Brumas Sombrias
3 Estopim
-O que aconteceu com você? _perguntou Benjarmin num tom de preocupação.
-Escuta: Eu não quero conversar agora. Só quero que você solte meu braço pra eu ir embora. _retrucou Sally, enquanto se agitava para sair das mãos firmes de Benjarmin.
-Tudo bem eu te solto, mas somente sob uma condição: que você me deixe te levar embora.
-Vou concordar porque de qualquer forma você não vai me deixar em paz mesmo. Agora só peço que você ande rápido porque eu não posso ficar nem mais um minuto nesse lugar.
Se Sally não estivesse tão nervosa ela teria achado incrível o fato de ter sido tão fácil sair da escola sem ter ninguém para barrar os dois. Mas só agora que ela já estava no estacionamento da escola que caiu a ficha para duas coisas. A primeira é que tinha esfriado muito e as suas roupas molhadas contribuíram ainda mais para o arrepio em sua epiderme. E a segunda, mas não menos importante é que ela se lembrou que ela não tinha carro, e apesar de sua casa não ser muito distante da escola, ela não tinha forças físicas e nem emocionais para enfrentar a caminhada. Então ela se surpreendeu ao ver que Benjarmin abria o porta-malas de um maravilhoso jaguar prata. E ela pensou: de onde que esse cara surgiu? Quem na idade dele tem um carro desses?
-Finalmente achei alguma utilidade pra isso._disse Benjarmin enquanto retirava uma espécie de toalha umedecida do porta-malas e estendia para Sally.
Enquanto a garota limpava o rosto com a toalha. Benjarmin se aproximou dela e tirou a jaqueta que ele vestia e colocou sobre ela.
-Obrigada. Mas não precisa você vai sentir frio._disse Sally enquanto retirava a jaqueta.
-Não pode ficar. Tenho certeza que você precisa dela mais do que eu._proferiu Benjarmin recolocando a jaqueta sobre os ombros dela.
Antes que Sally pudesse agradecê-lo ele já estava à espera dela segurando a porta direita do carro para que ela entrasse. Ela se acomodou nos estofados de couro do luxuoso automóvel e nem bem piscou os olhos e Benjarmin já estava dentro do carro no banco do motorista.
-Então agora você vai me contar o que aconteceu pra você ter ficado desse jeito?
-Ah ta vai me dizer que você não viu?
-Não Sally eu não vi, e é exatamente por isso que quero saber._ falou ele numa voz afável e ao mesmo tempo preocupada.
-Não precisa se preocupar. O que aconteceu foi só mais um dia normal na minha vida dentro do Lacave High School.
-Como assim mais um dia normal?
-Uma das pessoas que quer infernizar minha vida lá dentro, provavelmente a Julie ou a Marianne, ou quem sabe o Ethan, colocou, enquanto eu não estava olhando, o pé na minha frente. O resto já dá pra saber olhando pra mim.
-Porque alguém faria uma coisa dessas, ainda mais com você?
-Olha eu já aprendi a me acostumar com esse tipo de tratamento das pessoas lá na escola. O que na verdade eu não entendo é porque você é tão gentil comigo? Eu não sou popular, não tenho dinheiro como a maioria deles tem, e não sou nem bonita como você disse mais cedo. Então pode parar com o teatro que eu prefiro sobreviver com uma dura verdade que a viver com doces mentiras.
-Sinceramente eu acho que você está errada. O que você e essas pessoas precisam aprender é que não é preciso que a linhagem de uma pessoa seja importante, ou que ela tenha dinheiro, e muito menos que ela esteja dentro do estereótipo ditado pela sociedade.
-Ah tá você fala isso porque pra você e fácil. Você é lindo de morrer e provavelmente deve ser um lorde riquíssimo.
-Se dinheiro ou linhagem contasse, você seria melhor do que qualquer um ali.
-O quê você disse? _Sally perguntou, mas sabia perfeitamente o que ele havia falado._ Ser mal comigo como os outros são eu até entendo, mas fazer esse tipo de brincadeira é pior do que tortura. É assim que você se diverte?
-Chegamos!_exclamou ele ignorando a pergunta de Sally.
Ela olhou em volta e viu que ele tinha estacionado em frente ao velho e descuidado casarão vitoriano dos Paige. Ela se surpreendeu porque nunca tinha chegado em casa em tão pouco tempo. E quando menos esperava ele já estava do lado de fora abrindo a porta para ela sair.
-Obrigada._agora mais calma, ela agradeceu pelo cavalheirismo do rapaz_ E obrigada também pela jaqueta._falou ela enquanto devolvia a roupa a Benjarmin.
- Não precisa tirar depois você me devolve. Você vai sentir frio.
-Mas a porta da casa só está a alguns metros.
-Mesmo assim não acho certo você sentir frio, mesmo que por pouco tempo, enquanto eu sou possuidor da maneira pra isso não acontecer.
-Tudo bem, mas então pelo menos entre no carro pra você não sentir frio.
A gargalhada dele veio de forma espontânea. E ela ficou entorpecida tentando entender o que ela tinha dito de tão engraçado.
-Do que você está rindo?_enfim ela perguntou.
-Ainda não é a hora de você saber._disse ele enquanto se movia pra entrar no carro.
Sally se distanciou do carro indo em direção a porta de entrada da casa. Mais uma vez ela não tinha entendido o significado da frase que Benjarmin disse, mas ela já estava pensando que ele devia sofrer de algum distúrbio mental e achou melhor não contradizê-lo. Antes de entrar na casa, Sally virou-se para olhar o carro de Benjarmin ir embora, e ouviu o silencioso motor do jaguar acelerar. Mais antes que o carro arranca-se, o vidro do lado do passageiro abaixou e em uma voz calma, porém penetrante Benjarmin disse:
-Nos vemos amanhã kamali!
Logo após Benjarmin dizer isso ele partiu, sem dar a Sally chance de reposta. O estranho nome que Benjarmin havia empregado a Sally causou efeitos estranhos na garota. Primeiro vários arrepios na espinha, seguido de um longo aumento da temperatura corporal e por fim uma pontada na cabeça tão grande que fez Sally gemer e gritar de dor. A garota não teve nem a chance de rodar a chave na fechadura quando caiu desmaiada a soleira da porta.
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