Bruxaria.exe

8 Capítulo 8 - Pena-de-Águia


Notas iniciais
Capítulo de segunda-feira. Boa leitura!

A manhã encontrou Melissa tão confusa e frustrada quanto estivera durante a madrugada. Embora não estivesse com fome, a bruxa desceu para o café-da-manhã ao ouvir a sirene do despertar tocar. Precisava encontrar alguém da equipe preta para conversar sobre o treinamento e sobre missões. Queria ter algumas informações sobre as duas coisas antes de planejar sua fuga.

Pegou uma caneca do café com leite que era servido todas as manhãs e uma maçã. Era bem melhor do que as duas porções – às vezes uma – do mingau “nutritivo e cheio de fibras” que ela recebia todos os dias no treinamento especial, e também era melhor do que as porcarias açucaradas e gordurosas servidas no período de recuperação. Bebericou o líquido quente e deu duas mordidas na maçã enquanto esperava alguém aparecer. Viu uma dupla de preto aparecer quando metade do refeitório já estava ocupada.

– Ei, Pena-de-Águia, olha! É a novata – o homem de preto cutucou a mulher ao seu lado ao perceber a aproximação de Melissa. – E aí, novata? Seja bem-vinda à nossa equipe.

– Saudações, colega – Pena-de-Águia, a mulher alta e esguia ao lado do homem acenou. – Por favor, perdoe o entusiasmo do meu amigo. Ele acabou de ganhar uma aposta.

– Pois é, a sua sobrevivência me rendeu a sobremesa do meu primo por um mês – o homem passou um braço pelos ombros de Melissa e puxou-a mais para perto. – Eu sou Giovanni, a propósito. Mago encantador, ao seu dispor. E esta é...

– Pena-de-Águia, xamã. E alguém que não tem mais paciência para as idiotices desse traste aí – a mulher mordeu sua maçã. – Você deve ser Melissa, do bosque de Sharvod. Sua amiga andou fazendo perguntas enquanto você esteve fora.

– Muito prazer – Melissa afastou-se de Giovanni.

– Diz aí, gatinha, o que é que vocês andam aprontando no campo de treinamento? Ano retrasado sobreviveram três aprendizes. Ano passado, todo mundo morreu. Esse ano, só sete dos quarenta e cinco saíram vivos da brincadeira... – Giovanni coçou a cabeça. – O que é que está acontecendo? Eu tentei perguntar pro sobrevivente da última leva de novatos da equipe preta, mas o cara não falou com ninguém por três dias, e aí se apagou.

– Nossa, quanta delicadeza... – Pena-de-Águia suspirou. – A menina veio se apresentar para nós, como qualquer pessoa educada faria, e é isso o que você diz a ela. Fantástico... Melissa, se você precisar de orientação, pode contar com seus veteranos. E ignorar esse babaca aí. Ele e o irmão, o Bryan, não valem muita coisa.

– Ei! Isso já é maldade – o homem tentou parecer indignado, mas riu. — Mas é verdade. Me desculpe, garota, é que eu sou curioso. Você queria perguntar alguma coisa?

– Eu queria me apresentar à minha equipe e perguntar sobre as nossas funções e missões – Melissa respondeu num tom bastante monótono. Não estava com vontade de participar daquela pantomima.

– Essa é fácil. Nossa missão é garantir que qualquer criatura maligna gerada por dejetos da usina de refino de magia não cause danos à população não-mágica – Giovanni tomou um grande gole do café com leite em sua caneca. – Ai! Isso ‘tá mais quente do que eu achei que estivesse!

– Como eu disse, pode ignorar esse babaca – Pena-de-Águia comprimiu os lábios para evitar rir. – Quanto às missões, você pode ficar tranquila. Geralmente envolve lidar com algo entre um e três monstros. Se a quantidade for maior, eles mandam mais de uma pessoa. E é bacana, porque é o momento em que nós ficamos um pouco livres, apesar de não podermos nos aproximar de outros praticantes de magia quando estamos lá fora.

– Eles deixam os membros da equipe preta irem lá fora sozinhos? – Melissa surpreendeu-se. – E ninguém nunca tentou fugir?

– É claro que sim. Sempre tem um ou outro que tenta. Aí a central de defesa pública manda uma equipe tática de elite pra capturar e eliminar o fugitivo. Nunca termina bem – o sorriso de Giovanni se desfez e Pena-de-Águia pôs uma mão em seu ombro para consolá-lo. – E qualquer um, da comunidade mágica ou não, que prestar algum auxílio ao fugitivo, mesmo sem saber que se trata de um fugitivo, recebe o mesmo castigo. Fugir significa matar a si mesmo e a qualquer um que demonstre bondade, entendeu?

Melissa fez que sim com a cabeça e tomou um gole do seu café com leite já meio frio. Não seria difícil escapar e, caso falhasse, não passaria por nada pior do que o que já tinha lhe acontecido até então. Era dessa informação que precisava.

– Poxa, esse governo não perde tempo – a bruxa suspirou. – Daqui a alguns anos, cada criança nascida com o dom da magia vai ter uma babá do exército ou da polícia pra trocar suas fraldas.

– Você também entende bastante da vigilância desses, caras, não é? – Giovanni deu um sorriso triste. – Eu ouvi falar da Velha Gardênia. Era a sua avó, não? Ela não tinha nenhuma filha com a sua idade, que eu me lembre.

– Era minha avó, sim – Melissa ficou contente por o homem levar o assunto para esses caminhos. Seria melhor que eles não suspeitassem dos seus planos de fugir.

– Eu sinto muito. Sabe, por muito pouco ela não foi a minha avó também – Pena-de-Águia disse. – Mas quando meu avô ofereceu seus serviços, sua avó já estava grávida de um outro consorte.

– Ah, sim. Minha avó era bem conhecida por dar oportunidades pra todo mundo – Melissa corou de leve. – Minhas tias também eram mulheres livres, assim como o meu tio. Bom, ele não era uma mulher livre.

Os outros dois riram com o comentário.

– Vai ser bom ter alguém como você na equipe, Melissa. Eu realmente preciso de alguém mais sério do que esse pateta para conversar – Pena-de-Águia mordeu sua maçã.

– E eu espero que você não se torne tão chata quanto essa velha ranzinza aqui – Giovanni piscou.

– Foi um prazer conhecer vocês dois. Obrigada pela conversa – Melissa inclinou a cabeça num cumprimento razoavelmente respeitoso e afastou-se para colocar sua caneca no balde de louça suja e jogar o caroço da maçã no lixo.

Saiu do refeitório e foi até as salas de treino. Todas já estavam ocupadas, mas vários dos antigos colegas de treinamento da bruxa estavam por ali, gastando suas poucas horas livres fazendo exercícios, e ficaram felizes em convidá-la para unir-se a eles. Melissa surpreendeu-se com a diferença dos níveis de habilidades físicas deles. Seus colegas eram bons, mas ela acabara de sair de meses de treinamento intenso. Quando um deles convidou-a para um combate amigável, foi ao chão três vezes em menos de dois minutos.

– Caramba! Como é que você faz isso? – ele estendeu a mão para que ela o ajudasse a se levantar. – Será que você ensina pra gente?

– Não tem muito segredo, é só usar o peso do seu adversário contra ele mesmo. Vem cá, coloca o seu pé bem atrás do meu calcanhar e tenta nivelar o seu joelho com o meu. Agora empurra o meu ombro. Não, não, com a outra mão – Melissa explicou em detalhes o movimento e repetiu-o até que seus colegas aprendessem. Era bom estar ali com eles de novo e poder treinar num ambiente com menos terror, lutar só por brincadeira e pelo do exercício; também era bom que as outras pessoas pensassem que ela estava satisfeita por estar ali. Não queria levantar suspeitas antes de ter uma oportunidade real de fugir.

Uma semana se passou sem que Melissa recebesse qualquer missão, o que estava deixando-a nervosa. Imaginava o que faria se ficasse claro que não conseguiria sair até o início do inverno. Lilena notara sua inquietação, mas não comentara nada; achava que era por causa do trauma do treinamento. Em parte, ela estava certa, pois os pesadelos continuavam perseguindo a bruxa noite após noite, e sem a aparição de Monique.

Numa tarde, depois de passar uma hora ajudando um aprendiz de uniforme branco a aprender a forma correta de chutar um saco de areia, Melissa foi interpelada no corredor por um soldado com um envelope preto em suas mãos.

– RX-640, você foi designada para encontrar e destruir uma ameaça ao bem-estar da população. As informações necessárias estão no envelope. Você tem seis horas para se preparar – o soldado entregou-lhe o envelope num gesto duro e pouco natural antes de colar os braços ao lado do corpo e marchar de volta ao seu posto, onde quer que fosse.

Melissa ficou confusa ao ouvir seu código. Não o usava havia tanto tempo que quase se esquecera de que aquele era o seu nome ali. Abriu o envelope e leu com atenção as instruções e o mapa. Ela deveria sair pelo portão cinco e ir até um pequeno bosque ao norte da usina. Parecia que duas criaturas malignas andavam rondando o lugar. O bosque ficava a duas horas de caminhada dali. Se ela pudesse ir andando sozinha até lá, e se fosse plausível que ela gastasse duas ou três horas procurando as criaturas, teria seis ou sete horas de vantagem em relação aos seus perseguidores.

Seis ou sete horas à pé contra seus perseguidores bem equipados, possivelmente até com um helicóptero, corrigiu-se. Melhor do que nada. Definitivamente melhor do que ficar confinada naquele lugar enquanto Monique a esperava no bosque de Sharvod.

Foi até o seu dormitório para dar uma última olhada no espelho do banheiro, para ter sorte – já desistira da ideia de ver Monique ali de novo. Dirigiu-se ao acesso ao portão cinco e apresentou a carta aos guardas, que lhe entregaram um cantil com água e abriram caminho para que ela passasse. Estava parecendo fácil demais.

Caminhou no passo ligeiro que sempre lhe fora natural, observando os arredores de tempos em tempos para verificar se não estava sendo seguida. Achou estranho não haver vigilância alguma na primeira missão de uma pessoa potencilamente perigosa que não demonstrara merecer aquele tipo de confiança, então lembrou-se que o governo não confiava em nenhum deles, mas que todos da equipe preta já tinham tido que dar provas brutais de obediência – como não matar o comandante para tentar fugir do campo de treinamento, não matar os guardas que fuzilavam seus colegas indefesos ou simplesmente aceitar sem questionar a sequência de eventos do treinamento. E ela era só um número. Se fugisse, seria eliminada e reposta, simples assim.

Chegou ao bosque no tempo estimado e parou para olhar ao redor novamente. Tinha a impressão de estar sendo observada, mas não conseguiu ver ninguém, então deixou isso de lado. Estava finalmente de volta ao seu elemento. Tirou os sapatos e sentiu o corpo todo arrepiar-se quando os pés descalços tocaram terra fértil pela primeira vez em tanto tempo; preferia andar descalça enquanto a temperatura permitisse. Era como se ela tivesse se transformado em uma criatura do bosque, uma parte vital daquele complexo de vidas que se completavam mutuamente. A brisa brincou com os fios soltos do seu cabelo e as árvores sussurraram os segredos que só as bruxas conheciam.

Carregando seus sapatos nas mãos, Melissa caminhou na direção que sabia ser o oeste. Vira uma árvore de uiavas ali, e uiavas só nasciam a leste do bosque de Sharvod. Conseguiria se orientar melhor assim que passasse perto de alguma cidade, mas tomaria o cuidado de não entrar em contato com ninguém. Enquanto andava, sentindo cada centelha de vida ao seu redor, continuava tentando definir de onde vinha aquela sensação de estar sendo observada. Se fosse um soldado, ela mentiria e diria que ainda estava procurando a criatura – e então teria que decidir entre matar o soldado e cumprir a missão. Se não fosse um soldado...

– Então você vai mesmo fugir? – uma voz vagamente conhecida fez-se ouvir quando Melissa chegou aos limites do bosque.

A bruxa virou-se e deparou-se com a xamã da equipe preta. Pena-de-Águia trazia consigo uma trouxa de pano preto e um cantil. Melissa fitou-a com medo e curiosidade.

– O que você vai fazer? – resolveu perguntar. – Me matar ou me delatar?

– Nenhuma das duas coisas. Eu já sabia que você ia fugir, o lobo veio até mim em sonho e me contou do seu chamado. Na verdade, Melissa Gardênia, eu já sabia que você faria isso antes mesmo que você aparecesse na minha frente pela primeira vez. Eu vim ajudar.

– Por quê? – Melissa balançou a cabeça, confusa.

– A magia está morrendo, e as pessoas que deveriam proteger nossas terras não percebem que isso causará a destruição de tudo o que aqui existe – Pena-de-Águia fez um gesto amplo na direção do bosque. – Os espíritos da natureza sabem, eles me contaram muita coisa, mas não cabe a mim fazer isso. Meu papel era ser paciente e esperar que você passasse por mim. Não exatamente você, mas uma filha de bosque, alguém que também possa ouvir o que as árvores e os riachos murmuram entre si. O lobo me disse que alguém assim apareceria em minha vida e que eu deveria ajudá-la.

– O... lobo? – Melissa lembrou-se do lobo negro no dia do ataque ao bosque de Sharvod. – O lobo quer que você me ajude?

– Sim. Eu trago a você uma troca de roupas, comida, uma faca e a sua morte. Não é muito, mas é tudo o que eu pude coletar em segredo – Pena-de-Águia viu o medo no rosto de Melissa. – Não trago a sua morte, é claro. Trago um plano. Sujarei sua carta e seu uniforme na gosma dos monstros e em sangue, eliminarei as criaturas malignas daqui e voltarei à usina dizendo que você me mandou um sinal mágico de socorro e que eu cheguei tarde demais para te salvar e que resolvi enterrar você de acordo com os costumes de alguns povos da floresta. Eles provavelmente não sabem que telepatia é um dom tão raro.

– Ele não são tão burros assim. Você tem alguma ideia do que vai acontecer com você se eu me meter em confusão e acabar sendo pega?

– Eu sou o brilho da lua. Eu sou o vento nas árvores. Eu sou a montanha da nascente do rio – Pena-de-Águia declamou solene. – Eu sou uma xamã. Se ameaçada, eu me erguerei com minhas asas e viverei o resto dos meus dias voando no céu noturno como uma coruja. E, como você pode ver, eu conheço formas de sair sem ser notada.

– Nesse caso, obrigada – Melissa aceitou a trouxa e o cantil. – Será que você pode me dizer algo sobre o que eu vou encontrar, já que parece que o seu lobo vai cruzar o meu caminho de novo?

– A noite. O inverno. As coisas que as regras da sociedade tentam fazer desaparecer – Águia-de-Pena baixou sua voz. – O rei do azevinho deve salvar o rei do carvalho se não quiser enfrentar o mesmo fim. Não direi mais, porque o que já disse é muito, e é mais do que você compreende no momento. Encontre a pessoa que você procura e o lobo, e você obterá as suas respostas, Melissa Gardênia, filha de Sharvod.

– Obrigada pela ajuda, filha do vento – Melissa respondeu num tom igualmente solene. Aquela não era uma conversa informal à mesa do café-da-manhã, era um voto feito entre duas filhas da natureza. Aceitando a trouxa de mantimentos, Melissa aceitava o fardo que Pena-de-Águia lhe apresentara. – Eu encontrarei a minha pessoa e o seu lobo, e aprenderei o que me for ensinado. Abençoado seja o seu caminho, filha do vento.

– Que a lua ilumine o seu caminho, filha dos bosques.

Sem dizer mais uma palavra, as duas se separaram. Melissa gostaria de ter passado mais tempo conversando e rindo com a xamã, ela parecia o tipo de pessoa que seria uma ótima amiga. Era uma pena que uma ocasião como aquela, em que um indivíduo era imbuído de um destino específico, requerisse tanta formalidade e que não houvesse tempo para uma conversa pós-pacto. De qualquer forma, a bruxa agora deveria honrar seu compromisso e encontrar Monique e o lobo, não importando o que mais pudesse aparecer em seu caminho.

Despiu-se entre as árvores, sentindo por alguns momentos a liberdade da natureza antes de vestir as roupas comuns que Pena-de-Águia lhe trouxera. Aquilo provavelmente fora roubado do depósito de ítens pessoais das pessoas que iam cumprir os dez anos de trabalhos forçados. Melissa torceu para que ninguém descobrisse aquilo também, ou a xamã estaria tão encrencada quanto se descobrissem que ela havia ajudado a bruxa em sua fuga. Ajeitou seu uniforme entre as maçãs e os pãezinhos dentro da trouxa, para o caso de precisar de uma troca de roupa, e continuou seu caminho rumo ao oeste e a Monique.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Como este capítulo foi postado tarde (21:57), postarei mais um para compensar a demora. Críticas são bem-vindas.