Notas iniciais
Agora a historia começa entrar no foco principal...

Uma brisa mais gelada atingiu a cidade nos primeiros dias de abril. O sol ainda ardia forte no céu solitário, mas agora era algo mais agradável do que nos primeiros três meses do ano.

Por mais que tentasse, Tiago estava tendo uma certa dificuldade para falar com seus pais. Jessica e Rafael apenas esperavam o amigo dizer que estava pronto para contarem para os seus, queriam contar juntos para evitar que a noticia chegasse aos pais de outro e se tornasse algo mais prejudicial.

Tiago acordou e agiu normalmente, como sempre fazia, sua mãe corria de um lado para o outro para arrumar o almoço do menino antes de voltar para dar aula na parte da tarde na escola onde era professora. Ainda com cara de sono ele observava sorridente a correria da mulher. Seu cabelo estava solto, suas roupas escuras sujas de giz e a preocupação estampada em seu rosto.

— Mãe... mãe... – A mulher olhou para ele e sorriu, se virou e voltou a pressa de antes – você pode ir já mãe, vai se atrasar, eu consigo por a comida pra esquentar no micro-ondas – disse Tiago e ela parou, se virou para ele e se aproximou, lhe deu um beijo no topo da cabeça e o olhou.

— Você cresceu, as vezes eu não consigo me lembrar disso.

Suely foi para o segundo andar e retornou logo depois e deu um outro beijo no filho, só que no rosto.

— Te amo muito, se cuida, não fale com estranhos ate mesmo na escola, cuidado na escola, fique com Deus – disse a mulher ao filho e saiu, deixando-o sozinho.

Quando Tiago chegou na esquina onde encontrava seus amigos, apenas viu Rafael parado lá.

— Cadê a Jeh? – perguntou Tiago achando estranho a falta da menina.

— Esta atrasada.. e ai vem ela! – falou Rafael.

A garota andava rapidamente por sua rua, ela subiu na calçada e chegou até eles que já tinham começada a andar.

— Minh mãe não queria que eu fosse para escola hoje.

— Por que Jessica? – perguntou Tiago inocentemente.

— Você não soube Tih? – perguntou Rafael, ele viu o amigo olha-lo confuso – acho que você tem que começar a acordar mais cedo.

- Por quê?

- Houve um massacre no Rio de Janeiro... um louco entrou em uma escola e atirou em um monte de crianças, pelo que vi nos noticiários já sabem de algumas que crianças que morreram – disse Jessica com uma certa dor na voz – o que leva um homem a matar, principalmente crianças. É horrível só de pensar.

— Brilhante começo do governo feminino – disse Rafael

— Isto não é importante...minha mãe estava preocupada, não tiro a razão dela. – Falou a menina.

— Então deve ser por isso que minha mãe me deu tantos alertas hoje, antes dela sair de casa, ele deve ter visto em algum lugar.

— Tiago, todo mundo já viu, tem noticia em sites estrangeiros já, concordo com o Rafa, você tem que começar a acordar mais cedo as vezes.

O clima na escola estava estranho, durante as aulas o massacre se tornara o assunto principal, nos corredores era fácil se pegar ouvindo fragmentos de conversas sobre o assunto, mas Tiago não parecia a vontade em falar sobre aquilo. O menino se isolou do grupo que conversava sobre o acontecido. Se sentou em um canto e pegou um gibi, mas não o lia, se imaginava em um lugar completamente diferente, cercado de ilhas e vulcões, um imponente castelo escuro e muitos outros como ele. Pensava em um lugar onde aquelas coisas não aconteciam.

— Tiago? – o garoto abriu os olhos e viu Fernanda se sentar ao seu lado.

— Oi Fer.

— Cara, você parece tão entediado, acabei de saber que amanha não vai ter aula – disse a menina.

— Avise aquele pessoal ali, aposto que isto só vai alimentar o papo deles... ficam ai falando da desgraça de outras pessoas – falou Tiago.

A garota olhou com curiosidade, deu uma risadinha e olhou para os grupos que estavam espalhados pelo pátio.

— Eu acho horrível o que aconteceu, mas eu não estou tão interessado nisso como todo mundo parece estar, eu sei que ignorar não é legal, mas era isto que o assassino queria, chamar a atenção de todos e ele conseguiu... sinto que isso não faz parte do meu mundo – completou ele.

— Como assim?

— É como se isso não fosse nada perto do que eu vivi ou vou viver... sei lá.

— Ah Tih, você deve estar louco só pode, sua vida é perfeita... acho que devemos fazer algo para consolar estas famílias que devem estar sofrendo, como um vídeo, é vou fazer isto – falou Fernanda.

A garota se afastou e Tiago sentiu o vento bater em seu cabelo, ele olhou para trás e pensou ter visto algo se dissolver no ar, como se fosse feito de fumaça.

Como não tiveram educação física naquele dia foram embora as cinco e meia, e como no dia seguinte não teria aula os alunos só voltariam a ter aulas na segunda-feira.

Os três amigos desciam a rua que levava à rua de suas casas. O céu estava ficando alaranjado, e a vida parecia estranhamente monótona, Rafael com seu ar de amadurecimento, Jessica sonhadora e Tiago confuso.

— Vou falar com meus pais hoje- disse Tiago sem olhar para os amigos, ele pode sentir os dois pares de olhos pousarem nele surpresos.

— Ótimo, faremos o mesmo não é Rafael? Vai dar tudo certo.

Rafael assentiu. Ele caminhava levemente, seus olhos estavam distantes, imaginando coisas, ele não parecia estar ali, parecia estar em outro mundo, ou imaginando como seria estar em outro mundo.

— Então tchau, me mandem mensagem depois de falarem com seus pais, quero ficar sabendo logo – disse Jessica, ela entrou na sua rua e foi correndo para a sua casa. Tiago e Rafael apenas desceram mais um pouco e chagaram na rua deles.

— Boa sorte Tih, como diz a Jeh “vai dar tudo certo”.

Tiago sorriu virou e atravessou a rua enquanto o amigo apenas virava a esquina. Moravam na mesma rua, mas cortando a mesma havia uma pequena avenida que subia até muito distante, acabando em frente a igreja Sta. Inês, onde havia uma outra avenida.

Demorou algumas horas para os pais de Tiago chegarem e fazer companhia para o filho. Ambos pareciam cansados, e diferente de muitos, não falavam sobre o cruel massacre que certamente sabiam ter acontecido, aquilo deixou Tiago mais relaxado, ele sorriu para os pais enquanto se preparavam para jantar.

Alunos bagunceiros como Tiago, acidentes em dobro, faltas, notas, sangue e exames, os pais do menino estavam perdidos em diversos assuntos e ele sentia a mão suar, e sua perna esquerda saltar de nervosismo. Lentamente ele respirou fundo, fechou e abriu os olhos.

— Mãe, pai? Eu quero pedir algo para vocês dois.

Os dois pares de olhos caíram sobre ele e quando Tiago os olhou ambos estavam sorridentes, com olhares acolhedores e o de sua mãe parecia uma chama bem vinda em um inverno cruel, não era preciso eles dizerem nada para o menino saber que podia pedir o quer que fosse.

— Eu sei que vocês vão pensar que sou louco – os sorrisos dos adultos ficaram maiores o que deu confiança ao menino – vão tentar me convencer do contrario... – Nelson riu e Suely uniu as sobrancelhas curiosa – mas eu quero que saibam que é algo muito importante, eu quero muito, então...

O celular do menino vibrou em seu bolso, ele pegou o aparelho antigo e viu que era uma mensagem de Jessica.

“O Rafa pediu para avisar à você que os pais dele deixaram... e adivinha? Os meus também, me fale logo o que os seus pais decidiram, ate mais Jessica”

A mensagem acendeu uma fogueira de animo e esperança, Tiago olhou para seus pais que mostravam estar bem impacientes, porem ainda sorriam como no começo da conversa solitária de Tiago.

— Eu quero aprender magia e ser um bruxo! – despejou o menino.

A informação foi cuspida contra o casal que teve as mais diversas reações, logo na primeira Tiago soube que algo dera errado. Os sorrisos se desfizeram, Suely engasgou sem estar com nada na boca, Nelson quase caiu da cadeira e a mulher esbugalhou os olhos, olhando surpresa para o filho enquanto o marido ria sem parar.

— Filho, você é uma piada – o garoto virou os olhos e escondeu o rosto entre as mãos.

— Você sabe que estas coisas não existem Tiago, e filho, você a esta bem grandinho pra ficar pensando nestas coisas – disse Suely calmamente – então, acho que minha barriga esta roncando...

Suely se levantou e foi se servir, Tiago olhou para seu pai rapidamente procurando por ajuda.

— Eu quero encontrar uma escola de magia, Jessica e Rafael estão tentando também, mas esta complicado precisamos da ajuda de vocês.

O pai de Tiago não ria mais como no começo, a mulher estava de costas para eles, ele sabia que ela escutava tudo com bastante atenção.

— Não tem escola de magia, Tiago, moramos em campinas! – falou o pai do menino.

— Mas em São Paulo?

— Lá muito menos – disse o homem que voltou a rir, parecia saber alguma piada que não podia contar ao filho, quando ele começou a rir mais Tiago fechou os olhos – quer saber, se você achar uma escola dessas você poderá estudar lá.

— Nelson!

— O que foi Suely? Não existem escolas assim no mundo real.

O menino ficou confuso e tentou ignorar o fato de que seus pais o achavam uma criança louca, mas acabara de convencer seu pai a deixa-lo ir estudar magia em uma escola sobre o assunto, a única coisa que faltava era uma escola de magia.

— Cara isto é muito bom!

Rafael e Jessica haviam acabado de ouvir a historia de Tiago sobre a conversa com os pais. Rafael estava bem sorridente, diferente do menino serio dos dias anteriores, tinha uma infantilidade na voz e nas ações.

— Como foi com os pais de vocês? – perguntou Tiago aos amigos.

— Eu cometi o erro de falar com meus pais perto do meu avô, ele é um imbecil, quase convenceu meus pais de que eu estava ficando louco e precisava crescer, mas ao dizer isto minha mãe entrou de vez na conversa e me apoiou, convenceu meu pai de que isso seria bom porque estou crescendo muito rápido e precisava de uma infância... meu avô foi embora muito bravo, quase colocando fogo na casa – falou Rafael, ele sorriu para o amigo que sorriu de volta.

— na minha foi bem tranquilo – disse Jessica quando os amigos olharam para ela – acreditem, meus pais meio que fizeram uma festa de tão animados que ficaram com a noticia, disseram que irão nos ajudar com tudo que precisarmos, estranhos eles não?

Os três estavam andando por entre as estantes da biblioteca municipal de campinas, logo atrás da prefeitura da cidade. O lugar não estava cheio, como sempre, havia poucas pessoas lendo livros e revistas em vários cantos, outras estavam mexendo nos computadores em uma outra área e como ele havia pessoas entre as prateleiras. As três crianças andaram por quase uma hora até que cada um escolheu seu livro e levou para marcar, aquilo, de acordo com eles, foi a única coisa legal que a professora de português havia ensinado, fizeram o cadastro e iam na biblioteca sempre que não tinham aula. Quando saíram ficaram esperando os pais de Jessica que haviam levado-os até o local.

— O que é aquilo?

Tiago se abaixou e pegou um livro de capa dura, todo ourado que quase brilhava sob a luz do sol no céu.

— Alguém deve tê-lo deixado cair... vamos entregar para aquele moço ali.

Um homem alto e bronzeado de pescoço largo e olhos levemente puxados os encarou quando se aproximaram, ele parecia curioso e repuxou os lábios em um sorriso discreto.

— Oi... – Tiago olhou para um crachá no peito do homem – Brad, acabei de achar este livro ali fora, vim devolver.

O homem pegou o livro e o virou varias vezes, olhou dos lados e quando tentou abri-lo não conseguiu, olhou para as três crianças.

— Me desculpe, mas este livro aqui não é nosso, ele é muito estranho, deve estar colado pois não abre, se quiser pode ficar pra você, como ele esta zuado teremos que jogar fora porque não serve para empréstimo – disse Brad com uma voz suave e rápida.

Tiago segurou o livro firmemente, de repente a ideia de se tornar dono daquele livro quase brilhante se tornou algo inestimável, quando percebeu que poderia ser dele Tiago se sentiu satisfeito de uma forma estranha.

— Vou ficar, obrigado Brad.

Quando saíram Jessica estava falando com seus pais, os três entraram no carro, era meio apertado para as três crianças naquele palio branco, mas se espremeram e logo relaxaram novamente, discretamente começaram a fala sobre o livro.

— Quando chegarmos em casa vamos abrir, aqui não – falou Jessica em um tom que somente os dois amigos eram capazes de ouvir. Ela pegou o livro e ficou segurando, Tiago quase estendeu o braço para puxa-lo de volta e declarar que era o único que tocaria no livro, mas ele se conteve.

Notas finais
comentem :)