Bruxaria.exe
17 Capítulo 17 - Traição
Notas iniciais
Melissa ajudou Esmeralda a sentar-se e ficou ao seu lado para que a alquimista tivesse onde se apoiar, caso precisasse. Anita segurou as mãos de Jamie, encorajando-o a falar. Esmeralda também escorregou uma de suas mãos até a de Melissa, preparando-se para o que estava por vir. Melissa sentiu-se idiota ao sentir o estômago se contorcer com aquele toque, não havia momento mais inapropriado para aquele tipo de sensação surgir.
– Esmeralda, a família Paz não existe mais – Jamie disparou tão rápido que Melissa quase não entendeu as palavras, então prosseguiu num tom dolorosamente mais lento. – Bem, as pessoas da família ainda existem. Não todas, mas algumas. E com certeza não mais sob a organização da família.
– Espera, espera – Esmeralda ergueu sua mão livre. – O quê?!
– Você sabe que sempre houve uma certa tensão entre os setores da família que queriam começar uma revolta e os que queriam estabelecer uma base estável no poder antes de agir, não é? – Jamie engoliu em seco e ajeitou a gola da blusa. – Você já participou de reuniões agitadas, às vezes até perigosas, sobre isso.
– Prossiga – Esmeralda comprimiu os lábios.
– Bem, a tensão ficou mais forte nos últimos seis meses. No começo, sua mãe não queria que a gente te avisasse sobre a crise pra você não perder o foco na missão. Uns dois meses atrás, os favoráveis à revolta deram um ultimato, quem não estivesse com eles, seria considerado inimigo da causa.
– E a minha mãe e os meus tios discordaram, dizendo que o melhor caminho seria conhecer essa nova tecnologia, roubá-la e usá-la em benefício da comunidade mágica, e reuniram forças para aniquilar os revolucionários – Esmeralda balançou a cabeça. – Provavelmente esse ataque direto foi votado e os meus tios ganharam simplesmente por estarem em maior número. Minha mãe pode ser um monte de coisas, mas não é estúpida, tentaria uma saída diplomática.
– Eu não sei como a decisão foi tomada, mas foi exatamente isso o que aconteceu – Jamie engoliu em seco novamente. Melissa se perguntou quantos amigos ele teria perdido por causa daquilo. – O problema é que, como já se suspeitava da questão do déficit de magia há algum tempo, o grupo da revolta tinha um argumento muito forte para convencer as pessoas a agirem rápido. Sua mãe, seus irmãos e meia dúzia dos seus tios e primos conseguiram fugir para outro país, o resto perdeu uma guerra bem curta e sangrenta. Os sobreviventes capturados foram executados. Agora o grupo da revolta está se preparando para derrubar o governo, mas eu não sei como e nem o que eles vão fazer depois. Nem sei direito como eu consegui escapar.
– Como você encontrou a gente? – Anita fitou-o.
– O confeiteiro. Ele se aliou à revolta para não ser executado, mas continua sendo leal ao ramo principal da famíia Paz. Ele, o mecânico da capital e alguns dos outros informantes menores formaram uma rede segura para os poucos que como eu, escaparam. Assim que o confeiteiro percebeu que as agentes do pendrive eram você e a Anita, ele mandou uma mensagem para o alfaiate que estava me hospedando – Jamie suspirou. – A partir daí, eu tive que deduzir qual seria o destino mais provável de vocês, e imaginei que fosse o Monte Rapina ou os arredores dele. Foi realmente muita sorte vocês terem ido parar na loja de um dos nossos aliados, senão estariam mortas.
– Nós quase morremos em Ovinara – Melissa comentou.
– Ah, então vocês já encontraram os esqueletos – a expressão do homem ficou sombria. – Ninguém sabe direito o que eles são, mas têm aparecido com alguns soldados há mais ou menos duas semanas. Com certeza o governo acha que chegou a hora de exterminar a população mágica e resolveu começar a testar essa nova arma.
Esmeralda e Anita se encararam em silêncio por alguns segundos, tentando digerir as informações. Melissa apertou de leve a mão de Esmeralda para mostrar que estava ao seu lado. Conhecia o choque e a angústia de perder a família toda de uma só vez. Pelo menos os irmãos e a mãe de Esmeralda estavam vivos, apesar de distantes.
– Parece que nós estamos por conta própria, então. Temos que tomar cuidado tanto com as cidades quanto com os antigos esconderijos e pontos de informação da família – Esmeralda disse, sem esboçar qualquer emoção. – Jamie, eu preciso da sua ajuda para tentar entender o funcionamento da magia sintética. Nossa melhor estratégia, considerando os nossos recursos escassos, é esperar o estopim da revolução e agir assim que o caos se instaurar...
– Trancinhas... – Anita sussurrou, mordendo o lábio inferior em seguida. As irmãs trocaram um olhar bastante expressivo.
– Melissa, será que você pode me ajudar a chegar ao córrego? – a alquimista desviou o olhar para a bruxa.
Os olhos azuis fitaram os verdes pelo momento que foi necessário para que tudo fosse entendido. Anita e Jamie precisavam de um momento. Ela e Esmeralda também. A situação toda tinha mudado. Não era mais uma questão de simplesmente correr grandes riscos para salvar a magia, era uma missão suicida e era tarde demais para desistir dela.
– Claro, vamos – ela ajudou Esmeralda a se levantar e passou a mão pela cintura da alquimista para apoiá-la.
As duas se afastaram do casal e caminharam até o córrego. A distância era estratégica para garantir segurança e privacidade para as duplas. Melissa e Esmeralda sentaram-se sobre uma pedra grande à sombra de uma árvore e observaram em silêncio a natureza ao redor. A bruxa não sabia dizer quando fora a última vez que ela tivera a oportunidade de realmente admirar a luz do sol dançando na água ou ouvir o trinado dos pássaros. Talvez em termos de dias vividos por ela, aquilo tivesse sido há mais ou menos uma semana. Em termos conológigos, pouco mais de um mês e meio. Para a sua percepção, uma eternidade. Tivera a chance de fazer aquilo durante a viagem da usina para o bosque de Sharvod. Ainda asism, não fora a mesma coisa. Lá, apesar de ter parado por alguns momentos para apreciar o mundo ao seu redor, ela estivera com pressa para concluir sua jornada. Ali, na pedra do córrego, ela finalmente sentia um pouco de paz se instalando em si.
– Então é isso, não é? – ela riu da ironia da situação. Monique a expulsara do bosque para que ela pudesse ter uma vida feliz, e com isso assinara sua sentença de morte. – Nós não temos para onde ir, e sabemos que não adiante tentar ir para qualquer lugar. Nosso destino é lutar bem e morrer, como os povos antigos faziam. E assim o ciclo começa novamente.
– O ciclo? – Esmeralda fitou-a. – Ah, sim, me desculpe. Vocês, bruxas, druidas, xamãs... enfim, pessoas próximas à natureza, entendem bem mais sobre a vida e a morte do que pessoas como Anita e eu, não é?
– Eu acho que só os mortos entendem a vida e a morte – Melissa ergueu os ombros. – Mas é, os ciclos são importantes. E a morte é parte da vida. Quando uma coisa morre, a terra a consome para gerar vida. Não é diferente da passagem do inverno para a primavera.
– Você realmente não se importa em morrer?
– Não. Antes, eu não queria morrer porque precisava garantir a segurança de Monique. Agora eu quero fazer o melhor que eu puder para que você e a Anita possam voltar para a mãe de vocês quando isso tudo acabar, mas, honestamente, contanto que a magia seja salva, eu não me importo com o que vai acontece comigor. Afinal, o que é que existe neste mundo para mim?
– Muita coisa – Esmeralda retrucou.
– Eu não tenho família. Eu não tenho amigos com uma expectativa de vida maior do que a minha. É claro, eu poderia viver na natureza até me tornar digna de habitar na terra de algum povo mágico, como a terra das fadas ou a mata do rei do carvalho – Melissa riu e balançou a cabeça. – Mas isso não é para mim. Como bruxa, eu vivo para cuidar da natureza, celebrar seus ciclos e garantir que eles continuem existindo. É realmente meu dever fazer o possível para restaurar o equilíbio da magia, mas também é meu dever cumprir o meu ciclo.
– Eu também não me importo em morrer, mas não pelos mesmos motivos que você – Esmeralda voltou a fitar a água. – E eu também quero fazer o melhor que eu puder para que você viva tanto quanto for possível.
– E a sua família, como fica? Você devia me ajudar com o meu plano de salvar você e a Anita – Melissa pasosu um braço pelos ombros de Esmeralda e sorriu.
– Meus irmãos vão se virar bem. E a minha mãe... Bem, você sabe que ela não é a minha mãe de verdade, ela é só a líder da minha família e a minha mentora – Esmeralda comprimiu os lábios. – Não existe nenhum vínculo afetivo entre nós. Eu quero dizer, ela é a mulher que fez questão de me ensinar pessoalmente e na prática técnicas de resitência a tortura quando eu tinha doze anos. Morrer aqui e nunca mais cruzar o caminho dela não seria tão ruim. E me ver livre da obrigação de sempre agir de acordo com os maiores interesses da família Paz também é um alívio. A única parte triste é deixar Anita e o resto da família para trás quando eu morrer. Meus parentes da família Paz até que não são, ou eram, tão ruins assim.
Melissa encarou-a, incapaz de encontrar um comentário apropriado. Esmeralda fechou os olhos e apoiou a cabeça em seu ombro, parecendo ainda menor e mais frágil do que o normal. O coração da bruxa acelerou e se apertou, desesperado para proteger aquela pessoa.
– Mas já que a probabilidade de alguma de nós sobreviver é quase inexistente, eu fico feliz em saber que vou passar meus últimos dias ao lado da minha irmã e de uma pessoa tão singular quanto você – Esmeralda acrescentou, rindo baixinho.
– Então eu sou singular? – Melissa ergueu uma sobrancelha e também riu, determinada a manter o clima leve e a não se deixar abater pela perspectiva do seu futuro. Esmeralda a consolara vezes demais, ela precisava retribuir aquilo.
– Muito mais do que você imagina – Esmeralda suspirou e endireitou sua postura. – Hã, olha... Minha irmã e o namorado dela provavelmente vão precisar de um pouquinho mais de tempo pra lidar com a notícia. Ela não demonstra, mas até que é bem sensível. E depois que ele tiverem essa conversa tão adorável sobre a morte, eles vão precisar de mais um tempinho, sabe?
– Ah, sim, claro – Melissa balançou a cabeça. – É bem... bacana essa coisa que eles têm. É um relacionamento aberto?
– Eles têm um acordo de liberdade no amor quando estiverem longe um do outro. Eu tinha a mesma coisa com a Erina. A diferença é que isso dá certo pra eles, e eu sou um pouco mais monogâmica – Esmeralda deu de ombros. – Acho que você me entende.
– Perfeitamente – Melissa suspirou. – Bem que você disse que a dor diminui... Aqui, olhando para a natureza e contemplando a morte, o meu pesadelo de hoje cedo parece tão pequeno e insignificante.
– Você se recupera rápido, hein? – Esmeralda deu-lhe um tapinha nas costas. – O que você acha de ir dar uma volta aqui por perto? Talvez a gente tenha a sorte de achar alguma planta comestível. Eu acho que deve ter algumas árvores com aquelas coisas que parecem pinhas naquela direção.
Melissa concordou e levantou-se, oferecendo uma mão para ajudar Esmeralda a fazer o mesmo. A alquimista parecia um pouco melhor e sua febre diminuíra depois de um tempo perto do córrego, mas a bruxa não queria arriscar outra crise de tremores. As duas mal tinham pisado na terra ao redor da pedra quando um grito agudo cortou o ar.
– Anita! – elas exclamaram ao mesmo tempo, precipitando-se na direção do acampamento.
Jamie estava em pé, com a blusa e a calça manchadas de sangue. Uma faca de lâmina curta ocupava sua mão esquerda. Três pessoas vestidas com roupas comuns de fazer trilha estavam paradas perto da fogueira. Anita jazia no chão, numa poça crescente de sangue.
– Aí estão elas. Eu cumpri a minha parte – o namorado da ilusionista jogou a faca para o lado.
– Realmente. Você provou a sua devoção e a sua utilidade à causa. Nossos líderes ficarão satisfeitos – uma das pessoas perto da fogueira, uma mulher na casa dos quarenta anos, respondeu. – Vocês dois, terminem o trabalho.
Os dois rapazes que a acompanhavam voltaram-se para a bruxa e a alquimista. O primeiro instinto de Melissa foi colocar-se entre eles e Esmeralda. Ela podia estar ferida e cansada, mas a morena era quem tinha menos condições de lutar. Sentiu o corvo num galho atrás de si antes de vê-lo, e não precisou de mais do que a inteção de lhe dar um comando antes que a ave disparasse na direção da mulher da fogueira. Dos outros dois, que estavam mais próximos, Melissa Gardênia, a bruxa abençoada por Aine Frigg e Morrigane, podia cuidar sozinha. A chama da batalha já estava acesa dentro dela, mais forte do que nunca. Sem o esqueleto brilhante para absorver a sua energia, a dádiva de Morrigane podia se manifestar plenamente.
Melissa avançou na direção do homem da direita. Ela desviou-se da faca dele e acertou sua nuca com seu feitiço elétrico. O inimigo provavelmente tinha algum tipo de proteção mágica para sobreviver àquilo, mas ficou atordoado o suficiente para que Melissa tivesse tempo de puxar o outro pelo braço antes que ele pudesse avançar para Esmeralda. Onabe tinha razão, era uma pena lutar sem derramar sangue, mas ela não tinha nenhuma lâmina consigo. Depois de algumas tentativas de usar seus feitiços básicos, Melissa tinha dois inimigos mortos aos seus pés e um novo corte na palma da sua mão direita. Quando o sangue derramado era o seu, a sensação não era tão boa. O estampido de um tiro assustou-a e ela levantou a cabeça a tempo de ver a líder do trio cair no chão com um buraco de bala na altura do coração.
– E agora você – Esmeralda, que esgueirara-se até o rifle roubado do soldado à beira da estrada, apontou a arma para Jamie. – Explique-se.
– O confeiteiro não era aliado de vocês. Não de verdade. Ele só deu o equipamento porque não queria levantar suspeitas. O comando da revolução me notificou da localização de vocês e me encarregou de descobrir para onde você e a sua irmã estavam indo – ele levantou as mãos. O fato de que uma delas estava manchada pelo sangue de Anita não ajudou a apaziguar Esmeralda.
Melissa aproximou-se da ilusionista para checar os seus sinais vitais e verificar se havia algo que ainda pudesse ser feito por ela. Esmeralda continuou apontando a arma para o cunhado.
– Então você matou a minha irmã, a sua namorada, porque o comando da revolução pediu? – a alquimista rosnou.
– Era eu ou ela, você precisa entender...
– A única coisa que eu preciso entender é o quanto você é um rato covarde. Se quiser uma chance de sair daqui, me responda sem mentir: o que você disse sobre a minha família é verdade?
– É! É tudo verdade, eu juro! – ele parecia à beira de lágrimas. Melissa achou-o desprezível.
Esmeralda apertou o gatilho. A bala atravessou a cabeça de Jamie antes que ele pudesse esboçar alguma reação. O corvou pousou no ombro de Melissa e não emitiu som algum. A bruxa levantou os olhos para a alquimista e balançou a cabeça lentamente. Esmeralda largou a arma e caiu de joelhos, as lágrimas já lavando o rosto. Melissa soltou delicadamente o cadáver de Anita e foi até Esmeralda, ajoelhando-se ao seu lado e envolvendo-a em um abraço. Aquela dor, a de perder por último o ente mais querido da família, ela conhecia bem.
– O que é que a gente vai fazer com os corpos? Eu não quero que a Anita fique no mesmo lugar que essas pessoas – Esmeralda disse após algum tempo, entre soluços.
– Nós podemos queimar os corpos e enterrar Anita em algum lugar. Ou o contrário, o que você achar mais digno – Melissa respondeu com a voz embargada, lutando para manter os olhos secos.
– Deixe os corpos desses crápulas aí, eles não merecem um funeral decente – Esmeralda cerrou os punhos. – Quanto à minha irmã, ela era um espírito livre demais para que eu a coloque sob a terra...
– Eu vou preparar a fogueira. Perto do córrego é um bom lugar para você? – Melissa acariciou as tranças dela com delicadeza. A alquimista balançou a cabeça em confirmação.
A bruxa afastou-se para ir em busca de tanta madeira seca quanto pudesse encontrar e carregar, trabalhando nisso por horas intermináveis. Procurou também algumas ervas de cheiro forte que geralmente eram usadas para feitiços de proteção, sorte e amor; serviriam para encobrir o cheiro do corpo sendo cremado. Sobre a grande rocha plana em que se sentara com Esmeralda, montou a fogueira em forma de uma pequena cabana, ornada com ervas, assim como sua avó havia lhe ensinado um dia. Como bruxa do bosque, sempre fora seu dever lidar com a morte e com o nascimento de qualquer um sob os seus cuidados.
Voltou ao acampamento para ajudar Esmeralda a levar o corpo de Anita até a fogueira. Usaram um dos cobertores para arrastá-la e para envolvê-la ao ser colocada na pequena cabana. Melissa usou mais alguns galhos para fechar a abertura por onde o cadáver tinha passado. Com o coração pesado, fez uma prece silenciosa a qualquer espírito que estivesse escutando para que Anita fizesse uma travessia segura e agradável para o outro lado. Colocou as mãos sobre a madeira e, depois de se concentrar o suficiente, criou a fagulha que se transformou na chama cada vez maior da fogueira.
Esmeralda e Melissa abraçaram-se, e a bruxa finalmente se permitiu chorar silenciosamente enquanto a fumaça escura e de cheiro forte ascendia ao céu alaranjado. O destino, Melissa pensou, finalmente estava conseguindo recuperar a tragédia que a bruxa lhe roubara.
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