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10 Capítulo 10 - Viagem Através das Sombras


Notas iniciais
Capítulo de quinta-feira. Boa leitura!

O leste estava rosado com o amanhecer e um vento gelado agitava os galhos nus das árvores do bosque de Sharvod, mas Melissa não sentia frio, ainda estava eletrizada com a energia da cerimônia noturna.

Mesmo depois de sentir o poder fluindo e pulsando dentro de si, demorara para realmente compreender o que tinha feito. Para salvar Monique, comprometera-se a lutar contra forças que tinham sido capazes de subjugar o próprio rei do carvalho. Na busca desesperada pelo seu final feliz ao lado da pessoa amada, condenara o seu destino.

– Eu posso perguntar por que você me escolheu para essa missão? – Melissa indagou.

– Porque o único desejo daquela mulher era proteger você – Onabe virou o focinho na direção de Monique. – Mas você, sendo o que é, queria proteger a mulher e o bosque. Se o bosque morrer, a mulher também morre, e vice-e-versa, então eu sei que o seu coração estará por inteiro na missão. Outros como eu procuram outros como você em lugares sagrados como este, mas em tempos como estes, está difícil...

– Pelo menos tem mais gente envolvida nisso. Gente que se uniu e conseguiu descobrir por conta própria que algo estava errado, e que só está esperando o momento certo para agir e começar a ajudar – Monique brincou com uma mecha dos cabelos de Melissa. – Eu vou estar sempre com você, no seu coração, e Onabe estará fisicamente ao seu lado. Você não vai ficar sozinha de novo.

Melissa segurou a mão livre de Monique, incapaz de encontrar palavras para expressar adequadamente a sua gratidão. A solidão era um escudo pesado demais para ser usado o tempo todo, e era reconfortante saber que ela não enfrentaria sozinha forças tão poderosas.

– Você deve comer e beber algo antes que o sol termine de nascer. Precisamos partir logo, em passo ágil – o lobo farejou o ar. – Ainda há algo importante que deve cruzar o seu caminho, e não temos muito tempo.

A bruxa lançou um olhar melancólico na direção de Monique. Sofrera tanto durante um ano inteiro para reencontrá-la, e não poderia desfrutar nem mesmo de um dia inteiro ao seu lado. Dividiu uma maçã e um punhado de frutinhas silvestres com a ruiva e o lobo, que comeram pouco. Melissa pensou que aquilo se parecia com fazer uma oferenda cerimonial a espíritos da natureza, e então percebeu que era exatamente aquilo.

– Vá e volte depressa para mim – Monique abraçou-a ao fim da refeição frugal.

– Só se você prometer que vai me fazer um pão de milho quando eu voltar – Melissa forçou-se a rir e Monique fez o mesmo. Queriam se lembrar do sorriso uma da outra.

Onabe esperou em silêncio enquanto Monique e Melissa partilhavam o último beijo de despedida. Quando o sol se tornou completamente visível no horizonte, a bruxa e o lobo já estavam caminhando para o sul. Monique acompanhou-os em silêncio até a borda do bosque, então voltou para casa.

Melissa teve que se esforçar para não olhar para trás ao entrar na pradaria. Prometeu a si mesma que ainda veria o bosque de Sharvod restaurado. Enquanto caminhava, notava que sua percepção das coisas havia mudado. Em geral, quando estava na natureza sentia-se parte dela como um todo, e os detalhes das coisas misturavam-se num borrão sinestésico. Naquela manhã, os detalhes pareciam muito mais vivos, e perceptíveis de uma distância ligeiramente maior.

– Ser uma filha dos bosques e das florestas tinha um sentido muito mais amplo em tempos antigos – Onabe comentou, percebendo a surpresa da bruxa. – Isso que você vê e sente agora é o que todas elas viam e sentiam. Magia antiga.

Ela assentiu, ainda achando difícil assimilar aquilo. Jamais planejara algo do tipo para a sua vida, e tudo ainda parecia muito surreal, mas sabia que a ficha cairia uma hora ou outra, e daquele momento em diante, ela se sentiria ainda mais encorajada ou aterrorizada.

– Meus poderes são mais fortes à noite, então quando o céu ficar escuro, eu lhe ensinarei a viajar com as sombras – o lobo disse após algum tempo. – Você provavelmente vai se sentir fatigada, mas vai se acostumar com o tempo.

– E nós vamos demorar muito para encontrar essa coisa que tem que cruzar o meu caminho? – Melissa estava preocupada com o tempo disponível.

– Vamos demorar exatamente tanto tempo quanto você demorar para aprender a viajar com as sombras – o lobo respondeu. – As distâncias são grandes demais para serem percorridas à pé antes do solstício. Se bem que, como você é nova nisso, é melhor cobrirmos a maior distância possível sem magia.

Melissa soltou um suspiro desanimado. Nos tempos antigos, a relação dos usuários de magia com os espíritos mágicos era muito mais estreita, e os poderes dos nascidos com o dom eram realmente transcedentais; magos e bruxos eram quase forças da natureza em si. A relação enfraquecera com o tempo, e muitos duvidavam da veracidade dos feitos lendários. Melissa acreditava neles, mas duvidava que alguém como ela pudesse se tornar como os heróis ancestrais.

A dupla caminhou o dia todo, sem parar para descansar. As pernas de Melissa doíam, e seu estômago urrava de fome, mas ela não ousou reclamar. A bruxa e o lobo atravessaram duas estradas de asfalto e uma de terra, passando por pradarias, fazendas e um matagal nos arredores de uma cidade. Ao cair da noite, o lobo sugeriu que parassem.

– Sente-se um pouco, coma um pouco – Onabe disse, deitando-se na grama alta.

Melissa não questionou a ordem, engolindo com prazer sua última maçã e as poucas castanhas que tinha conseguido juntar em sua jornada. Ainda não se sentia satisfeita depois de terminar a refeição, mas não tinha mais comida. Andando com o lobo, não tivera oportunidade de coletar nada naquele dia.

– Amanhã, nós caçaremos – o lobo pareceu perceber a situação da bruxa. – Hoje, nós correremos. Está pronta?

Ela assentiu, nervosa.

– Nós vamos viajar naquela direção, então é para lá que você tem que olhar. Preste atenção, nós temos que ir até a beira de um penhasco, mas não além disso. Como você não tem asas, se passar do penhasco, vai cair, entendeu? Esse lugar fica depois de um lago, é rochoso e tem damas-da-noite crescendo por perto. Você consegue se lembrar disso tudo?

– Sim, consigo – Melissa engoliu em seco. – E agora?

– Agora continue olhando naquela direção e esvazie a sua mente. Você sabe como entrar em transe usando a respiração, não sabe? Faça isso, mas continue olhando para lá. Tente ver um pouco mais do caminho, e, quando conseguir, tente ir um pouco mais adiante. Mantenha sua mente vazia e continue buscando o que está além.

Melissa respirou fundo, segurou o ar nos pulmões, expirou lentamente, esperou um pouco para puxar mais ar; aquela era a respiração ritmada e controlada que aprendera a usar para se concentrar antes de feitiços grandes ou cerimônias importantes. Mirou a paisagem à sua frente, conseguindo ver apenas mato e algumas árvores ao longe.

As árvores pareceram se aproximar depois de algum tempo, e Melissa viu mais árvores atrás delas. Passou-se mais um tempo antes que ela visse arbustos e uma clareira, então um lago, mais árvores, mais arbustos, um chão de pedra. Balançou a cabeça e alterou sua respiração nesse ponto, lembrando-se do aviso do lobo sobre o penhasco. Sentiu as pálpebras pesadas e os músculos doloridos. Olhou ao redor.

– Nada mal para uma primeira viagem, apesar de ter demorado um pouco mais do que o esperado – Onabe empertigou-se ao seu lado.

Melissa esfregou os olhos cansados, procurando a pradaria onde estivera ao começar o exercício, mas só encontrou o penhasco à sua frente e um conjunto esparso de árvores e arbustos atrás de si.

– Eu consegui? – ela gostaria de aparentar mais ânimo, mas se sentia cansada demais para isso.

– Bem, você está aqui, não está, Melissa Gardênia? – o lobo emitiu um som rouco que poderia ser uma risada. – Eu disse que essa viagem a deixaria fatigada, então durma. Eu a acordarei ao amanhecer.

A bruxa cogitou objetar e perguntar o que é que poderia cruzar seu caminho ali, mas desistiu; estava cansada demais para aquilo. Aproximou-se de uma árvore, ajeitou-se perto do tronco, apoiando a cabeça em sua trouxa, e adormeceu quase imediatamente.

Acordou na manhã seguinte com o cheiro de carne assada. Ao seu lado, Onabe balançava a cauda, impaciente. Uma fogueira peguena ardia perto dos seus pés. Um coelho num espeto chiava logo acima do fogo. O lado da fogueira, uma figura encapuzada fitava o coelho com um olhar faminto. Melissa piscou algumas vezes antes de se dar conta de tudo o que estava acontecendo, então sentou-se de supetão, assustada.

– Quem é você e o que está fazendo aqui? – disparou para a pessoa desconhecida.

– Ela é uma amiga sua. Chegou enquanto você dormia e nós conversamos bastante. Parece que eu me enganei um pouco em relação ao momento em que o destino dessa pessoa cruzaria com o seu novamente – o lobo respondeu, sem tirar os olhos do coelho. – Eu cacei um bom café-da-manhã para nós três enquanto ela acendia a fogueira. Talvez o meu erro tenha sido sorte, afinal.

– Mas quem... – Melissa sentiu o queixo cair ao olhar novamente para a estranha.

Ela tinha a vaga impressão de ter visto uma mulher de cabelos grisalhos e olhos leitosos sob o capuz ao acordar, mas agora que olhava novamente, via um par de olhos azul-escuros e cabelos loiros e lisos. O rosto jovem e sadio, apesar de faminto, fitava-a com um leve sorriso quase zombeteiro.

– Então você percebeu que sou eu? Devo estar perdendo meu talento – Anita soltou uma risada fraca.

– Céus! É você! – Melissa estava completamente confusa. – Mas o que é que você está fazendo aqui, fora da sua usina? E você está bem?

– Eu estou bem. Morrendo de fome, talvez meio resfriada, cansada, mas bem – a expressão da ilusionista ficou séria. – Tive que sair da minha usina por causa da Esmeralda, mas acho que eu não planejei direito as coisas. Não que eu tenha tido muito tempo, de qualquer forma. Lá, eles acham que eu morri num acidente bem ruim envolvendo um forno, essa parte foi bem pensada. Só que eu esqueci de pegar suprimentos e tal...

– Esmeralda? – Melissa lembrava-se muito bem daquele par de olhos verdes. – Aconteceu alguma coisa com ela?!

– Bem... – Anita baixou os olhos. – Ela foi pega fazendo uma coisa que não deveria estar fazendo, e acabou sendo condenada à morte. Eu queria ir ajudar, mas não vou conseguir chegar rápido o bastante...

– Você deve confiar nesta filha da floresta, jovem Anita – Onabe disse no tom mais suave que sua voz podia alcançar, o que não era muito. – E você, Melissa Gardênia, pode considerar isso um teste. Suas duas amigas podem se tornar aliadas valiosas em sua missão, se você conseguir salvar a outra.

– Então você já sabia que eu encontraria a Anita aqui e resolveu me propor um teste? – Melissa fitou o lobo.

– Não. Eu sabia que algo importante aconteceria se você estivesse aqui. E agora que eu sei o que é, considero um bom teste – o lobo olhou novamente para o coelho e lambeu os beiços. Não precisava comer para sobreviver, mas não resistia a uma boa caça, principalmente se bem preparada.

– Então... O que a Esmeralda fez e quanto tempo nós temos até o dia da execução? – Melissa voltou-se novamente para Anita.

– A execução é ao pôr-do-sol, na usina oito, que fica a bem mais que meio dia de viagem naquela direção – a alquimista apontou para um lugar que, para o alívio de Melissa, não ficava para o lado do penhasco. – E quanto ao crime dela...

Anita olhou para o fogo, engoliu em seco, mexeu as mãos com nervosismo, respirou fundo, hesitou. O lobo bateu as patas no chão, impaciente, e ela finalmente criou coragem para falar. Contou que a família Paz não era uma família comum. Poucos dos seus integrantes realmente tinham laços de sangue; eles eram um grande grupo de espiões, com ramificações em quase todas as áreas imagináveis. Era a família Paz que coordenava os movimentos de resistência dos usuários de magia. No momento, estavam tentando descobrir o que estava acontecendo com a energia mágica, que parecia estar em desequilíbrio. Esmeralda, como futura grã-alquimista da família – os Paz acreditavam que os olhos dela eram a marca de um antigo gênio da fortuna – e herdeira adotiva da matriarca da família, fora incumbida de se infiltrar na equipe preta e descobrir o máximo que pudesse sobre os dejetos das usinas; ela deveria ter as informações vitais em suas mãos para aprender a gerenciá-las. Tudo deveria ir bem, mas Esmeralda cometera um erro e fora pega bisbilhotando em arquivos confidenciais da equipe de pesquisa. Ela e o pesquisador envolvido no escândalo tinham sido presos e interrogados.

– Até onde eu sei, ela não abriu o jogo, mas o carinha lá, o da equipe amarela, botou pra fora tudo o que ele sabia. Ainda bem que não era muito – Anita cerrou os punhos com força. – Ele só sabia que Esmeralda era uma espiã a serviço da mesma organização que ele, mas ele não é da família, então não sabe que é a família Paz que coordena tudo. O cara só recebia e passava informações para um dos nossos agentes oficiais.

– E aí condenaram a Esmeralda... – Melissa estava estarrecida com a notícia. Não tanto com o fato de Esmeralda ser espiã; a bruxa já sabia que ela escondia algo grande, então não havia por que se surpreender com uma coisa daquelas. Simlesmente não conseguia imaginar que aquela mulher brilhante seria executada antes do fim do dia. Sentia vontade de destruir com suas próprias mãos qualquer coisa que tentasse fazer mal àquela que a salvara de tantas formas diferentes.

– Eu acho que disse que ensinaria você a caçar hoje, Melissa Gardênia – havia um toque de malícia no rosnado do lobo. Ele sempre parecia ler os pensamentos da bruxa.

– Vamos manter os nossos planos então – o rosto de Melissa tornou-se sombrio. – Acho que depois desse café-da-manhã eu estarei pronta para praticar minha viagem através das sombras mais uma vez. É possível fazer isso durante o dia?

– Sempre há alguma sombra disponível em algum lugar – o tom de voz de Onabe podia muito bem ser um dar de ombros.

– Viagem através das sombras? Do que é que vocês estão falando? – Anita fitou Melissa com espanto. – Não daquelas histórias antigas, eu imagino... Não é?

– Melissa Gardênia foi abençoada pela ordem e pelo caos – o lobo, que se tornara cada vez mais informal, assumiu uma postura quase cerimonial. – As grandes bênçãos ancestrais fluem nela agora. Quem sabe mais gente disposta a lutar também não receba essas bênçãos? – a postura cerimonial foi abandonada. – E quem sabe a gente não possa ver se esse coelho já está bom?

Anita tirou o coelho do fogo e, depois de verificar que já estava assado o suficiente para ser comestível, serviu pedaços para todos. Após a refeição, Melissa sugeriu que a alquimista descansasse e foi conversar com o lobo.

– Você acha mesmo que eu consigo tirar a Esmeralda de um lugar cheio de soldados? – ela estava apreensiva.

– Sozinha, não. Mas você já tem a bênção de um dos mais poderosos espíritos da guerra, Morrigane. E eu te acompanharei, é claro. Ainda não tive a oportunidade de participar de uma grande caçada neste ciclo de estações, nem de uma colheita de sangue decente – Onabe exibiu a dentição afiada.

– Nós vamos levar Anita com a gente?

– Não. Você ainda não conseguiria levar alguém com você numa viagem pelas sombras, e eu preciso estar livre para trazer a sua amiga prisioneira comigo. Duas pessoas é um fardo muito grande para eu carregar durante o dia.

– Entendi. E... – Melissa olhou para as próprias mãos. – Onabe, honestamente, eu não acho que eu seja assim tão boa com combate...

– É claro que não é. Ainda não – o lobo riu. – Mas será assim que aprender a aceitar e usar as bênçãos que lhe foram concedidas quando você aceitou o chamado dos espíritos mágicos.

– Como assim aceitar as bênçãos? Eu já não aceitei? – Melissa franziu o cenho.

– Não exatamente. Você continua achando que não pode, que não consegue, que não merece. É o mesmo que achar que não recebeu nada – ele fungou. – Você tem que ter mais segurança. Gardênia é uma família tradicional, e eu me lembro de uma meia dúzia de ancestrais seus que foram realmente material de lenda. Você agora é como eles. Entenda e aceite isso!

Melissa ficou surpresa com a veemência do lobo, mas continuou achando impossível que ela pudesse ser o que ele descrevera como “material de lenda”.

– E tem mais uma coisa – Onabe continuou –, você tem a minha bênção. A bênção do espírito-lobo da caça. Quando chegarmos ao calor da batalha, você provavelmente vai entender o que eu quero dizer. Meu conselho é: não tenha vergonha de se entregar ao banho de sangue.

– Entendido – Melissa desviou o olhar. Seu estômago se contorcia só de pensar em tirar a vida de alguém. Mas talvez ela não precisasse matar. Talvez ferir para incapacitar... Não. Ela não tinha habilidade suficiente para conseguir fazer algo tão sutil. Lutaria para salvar Esmeralda, derramaria sangue se isso fosse necessário, e se alguém morresse no processo, seria simplesmente o ciclo da vida seguindo seu curso natural. Havia mais uma coisa que ela precisava saber antes de ir à luta. – Onabe, você diz que eu tenho a bênção de Morrigane...

– Você a tem.

– Sim, mas como é que isso funciona? Eu vou lutar como ela? Um corvo vai aparecer para me ajudar?

O lobo riu.

– Será que você ainda não notou? Olhe ao redor, Melissa Gardênia. Por acaso o mundo não parece um lugar muito mais detalhado do que antes? Olhe atentamente para a sua amiga adormecida ali. Será que não há algo diferente?

Melissa já notara que sua visão melhorara, mas não percebera nenhuma diferença em Anita. Aproximou-se dela com cuidado e olhou atentamente. O mesmo rosto delicado, os mesmo cabelos dourados na altura dos ombros, o mesmo pescoço fino com um pomo-de-adão... Não, aquilo não estava ali antes.

– Ah, então ela esconde isso com ilusionismo pra que as pessoas não fiquem perturbando com perguntas idiotas – Melissa corou, envergonhada por descobrir assim o segredo da amiga; parecia um tipo de traição. – Bem, se ela não quiser falar sobre o assunto, eu também não vou falar sobre isso. Eu provavelmente faria o mesmo se fosse correr o risco de alguém me agredir na rua só por eu não me encaixar no padrão esperado.

– Ninguém está pedindo para você falar sobre alguma coisa, Melissa Gardênia. Eu só queria que você notasse que seus olhos vêem além das ilusões. Ela chegou até aqui parecendo uma velha cega, mas você nem percebeu isso – o lobo balançou a cauda lentamente. – Você já tem os olhos do corvo de Morrigane. Se lutar bem, talvez ela lhe conceda outras dádivas, mas é ela quem sabe o que será.

– E Aine Frigg? Eu já recebi alguma coisa dela? – Melissa empolgou-se.

– Ainda não. Ela deve estar ocupada demais tentando manter o mundo vivo, já que ela é um dos últimos referenciais vivos da magia de ordem. Mas ela está tomando conta de você, de qualquer forma – Onabe assumiu um ar sonhador ao falar sobre a rainha das fadas.

Melissa sorriu. Imaginou que também ficaria encantada se tivesse a oportunidade de ver aquela dama pessoalmente. Pegou sua faca na trouxa e, depois de perguntar algumas vezes a Onabe se Anita ficaria segura ali, sozinha, voltou-se para a direção da usina de Esmeralda, onde a alquimista aguardava sua morte em uma sela apertada e escura do setor de deteção provisória.

– Está na hora da sua primeira caçada – Onabe lambeu os beiços mais uma vez, com os pêlos eriçados.

Notas finais
Obrigada pela leitura! Críticas são bem-vindas.