R.C

Conversei com Karina, mas nosso falatório parecia mais um “UFC” verbal. Duas pessoas completamente semelhantes não podem se desentender, ou estamos mais propensos a isso do que imaginava.

Entrei no horário de almoço, e comprei uma gororoba qualquer na rua. Preferia meu primeiro emprego, o tempo não era integral e me sobrava tempo para fazer outras coisas. Sem falar que ainda não achei uma academia para treinar, talvez a do Gael. Mas ele não ia me querer lá nem pintado de ouro. Ter ferido os sentimentos de Ka, deve ter o afetado também.

Depois de almoçar, peguei um molho de chaves sai trancando a porta. Ia ver uma matricula em algumas das academias do bairro. Marcos tinha me dado uns endereços pelo aplicativo do WhatsApp. Meu foco era tentar com Gael, mas estava receoso em ouvir um “Não”. E não sou muito do tipo que desiste fácil, para mim ouvir algo negativo, me faz querer persistir mais ainda. E com esse pensamento, parei na porta da academia, alguns lutadores me olharam de canto e fuzilavam-me. Dava para comparar com a visão de calor do Super-Man.

Meus olhos tomaram um rumo tão surpreendente. Karina saia de alguma parte da antiga fabrica, com uniformes escolares. Foi inevitável não olha-la, aquela menininha cheia de bronca e marrenta, não mudou nada. Eu sabia porque, a forma de se vestir e o corte do cabelo, permaneciam caracterizados.

— Oi. — Falei involuntariamente.

Ka pareceu surpresa ao ouvir minha voz. Seu olhar se esbugalhou ao dar-se conta da minha presença.

— O que faz aqui? — Murmurou arrumando umas mechinhas finas de seu cabelo. — Já conversamos....

Como podia ser tão rude, nem minha confissão sobre a ter amado um dia, amacia esse coração de pedra.

Peguei em seu braço e a fiz me encarar. Se toda as vezes for assim, vamos acabar saindo em tapas e enrolados ao chão. Fixamos a vistas juntos, eu não sei o que acontecia, mas sentia que precisava fazer com que Karina entendesse: não sou mais o babaca de antigamente. Com ela tão fechada assim, será difícil adentrar seu coração amargurado.

— E a nossa conversa? — A perguntei encostando nossos corpos na parede. — Não ia fugir, e deixar sem me ter a certeza do seu perdão?

— Pensei que estivéssemos conversados. — Ela me empurrou furiosa. Mas como sou mais forte a pressionei contra parede. — Você mal chega e já se acha o senhor cheio de razão.

— Tô perdendo minha paciência. Será que você não consegue entender? foi passado.

— A gente acabou de se reencontrar Cobra, preciso de um tempo pra engolir essa historia toda.

Por um lado estava certa, é cedo de mais para eu esperar sua compreensão. Sumi por 6 anos sem deixar noticias, não tenho o direito de cobrar nada.

— Na verdade quero ver se posso treinar aqui. Não sei se o Gael vai me aceitar, depois de todas as coisas que te fiz passar. — Sorri em contragosto. É uma logica com razão, desde sempre o pai super-protetor que Gael sempre fora, não ia aceitar o cara falsário que sou.

— Vai e conversa com ele ué. E tó atrasada pra escola. — Antes que pudesse ir andando, beijei em seu lado direito do rosto. Queria vê-la toda desconcertada de novo.

Segui o conselho dela e respirei fundo, ia entrar no território sagrado. Pudi ver o mestre de longe, parecia conversar com outra pessoa, parei na porta e vi quem era. “Marcos”. Os dois me olharam curiosos, disfarcei com um sorriso sem graça:

— Por falar em amor a esportes, ai tá o lutador. — Marcos brincou fechando os punhos, e arrancando uma risada de Gael.

— Claro que o menino prodígio pode treinar aqui. — Fiquei incrédulo do nada. Achei que ia ser escurrassado dali.

— Quanto tempo seu Gael. — Apertei forte sua mão.

— Eu que o digo meu jovem. Sumiu sem deixar pistas...

Minha gargante parou de engolir do nada, tinha certeza de estar prestes a conhecer o tal lado possessivo dele. Karina sempre falara quando eramos amigos, o quanto ele é rígido e impõe regras.

— Se poder, começa amanhã Cobreloa. — Ouvir meu nome de sua boca, me fez sentir as calças sujas por um segundo. Ele pigarreou chamando nossa atenção e continuou sua fala. — Eu estava mesmo querendo saber do paradeiro dos dois. Vocês sumiram sem deixar pistas. Ka sofreu tanto na ausência de seus amigos, passava noites chorando e horas sem comer.

Certamente é minha culpa, e não do nosso sumiço em sí. Me lembro exatamente como tudo foi. Contei á marcos o que fiz, e ele me aconselhou a ir com ele, pois estava disposto a ficar aqui, logo depois de ter feito toda a burrada.

— Sentimos muitíssimo mestre. — Andei mais a frente de sua mesa. — As coisas ficaram bem complicadas e fomos embora.

Então a lutadora marrenta não falou nada pro pai dela.

Sai da academia com meu irmão me encarando feio. As vezes dá para se distinguir algo bipolar nesse cara:

— Falta coragem para contar a babaquice feita por você, né Ricardo? — Me questionou irônico. Havia decertado tudo á ele sobre a porcaria da aposta.

— Isso foi há 6 anos atrás, se manca Marcos. Não sou mais criança e não preciso de suas lições de moral. Você sempre gosta de me repreender sobre meus erros, para de apertar a mesma tecla o tempo todo, não somos mais adolescentes, e eu não me comporto mais como o inconsequente.

— Beleza meu velho. Tô indo nessa, deixa um beijo para Karina e fala que qualquer dia venho visita-la. — Saiu andando com raiva.

O cara deve achar que sou algum idiota, essa ceninha toda é só porque ele sustenta o segredinho dele. Um o qual tenho repulsa de lembrar.