Brom, O Velho Contador De Histórias
2 Os Filhos dos Céus e do Fogo
Notas iniciais
A taberna estava escurecida ao anoitecer, o luar adentrava pela janela e pelas frestas na madeira. Tara começava a acender as lamparinas, as chamas crepitavam lançando sombras dançantes nas paredes. Não importava, todos os olhares lúcidos estavam postos no velho, meio encapuzado sentado num banco. Parecia perdido em seus próprios pensamentos, absorto como se estivesse refazendo algo mentalmente. Eragon o observava com um misto de curiosidade e ansiedade, e apesar de sua inquietação, nada disse, ficou apenas observando o ancião. Brom mantinha uma aura de mistério a sua volta, parecia velho e cansado, mas trazia dentro de si um brilho que o jovem não conseguia decifrar.
Os espectadores sabiam que, uma incrível história os esperava. Com um pigarro, o ancião limpou a garganta.
— Antes de formarem-se os grandes picos da Espinha, antes mesmo do coração da Alagaësia se tornar seco, Helzvog criou os knurla. Ao descobrirem sua obra, os outros deuses sentiram inveja. Urür, deus do ar e dos céus, e Morgothal, deus do fogo, uniram seus conhecimentos para darem vida a personificação de tudo que amam.
— O que é knurla...? – começou Eragon, mas Brom olhou fixamente para ele até que ficasse em silêncio.
— Na língua comum, knurla corresponde a anão. – disse fazendo um gesto displicente com as mãos – Essa história trata da criação dos dragões, segundo o povo anão. Se não for me interromper novamente, pretendo continuar com minha história – Brom disse zangado. Eragon sentiu suas bochechas queimarem enquanto anuía com um leve aceno.
“Não há irmãos que se amem como aqueles, Morgothal dependia de Urür como o fogo dependia do ar. Urür fornece o alimento que os ferreiros necessitam, Morgothal por sua vez, deixa os céus mais belos com as faíscas de sua forja.”
— Morgothal acendeu a maior fornalha que um dia existiu, – disse enquanto tirava de dentro do manto um cachimbo velho – e nela depositou suas joias mais belas. Com o constante sopro de Urür, o fogo ardeu! Durante sete noites, auroras de todas as cores foram vistas nos céus, mas ao amanhecer a montanha explodiu, – parou e se inclinou para o lado, de modo que Eragon não viu seus movimentos por trás do manto surrado. Tudo o que ouviu, foi um bater leve de pedra e um sussurro quase inaudível, quando se virou o ancião trazia um pequeno graveto aceso nas mãos enrugadas.
Eragon o olhou com surpresa. – Como foi que...? – mas se cala, devido ao olhar carrancudo de Brom.
— Essas pederneiras não são mais como antigamente, continuando... a montanha explodiu, cuspindo com selvageria as joias ardentes ao céu. – os olhos de Eragon brilhavam nesse momento.
Sorrindo, Brom continuou:
— Pelo sopro de Urür, aquelas joias foram lapidadas até atingirem suas formas mais belas. Os irmãos olharam com admiração, suas joias voarem sem nunca cair, porque naquelas feras não residia somente o fogo, mas também o vento que as nutriria para todo o sempre.
“Há knurlas que acreditam em Farthen Dûr como a antiga fornalha dessa história; alguns desses creem que a grande estrela, Isidar Mithrim, é uma das joias de Morgothal, uma joia que não foi aos céus.”
Nesse trecho, Eragon soube que a história havia chegado ao fim. Como se sua verdadeira realidade estivesse perdida; Brom parecia ter voltado ao seu estado reflexivo, perdendo o interesse em qualquer um a sua volta. Fumando seu cachimbo em silêncio, enquanto o seu olhar vaga para algum lugar que Eragon provavelmente não conhece e jamais conhecerá. Levantou-se do banco de madeira velho e apodrecido, e fez seu caminho até a porta da taberna rumo à noite escura. Antes de perder o velho de vista, com um último olhar têm a impressão de ter visto um lampejo de sentimento na face enrugada de Brom, mas antes que possa se questionar ouve seu pai, Garrow, o chamando a distância. Isso é a deixa para partir, deixando para trás as histórias e seu velho contador, para trás.
Enquanto todos deixavam a taberna, Brom apreciava de seu cachimbo. Lembrava-se do tempo que passou entre os anões e nas histórias fantásticas que aprendeu com aquele “pequeno” povo. Pretendia contar todas elas a seu filho, mas não acreditava que em sua vida como agricultor, Eragon se lembraria de um dia tê-las ouvido. Com lágrimas de nostalgia, voltou a sua cabana, onde esperava pelo dia teria sua justiça.
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