tomar os remédios.

– Ei – foi o que dissera Leo, as mãos nos bolsos da calça e um sorriso galanteador no rosto. – eu gosto desse livro. É o meu preferido.

Era mentira. Ele não lia. Ele só precisava desesperadamente de um modo para falar com ela.

– É a minha agenda. – a garota riu, fazendo-o arregalar os olhos por alguns segundos.

– Oh. – e coçou a cabeça, sem saber o que fazer.

Díos, o que estava acontecendo? Ninguém nunca tirava as palavras da boca de Leo. Ele a pura, ou não tão pura, imagem da rebeldia. Os cabelos cacheados e rebeldes, os coturnos pesados e braços cobertos por tatuagens. Qualquer um diria que ele era encrenca e lá estava, agindo feito um completo bobo na frente de uma garota.

– Você não precisa olhar pra mim como se eu fosse um E. T. – riu a garota, estendendo a mão para ele. – meu nome é Reyna.

Aconteceu mais rápido do que a garota imaginou. No minuto seguinte, Leo já estava sentado em sua sala de estar e ela pensava seriamente em se trancar na despensa. A cozinha nunca pareceu um esconderijo tão bom, mas sabia que ele poderia simplesmente aparecer por lá e oferecer ajuda com o suco de laranja, como se fosse algo realmente difícil de se fazer. Ele riria, levantaria uma de suas sobrancelhas e na pior das hipóteses os dois estariam se beijando logo em seguida.

Reyna nunca imaginou que um dia iria ver aquela cena novamente. Ele, tão alto, forte e extremamente bonito, o tipo de garoto que poucas pessoas tinham a chance de se aproximar, sentado em seu sofá florido como se eles nunca tivessem feito... Coisas... Lá.

Ela ruborizou de imediato. Não era hora de pensar no passado. Tinha que descobrir algum jeito de enxotá-lo dali antes que alguma tragédia acontecesse.

É que Leo era diferente. Ele contrastava com o ambiente florido e em tons pastéis que a mãe de Reyna orgulhosamente criara. Pra falar a verdade, ele contrastava com tudo. Fazia faculdade de Engenharia e dividia o apartamento com um cara chamado Nico. Os dois trabalhavam na melhor loja de CD’s da cidade e Valdez gostava de café puro e sem açúcar. Ele sorria ao ver cachorros na rua e era péssimo com crianças, mesmo que todas parecessem idolatrá-lo e quisessem colorir suas tatuagens. Reyna se viu espiando-o pelo reflexo da janela à sua frente. Engasgou-se.

Ela não tinha reparado em nada de diferente. Desde que Leo surgira em sua porta, a garota tentou ao máximo não olhá-lo tanto assim.

Seu ex-namorado parecia horrível. Ele tinha olheiras profundas debaixo dos olhos castanhos, a pele pálida e uma expressão de cansaço no rosto. O coração de Reyna apertou. Ela estivera tão acostumada a vê-lo saudável e forte, aquele bronzeado atípico de uma Bristol chuvosa e fria. Leo era sempre tão agitado e naquele momento ele parecia estar... Deixando de ser o mesmo Leo de sempre.

Afastou aquele sentimento. Ela não podia sentir pena ou ficar preocupada com ele. Não mais.

– Eu... – foi o que disse, quando ela colocou os copos de suco em cima da mesa de madeira polida. – Reyna, a gente precisa conversar.

Ela permaneceu em silêncio, os braços cruzados. Sentada do outro lado da sala, Leo achava que a garota nunca tinha parecido tão inatingível.

– Escute – Leo se inclinou, apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele brincava com os próprios dedos, característica que tinha desde sempre. – me desculpe.

– Me desculpe? – Reyna imitou o gesto, também se inclinando. – te desculpar por ser um completo idiota? Por me chutar como vocês com sabe-se lá quantas garotas?

– Eu não...

– Não. – ela lhe lançou um olhar tão frio que Valdez sentiu todos os seus ossos congelarem lentamente. – eu não desculpo. Você é um babaca e eu já devia saber disso.

Leo fechou os olhos com força por alguns instantes. Reyna sabia que ele estava se irritando e não tinha certeza se gostava daquilo ou se deveria ficar com medo.

Quando as orbes castanhas voltaram a encará-la, era o momento certo para sair correndo e esquecer da existência dele. Reyna tinha plena consciência de que estava perdida. Era como chegar na aula num dia de uma prova importante e não ter estudado uma página sequer do conteúdo. Você sabe que vai acabar se dando mal, mas não há escapatória. Acontece que, naquele momento, ela não podia colar de ninguém.

– Eu me arrependo. – o pomo de Adão do rapaz subiu e desceu rapidamente, a voz embargada e os cílios longos tocando as maçãs de seu rosto toda vez que ele piscava. – você sabe como eu sou, Rey... Eu não...

– Para. – ela balançou a cabeça, sentindo-se pequena demais num mundo tão grande como aquele. – não faça eu me sentir culp–

– O culpado sou eu. – Leo balançou a cabeça. – sempre sou eu. Sempre vai ser. P-porque eu sou o idiota problemático e...

Valdez era teimoso. Muito teimoso. Ele sempre fora o tipo de garoto que fechava a cara e batia o pé quando sua opinião divergia com a de outra pessoa. Vestia aquela armadura invisível e não havia ninguém que pudesse vencê-lo numa batalha.

Menos Reyna. Ela sempre fora seu ponto fraco e ao mesmo tempo o que o mantinha no chão. Já era de se esperar que, depois que os dois terminaram, Leo tenha cometido todo o tipo de coisas estúpidas que poderia fazer um dia. Ele podia facilmente citar o choro antes de dormir, os ataques raivosos em filas do banco, as tigelas de cereal voando por sua cozinha e Nico o xingando em italiano após esse tipo de acidente.

– Me perdoa, Rey. – ele esfregou os olhos com força, impedindo as lágrimas de formarem nos cantos de seus olhos.

Ela tinha na memória poucas vezes em que Leo havia chorado na sua frente. Na maior parte do tempo, ele era mais o tipo de engolir qualquer tipo de tristeza ou mágoa.

Um ano e alguns meses depois, Leo poderia dizer com toda a certeza do mundo que Reyna era a melhor coisa que tinha acontecido na vida dele. Ela e seus sorrisos nas segundas-feiras de manhã, ela e os beijos roubados antes que suas aulas começassem, ela e todas as vezes em que eles passaram a noite em claro apenas conversando sobre coisas bobas. Perto de Reyna, Valdez tinha vontade de ser uma pessoa melhor.

– Você não é horrível, Leo. – riu a garota, os dedos entrelaçados nos cabelos dele.

– Eu me sinto uma meleca nojenta perto de você. – murmurou ele, segurando o riso. – tão doce, pura e jovial. Você é como os raios de sol pela manhã e eu sou aquelas nuvens pretas que sempre estragam o dia das pessoas.

Ela ergueu uma sobrancelha para ele, que finalmente riu. Para Reyna, a risada de Leo era a melhor coisa que ela já tinha ouvido.

– Embora – murmurou o rapaz, depositando um longo beijo em sua bochecha. – eu deva ter tirado toda a sua inocência, você continua sendo uma fada ou alguma coisa assim, ingênua e frágil.

Reyna revirou os olhos, acertando-lhe um tapa num dos ombros. Eles passaram algum tempo em silêncio, apenas desafiando um ao outro com o olhar, antes que ela voltasse a falar.

– Você não é uma nuvem ou uma chuva, Valdez. – disse. – e sim um furacão.

A garota se levantou, contornando a mesa e se sentando ao lado de Leo. Parte dela lhe dizia que devia jogar suco na cabeça dele ou coisa do tipo, mas a outra parte apenas a fez levar uma das mãos à bochecha do rapaz.

– Não chore... – murmurou, o tom de súplica.

[N/A: play! Essa música é tão ♥]

Leo olhou para ela com uma expressão terrivelmente triste e cansada. Ele tinha o rosto vermelho e lábios inchados, e Reyna mal sabia de suas crises antes do sono chegar. Valdez frequentemente era obrigado a tomar remédios para dormir antes que as lágrimas ameaçassem se formar.

Nenhum dos dois faria a pergunta e ninguém saberia responder quem esteve pior após o fim do namoro.

– Eu sei que eu sou uma pessoa horrível. – murmurou ele, pequenas lágrimas ainda presentes nos cantos dos olhos. – mas eu amo você. E você definitivamente merece alguém melhor do que eu...

Respirou fundo. Reyna não se atrevia nem a piscar. Ela tinha medo de que aquilo fosse apenas algum tipo de ilusão. Leo continuou.

– É que às vezes as coisas acontecem sem que eu tenha controle absoluto delas. Você sabe disso. – riu, triste. – e às vezes as pessoas ruins só precisam de alguém que desperte o lado bom delas. Você é a parte boa de mim, Rey.

Reyna sabia que ele não era ruim, muito menos horrível. Leo tinha um passado terrivelmente trágico e ele se recusava a falar sobre isso, assim como preferia guardar toda a confusão de sentimentos dentro de si e esquecer que ele era uma pessoa real e tinha o direito de botar pra fora. Reyna perdia a conta de quantas vezes ela e Nico já não tinham conversado sobre Leo.

– Eu preciso de você. – murmurou Valdez, apertando os dedos da garota contra os seus de modo desesperado. – me desculpe, me desculpe, me desculpe, me desculpe! E-eu vou ser melhor, eu prometo, eu prometo...

Reyna não pôde impedi-lo de tomar seu rosto nas mãos. Sentiu o hálito de menta do garoto se misturar contra o seu, o perfume dele a deixando inebriada. Os olhos castanhos encontrando aqueles tão negros quanto obsidianas e, Dios mío, como Leo tinha sentido falta daqueles olhos.

– Volta pra mim, Rey. – suplicou. – eu juro que não faço merda dessa vez.

A garota se afastou antes que qualquer coisa acontecesse. Leo suspirou pesadamente e não hesitou antes de se levantar, jogando o cabelo para trás. A derrota era uma mão gigantesca e ela apertava seu coração com uma força surpreendente. Ele se sentiu sem ar.

– Desculpe por isso, eu vou emb–

– Leo.

Ele se virou lentamente, uma centelha de esperança brilhando em seus olhos castanhos. Reyna fechou os olhos por alguns segundos antes de se pronunciar.

Veja bem, ela amava Leo. E amava com todas as suas forças. Ele podia ter seus demônios pessoais, coisas que ela só descobrira depois de longas conversas no capô do carro e abaixo das estrelas mas, cara, como ela o amava. Leo era a rebeldia e a liberdade que ela sempre quis ter. Ele era o punk rock explodindo em suas caixas de som, a malícia em seu sorriso e ele, definitivamente, era o que a fazia ser Rey.

– Você tem uma semana, Valdez. Uma semana para me surpreender.

Leo abriu um sorriso de orelha a orelha, se movendo tão rápido que ela mal percebeu. Ele a levantou no ar, girando pela sala e a trilha sonora perfeita para o momento só podia ser a risada de ambos.

– Eu não vou te decepcionar de novo. – foi o que Leo disse, poucos segundos antes de sair pela porta da frente.

Reyna nunca admitira isso mas... Ela sabia.

Notas finais
Aliás, eu fiz a trilha sonora da fic! yeahhh --> http://8tracks.com/ocallaghen/bubble-wrap Anyway, até mais ver. @kennycurse