Bruxaria.exe
20 Capítulo 20 - Ciclos
Notas iniciais
Esmeralda tossiu, lutando para respirar em meio à poeira espalhada no colapso do centro de pesquisas. O corvo de Melissa crocitou mais à frente, guiando-a. A alquimista desviou-se das fiações partidas que pendiam das partes mais altas dos destroços e avançou para fora dali. Precisava escapar antes que alguma equipe de resgate chegasse.
Depois de constatar que os esqueletos não a haviam matado, passara dias seguindo o corvo e procurando Melissa. Quase não parara para comer e dormir. E, assim que conseguira descobrir o paradeiro da sua amada bruxa, tudo o que pudera fazer fora explodir uma parede para invadir o local e ver Melissa – transformada numa ave estranha, mas ainda com seus olhos inconfundíveis – desaparecer num clarão repentino, deixando apenas algumas penas para trás.
Era culpa dela por ter abandonado Melissa naquela luta contra os esqueletos. Depois de ver a medida extrema que a bruxa tivera que tomar, Esmeralda compreendera que somente aquela que escapasse poderia sobreviver, e tomara a decisão dolorosa de fugir. Se ela tivesse ficado... Nada seria diferente, a não ser pelo fato de que estaria morta – ou, pelo menos, era isso que dizia a si mesma todas as vezes em que o sentimento de culpa tentava dominá-la, e sempre falhava ao tentar se convencer daquilo. Sabia que deveria ter ficado e lutado até a morte, se preciso, para salvar a bruxa.
Mas Esmeralda não desistiria de Melissa tão facilmente. Conseguira uma das penas dela, e faria a coisa mais impensável que um mortal poderia fazer: estava determinada a usar magia negra para encontrar Morrigane e exigir que Melissa fosse trazida de volta a qualquer preço. Não perderia mais um amor.
Conseguiu meio caminhar, meio arrastar-se, até uma árvore franzina não muito distante dos muros do centro de pesquisas – ou do que restara deles. Reconhecia o lugar como o prédio em que se recuperara da última etapa do treinamento. O prédio em que passara madrugadas jogando jogos de tabuleiro com Melissa. Parou sob a sombra da árvore para descansar por um momento antes de continuar seu caminho até uma pedra plana e grande o suficiente para o que ela planejava.
Com uma das facas que ainda tinha, fez um corte fino no seu dedo indicador esquerdo e desenhou um círculo grande o suficiente para que pudesse passar por ele, então começou a desenhar rapidamente os símbolos que lera num dos livros de magia proibida. Melissa e Anita com certeza nunca a perdoariam por aquilo, mas o que mais ela podia fazer para salvar sua bruxa? Seu desespero não permitia que ela estabelecesse um limite para suas ações.
– Você vem comigo pra me mostrar o caminho, caso seja preciso – ela disse ao corvo, finalizando o desenho.
A ave crocitou, concordando, e empoleirou-se no ombro da alquimista. Esmeralda respirou fundo e entoou um cântico curto numa língua obscura, como aprendera com seus livros proibidos. No centro do círculo de sangue, onde antes houvera pedra, passou a existir um buraco escuro demais para que se pudesse ver o que havia nele. Sem hesitar, a mulher pulou para dentro dele. Sentiu seu estômago contrair-se quando seus pés não tocaram o chão do outro lado e ela continuou caindo por mais tempo do que o esperado, mas esforçou-se para manter o resto de calma que ainda tinha.
Aos poucos, a velocidade da sua queda diminuiu, até que Esmeralda parasse e ficasse flutuando no meio do que parecia ser um vazio infinito. Duas chamas se acenderam à sua frente, revelando um trono de pedra coberto de sangue seco, ocupado por uma velha de longos cabelos negros que vestia uma armadura de couro gasta e manchada e segurava uma lança negra em uma das mãos. O ar se encheu com o som de metal se chocando contra metal, tiros sendo disparados, explosões e gritos de coragem e de agonia. A velha abriu seus olhos vermelhos e fitou Esmeralda sem demonstrar surpresa.
– Não há volta – Morrigane, a anciã, anunciou.
Esmeralda arregalou os olhos e comprimiu os lábios. Nem sequer tivera a chance de fazer alguma pergunta ou pedido. Ainda assim, resolveu se pronunciar:
– Tem que dar pra fazer alguma coisa! Não é justo a Melissa ter que desaparecer assim, por qualquer motivo que seja!
– Não é qualquer motivo – Morrigane respondeu, levantando-se do seu trono e caminhando com elegância até onde Esmeralda flutuava. – É o ciclo natural das coisas. Vida, morte e renovação da vida. É assim que as coisas são, mesmo para as maiores forças da natureza e da magia. Mesmo para os deuses.
– Do que é que você está falando? A Melissa só estava tentando ajudar a salvar a magia... Não é?
– Ah, não, de forma alguma. Ela, assim como os outros selecionados pelos meus espíritos subordinados, simplesmente achava que estava ajudando a salvar a magia. Até mesmo Aine Frigg, o rei do carvalho e suas belas criaturinhas da ordem achavam que estavam salvando a magia – a velha deu um sorriso desedenhoso. – Se isso apazigua a sua mente, Onabe e os outros espíritos do caos também não sabiam da verdade. Todos acreditavam realmente que impedir que a magia de ordem se extinguisse era o que deveria ser feito para salvar o mundo.
– Então você estava conspirando para acabar com a magia de ordem? Você deveria saber melhor do que qualquer um que apenas o caos não conseguiria sustentar o mundo por muito tempo! – Esmeralda esbravejou.
– E eu sei disso, minha petulante pequenina – Morrigane fez um pequeno movimento com a mão, como se as palavras da alquimista fossem um mosquito irritante a ser espantado dali. – Nunca disse que pretendia que a magia caótica continuasse existindo. Como eu disse, é um ciclo de vida, morte e renovação da vida, e nada pode escapar disso. A energia mágica a que pertencem os espíritos mágicos e da natureza de existem hoje já não é mais capaz de se sustentar; já teve seu ápice e seu declínio, e chegou a hora de deixar de existir e ser substituída por outra coisa. E que momento mais oportuno para fazer isso do que quando há um novo tipo de magia disponível?
– Mas você mandou o corvo e deu poderes especiais para a Melissa... – Esmeralda balbuciou, tentando se impedir de aceitar o que Morrigane lhe apresentava.
– Eu precisava de alguém que tivesse a capacidade de controlar a nova magia, e todos os meus escolhidos tinham potencial para isso. Sua bruxa, é claro, se mostrou a mais capaz, e por isso eu fiz um corvo só para ela. Apesar de ter duas cartas na manga, fico satisfeita por ter sido ela a obter sucesso.
– Do que é que você está falando? – Esmeralda balançou a cabeça, enterrando-a nas mãos. Já estava começando a entender o que tinha acontecido, mas se recusava a acreditar até que Morrigane o afirmasse.
– Magia solta, bruta, não serve pra muita coisa. Precisa de alguém por trás dela para que seja mantida em equilíbrio. Por muito tempo, espíritos como a rainha das fadas, o rei do carvalho e eu temos sido os responsáveis por isso. Antes de nós, houve outras coisas, e depois de nós havera mais. Os espíritos da ordem parecem ter se esquecido disso – Morrigane suspirou. – Aliás, depois de nós já há uma coisa. Melissa, a essa altura, já está quase no final do processo de se transformar na criatura que será responsável pela ordem e pelo caos da magia no futuro.
– E o que vai acontecer com ela? E com os espíritos mágicos? – Esmeralda estremeceu.
– A sua Melissa agora é algo como um espírito da magia, onipresente, embora talvez não onisciente. Quanto aos espíritos da antiga magia, todos nós desapareceremos completamente. É só uma questão de tempo, e nem tanto tempo assim – Morrigane riu de uma forma que pareceu quase ensandecida para Esmeralda. – O grande ciclo continuará!
– Não! Isso não é justo, Morrigane! Você mentiu pra todo mundo, fez pessoas sofrerem, e transformou seus aliados em monstros! Você destruiu a Melissa depois de tudo o que ela fez por você! – Esmeralda vociferou, avançando na direção do espírito da guerra.
Morrigane deteve-a, tocando sua garganta com a ponta da lança negra e forçando-a a recuar desajeitadamente. A alquimista crispou os punhos e cerrou os dentes com força, odiando sua impotência para destruir aquela criatura.
– Eu não acho que você saiba disso, garotinha, mas o tempo passado aqui é como o tempo passado na terra das fadas – Morrigane comentou num tom impensavelmente casual para alguém que estava prestes a furar a garganta de outra pessoa com uma lança – No tempo dessa nossa conversa, a sua querida amiga já se estabeleceu como o novo pilar da magia, as usinas mágicas já foram destruídas por outras pessoas, a nova magia já encontrou uma forma de se manter sozinha, e a roda do ano continuou girando sem que quase nenhum humano percebesse a alteração. É belíssimo esse ciclo, não?
Esmeralda fitou-a com espanto. Não se lembrava de ter lido sobre aquilo, embora soubesse que não deveria se surpreender tanto. Quanto tempo já teria se passado? Não mais do que alguns minutos, certamente, mas a relação da passagem de tempo entre os dois mundos não era linear. Quantos meses ou anos a alquimista teria perdido ali? Balançou a cabeça, lembrando-se do que era mais importante naquele momento.
– E se eu encontrar alguma substituta para a Melissa? E se eu ficar no lugar dela? E se eu conseguir uma alternativa? – engoliu em seco.
– Não há volta – Morrigane repetiu, curvando seus lábios num sorriso.
Esmeralda preparou-se para responder, mas o ambiente ficou subitamente enevoado. O trono, as luzes, a própria Morrigane, tudo perdeu-se dentro da neblina repentina. A luz do sol cegou-a temporariamente e a alquimista percebeu que estava em pé sobre uma pedra chata, em uma planície gramada, perto das ruínas de alguma grande construção. Uma pena negra repousava entre os seus pés, cercada por resquícios de algum material marrom-avermelhado quase completamente apagado da rocha. O corvo não estava mais em seu ombro.
A alquimista desceu da pedra com as pernas trêmulas e olhou ao redor lentamente, tentando determinar, através das mudanças na paisagem, quanto tempo se passara. Ao contrário de Melissa, ela não crescera no meio de um bosque, não sabia o quanto demorava para o mato crescer ou para a hera dominar um muro. Era inútil tentar descobrir sozinha, e ainda poderia ser perigoso se aproximar demais de uma cidade para obter a informação. O único lugar seguro em que conseguia pensar era o bosque de Sharvod. Era ironia demais.
Procurou sua mochila, em vão. Olhou para o céu e suspirou antes de começar a andar. Lembrou-se de Melissa dizer que não se importaria em se tornar uma eterna andarilha, algo entre um mortal e um espírito da natureza. Agora era ela que vagava sozinha naquela campina, indo em direção a um bosque, isolando-se da civilização.
– Ah, Melissa... – Esmeralda olhou para o céu novamente. Não sabia se Melissa a ouviria, mas precisava colocar aquilo para fora. – Será que você me odiou nos seus últimos momentos? Será que você achou que eu tinha resolvido te abandonar? Bem, eu te abandonei, é verdade, mas não porque eu não te amava. Eu fiquei com medo, confusa, talvez, e acabei tomando uma decisão da qual me arrependi. E eu sei que também me arrependeria se tivesse escolhido ficar, então não sei o que teria sido pior. Mas não me odeie, por favor.
Esmeralda balançou a cabeça, considerando seu pequeno discurso patético. Não era sobre ódio que queria falar, era sobre amor, sobre esperança. Disse a si mesma que, se preciso fosse, tornar-se-ia uma espécie de sacerdotisa ou bruxa dessa nova magia, viveria para compreendê-la e protegê-la. Da mesma forma que monges se enclausuravam em celas para atingir o estado mais elevado da alma e encontrar seus deuses, Esmeralda vagaria por tantos lugares quanto fosse preciso para reencontrar Melissa e, se nada mais, pedir desculpas e mergulhar naqueles olhos azuis uma última vez.
Sharvod ficaria feliz ao ver seu bosque tão viçoso. Depois de dias infindáveis de caminhada, Esmeralda finalmente o encontrara. Estava um pouco maior do que antes, pelo pouco que ela se lembrava do lugar. Entrou no antigo lar de Melissa, pronta para encontrar Monique e perguntar se ela sabia em que ano estavam e se havia qualquer notícia sobre o estado da bruxa.
Graças às histórias que Melissa lhe contara, Esmeralda tinha ideia de onde procurar. Passou por uma árvore espantosamente alta e avistou um lago antes de encontrar uma clareira pequena em que três paredes erguiam-se em meio a uma pilha de escombros de uma casa que havia desabado. A alquimista aproximou-se lentamente. Era improvável que houvesse mais de uma casa naquele bosque, mas também era improvável que uma casa que se mantivera em pé por tantas gerações desabasse em menos de algumas décadas de falta de cuidados.
– Quanto tempo eu fiquei naquela dimensão maldita? – Esmeralda perguntou-se em voz alta, andando pelas ruínas.
Estacou ao avistar, entre pedaços de concreto e telhas quebradas, um círculo e madeira envernziada coberto por flores frescas. Aproximou-se, curiosa, e viu que havia pequenos símbolos desenhados no contorno do círculo, e que as flores tinham sido trançadas em guirlandas. Pegou uma delas e sentiu seu aroma, lembrando-se do dia na terra das fadas, e teve uma sensação etranha ao se lembrar de que a terra das fadas provavelmente não existia mais. Pôs a guirlanda de volta no que supunha ser um círculo mágico para que continuasse fresca e afastou-se.
Sabia que precisava encontrar a próxima clareira, onde uma vez estivera a árvore de Sharvod, se quisesse falar com Monique. O pensamento que a vinha atormentando nos últimos dias ocorreu-lhe novamente: talvez Monique também já não existisse mais. Engoliu em seco, agarrando-se à esperança de que, mesmo que o espírito do bosque não estivesse ali, Melissa anda dedicasse uma atenção especial ao lugar. Ela sabia que, apesar de tudo, ao menos uma parte do coração da bruxa jamais deixara a ruiva.
Na clareira de Sharvod – Esmeralda julgou que não deveria haver outra com uma cratera tão grande no centro –, nada crescia. Ao contrário do resto do bosque verdejante, cheio de vida, aquele lugar não tinha um folha de grama sequer. A terra avermelhada mostrava-se nua ao sol brilhante, coberta apenas nos pontos em que folhas secas das árvores ao redor haviam caído nela.
Trêmula, dando passos pequenos e hesitantes, Esmeralda caminhou até o centro da clareira, onde caiu de joelhos, exausta e desapontada. Teria Melissa abandonado seus sentimentos por Monique? Ou então teria ela perdido a consciência de todas as suas experiências humanas ao se transformar no novo pilar da magia?
– Melissa, se você etiver me ouvindo, por favor, fale comigo, me dê algum sinal! Qualquer coisa, eu só preciso saber se você está bem, se você ainda está aí em algum lugar – Esmeralda falou enquanto olhava para o céu. – Por favor, Melissa, faça qualquer coisa, eu só preciso saber se você ainda existe...
A alquimista esperou. Seus joelhos começaram a doer, então ela se sentou. Seus olhos ficaram cansados, então ela se deitou na terra e adormeceu. Não houve uma brisa sequer para balançar as folhas das árvores. Não houve chuva, relâmpago ou trovão. Não houve cometa ou estrela cadente. Não houve sonho ou visão mística.
Nada.
Por três dias, Esmeralda viveu do que pôde coletar no bosque e passou a maior parte do seu tempo sentada na clareira sem vida, repetindo como se fosse uma prece ou um mantra seu pedido, até que as palavras deixassem de fazer sentido. Nada aconteceu.
No quarto dia, decidiu tentar contatar Morrigane ou algum dos outros espíritos mais uma vez. Desenhou com seu sangue, com gravetos, com terra, com folhas e com flores todos os círculos mágicos que se lembrava de ter visto em seus livros, mas nenhum deles funcionou. Não havia mais dimensões mágicas a visitar. Não havia mais espíritos da magia ou da natureza. E talvez não houvese mais Melissa também.
Desolada, Esmeralda abandonou o bosque. Estava sozinha. Não tinha mais nada. Gostaria de poder desaparecer completamente, como tudo em sua vida fizera, e não ter que passar por aquilo. Mas ela decidira abandonar Melissa num momento crucial. Ela se assustara e fugira ao invés de ficar, lutar e morrer ao lado dela. A missão de destruir as usinas teria sido concluída quer ela tivesse fugido ou ficado, graças aos revolucionários, mas ela usara a missão como desculpa para fugir e esconder sua covardia. Aquele era um castigo justo.
Rumou para a sua cidade natal. Não se lembrava dela, mas parecia ser um bom lugar para começar de novo. Esmeralda torceu para conseguir se encaixar na sociedade, como quer que ela etivesse. Não procuraria a família Paz, queria tranquilidade depois de toda a dor que conhecera. Se a magia fosse aceita pela população, talvez ela pudesse trabalhar com encantamentos. Se não, teria que encontrar outra coisa para fazer. Viver deixaria um gosto amargo em sua boca todos os dias, por tanto tempo quanto seu coração batesse, mas era a sua pena pelo crime de abandonar Melissa, e a dádiva que a bruxa lhe dera ao salvá-la dos esqueletos. A bênção e a maldição que Esmeralda deveria aceitar da melhor forma possível, até que seu ciclo também estivesse completo.
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