Bruxaria.exe
12 Capítulo 12 - Terra das Fadas
Notas iniciais
A dor pareceu vir antes da consciência. Cada pedaço do corpo parecia doer com mais intensidade que o outro. Até abrir os olhos foi doloroso. Melissa viu um céu azul e limpo, muito diferente daquele carregado de nuvens de tempestade...
As imagens da fuga invadiram sua mente, deixando-a horrorizada. Quantas pessoas ela tinha matado? Será que tinha atingido alguém inocente? Tinha quase certeza que um dos soldados implorara por piedade. E todo aquele sangue a lembrava demais do mundo vermelho, era terrível. Como ela pudera fazer uma coisa daquelas? O que Monique pensaria daquilo? Aliás, como teria coragem de olhar para Monique depois de ter feito aquilo? No fundo, era tão cruel quanto os próprios soldados e as criaturas malignas.
– Parece que a nossa caçadora acordou — a voz rouca de Onabe soou ao seu lado.
– Até que enfim. De verdade, Melissa, agora que você me mostrou o que é uma bruxa do bosque, eu entendo por que tanta gente tem medo de vocês — num tom ligeiramente mais animado, Anita respondeu, do outro lado.
– Aqui, beba isto — uma voz fraca e falhada veio acompanhada por um par de mãos e um gole de água.
– O que aconteceu? — Melissa tentou olhar ao redor, apesar da dor.
– Você se deixou levar demais pelo instinto guerreiro de Morrigane, ou talvez o problema tenha sido a combinação de bênçãos de um espírito da guerra e de um espírito da caça. Em geral, guerreiros antigos faziam isso, os bersekers. Eu nunca tinha visto uma bruxa entrar naquele estado — Onabe riu. — Foi bem divertido. Uma pena que aquelas pessoas tivessem armas de fogo, ou aquela caçada teria sido bem melhor. Mas você não deveria fazer isso de novo, a não ser que realmente queira morrer.
– Céus! Quantas pessoas eu matei? — Melissa fechou os olhos com força e sentiu um gosto amargo na boca.
– Que tal pensar em termos de quantas vidas você salvou? — a mesma voz fraca, também rouca, respondeu.
Fazendo um esforço que lhe pareceu descomunal, Melissa virou um pouco a cabeça para descobrir de quem era a voz. Uma pessoa pequena, assustadoramente magra, com a pele parecendo madeira de angelim-pedra escura por causa das grandes manchas pretas. O longo cabelo preto desgrenhado também não era familiar. Então ela viu dois filetes verdes entre as pálpebras inchadas.
– Esmeralda! — exclamou, e então engasgou e começou a tossir.
– Pois é, sou eu — a alquimista riu, dando mais um pouco de água à bruxa. — Eu sobrevivi graças a você e ao seu cachorro.
Onabe rosnou. Parecia que ele e Esmeralda já tinham tido uma longa conversa sobre o tema. Anita gargalhou ao ver a expressão do lobo. Melissa piscou várias vezes, desconfortável com a situação. Seus amigos – talvez Onabe fosse seu amigo, talvez não, mas só tinha como opção no momento considerar que sim – estavam rindo, ignorando a chacina que Melissa causara e a tortura que Esmeralda sofrera. Como podiam simplesmente deixar de lado aquele tipo de coisa? Sentiu lágrimas surgindo em seus olhos enquanto a raiva de si mesma crescia.
–Ei, ei! Está tudo bem agora – Esmeralda acariciou os cabelos da bruxa, inclinando-se levemente sobre ela. – Eu estou viva, você está viva e centenas de pessoas como nós têm uma excelente chance de escapar daquela usina agora. Você fez uma coisa incrível.
– Não! Eu matei um monte de gente! Eles provavelmente tinham tanta culpa de estar lá quanto a nossa gente tem de estar nas usinas de magia! – Melissa esbravejou. Soltou um grito agudo de dor ao se apoiar no braço esquerdo para tentar se mover.
– Melissa! – a alquimista debruçou-se sobre ela. – Droga, começou a sangrar de novo... Anita, me passa aquela pasta de folhas, rápido! E você, Melissa Gardênia, não ouse morrer. Não agora.
– Eu não estou morrendo – Melissa usou seu tom mal-humorado da época do treinamento.
– Ótimo, então continue assim – a alquimista tirou um punhado de folhas secas que estava grudado no braço de Melissa e analisou um ferimento que sangrava ali.
Anita segurou uma espécie de tigela improvisada com gravetos e folhas, de onde Esmeralda tirou uma pasta que cheirava a pinheiro. Melissa grunhiu quando o unguento tocou seu braço ferido, causando a sensação desconfortável de algo fresco, pegajoso e ardido ao mesmo tempo. Ignorando-a, a alquimista esfregou a pasta com cuidado e cobriu-a novamente de folhas.
– Tente não se mexer muito ainda, ou você vai começar a sangrar de novo – Esmeralda franziu o cenho quando Melissa começou a se contorcer para se livrar da sensação das folhas pinicantes.
– É melhor obedecer a trancinhas, mesmo com esse cabelo solto aí – Anita piscou. Seu rosto então ficou sério, quase solene. – Aliás, obrigada por salvar a minha irmã.
Melissa não respondeu, mas balançou a cabeça. As imagens da sua carnificina ainda estavam voltando. Sim, agora tinha certeza que um dos soldados implorara para não morrer, e ela o tinha matado mesmo assim. Em que tipo de criatura se transformara? Jamais usaria aquele tipo de força novamente depois que libertasse o rei do carvalho.
Sentiu vontade de chorar de novo, mas resistiu. Não tinha o direito de chorar e pedir colo depois do que fizera. Resolveu observar seus companheiros para se distrair. Onabe parecia ter se dado bem com as irmãs Paz, apesar da sua relutância em parecer menos etéreo ou distante do que imaginava ser o ideal de um espírito da natureza. Anita parecia dividida entre sua alegria em ver Esmeralda viva e sua angústia ao vê-la naquele estado quase inumano. Esmeralda, por sua vez, era um fantasma de si mesma; era óbvio que estava se esforçando até o seu limite para parecer normal. Seus hematomas, sua desnutrição aparente, o modo como ficava ofegante ao amassar folhas para fazer mais pastas de folhas, tudo mostrava o quão debilitada estava. Melisa se perguntou quantos dias ela teria ficado presa naquela cela, passando por sabe-se-lá que tipo de tortura. A mesma raiva de antes voltou a fervilhar em seu estômago. Já não sabia se sentia tanto remorso assim pelo massacre.
– Você levou alguns tiros – Onabe sentou-se ao seu lado depois de um tempo. – Mais do que alguns, na verdade. Foi uma sorte termos ajuda.
– Ajuda? – Melissa virou a cabeça para encará-lo.
– A dádiva de Aine Frigg. Eu tive o maior trabalho para trazer você e a sua amiga de volta pra cá, e encontrei uma fada aqui. Ela manteve Anita adormecida durante a nossa conversa. O que ela me disse foi bastante... informativo – Melissa ainda não vira aquela expressão do lobo, parecia um misto de desgosto e melancolia. – Pelo menos ela usou magia de cura para garantir a sua sobrevivência e a de Esmeralda, mas essa não é a especialidade daquela fada, então o serviço não ficou muito bom.
– Se era só para garantir a minha sobrevivência, parece que funcionou. E ela deve ter feito um milagre em Esmeralda, então está bom o suficiente para mim – Melissa suspirou, resignada a não tentar mover mais o corpo até a dor diminuir um pouco. – E o que a fada te disse?
– Ela é uma espécie de oráculo das fadas, na verdade. Eu a tinha consultado antes de ir atrás de Sharvod, mas ela ainda não tinha conseguido chegar a uma conclusão. Ontem ela descobriu o que faltava e veio me contar. Eu estou feliz por ter seguido o meu instinto que dizia que aquelas duas pessoas seriam importantes no futuro. É uma pena que... – Onabe parou de falar subitamente, como se tivesse percebido que dissera mais do que pretendia, e lambeu o focinho para disfarçar o embaraço. – Bem, eu não vou dizer isso assim tão fácil, não é? Você verá o futuro com os seus próprios olhos. Mas tem uma proposta que a fada fez, um convite da rainha das fadas que te abençoou, e disso eu posso falar.
– Então fale, por favor – Melissa voltou a fitar Anita e Esmeralda, que prepraravam um coelho assado e quatro ovos roubados de algum ninho.
– Você e seus companheiros, o que quer dizer eu e aquelas duas ali, foram convidados a passar um dia na terra das fadas. Lá elas nos darão conselhos ou ítens que nos ajudarão, e lá todas as feridas físicas serão curadas. Mas nós temos que ir para lá esta noite, e há um preço a ser pago, e é algo precioso demais para que nós gastemos à toa.
– Tempo... – a bruxa conhecia muito bem as histórias de pessoas que tinham se perdido por uma semana na terra das fadas e retornado ao mundo dos humanos só pra descobrir que anos tinham se passado. – Quanto tempo um dia na terra das fadas nos custaria?
– Tudo o que temos. Você tem a opção de deixar que o seu corpo se recupere durante os dias que nós ainda temos, e viajar nessas condições, ou então se recuperar completamente em um dia. A questão é, você acha que está em condições mentais de encarar outra batalha? Eu percebi o quanto aquela caçada te afetou. Parece que você realmente não tem uma alma caçadora. Se passar por aquilo de novo, vai conseguir se manter como você mesma depois? Quer ter o resto do mês para se acalmar?
– Eu não acho que eu tenha escolha. Estando pronta ou não, bem ou não, eu preciso libertar o rei do carvalho se eu quiser que Monique sobreviva. E eu não tenho nenhuma intenção de falhar. Não me importo de entrar em outra batalha amanhã mesmo, contanto que eu tenha condições físicas para isso, e não me importo com o que vai acontecer comigo depois – Melissa voltou seus olhos para o lobo. – E não vai ser ruim poder visitar a terra das fadas pelo menos uma vez antes de morrer.
– Você está planejando morrer? – o lobo não pareceu surpreso.
– Não é exatamente o meu desejo, mas também não é algo com o que eu vá me importar, contanto que eu saiba que a Monique vai ficar bem. De qualquer forma, talvez seja melhor mesmo que eu morra. Não quero mais causar outro massacre como aquele e estou começando a ficar com medo de perder o controle por acidente em algum lugar cheio de gente. Acho que já tenho sangue suficiente em minhas mãos.
– A primeira vez é sempre a mais difícil, mas você se acostuma. É só pensar que todas as vidas começam e terminam, não há como escapar disso. Matar é só uma forma de completar o ciclo alheio.
– É nisso que você pensa para limpar a sua consciência?
– Só quando eu estou caçando para comer – o lobo respondeu num tom sombrio. – Quanto ao resto, eu só adormeço a minha consciência com a constante cantilena de que o que eu estou fazendo é o melhor para todo mundo. Lembre-se, Melissa Gardênia, este é o preço das suas dádivas.
Melissa assentiu. Sua sanidade. Sua saúde. Sua vida. Parecia uma troca justa pelas vidas de Esmeralda e Monique, e até de Anita. Passou o resto do dia olhando para o céu, tentando apagar as imagens do massacre da sua mente, fingindo tentar manter uma conversa mais ou menos animada com seus companheiros, esperando o momento de ir para a terra das fadas e acabar logo com aquilo.
Quando o sol desapareceu no horizonte, Onabe orientou Anita e Esmeralda através das árvores. Anita amparou Melissa pelo caminho e Esmeralda se apoiou em um galho de árvore que lhe serviu de bengala. Andaram pouco, parando ao chegar a um par de árvores cujos troncos inclinavam-se um em direção ao outro e cujas copas se entrelaçavam, formando um arco. A bruxa reconheceu a passagem para a terra das fadas.
Grunhindo de dor, Melissa desvencilhou-se de Anita e deu um passo para a frente. O esforço da caminhada fizera com que suas feridas começassem a sangrar novamente, mas ela não se importou. Aquela era a terra das fadas, o lugar mais sagrado para todas as bruxas. Ela entraria sozinha, da mesma forma que entrara na vida. Deu mais um passo e estendeu a mão para o vazio entre os troncos. Mais um passo, quase atravessando o portal invisível. No quarto passo, sua visão foi ofuscada por uma luz que pareceu envolver seu corpo inteiro. No quinto passo, não havia mais dor alguma.
Olhou ao redor, embasbacada. Sua avó, que em sua juventude dançara com as fadas naquela terra – havia rumores de que a mãe de Melissa fora gerada em um bacanal ali –, tinha lhe contado histórias sobre o lugar, mas nem as suas palavras mais elaboradas poderiam ser capazes de pintar na imaginação da neta a real beleza daquilo.
Em primeiro lugar, havia luz, muita luz. Tudo parecia emanar uma luz tênue o suficiente para não ferir os olhos dos visitantes. Borboletas multicoloridas borboletavam entre uma infinidade de flores de todas as estações, todas em seu primor. Pássaros gorgeavam em galhos de árvores tão grandes e antigas quanto a própria árvore de Sharvod. Havia um frescor agradável no ar que dava a sensação de se estar sentado perto de uma cachoeira em um dia quente. O céu era de todas as cores do arco-íris, polvilhado aqui e ali por nuvens brancas e fofas.
Melissa olhou para baixo e percebeu que seus ferimentos tinham desaparecido completamente. Os fios de cabelo que formaram uma cortina na frente do seu rosto quando ela abaixou a cabeça indicaram que sua trança fora desfeita. Então ela se deu conta de que estava nua. Não sabia que precisava ficar nua para entrar no reino das fadas, mas não ficou surpresa ou envergonhada. Quantas vezes ela e sua família não tinham atirado as túnicas cerimoniais em algum arbusto para dançar em volta de uma fogueira em alguma celebração? Nudez era o estado mais natural e mais bonito de todos, sua avó sempre lhe ensinara. E, considerando que nada mundano poderia macular o reino das fadas, fazia sentido que as roupas tivessem ficado para trás.
– É maravilhoso! – Melissa exclamou, erguendo os braços em êxtase e virando-se para os seus amigos.
– Obrigada, azedinha, mas pode parar de olhar agora – Anita riu da própria piada para tentar disfarçar seu embaraço.
– É um lugar maravilhoso mesmo – Esmeralda olhou para baixo, encabulada. Melissa reparou que seus olhos eram novamente aquelas grandes orbes verdes que tinham chamado a sua atenção no campo de treinamento, mas seu peso não voltara ao normal. Era doloroso ver o contorno das costelas dela e os braços e pernas perigosamente finos.
– Não se distraiam demais, crianças. Precisamos falar com a rainha das fadas antes do final do dia – Onabe parecia mais relaxado do que nunca, mas uma nuvem de melancolia cobria os seus olhos.
O trio caminhou por clareiras floridas e trilhas de folhas frescas entre as árvores exuberantes. Melissa insistia para que Esmeralda provasse cada frutinha que encontrava no caminho. Como convidada da terra das fadas, sabia que podia usufruir à vontade de quaisquer prazeres à disposição ali, inclusive comida e bebida. Para o seu espanto e a sua alegria, a magreza extrema de Esmeralda deu lugar a um peso mais proporcional à altura da mulher depois de algumas porções de frutas.
– Vocês não precisam se envergonhar da nudez, sabe? – Melissa comentou num ponto da caminhada, percebendo o constrangimento das companheiras. – É natural, é uma coisa boa.
– Mas não te deixa esconder nada não é? A rainha das fadas pode olhar completamente os nossos corpos e as nossas almas – Anita tentava colher flores no caminho para fazer um buquê para cobrir suas partes baixas. – Ah, acho que é esse o ponto, não é?
– E é estranho ver os nossos corpos assim, do jeito que são, no meio de tanta coisa linda. Parece que nós somos intrusas aqui – Esmeralda complementou, corando.
– E por que intrusas? Seu corpo também é lindo, combina perfeitamente com o lugar – Melissa virou-se para responder, levando a mão à boca em seguida. Aquilo era uma verdade geral para as bruxas, já que todos os corpos eram belos, mas não soara exatamente como ela achava que soaria naquela ocasião.
– Até parece. É você que parece uma fada, assim tão... tão... – Esmeralda gaguejou. – Tão você.
– Será que eu e o cachorro devemos ir na frente e explicar pra rainha que as pombinhas vão demorar um pouco pra chegar? – Anita brincou para espantar o silêncio constrangedor que se instalara entre elas.
– Não sei do que você está falando – Esmeralda ruborizou violentamente.
– Não temos tempo para perder com brincadeiras assim – Melissa também corou e voltou a caminhar. Por que corara? Por que se sentira desconfortável? Por que, de repente, tinha tanta consciência do corpo nu de Esmeralda relativamente próximo ao seu, em meio àquele aroma embevecedor de uma miríade de flores? A nudez em si nunca significara nada demais para ela.
– A filha do bosque tem razão. Este será o dia mais curto e o mais longo das nossas vidas – o lobo suspirou. – Vamos, estamos quase no trono de Aine Frigg.
O quarteto continuou avançando pela flora magnífica, agora em silêncio. Não demorou muito para que uma nova clareira, tão grande quanto a da casa da família Gardênia, se abrisse diante deles. No meio da clareira havia um lírio branco gigantesco cujo caule era tão curto que mal podia ser visto entre as pétalas, rodeado por hortênsias e crisântemos. Sentada no meio do lírio, como se aquele fosse o seu trono, e trajando apenas jóias feitas de madeira, cristais e pedras, a mais bela mulher já vista por olhos mortais e imortais aguardava. Seus cabelos brancos, apesar da aparência jovem, as orelhas longas e pontudas, e os olhos lilases denunciavam sua identidade, mas o que realmente a confirmava era o arrepio que a sua mera presença causava.
– Sejam bem-vindos à minha corte – Aine Frigg saudou-os com sua voz que parecia o som de um riacho cristalino carregando pétalas de flores. Melissa não conseguia se lembrar do som da sua voz depois que a fada tinha falado, mas guardou aquela impressão para si. Talvez aquela voz não fosse para ouvidos mortais, mas a sua beleza era para todos que a encontrassem. – Aproximem-se, minhas crianças.
Melissa avançou, sendo seguida por seus companheiros. Quando parou, à distância de um braço do lírio-trono, percebeu que eles estavam atrás dela. Aquele era o momento da bruxa, a bênção e o destino dela; eles só podiam aguardar.
– Melissa Gardênia, filha do bosque de Sharvod. Eu fico feliz com a sua decisão de vir me visitar – a rainha das fadas deu-lhe um sorriso bondoso. – Soube da dádiva concedida por Morrigane e, depois de um juramento tão solene, sinto-me no dever de apresentar também a minha dádiva.
– Grande rainha, sobre aquilo... – Melissa queria dizer o quanto estava horrorizada com suas próprias ações, explicar que jamais faria mal a qualquer criatura da natureza, desculpar-se pela sua fúria grotesca, mas a fada a interrompeu.
– Não existe bem ou mal para os meu solhos, criança. Existe o equilíbrio, existem os ciclos, existe a magia, existe a sabedoria, e nada que vá muito além disso. Até o tempo, a vida e o coração são detalhes para mim – o olhar lilás e Aine Frigg prendeu o de Melissa. – Aos meus olhos, aquilo foi o caos latente chacoalhando a ordem excessiva daquele lugar. Foi equilíbrio. Mas você não está aqui para encontrar paz por atos passados, está?
– Não, grande rainha – a bruxa engoliu em seco, meio grata pelo posicionamento gentil da fada, meio aterrorizada pela profundidade do olhar que lhe era dirigido.
– Falemos sobre o futuro, então. Quando a noite cair aqui, será a hora de você retornar ao seu mundo e libertar o rei do carvalho por tempo suficiente para que ele receba o poder do rei do azevinho. Eu deixarei você e seus companheiros na borda da mata sagrada em que ele vive. Quando chegar a hora de partir, vocês devem retornar pela mesma trilha que usaram para encontrá-lo, atravessar a neblina e não olhar para trás até cruzarem um riacho. Isso é muito importante – a fada ergueu um dos seus dedos longos e esguios para ressaltar suas palavras. – A minha dádiva para você virá no número sagrado da tríade perfeita. A arma de uma guerreira, a proteção de uma mãe e a sabedoria de uma anciã. Esta dádiva a satisfaz, Melissa Gardênia?
– Plenamente, grande rainha – Melissa não sabia se tinha entendido qual era a dádiva, mas não ousaria dizer qualquer coisa que não fosse uma confirmação.
– Seus companheiros também receberão algo de mim – Aine Frigg não desviou o olhar da bruxa. – O espírito da caça já recebeu sua dádiva, a dádiva da anciã. As duas donzelas, duas guerreiras, receberão também suas armas. E como um último presente, eu ofereço a vocês todos os prazeres do meu reino até o anoitecer.
Melissa fez uma reverência profunda, agradecendo tão educadamente quanto os seus conhecimentos de etiqueta e rituais solenes lhe permitiam. Afastou-se com suas amigas – nenhuma delas uma donzela, até onde Melissa sabia – e o lobo. Concordaram em se dispersar e voltar à clareira da rainha ao pôr-do-sol. Anita queria conhecer o belo-povo, como alguns chamavam os habitantes da terra das fadas, Onabe afastou-se sem dar maiores explicações, e Melissa e Esmeralda acabaram ficando a sós no paraíso.
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