Bruxaria.exe

11 Capítulo 11 - A Grande Caçada


Notas iniciais
Capítulo de segunda-feira. Boa leitura!

A viagem através das sombras foi fatigante, mas Melissa descansara o suficiente durante a noite e estava acostumada a uma rotina rígida de exercícios. Teria que tomar cuidado para não se exceder na luta se quisesse voltar pelo mesmo caminho, no entanto.

Ela e o lobo estavam parados a poucos metros dos muros da usina, completamente visíveis num descampado. Até ali, aquele não parecia o melhor plano possível. E, pela primeira vez, Melissa sentia uma pontada de dúvida em relação ao seu acordo feito no bosque de Sharvod.

– Onabe, quando você fez o acordo com a Monique, ela não sabia que o seu corpo se tornaria etéreo, nem que ela morreria. Ela só descobriu depois – ela fez uma pausa. – Eu não vou desistir de salvar a Esmeralda, a Monique, o mundo ou o que quer que seja, mas eu preciso que você seja honesto. Qual é o preço disso que eu estou fazendo?

– Eu entendo o que você está sentindo, Melissa Gardênia. Eu só tinha ido ao bosque para tentar salvar Sharvod. Falhei em minha missão, mas encontrei uma substituta para o espírito da floresta e uma guardiã para ela. No momento, eu só queria proteger o bosque – o lobo não olhou para a bruxa. – Acabei não levando em consideração as consequências. E, na época, o rei do carvalho ainda estava livre. Agora eu sinto que sou tão responsável pelo destino dela quanto você. Eu sinto muito.

Melissa ficou surpresa. Imaginara que o lobo sabia de tudo desde o início e que considerara aquela tragédia uma parte essencial do plano geral das coias. Nunca lhe ocorrera que espíritos da natureza, seres tão superiores, pudessem ter uma consciência tão próxima da humana.

– No seu caso – o lobo continuou –, o preço a ser pago é o fardo da responsabilidade. Grandes forças lhe ofereceram grandes bênçãos, e você deve honrar o compromisso que assumiu ou morrer tentando. Mas não me parece que exista algo que vá te transformar num corpo etéreo ou em uma criatura diferente do que você é no momento.

– Em outras palavras, você não faz ideia e depende do que eu fizer, ou então do que for mais conveniente para o bem geral da existência da magia? – Melissa cruzou os braços. – E isso também vale para qualquer um que aceitar essa missão?

– Em outras palavras – Onabe lançou um olhar ansioso na direção de Melissa. Pela primeira vez, ele pareceu mais um cachorro perdido do que um lobo feroz. – Escute, você quer desistir agora?

– Não, eu só queria saber exatamente o que esperar quando isso tudo acabar, mas parece que isso é impossível – a bruxa relaxou os braços e deu de ombros. – É a vida... Então, qual é o plano?

– Nós anunciamos a nossa presença aqui. Quero que saibam que somos em dois porque, se tudo der certo e nós causarmos o estrago que estou esperando, a visão de um grupo de três ou quatro seres como nós deve ser suficiente para aterrorizar tropas no futuro – seus lábios lupinos pareceram formar um sorriso satisfeito. – Se tudo der errado, quero que saibam que ao menos somos corajosos e que não cederemos fácil. Vamos fortalecer a imagem do povo mágico de qualquer forma. Aqui, você e eu vamos andar pelas sombras até o lugar onde essa sua amiga está presa, vamos tirá-la de lá e, muito provavelmente, vamos lutar para abrir uma rota de fuga. Assim que passar pelo muro, vá o mais rápido possível até a borda do penhasco. Eu levo a moça. Entendeu tudo?

– Por que a gente tem que lutar pra sair de lá? Não dá pra simplesmente viajar pelas sombras de novo?

– Essas usinas são armadilhas. Eles não se importam em te deixar entrar porque têm certeza de que vão conseguir te matar lá dentro. E eles têm uma barreira que impede a magia de dentro de sair. Dizem que é para conter resíduos mágicos que possam escapar num grande acidente, mas você sabe para o que serve – os dentes afiados estavam à mostra.

– Conter os trabalhadores. Evitar fugas e rebeliões... E deter qualquer um idiota o suficiente para invadir uma usina – um sorriso estranho também se instalou nos lábios de Melissa.

– Você aprende rápido. Vamos!

Melissa acompanhou os movimentos do lobo pelo canto do olho enquanto o muro e várias seções da usina passavam por ela. Parou num corredor mal-iluminado cujas paredes tinham portas de metal. Cada porta tinha uma fechadura eletrônica e uma portinhola para que se pudesse olhar para o outro lado. Um par de soldados assustou-se ao ver a dupla ali e tentou preparar seus rifles. Onabe pulou sobre um deles antes que ele tivesse uma chance de atirar e cravou suas presas no pescoço macio do homem. Melissa, aproveitando-se da distração do segundo soldado ao ver a situação do companheiro, aproximou-se o suficiente para encostar sua mão na coxa dele, emitindo uma onda elétrica. O soldado gritou e abaixou-se para segurar a perna dolorida, dando à bruxa a oportunidade de encostar em sua cabeça e eletrocutá-lo. O treinamento contra as gosmas pretas servira para alguma coisa.

– Serviço limpo – o lobo olhou para o soldado caído, não parecendo impressionado. – Limpo demais. O sangue é a alma da coisa.

– Eu estou com pressa – Melissa rebateu.

Abriu as portinholas das celas, uma a uma. Havia seis. Não encontrou nada nas três primeiras, viu um homem de amarelo na quarta – muito provavelmente o cúmplice traidor de Esmeralda, que a bruxa não se importaria em deixar apodrecer ali – e não viu ninguém na quinta. Na sexta cela, apesar da pouca luz, distinguiu claramente a figura pequena e as tranças escuras.

Olhou para a fechadura, com aquele monte de botões e um espaço para leitura de um cartão de identificação. Encostou as pontas dos dedos nela e usou pela terceira vez o seu feitiço de choque. Ele fazia o seu braço formigar, mas era melhor produzir eletricidade do que calor ou frio naquele caso. Demorou um pouco mais do que o tempo confortável para Melissa manter o feitiço, mas a fechadura entrou em pane e cedeu. Com um empurrão forte da bruxa e do lobo, a porta foi aberta.

Emeralda não se moveu quando o estrondo da abertura da porta quebrou o silêncio quase mórbido daquele lugar, nem quando uma sirene insistente começou a tocar alto – provavelmente o alarme da unidade de detenção. Estava pedurada pelos pulsos, com apenas as pontas dos pés apoiadas no chão. A cabeça pendia sobre o peito.

– E agora? Como é que tiramos ela das alguemas? – a bruxa olhou para as correntes acima da sua cabeça.

– Eu cuido disso – Onabe agachou-se, preparou-se e saltou.

Melissa cobriu a boca para abafar uma exclamação de surpresa quando o lobo pendurou-se pela boca nas correntes. A mandíbula dele pressionou os elos de metal pouco a pouco, até eles se partirem. A bruxa figou grata por não estar na lista de próximas vítimas do espírito da caça. Segurou Esmeralda antes que ela caísse no chão enquanto o lobo tentava se livrar dos pedaços de metal que tinham grudado em sua língua.

Esmeralda estava mole, fria e com os olhos fechados, mas ainda respirava e seu coração ainda batia, apesar de ser difícil perceber esses sinais. Os olhos estavam inchados e pretos, havia um corte nos lábios e uma trilha de sangue seco que saía do nariz. As mãos e a parte do pulso que estava visível apresentavam sinais de queimaduras. Partes dos cabelos e da blusa preta estavam úmidas. Melissa segurou-a no colo, percebendo o quão assutadoramente leve a alquimista estava.

– Nós precisamos sair daqui. Quer que eu a carregue pra irmos mais rápido? – Onabe rosnou.

Melissa olhou novamente para o rosto de Esmeralda. Os olhos verdes não a encararam de volta. Não havia piada, mentira, segredo, encorajamento, conforto ou simplesmente uma conversa boba ali. Não havia um abraço para confortar a bruxa depois dos pesadelos, nem um jogo entediante de tabuleiro, nem um plano genial e mirabolante para salvar as vidas dos aprendizes no campo de treinamento. Nos braços da bruxa havia apenas um corpo quase morto, o resto do que fora a sua salvação um dia.

Lembrou-se das noites passadas em seu quarto no campo de treinamento, das madrugadas em claro na ala de recuperação, da primeira vez em que reparara naqueles olhos verdes. Ela a protegera, acima de tudo, da loucura e da tragédia que a solidão tinham ameaçado lhe trazer. E agora estava ali, daquele jeito. Uma onda quente e fúria espalhou-se do peito da bruxa para o resto do corpo. Melissa faria com que cada um dos envolvidos na prisão e na tortura de Esmeralda se arrependesse de cada segundo das suas vidas miseráveis.

– Segure ela por mim. Eu quero pegar quem fez isso – Melissa rosnou num tom ainda mais assustador.

– O plano é só abrir um caminho para a fuga. Não se empolgue demais – havia uma nota de preocupação na voz do lobo.

Melissa não respondeu. Saiu da cela e começou a andar na direção da única porta de saída do corredor. Sentia a fúria correndo em suas veias, queimando. Sentiu-se realmente capaz de invocar a fúria das tempestades. Os primeiros soldados apareceram à porta. A bruxa sorriu. Um corvo invadiu o corredor.

– Atirem para matar! – o comandante da equipe berrou.

Melissa atirou-se para frente, tirando a faca do cinto. O primeiro tiro passou de raspão em seu braço, mas a adrenalina permitiu que isso fosse ignorado. O cheiro de sangue, por outro lado, fez o coração da bruxa bater mais rápido e sua boca encher-se de saliva. Queria mais sangue.

Sua faca deslizou pela garganta de um homem, fazendo um arco em direção ao seguinte. Ela estava perto demais para que as armas de cano longo fossem úteis. O líquido vermelho cobriu suas mãos, deixando-as escorregadias, mas a faca não deslizou dos seus dedos. Os cadáveres estenderam-se no chão como um tapete. Mais soldados chegaram.

O corvo misterioso voou à frente de Melissa, cegando alguns deles com seu bico e suas garras, espantando outros com suas asas escuras e seu grunhido agourento. Melissa seguiu-o, derramando tanto sangue quanto podia com sua lâmina. Parecia que cada gota rubra fortalecia a onda furiosa dentro dela, o que só a fazia querer continuar aquela chacina.

Quando chegou ao lado de fora do prédio de detenção, Melissa sentiu o vento de tempestade gelar o sangue fresco que cobria seu rosto, seus braços partes da sua roupa, e aquilo a fez se sentir mais viva do que nunca. A tempestade que ela sempre sonhara em conjurar estava ali. Trovões retumbaram, fazendo a terra tremer, e raios assolaram as torres de vigia, dando início a incêndios. A bruxa continuou abrindo caminho com sua faca.

Sangue. Fogo. Mais sangue. Aquilo era maravilhoso.

Não demorou para alcançar o muro. Virou-se para verificar se Onabe a seguira e viu-o carregando Esmeralda em suas costas. Esperou o lobo passar por ela e mais soldados se aproximarem. O vento se intensificou, espalhando as chamas das torres de vigia. Mais dois raios caíram. Outros trovões soaram, chacoalhando a terra violentamente. Melissa avançou na direção do próximo alvo. Era uma caçadora num campo de presas fáceis. Sua faca enterrava-se na carne quente como os dentes afiados de uma fera. E o cheiro de sangue só a fazia querer mais daquilo. Riu com a alegria daquela caçada.

Ouvia os tiros, mas não prestava atenção em onde as balas iam parar. Aquilo não era importante. Queria matar mais coisas. Queria mais sangue. Queria mais...

Sentiu uma pontada de dor na parte de trás do pescoço. Virou-se, brandindo a faca no ar como uma besta selvagem ferida, mas sua visão escureceu antes que ela pudesse encontrar o culpado. O cheiro de sangue também se perdeu. Os sons dos gritos e dos tiros se foram. Uma bruxa louca coberta de sangue apoiou-se no muro da usina e escorregou para o chão, deixando um rastro vermelho na tinta branca.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Críticas são bem-vindas.