Bruxaria.exe
13 Capítulo 13 - Rei do Carvalho
Notas iniciais
Esmeralda sentou-se ao chegar em uma outra clareira, torcendo para que as flores cobrissem o seu corpo. Jamais imaginara que seria tão constrangedor ir à terra das fadas. E o pior era que o aroma de todas aquelas flores juntas a deixava como se estivesse embriagada. Não conseguia se concentrar direito em coisas importantes, como possíveis estratégias para a próxima batalha ou a melhor forma de entrar em contato com a família Paz e dividir suas terríveis descobertas com os oficiais superiores da revolução.
Sob o sol agradável e o céu multicolorido, cercada por sons pacíficos, sentada sobre folhas frescas e macias, Esmeralda só conseguia ter consciência do seu corpo nu perigosamente próximo de um outro corpo nu, ambos gloriosamente iluminados pelo mesmo sol e emoldurados pela mesma natureza exuberante. De repente, ela sabia exatamente o que queria dizer à bruxa depois de despertar do sono vermelho, e não conseguia se lembrar do que a impedia de colocar todas aquelas palavras para fora.
Melissa sentou-se ao seu lado, fitando-a com seus olhos azuis. Aqueles benditos olhos que tinham sido a sua salvação no primeiro combate contra criaturas malignas, no mundo vermelho e na cela escura. Aqueles olhos que lutavam para parecer fortes mesmo quando precisavam desesperadamente de colo. Seu coração parecia bater rápido demais naquele momento.
– Eu fico feliz por você estar viva, e mais feliz ainda por este lugar ter te feito tão bem – a bruxa disse com um sorriso tênue.
– E eu digo o mesmo. Principalmente porque eu fui a responsável pelas suas feridas mais recentes – Esmeralda tocou o ombro de Melissa onde antes havia um buraco de bala.
– Não. Os responsáveis por isso foram as pessoas que atiraram – ela balançou a cabeça. – E eu não ajudei muito, considerando o estrago que eu causei na usina.
As duas riram. Quando estavam juntas, até mesmo as grandes tragédias das suas vidas pareciam pequenas. Talvez por terem passado por tanta coisa similar, por ainda terem um futuro sofrido aguardando e saberem disso. Talvez por algum outro motivo que Esmeralda não conseguia explicar.
Na verdade, conseguia explicar, mas se recusava a fazer isso. Se tornara extremamente consciente da devoção de Melissa por Monique, e isso doía no fundo do seu peito. No começo ela achara que era ciúmes – o que era uma idiotice, não havia motivo algum para ela ter ciúmes –, mas ouvir sobre a missão de Melissa e o destino inevitável de Monique dera à dor um novo significado. Sofria por saber que Melissa não seria feliz, não importando o tamanho do sacrifício que fizesse.
De uma certa forma, ela também estava prestes a sacrificar tudo com o que ousara sonhar em prol de um bem maior, mesmo que isso só lhe trouxesse sofrimento depois. Com aquilo que descobrira na usina, sabia que iniciaria uma luta que derramaria tragédia sobre muita gente, inclusive – e principalmente – da sua família.
Surpreendeu-se ao sentir algo sendo posto em sua cabeça. Olhou para o lado e viu que era Melissa encaixando algo em seus cachos escuros. Conseguiu ver um pouco de verde e rosa ali, então supôs que fosse uma guirlanda.
– Uau! Você é rápida nisso! Eu nem vi você fazendo a guirlanda – Esmeralda passou as pontas dos dedos delicadamente pela pétalas macias.
– Você estava distraída – Melissa sorriu. – Ah, agora eu entendo por que tanta gente que descobre o caminho para a terra das fadas acaba nunca mais voltando. É como se não existisse nenhum problema no mundo, nenhum pudor ou medo desnecessário. Dá pra sentir a liberdade e a paz só de respirar o ar daqui.
– Seria bom ser livre e feliz assim para sempre – Esmeralda deitou-se entre as flores e admirou o céu colorido, esquecendo-se da nudez e das suas preocupações por um momento.
Melissa deitou-se ao lado de Esmeralda e também fitou o céu. Adoraria poder ser livre e feliz daquele jeito com Monique. Queria poder segurar suas mãos e rodopiar naquelas clareiras floridas até cair, então apostar uma corrida até o lago mais próximo e procurar uma pedra grande e quente para se secar, exatamente como já tinha feito tantas vezes no bosque. Mas Monique se tornaria intocável e imortal, ao passo que Melissa, não. Pela primeira vez, a bruxa entendia por que pessoas dedicavam suas vidas a deuses invisíveis. Será que o coração delas doía tanto assim também?
– Você também está distraída – Esmeralda fez cócegas em seu nariz com uma margarida.
– Acho que é impossível não se distrair aqui – Melissa riu, virando o rosto na direção da alquimista.
Então ela a viu.
É claro que já tinha visto Esmeralda uma centena de vezes antes, e é claro que já tinha reparado naqueles olhos verdes inesquecíveis. Mas, pela primeira vez, Melissa notou as covinhas em seu rosto que se formavam quando ela sorria, o formato arqueado das duas sobrancelhas, o quanto o seu queixo era pontudo em relação aos traços arredondados do rosto, mas de uma forma graciosa. Ela era pequena e nem de longe tão curvilínea quanto Monique, mas era inegável que era bonita. Em outro tempo, em outra vida, em algum universo em que Melissa jamais tivesse encontrado Monique, ela se contentaria em passar o resto do dia admirando aquela cena que parecia um quadro. “A fada dos cabelos de ébano”, ela nomearia a pintura. Mas Monique, sua verdadeira musa, a esperava em outro lugar.
– Vem, vamos dar uma volta. É provável que a gente nunca mais tenha a chance de voltar aqui e eu não quero perder a oportunidade de ver o máximo que eu puder – Melissa levantou-se de repente, estendendo a mão para Esmeralda.
As duas atravessaram a clareira e caminharam entre as árvores. Encontraram um lago de águas límpidas e nadaram nele. Tentaram seguir um coelho branco, mas ele desapareceu depois de pular para dentro de um arbusto de frutinhas amarelas. Encontraram um círculo de fadas dançantes e juntaram-se a elas por pouco tempo; um dos perigos de dançar com fadas é que o tempo parece acelerar quanto mais se dança, e dias podem ser perdidos entre um passo e outro. Divertiram-se como duas crianças sem preocupações, completamente livres de qualquer coisa.
Quando o sol começou a baixar e o céu ficou todo ligeiramente mais alaranjado, a dupla voltou ao ponto de encontro. Onabe já estava esperando, mais melancólico e resignado do que antes. Anita apareceu pouco depois, despedindo-se com risinhos maliciosos de um belo exemplar do belo-povo. Para as três mortais, tinha sido um dia de alegria e liberdade plenas, a melhor dádiva que a rainha das fadas poderia ter lhes dado em tempos tão sombrios – nenhuma benção se equipararia à possibilidade de se afastar, mesmo que momentaneamente, dos fantasmas e demônios da mente.
Foram até o centro da clareira do trono de lírio, onde a rainha e parte da sua corte aguardavam. Três mulheres com tatuagens azuis por todo o corpo seguravam uma lança cada uma. Lanças. Melissa esperara espadas ou adagas, mas tudo bem, ela não sabia usar nada daquilo de qualquer forma.
– É uma pena que o tempo de vocês, tanto na nossa terra quanto na vida, seja tão efêmero – Aine Frigg declarou quando o grupo se aproximou. – Espero que tenham apreciado a estadia. Agora creio que vocês devam partir. Por favor, aceitem as minhas dádivas.
A rainha fez um gesto amplo com as duas mãos e as mulheres com as lanças avançaram, entregando uma arma para cada humana. A lança de Melissa era de madeira dourada maciça, o que a tornava pesada demais para ser arremessada, e a ponteira era de cristal, preso ao cabo por uma fita vermelha trançada com miçangas azuis. A bruxa esperava que fosse um ótimo artefato mágico, porque seria absolutamente inútil em batalha.
– Eu agradeço pelas dádivas, grande rainha – Melissa curvou a cabeça respeitosamente, evitando mostrar sua dúvida.
– Então partam com as minhas bênçãos e salvem o rei do carvalho, Melissa Gardênia e minhas outras crianças – a rainha das fadas sorriu. – Canções serão cantadas sobre vocês por eras sem fim depois desta noite.
Melissa endireitou-se e devolveu o olhar da rainha. “Desta noite”. Ela as jogaria direto na noite do solstício de inverno? Não seria nem mesmo na manhã daquele dia, ou na noite anterior, para que elas tivessem tempo de se preparar? Hesitou antes de falar, tentando encontrar a forma mais respeitosa de colocar suas observações em palavras. Sabia que era muito perigoso ofender uma fada, e não queria imaginar o que a rainha das fadas poderia fazer caso fosse ofendida. Antes que conseguisse abrir a boca, contudo, foi engolida pela mesma luz intensa de quando cruzara o portal. No momento seguinte, viu-se em frente ao que parecia ser uma parede de árvores ancestrais, mas diferentes das da terra das fadas.
Olhou para baixo para se certificar de que estava vestida. Uma coisa era passear nua e livre por uma mata florida num clima ameno e pacífico, outra era ir para uma batalha em plena noite de solstício de inverno sem roupa alguma. Viu-se novamente com as calças marrons, a blusa verde-musgo e as botas pretas que usara desde sua fuga. As peças pareciam surpreendentemente limpas, e não tinham mais nenhum rasgo ou furo. Esmeralda e Anita também vestiam o conjunto de calça e blusa pretas do uniforme da equipe a que pertenciam nas usinas. Onabe estava ao lado delas, com os pêlos arrepiados. O sol se punha ao longe.
– Alguém faz alguma ideia de como usar essas coisas? – Melissa apoiou a ponta não afiada da sua lança no chão. – Eu unca usei uma lança na minha vida.
– É fantástico – Esmeralda passou os dedos pelas miçangas azuis. – Isso não é uma arma de combate comum. É um amuleto, e provavelmente vai se quebrar assim que terminar de ser usado, possivelmente pra que a sua energia volte à terra das fadas. Está vendo essas runas dentro das pedrinhas azuis? O cristal com certeza é um catalizador de energia, o que quer dizer que qualquer feitiço que a gente use vai ser muito mais poderoso que o normal, mas o esquema mesmo são essas pedrinhas aqui. Essa combinação específica de runas é praticamente um grito de guerra, mas tem mais...
Melissa nunca tinha visto os olhos de Esmeralda brilhando daquele jeito. Ela mencionara uma vez que gostaria de poder trabalhar com a fabricação de ítens mágicos ao invés da alquimia tradicional, mas não imaginara que sua paixão por aquele assunto fosse tão grande.
– Eu acho que é um feitiço de sangue. Quanto mais sangue for derramado pelo dono da lança, mais o poder dela se intensifica. Parece que as fadas se inspiraram no seu momento berseker para criar isso aqui – Esmeralda observou, não conseguindo conter uma risadinha.
– Eu não quero que vocês se machuquem. Tomem cuidado – Melissa virou as costas para ela e começou a andar na direção da parede de árvores.
– Vê se pode, Au-au. Essa daí invade uma usina uma vez, quase morre, e já se acha o alfa da matilha – Anita provocou Onabe, que não tirara os olhos das árvores uma única vez.
– Vamos andando. Precisamos romper o cerco e matar o que quer que esteja mantendo prisioneiro o rei do carvalho antes do sol nascer – o lobo rosnou. – E eu quero acabar logo com isso.
Melissa olhou de relance para o lobo. Algo estava errado com ele desde o ataque à usina. Talvez fosse por causa do que a fada-oráculo tinha dito a ele. A bruxa perguntaria mais sobre o assunto depois do resgate.
O grupo avançou entre as árvores em silêncio. A luz da lua que passava pelos galhos e as folhas das árvores era suficiente para que uma trilha ficasse visível. Melissa ouvira falar daquela trilha uma vez. Era um caminho de peregrinação, geralmente usado por druidas. Aquilo queria dizer que, no momento, ela não estava nem na terra das fadas, nem no seu próprio mundo, mas em uma das misteriosas terras além das brumas místicas. Realmente parecia uma das histórias épicas que suas tias lhe contavam quando ela era criança.
– Pessoal, cuidado! Tem alguma coisa ali na frente – Melissa esticou o braço para barrar o avanço das suas companheiras. Graças aos olhos que Morrigane lhe dera, adquirira uma visão noturna boa o suficiente para enxergar um vulto se mexendo nas sombras à frente. – Pelo cheiro, parece ser uma criatura maligna.
– Qual é o plano? Todo mundo ataca junto ou vai só um pra segurar as criaturas enquanto o resto avança? – Anita olhou para a irmã.
– Vamos atacar juntos e, caso a coisa aperte, você e a Melissa avançam enquanto Onabe e eu seguramos os montros aqui – Esmeralda apertou a lança com tanta força que os nós dos seus dedos empalideceram.
– Discordo. Vamos atacar juntos e, caso a coisa aperte, você e a Melissa vão salvar o rei – Anita pôs a mão no braço da alquimista antes que ela pudesse objetar. – Infelizmente, eu tenho que admitir que eu confio mais nela do que em mim para te proteger no momento. Ouviu isso, azedinha? É melhor a minha irmã voltar viva.
– Vocês vieram comigo porque quiseram, mas é claro que eu vou proteger a Esmeralda. Parece que eu ainda não paguei direito a minha dívida com vocês duas – Melissa trocou um olhar com Anita que foi o suficiente para que ambas soubessem que a bruxa se importava com as duas irmãs muito mais do que as suas palavras demonstravam. – Então você também faça o favor de sobreviver. O mesmo para você, Onabe. Nós ainda temos assuntos pendentes.
– Você deveria pensar na sua própria sobrevivência antes de começar a falar esse tipo de coisa. E nós não temos tempo a perder com essas bobagens – o lobo rosnou de volta.
Melissa assentiu e avançou, passando a lança para a mão esquerda para que a direita ficasse livre para lançar feitiços. Pensou ver um pássaro escuro acompanhando-a entre os galhos, mas ignorou-o. Se fosse Morrigane, queria esperar mais um pouco. Aquela dádiva que ela lhe concedera era perigosa demais, e a bruxa esperava não ter que usá-la.
A primeira leva de criaturas sombrias foi fácil de derrotar; as lanças amplificavam os poderes das três mulheres a um ponto em que valia a pena carregar aquele objeto pesado através da floresta. O grupo avançou mais um pouco, e Melissa sentiu que estava chegando perto da árvore sagrada do rei do carvalho; havia um leve cheiro de grama quente e flores de verão no ar.
– Ele deve estar numa clareira logo depois do próximo anel de árvores – Onabe informou. – Já estive aqui uma vez.
– O que você veio fazer aqui, se é uma criatura do caos? – Anita olhou para ele.
– Pessoal, falem mais baixo! Tem mais criaturas ali – Melissa chamou-os num sussurro ríspido e apontou para o círculo de árvores à frente. – Não temos mais muito tempo, então vamos nos dividir. Esmeralda, você vem comigo para dentro do círculo. Onabe, você e a Anita atraem as criaturas para perto de vocês.
– É o mesmo plano de antes – Anita resmungou uma última vez antes de partir para o que poderia ser a morte ao lado de Onabe. – Vamos lá, Au-au!
Melissa e Esmeralda esperaram os primeiros monstros começarem a perseguir a dupla, então entraram no último círculo de árvores. A clareira em que entraram podia muito bem ter o tamanho de uma cidade inteira, mas havia apenas cerca de dez metros livres até o tronco mais grosso e antigo que Melissa já vira. Se não soubesse que aquele era o rei do carvalho, teria confundido aquela árvore com a própria Yggdrasil, cuja copa atravessava o céu em direção aos deuses e cujas raízes alcançavam até mesmo o mundo dos mortos.
A bruxa olhou ao redor rapidamente, procurando a armadilha que sabia que estaria ali. O corvo que a seguira entre os galhos voou na direção de uma das raízes e começou a bicar algo que estava atrás dela. Melissa correu até lá e estacou ao ver o seu inimigo. Era a moça que ela salvara no segundo combate no campo de treinamento e que fora agradecê-la. Não... Não podia ser...
– Não se deixe enganar, Melissa! Não é uma ilusão mágica, mas também não é o que parece – Esmeralda gritou atrás dela.
Melissa virou-se para ver por que Esmeralda gritara quando podia muito bem aproximar-se para falar, então viu que a alquimista fora cercada por mais três ex-colegas. A bruxa não se lembrava se catorze ou quinze pessoas tinham chegado ao mundo vermelho, mas supôs que todos os sete ou oito que não tinham despertado estavam ali. Estariam sendo, de alguma forma, controlados pelo governo? O golpe desferido pela moça atrás da raíz no corvo deixou bem claro que não adiantaria perguntnar.
Esmeralda brandiu sua lança no ar e criou um rastro de fogo, tomando o cuidado de não deixar as chamas tocarem o chão. Em seguida, golpeou o torso de um dos ex-colegas, causando uma pequena explosão ali e deixando um ferimento grande. As miçangas azuis da sua lança brilharam quando o sangue começou a jorrar. Melissa também não perdeu tempo e eletrocutou a moça da raiz, deixando-a desorientada – a mesma carga tinha sido suficiente para matar um soldado com o dobro do tamanho dela, mas ele com certeza não tinha nenhum tipo de proteção mágica.
A bruxa tentou de novo, sem que o feitiço tivesse um efeito melhor, então tentou usar fogo. Surpreendeu-se com a chama de verdade que saiu dos seus dedos e preocupou-se com a possibilidade de incendiar o carvalho ancestral. Tentou mudar para gelo, mas quando tentou acertar a moça pela quarta vez, foi surpreendida por um choque dado por ela. A corrente deixou seu braço esquerdo dormente e a lança de Aine Frigg caiu no chão, fazendo com que o cristal se quebrasse. Lá se ia a primeira dádiva.
Estarrecida com a facilidade com que o cristal se quebrara e surpresa com o novo ataque da moça, Melissa fez a coisa mais idiota que poderia ter feito no momento. Cerrou os punhos e acertou seu melhor murro no rosto dela, perdendo a oportunidade de dar-lhe um choque direto na cabeça. Aproveitando-se da desorientação temporária da inimiga, finalmente neutralizou-a com seu golpe elétrico. O corvo pousou em seu ombro esquerdo e a sensibilidade do braço voltou.
– Dentro! Dentro! – o corvo crocitou, e Melissa viu uma rachadura na casca da árvore que serviria de passagem para o seu interior.
– Esmeralda, acho que temos que entrar! – Melissa gritou para a companheira.
– Vá na frente, eu acho que consigo cuidar disso aqui – depois de derramar sangue e fortalecer sua lança, Esmeralda não parecia ter problemas para enfrentar os inimigos ali. – Anita e Onabe devem chegar aqui rápido, não se preocupe!
Melissa viu-a explodir o ombro de um homem antes de se convencer de que ela ficaria bem. Correu para a abertura e pulou para dentro sem pensar mais sobre o assunto, confiando no corvo de Morrigane em seu ombro. Se sentia mais segura perto das criaturas do caos do que da ordem.
O interior da árvore era de madeira dourada, e era tão bem-iluminado quanto um campo aberto no verão. Tinha cheiro de serragem fresca e de carne podre. Ela não demorou para descobrir qual era o elemento destoante. Numa cadeira de espaldar alto, de madeira dourada cuidadosamente trabalhada, sentava-se um velho cuja barba branca estendia-se até os seus pés. Ele estava preso à cadeira por correntes cujos elos eram feitos de ébano. Melissa nunca tinha visto uma corrente de madeira antes. Atrás do velho no trono, uma figura grande e pálida oscilava de um lado para o outro com uma expressão vazia. Demorou alguns segundos, mas Melissa associou-o à imagem de madeira na prateleira da sala da sua casa.
– Sharvod! – exclamou, aproximando-se. – Sharvod, é você mesmo? Você não está morto?
O espírito da natureza olhou para ela e ergueu uma mão. No mesmo instante, raízes escuras atravessaram o chão de madeira dourada e começaram a se enroscar nos pés da bruxa. Aquilo não estava certo. Que a rainha das fadas não tivesse sido de muita utilidade na batalha, Melissa entendia – ela era muito sábia à sua maneira, mas o que sabia de combates envolvendo mortais? –, mas que Sharvod tivesse fingido a sua morte para aprisionar o rei do carvalho, era algo inconcebível. Monique não iria morrer por causa de um pedaço de madeira ensandecido!
O corvo apertou as garras em seu ombro, arrancando uma exclamação de dor da bruxa. Ele piscou uma vez para ela, e então Melissa compreendeu. Aquele não era Sharvod, da mesma forma que os lutadores lá fora não eram os seus antigos companheiros de treinamento. Algo acontecera com todos eles, algo possivelmente pior que o mundo vermelho. E o que quer que fizera aquilo com eles, pretendia fazer o mesmo com o rei do carvalho e com qualquer outra criatura mágica que cruzasse o seu caminho. Assim que salvasse o rei e verificasse a segurança de Monique, Melissa prometeu a si mesma, tentaria descobrir o que estava causando tanta tragédia.
Tentou se livrar das raízes que prendiam seus pés, não obtendo sucesso até que o corvo descesse para bicá-las e quebrar a madeira. Sharvod avançou em sua direção, lançando uma saraivada de espinhos que atingiu uma barreira invisível à frente de Melissa. “A proteção de uma mãe, a sabedoria de uma anciã”, ela se lembrou. As dádivas da rainha das fadas tinham sido úteis, afinal. Melissa agarrou o braço de Sharvod e emitiu uma onde de calor através dos seus dedos. Para a sua surpresa, mais chamas surgiram; talvez o cristal continuasse fazendo efeito, mesmo depois de quebrado, talvez aquilo fosse o poder das runas das miçangas azuis.
Sharvod urrou de dor e, tentando escapar do fogo, fez crescer espinhos em seu braço. Melissa também gritou, tendo a mão perfurada por um dos espinhos mais longos e queimada pelas próprias chamas. Sua proteção mágica tinha enfraquecido. Com a mão livre, agarrou a longa trança prateada do espírito, e os cabelos se transformaram em seiva ácida logo em seguida. Ele agarrou sua garganta e fez crescer espinhos em sua mão, mas nenhum deles perfurou o pescoço da bruxa. Melissa estava plenamente consciente de que a única coisa entre ela e a morte era a dádiva de Aine Frigg e sentia-se muito mais grata pela ajuda da rainha das fadas, mesmo com o enfraquecimento visível e rápido da sua bênção.
As chamas não se espalharam com facilidade pelo corpo de Sharvod. Era como tentar acender uma fogueira com madeira verde. Para o alívio de Melissa, o corvo de Morrigane já estava bicando as correntes de ébano, então tudo o que ela precisava fazer era manter o espírito da natureza ocupado. Tentou novamente atacar com sua mão livre, acertando o lado do rosto de Sharvod e criando mais chamas. O espírito da natureza tentou tirar sua mão dali, desesperado, mas Melissa não a moveu. O corvo soltou um grito exasperado quando as correntes se regeneraram. A bruxa precisava matar Sharvod antes de poder libertar o rei.
Cerrando os dentes para se concentrar apesar da dor, Melissa procurou dentro de si a raiva borbulhante que a transformara num monstro de guerra na usina. Não foi difícil encontrá-la. Sentiu seu calor percorrer o seu corpo inteiro, e quando deu por si estava socando Sharvod com punhos em chamas. Sabia que suas mãos estavam feridas e que o corpo do espírito estava protegido por espinhos, mas se preocuparia com a dor depois. Naquele momento, só conseguia pensar em fogo. O rei do carvalho que protegesse sua árvore das chamas com a sua magia ancestral ou qualquer outra porcaria do gênero.
Um grito de guerra surgiu dos seus lábios quando ela empurrou a cabeça de Sharvod para um lado e puxou o seu braço para o outro. A madeira do ombro, já chamuscada, acabou cedendo e o braço foi arrancado depois de alguns puxões descomunais. Uma parte da mente de Melissa ficou lúcida novamente nesse momento. O que estava fazendo era bárbaro, horrendo, absolutamente detestável, mas necesário para salvar Monique. Era melhor ela arrancar logo o outro braço e colocar fogo na língua daquele espírito antes que ele tivesse uma chance de se recuperar.
Quando Sharvod finalmente parou de lutar, reduzido a um monte de pedaços espalhados de madeira chamuscada, Melissa sentiu a raiva incandescente abandoná-la por completo. A dádiva da sabedoria de Aine Frigg entrava em ação mais uma vez, muito provavelmente. Olhou para o corvo, que crocitou alegremente ao mostrar-lhe as correntes quebradas e voou de volta para o seu ombro. O rei do carvalho levantou-se do seu trono de madeira dourada, agora parecendo um jovem forte e musculoso de barba ruiva.
– Azevinho! – ele chamou, e sua voz gutural fez todo o interior da árvore tremer.
Um outro velho entrou pela abertura, carregando uma bengala e um cajado que mais parecia uma clava desnecessariamente longa. Nada como os objetos meticulosamente decorados das fadas. O rei do carvalho fez uma profunda reverência e pegou o cajado.
– Estejamos em paz por hora. Reine com sabedoria – o velho disse, afastando-se.
Melissa ficou desapontada com a cena. Sempre ouvira falar de batalhas incríveis com feitiços inacreditáveis, mas tudo o que vira fora um cara passando um pedaço de pau para o outro. O corvo apertou seu ombro novamente e virou a cabeça para a abertura. A bruxa sentiu o ar que entrava dali e reconheceu o frescor dos momentos que antecediam a alvorada. A cerimônia toda fora cancelada por causa da falta de tempo disponível. Quando tempo ela passara lutando contra Sharvod para que o sol já estivesse prestes a nascer?
– Eu agradeço pela sua ajuda, filha do bosque, e ofereceria minha hospitalidade se não tivesse tanto a fazer – o rei do carvalho segurou o cajado com as duas mãos e sentou-se em seu trono. – Mas saiba que sempre contará com a minha bênção, criança. Garantirei que você e seus companheiros sejam curados e devidamente alimentados e equipados. Agora, com licença.
Melissa observou o rei do carvalho fechar seus olhos prateados e ficar tão quieto em seu trono que parecia ter adormecido. Então chifres de gamo começaram a crescer em sua cabeça e tatuagens verdes se fizeram visíveis em sua pele. A abertura do tronco começou a se fechar e a bruxa e o corvo avançaram para lá, temendo passar os próximos seis meses presos dentro de um carvalho. Fora uma experiência perigosa e desapontadora, mas o mundo estava relativamente mais salvo e Monique não iria morrer, e era só isso que importava para Melissa.
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