Notas iniciais
Boa leitura!

Erina enfiou os pés na areia molhada da orla da praia e admirou o céu alaranjado em contraste com o mar cinzento. Estava frio, mas ela não se importava com desconfortos físicos. Afastou os fios dos seus cabelos brancos que o vento insistia em soprar para o seu rosto. Todos os dias ia para lá para ver o pôr-do-sol. Aos cento e quatro anos de idade, sabia que cada batida do seu coração poderia ser a última, e tinha a esperança de que a morte viesse buscá-la ali, naquela orla dourada, quando sua hora chegasse.

Quatro anos antes, recebera um prêmio por ser a primeira pessoa daquela pequena cidade litorânea a chegar aos cem anos de idade com uma vida ativa. Desde que se mudara para lá, aos quase vinte anos, se envolvera com entidades defensoras das minorias. Graças aos seus esforços e aos dos outros ativistas, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a liberdade de expressão e identidade de gênero e a habilidade para usar magia tinham se tornado não apenas coisas plenamente permitidas e protegidas pela lei, como coisas naturais e amplamente aceitas. Ela também lutara pelos direitos das mulheres, dos idosos e – num episódio particularmente interessante da sua juventude – pelo sindicato dos cultivadores de cogumelos comestíveis. “Erina” era o nome que vinha à mente de muitos quando se falava em lutas sociais pela igualdade e pela justiça. Atualmente, no museu da cidade e em algumas universidades da capital, estavam acontecendo celebrações em homenagem aos seus oitenta anos de conquistas na luta pelos direitos humanos. Ela, mesmo em sua idade, aceitara dar palestras para marcar o início de cada uma das celebrações.

– Nada mal para uma velhota, não é, Esmeralda? – ela murmurou para o mar, mas o vento encobriu o som das suas palavras.

Erina suspirou e segurou com mais força sua bengala para ter apoio suficiente para virar-se e sair dali. Uma vida quase inteira de lutas e conquistas, muitos inimigos e amigos, uma casa confortável perto da praia, tanta coisa de que se orgulhava, e um fardo do seu passado que ainda apertava o seu coração cada vez que pensava nele.

Jamais se esqueceria daqueles olhos verdes que a tinham cativado, daqueles cachos negros pelos quais passara seus dedos, daqueles lábios macios que beijara com tanta paixão, daquela voz melodiosa que sempre fazia seu coração bater mais rápido, daquele cheiro único e maravilhoso que ficava impregnado em seu travesseiro toda vez que Esmeralda ia dormir em sua casa. Erina tivera muitos casos passageiros em sua vida, mas apenas um amor realmente profundo.

Ainda lembrava-se do dia fatídico em que seus pais haviam chegado mais cedo em caso e a surpreendido com Esmeralda. Se lembrava de todas as injúrias e ameaças feitas contra ela, das agressões físicas e de ter sido enviada para a casa da tia, onde a situação era ainda pior. Na casa da tia, ficara trancada num quarto que tinha uma cama, uma estante de livros “moralmente edificantes”, um armário pequeno e uma porta que dava num banheiro minúsculo. Entre uma surra e outra, que serviam para afastá-la das suas “práticas abomináveis”, lembrava-se de ter sido obrigada a escrever cartas para Esmeralda em que se declarava satisfatoriamente envolvida com um rapaz. Passara o que parecera ser uma eternidade naquela situação, incapaz de pedir ajuda ou de consolar Esmeralda. A última carta enviada, a última que a alquimista receberia antes de ir para dez anos de trabalhos forçados ou a morte, a pior de todas as cartas, continha uma mentira que despedaçaria o coração de Esmeralda, Erina sabia. Para convencê-la a escrever que estava grávida e que iria se casar, a tia quebrara-lhe um dos braços. Aquele braço ainda doía quando o tempo esfriava.

Depois de enviar a carta, Erina decidira que fugiria do seu cativeiro ou, falhando naquilo, da vida. Não conseguia mais aguentar a dor da própria existência. Já tinha tentado fugir duas vezes, e carregaria pelo resto da vida as marcas dos resultados. Aquela última tentativa, por algum milagre, fora bem-sucedida. Pela primeira vez em sua vida, Erina viu-se completamente livre.

Passou fome e frio, morou nas ruas por meses, mas foi tão livre quanto alguém poderia ser livre naquele país. Fez amigos nas estradas e nas ruas, dormiu em albergues e em praças públicas, aprendeu muita coisa com seus companheiros de miséria, e encontrou entre eles um companheirismo ímpar. Passando por caminhos estranhos e interessantes, fazendo bem mais desvios do que o necessários, acabou chegando àquela cidade portuária. Nunca tinha viajado para lá antes, mas sabia que era ali que queria ficar. Era ali que tinha planejado viver com Esmeralda quando ambas fossem duas senhorinhas de cabelos brancos. Esmeralda tinha um desejo excêntrico de terminar sua vida na mesma cidade em que a começara.

Ali, começara a se envolver com as comunidades de artesãos e pescadores, conseguira aprender o suficiente para ganhar algum dinheiro, e descobrira a existencia de um pequeno grupo de ativismo social. Naquele grupo, como em nenhum lugar antes, Erina se sentira parte de uma família segura. Arriscara-se, é claro, em muitos protestos, e chegara a ser presa duas vezes por invasão de propriedade privada e vandalismo, mas sempre recebera o apoio daquela família cada vez maior. Com a revolução que destruiu as usinas, sua voz e as dos seus companheiros se tornaram mais audíveis, e as conquistas, maiores. Aos vinte e quatro anos, Erina participara de um comitê para eleger uma comissão de direitos humanos para o governo provisório. Aos trinta, com a estabilização do governo, se tornara consultora permanente da comissão. Aos quarenta e sete, se tornara consultora de direitos humanos de organizações internacionais. Jamais aceitara um cargo oficial para não ter que sair daquela cidadezinha litorânea. Aos setenta anos, passara a receber uma espécie de pensão do governo criada especialmente para ela para agradecer pelos anos de serviços voluntários.

Aos cento e quatro anos, ainda ia à praia todas as tardes para ver o pôr-do-sol e imaginar o que teria acontecido com Esmeralda, que estava oficialmente desaparecida desde o ano da revolução.

Erina subiu lentamente os degraus que separavam a calçada da praia e rumou para sua casa, a uma quadra dali. Era uma construção simples, com dois quartos, um banheiro grande, uma sala, uma cozinha e um escritório, além de um pequeno jardim e uma edícula nos fundos. Lavou os pés na torneira do jardim antes de entrar em casa. Gisele, sua enfermeira particular, a esperava com o copinho de remédios para a pressão e uma fornada de biscoitos de aveia recém-assada.

A noite caiu e Erina sentou-se em sua poltrona favorita para ler um livro. Um dos rapazes do sindicato dos pescadores escrevera aquelas quase trezentas páginas sobre a importância histórica dos anzóis tradicionais e a editora pedira uma avaliação ou um comentário da “caríssima e estimadíssima senhora”. Era quase meia-noite quando alguém bateu à porta. Erina só escutou depois de alguma insistência de quem batia. A perda gradual da audição era uma das poucas tristezas da velhice para ela.

– Boa noite, Larinha – Erina saudou a mulher de meia-idade ao abrir a porta. – Aconteceu alguma coisa, menina? Alguma emergência?

– Não, dona Erina. É que hoje não tem mais cama vaga lá no abrigo, e como a senhora sempre recebe o povo que passa por aqui e não tem onde ficar... – Larinha deu um sorriso amarelo. – Eu não queria incomodar a senhora, mas meu quarto de hóspedes também ‘tá cheio, e a sua casa é a mais próxima. Se não puder abrigar ninguém hoje, eu levo a moça pra casa do Zé Baiacú.

– Ah, não precisa se preocupar, menina. A minha casa está sempre aberta pra esse tipo de coisa. Eu mesma precisei de abrigo um dia – Erina sorriu bondosamente. – Entre, eu vou fazer um chá. Diga para a moça entrar também. Fiquem à vontade aqui na sala, eu já volto.

Erina foi até a cozinha e pôs a água para ferver na chaleira, tomando cuidado para não fazer muito barulho. Sua enfermeira, que dormia na edícula, tinha sono leve. Enquanto a água esquentava, colocou bicoitos doces e salgados numa travessa delicada de porcelana, e pãezinhos com cobertura de queijo e de creme de baunília numa outra. Sabia o que era aquela vida de sem-teto, conhecia a companhia quase constante da fome.

– Aqui, meninas. Chá de camomila e alguns aperitivos. Eu espero que vocês não se importem de eu já ter adoçado o chá – Erina anunciou ao levar a bandeja com a chaleira e as travessas para a sala. – Me desculpem pela demora, mas vocês sabem como é. Na minha idade, as juntas já estão todas enferrujadas.

– Não precisava ter se dado tanto trabalho, dona Erina – Larinha lançou um olhar guloso na direção dos pãezinhos com creme de baunília, seus favoritos desde a infância, pelo que a senhorinha se lembrava. – Bem, esta é a sua hóspede de hoje. Ela vem de bem longe.

– É sempre um prazer receber viajantes aqui. Eu adoraria ouvir as histórias sobre as suas aventuras pelo mundo afora, menina – Erina sorriu e finalmente olhou para a moça que acompanhara Larinha até ali.

Era pequena, com a pele cor de canela e os cabelos cor de ébano – Erina adquirira um certo gosto por comparar cores a madeiras depois de fazer um curso de marcenaria aos sessenta anos. Parecia ter uns vinte anos, e algo nela lhe parecia familiar demais. Não era o ar de espanto – aquilo ela via o tempo todo quando demonstrava que ainda era plenamente lúcida e capaz de cuidar da sua própria vida. Não, era alguma outra coisa, algo muito mais importante.

Então a jovem hóspede desviou o olhar dos pãezinhos e dos biscoitos para fitar a anfitriã. Duas grandes orbes verdes e brilhantes. Aquele par de olhos verdes que ela esperara por quase noventa anos.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Espero que tenham gostado da história, e que saibam que sou muito grata por terem lido até aqui. Até a proxima oportunidade de contar com o apoio de vocês (ou seja, até a próxima história!) Muito obrigada mesmo por ter lido! Au revoir!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!