Bruxaria.exe

9 Capítulo 9 - Monique


Notas iniciais
Capítulo extra de segunda-feira. Boa leitura!

Melissa lavou o rosto no riacho e aproveitou para beber a água fresca e encher seus dois cantis. Gostaria de tomar um banho, mas o riacho não passava de um filete de água que corria entre os arbustos de frutinhas vermelhas, algumas delas venenosas. E ela já tinha achado um rio para tomar banho dois dias antes, então teria que se contentar em ter água fresca para beber.

O leste cinzento ficou para trás quando ela retomou sua caminhada. À sua frente, estendiam-se uma pradaria e o céu estrelado que logo ficaria rosado, e então azul. Soprou o ar quente dos seus pulmões em suas mãos para aquecê-las, produzindo uma pequena nuvem branca. Os dias estavam ficando cada vez mais curtos e frios com a aproximação do inverno. O azevinho, da noite e do caos, reinava indubitavelmente.

Nas quase duas semanas da viagem solitária, Melissa tivera bastante tempo para pensar. Estava indo para casa, para Monique, mas Pena-de-Águia a imbuíra de uma missão importante. A própria Monique mencionara coisas grandes que estavam prestes a acontecer. E, caso os guardas da usina não tivessem acreditado na xamã, Melissa se tornara uma fugitiva. Seu final feliz, a vida tranquila ao lado de Monique, parecia cada vez mais distante, se não impossível – afinal, a ruiva também dissera que era e não era a Monique de Melissa. O que isso poderia querer dizer? Havia muitas perguntas, e as respostas de muitas delas podiam estar a meio dia de viagem.

Seus passos foram mais apressados e suas pausas mais curtas que nos outros dias. Sabia que estava perto de casa. Parou para comer algo a quinze minutos do bosque de Sharvod – sua avó lhe ensinara a nunca chegar faminta ou cheia demais a algum lugar onde ela não sabia o que encontraria. Depois de engolir algumas das frutas que colhera no caminho, continuou a viagem. Seu coração parecia bater mais rápido a cada passo, e partiu-se mais uma vez ao ver as árvores secas do que um dia fora o bosque mais verdejante da região.

Reduziu a velocidade ao entrar no território tão conhecido. Em cada arbusto seco, galho sem folhas ou pedra sem musgo, via suas lembranças de infância, como fantasmas que assombravam sua mente. O lugar em que encontrara sua primeira pena de coruja, o ponto em que enterrara seu primeiro feitiço de proteção, a árvore sob a qual passara dias tentando entender a si mesma – até sua avó vir buscá-la e dizer que toda forma de amor era uma forma de amor. Tudo ali lhe passava com a mesma intensidade segurança e medo. Era assutador.

Hesitou ao se aproximar da clareira da sua casa. Não sabia o que encontraria ao entrar. Tinha medo das respostas que obteria ao entrar ali. Pela primeira vez, cogitou fugir dali, mas sabia que não havia mais para onde correr; era tarde demais. Engolindo em seco, avançou.

O jardim ainda estava seco e morto, com a mesma terra clara e seca do dia em que Melissa o vira pela última vez. A hera que invadira a casa ainda a cobria, mas parecia ter morrido. Não havia sinal de vida em lugar algum. A bruxa perguntou-se se seus encontros com Monique tinham sido alucinações causadas pelo trauma da tortura, mas convenceu-se a continuar; já que estava ali, descobriria a verdade.

Abriu a porta com dificuldade. A hera se enroscara na moldura e as dobradiças tinham enferrujado. A poeira a fez espirrar; pelo menos não parecia haver mofo ali. Entrou, deixando pegadas na espessa camada de sujeira que se acumulara no chão. Folhas secas espalhavam-se perto das janelas quebradas. Melissa olhou ao redor, sentindo o coração apertado. Aquilo não era voltar para casa.

Então ela viu a marca deixada por Monique. Sobre a mesa da sala, dentro de um círculo mágico desenhado com giz, uma pilha de guirlandas se mantinha fresca. Pegou uma guirlanda e aproximou-a do nariz para sentir o aroma das flores, apreciando a textura das folhas e dos caules finos entre os seus dedos.

– Você demorou – a voz tão conhecida soou atrás de Melissa, sobressaltando-a. – Quase achei que não viria.

– Eu nunca te abandonaria, Nique – a bruxa virou-se e deparou-se com a companheira sentada na rede. – Se você me chama, eu venho, como eu sempre fiz.

– Eu senti tanto a sua falta – Monique levantou-se e atirou-se na direção de Melissa, enroscando seus braços no pescoço da amada. – E fiquei com tanto medo de nunca mais te ver. Quase te perdi naquele lugar horrível para onde você teve que ir...

– Então foi você que me salvou do mundo vermelho? De verdade? – Melissa pôs uma mecha dos cabelos de Monique atrás da orelha dela.

– Eu também nunca te abandonaria, Mel – a ruiva deu-lhe um beijo rápido, com uma expressão triste. – Enquanto eu puder viver, não importa que tipo de vida, eu vou te proteger de todas as formas que eu puder.

Melissa puxou-a para um abraço forte, então afastou-se um pouco, sem se desenlaçar dos braços dela, para olhar seu rosto. Estava diferente. Além dos olhos vermelhos, parecia mais pálida e tinha orelhas pontudas. A bruxa conhecia aquelas orelhas, marca do povo mágico, dos espíritos da natureza.

– Nique, o que foi que aconteceu com você? – uma expressão de preocupação tomou o seu rosto.

– Eu fiz o que tive que fazer para proteger você e o nosso bosque – ela afastou-se. – É como eu disse, agora eu sou e não sou a sua Monique.

– Será que você pode me explicar isso? E todas as outas coisas que estão acontecendo? – Melissa segurou as mãos dela entre as suas.

Monique ficou pensativa por alguns momentos. Do lado de fora da casa, a brisa agitou os sinos-de-vento.

– Você se lembra da história do rei do carvalho e o rei do azevinho? No solstício de inverno, o rei do carvalho, rei do dia e da ordem, começa seu reinado. No solstício de verão, tendo atingido o ápice do seu poder e começando o seu declínio, ele passa o trono para o rei do azevinho, rei da noite e do caos. Em geral, há uma batalha cerimonial para ilustrar a transição do poder, mas as duas forças vivem em perfeita harmonia; as duas são necessárias para a continuidade da vida no mundo.

– Sim, eu mesma te contei essa história, Nique. Mas onde você quer chegar com isso?

– Bem, no refino de magia, as usinas preferem trabalhar com a magia da ordem, que segue regras previsíveis, ao contrário da magia do caos. As usinas pegam a magia bruta, separam a ordem do caos e usam só a ordem para gerar energia elétrica, descartando o caos – Monique andou em círculos enquanto explicava. – É daí que vêm os monstros; eles são feitos de magia do caos pura que entra em contato com qualquer criatura, desequilibrando-a. Mas o maior problema é que, sendo transformada em eletricidade, a magia de ordem não volta ao seu estado natural ao ser dissipada. As décadas de exploração da magia criaram uma defasagem muito grande de magia de ordem no mundo. Como a natureza se adapta às situações, os sinais só ficaram claros quando a situação já estava crítica demais.

“Para piorar a situação, há um novo tipo de magia caótica circulando. Essa magia é muito perigosa porque, ao contrário da magia do caos comum, não parece buscar equilíbrio e harmonia entre as forças. Na verdade, parece que essa nova magia caótica está contribuindo para o desaparecimento da magia de ordem. Nosso bosque foi destruído por um ataque desse novo tipo de magia.”

– Um novo tipo de magia? E ninguém sabe de onde vem? – Melissa estava chocada com o que ouvia.

– Parece que vem das usinas de magia, mas eu não sei como ou por quê.

– E como isso explica o que aconteceu com você? – a bruxa perguntou aflita, precisando de resposas que não gerassem ainda mais perguntas.

– Quando fomos pegas pelas árvores, eu fiquei desesperada para te salvar e perdi o controle, começando um incêndio. Naquela hora, achei que fosse acabar matando nós duas – Monique baixou os olhos. – Então o lobo apareceu e falou comigo. Ele me acalmou e me explicou o que estava acontecendo. Eu estava morrendo. Naquele momento, ele me ofereceu uma chance de sobreviver e ajudar a salvar o bosque...

A ruiva soltou as suas mãos das de Melissa, colocando-as para trás, e engoliu em seco. A bruxa notou que os olhos da namorada estavam marejados. Ficou em silêncio, esperando Monique continuar.

– Não tive muita escolha. Era recusar e morrer ou aceitar e ter uma chance de salvar o bosque e você – a primeira lágrima rolou pelo rosto sardento –, mesmo que isso significasse te perder pra sempre...

– Me perder? Como assim, Nique? Você sabe que eu nunca te abandonaria, não importa o que aconteça! – Melissa aproximou-se.

– Você não pode amar o espírito do bosque, Mel! – Monique gritou, evitando o toque de Melissa e soluçando, desistindo de controlar o choro.

– O espírito do bosque? – Melissa aproximou-se novamente e, não encontrando mais resistência, envolveu Monique num abraço. – Como assim?

– Sharvod era uma entidade poderosa da ordem. Um dos vários pilares que sustentavam essa magia, assim como há muitos pilares do caos. Com a morte dele, nosso bosque morreria e não se restauraria, mesmo que o equilíbrio voltasse – Monique aceitou o abraço e apoiou sua cabeça no ombro de Melissa. – Se eu aceitasse a proposta do lobo, eu poderia tomar o lugar de Sharvod e garantir que o bosque voltaria ao que era assim que as forças mágicas voltassem ao normal.

– É por isso que você está mudando? – Melissa acariciou a cabeça da ruiva, acidentalmente esbarrando os dedos na orelha pontuda.

– É. Quando o inverno chegar, a minha transformação termina. No solstício de inverno, o rei do azevinho precisa passar o poder para o rei do carvalho para que as plantas possam brotar novamente – Monique fungou. – Mas as criaturas da nova magia caótica invadiram a floresta do rei do carvalho e o fizeram refém. Parece que estão minando suas forças aos poucos. Talvez ele não sobreviva por tempo suficiente para receber o poder do rei do azevinho.

Melissa manteve-se em silêncio, tentando entender a magnitude do que estava acontecendo ali. O mundo inteiro estava à beira do abismo e quase ninguém sabia disso. E sua querida Monique se sacrificara sem poder lhe dizer uma palavra. Melissa entendia o suficiente de espíritos da natureza para compreender a situação. Se o rei do carvalho morresse, muitas vidas de plantas e animais seriam perdidas. Sem a energia mágica de ordem do rei, o bosque não floresceria, e o espírito do bosque...

– Por que você aceitou isso? Você pode morrer! – Melissa apertou Monique com mais força em seus braços.

– Na hora em que o acordo foi feito, eu não sabia. Tenho aprendido muitas coisas ultimamente – a expressão da ruiva era do mais profundo pesar. Ela desistira completamente de tentar manter qualquer traço de alegria para não partir o coração de Melissa. – Outra coisa que eu não sabia é que, uma vez que a transformação esteja completa, meu corpo será etéreo. Quer dizer que nós nunca vamos poder nos casar e viver nessa casa. Nós nunca vamos ter o nosso final feliz!

– Eu vou salvar você, Nique, e vou viver até o fim dos meus dias neste bosque, para o bosque, para você. – Melissa sussurrou. – E, quando os meus dias de vida acabarem, eu me juntarei a você, e nós ficaremos juntas para sempre no nosso bosque. Nosso final feliz virá.

Com delicadeza, Melissa conduziu Monique até a rede e deitou-se com ela ali. As duas ficaram em silêncio, abraçadas, sentindo e pensando a mesma coisa. Era muito bom estarem ali juntas mais uma vez, mas o caminho à frente parecia doloroso. A bruxa plantou um beijo suave na testa da ruiva para acalmá-la. Já tinha atravessado um caminho sombrio, não se acovardaria diante do próximo.

– Estamos perto do meio do outono, não é? – Melissa quebrou o silêncio. – Isso me dá mais um menos um mês para libertar o rei do carvalho e garantir a sua sobrevivência pelos próximos seis meses. O resto, eu terei tempo para resolver.

– Você não pode ir sozinha, é muito perigoso – Monique balançou a cabeça. – Eu iria com você, mas não posso abandonar o bosque. Aquela visita que eu te fiz me deixou esgotada por dias. Você precisa encontrar o lobo, ele vai te ajudar.

– E onde eu posso encontrar o lobo?

– Ele tem dormido sob os galhos da Sombra de Sharvod, aquela árvore estranha que surgiu naquele dia. Posso te levar a té ele. Quer ir agora?

– Não. Agora eu quero ficar aqui com você – Melissa apoiou sua cabeça no ombro dela.

O silêncio voltou. Melissa ajeitou-se para apoiar a cabeça de Monique em seu ombro e acariciar seus cabelos. Ficaram ali por um período que pareceu ínfimo e infinito ao mesmo tempo. Melissa desejou ter o poder de parar o tempo e ficar ali para sempre, transformar aquele momento no seu final feliz eterno, mas o sol se pôs, a noite caiu e o pio distante de uma coruja lembrou-a de sua missão. Acordou Monique com um beijo suave em seu rosto.

– Acho que é hora de irmos procurar o lobo – sussurrou.

Monique respirou fundo, sonolenta, e demorou um pouco para se lembrar do que estava acontecendo. Uma vez desperta, concordou com Melissa e levantou-se da rede, puxando a bruxa pela mão. Juntas, saíram da casa, atravessaram o jardim morto e seguiram pelo mesmo caminho que tinham tomado pouco mais de um ano antes. Melissa sentiu um arrepio percorrer sua espinha ao passar entre os galhos nus, lembrando-se dos arranhões, mas tudo permaneceu imóvel enquando ela andava.

Não demorou para chegar até a árvore de Sharvod – a Sombra de Sharvod, lembrou-se –, com sua madeira escura e seus galhos desprovidos de vida. Perto das raízes da árvore, quase invisível nas sombras, um lobo preto aguardava a dupla.

– Onabe – Monique chamou-o num tom suave.

– Filhas do bosque – ele cumprimentou-as numa voz rouca.

Melissa arquejou, surpresa. Conhecia o nome de Onabe, um dos espíritos da caça, mas sempre o imaginara como uma ave de rapina. Ele era uma criatura da noite, da morte, um dos pilares do caos. Em geral, era celebrado e honrado com outras entidades semelhantes no meio do outono, no festival da colheita de sangue, quando animais eram abatidos para que a carne fosse consumida durante o inverno e as pessoas pudessem sobreviver até a primavera.

– Eu o saúdo, senhor Onabe – Melissa fez uma reverência respeitosa. – Venho pelo pedido de Monique e de Pena-de-Águia.

– Eu a saúdo, Melissa Gardênia – o lobo fez um meneio com a cabeça. – Acredito que esta que você chama de Monique já tenha explicado a situação.

– Eu contei a ela sobre o nosso acordo e sobre a atual situação da magia de ordem e do rei do carvalho – a ruiva confirmou.

– Nesse caso, Melissa Gardênia, eu gostari de fazer uma proposta – os olhos vermelhos do lobo focaram-se na bruxa.

Melissa acenou com a cabeça para indicar que estava prestando atenção.

– Eu posso ver em seu coração o desejo de proteger esta mulher, mas haverá um preço. Se realmente quiser libertar o rei do carvalho, terá que se preparar para assumir grandes responsabilidades, como as filhas dos bosques e das florestas de tempos ancestrais, e terá que aceitar o que o destino colocar em seu caminho como consequência da sua interferência. Você entende isso?

Nenhum mortal tinha um final feliz ao interferir no destino de forças superiores. Se o destino tinha uma tragédia planejada, ele a colocaria em algum lugar, fosse onde fosse, e geralmente era em quem atrapalhava seus planos. Melissa engoliu em seco e balançou mais uma vez com a cabeça, temendo que sua voz soasse trêmula caso tentasse falar.

– Melissa Gardênia, aproxime-se, ajoelhe-se. Venho em nome de duas grandes forças que me permitiram conceder suas dádivas a um mortal. Ofereça-me o seu sangue e uma mecha do seu cabelo, e receba as bênçãos de Morrigane e Aine Frigg, do caos e da ordem.

A bruxa aproximou-se de Onabe, ajoelhou-se e pegou a faca que trazia na trouxa preta. Cortou uma mecha dos seus cabelos, depositando-a na frente do lobo. Passou a lâmina pelas costas da mão, abrindo um talho e deixando o sangue pingar sobre os cabelos cortados.

– Que seu corpo e seu espírito recebam a harmonia das energias do nosso mundo, e que as bênçãos da ordem e do caos a acompanhem em sua missão, Melissa Gardênia – Onabe pareceu crescer enquanto proferia essas palavras. – A partir deste momento, filha do bosque, eu a tomo como uma das minhas caçadoras e a acompanharei até o fim desta jornada.

A mecha de cabelo ensanguentada incendiou-se e foi consumida pelas chamas em questão de segundos. Melissa sentiu uma energia diferente, quase como um choque elétrico, espalhar-se por todo o seu corpo, pulsando em velocidades variáveis até conseguir se igualar ao ritmo do seu coração. Só sentira algo semelhante quando recebera a bênção de Sharvod e conseguira estabelecer uma relação íntima com as plantas do bosque, mas nem aquilo fora tão intenso. Pela primeira vez, sentia-se capaz de invocar a fúria das tempestades, a ira da terra, a voracidade do fogo.

– Levante-se, agora como filha do bosque e da noite – Onabe ordenou em sua voz gutural.

Melissa ergueu-se, sentindo seus músculos vibrarem. Podia ouvir o sangue correndo em suas veias, sentir o cheiro das cidades ao longe e ver cada detalhe das árvores ao seu redor. As grandes forças da ordem e do caos tinham aceitado abençoá-la e dar-lhe o poder de mudar o curso das coisas, selando o seu destino. Canções e lendas seriam feitas sobre Melissa Gardênia, e a bruxa se perguntava que tipo de final elas teriam.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Críticas são bem-vindas.