Hurricane tocava incessantemente, os agudos de Mendler quase não conseguiam acordar a loira.

Ela, sonolenta, desligou o alarme e virou-se para o outro lado, mas quando lembrou-se que tinha aula levantou rapidamente, arrepiou-se inteira quando os pés tocaram o chão gelado.

–Frio, frio, frio...- murmurava agudamente procurando suas pantufas fofinhas.

Ao achá-las correu para o banheiro arrastando sua toalha, tinha a impressão de estar atrasada. Já no banheiro, despiu-se lentamente e após despida, analisou sua silhueta no longo espelho, magérrima, cabelos longos e sedosos, olhos castanho-esverdeados, pulsos cicatrizados.

Suspirou, ali estava a prova da sua tentativa de suicídio de 7 meses atrás. Naquela época estava tão entorpecida, tão cheia e vazia ao mesmo tempo, se sentia no fundo do poço e resolvera ir para junto de seu pai. Tomou a sua cartela inteira de antidepressivos e depois, quando estava praticamente sem consciência, cortou os pulsos profundamente, quase não sentira dor, e antes de afogar na banheira de água vermelha, seu padrasto lhe salvou.

Sacudiu a cabeça afastando aquelas lembranças, não podia reviver aquilo, tinha que sorrir e ser a boa garota que era alegre. Apertou o pulso direito com a mão esquerda e uma lágrima solitária rolou pelo seu rosto, a dor estava voltando. E logo seu rosto estava banhado de lágrimas e ela chorava desesperadamente sentindo o peito doer, mais especificamente o coração, ajoelhou-se e pressionou as mãos contra a cabeça, estava perdendo o controle tão dificilmente adquirido, colocou a toalha em sua boca e gritou até cansar e a dor amenizar, sem fôlego levantou-se e foi para o chuveiro, a água quente a acalmou mais um pouco mas mesmo assim ela precisaria tomar seus remédios diários. A medida que a água percoria seu corpo esguio, cantoralava Crawling de Linkin Park e sua voz suavemente aguda preenchia o banheiro.

–I've felt this way before...- ela inspirou- So insecure!

Encerrou o banho, enrolou-se na toalha preta e deu uma conferida no espelho, o banho quente havia eficazmente apagado os vestígios de sua ligeira perda de controle, sorriu hipócrita.

Foi para o seu quarto e vestiu-se rapidamente, colocando uma calça jeans preta, seus All Stars Vermelhos, Uma blusa branca de mangas longas e um moletom azul claro com capuz. Penteou os cabelos, logo após sacudindo-os e dando um ar rebelde mas controlado.

Pegou sua mochila com os livros do dia jogou-a sobre um ombro só. Desceu e sorriu ao encontrar a mãe na cozinha com Fred, seu amado padrasto, eles trocavam um selinho suave. Ela sorriu com aquela cena mas interrompeu o clima.

–Bom dia família linda! — anunciou pegando uma maçã verde na fruteira.

Fred e sua mãe, Grace, interromperam o selinho levemente ruborizados e sorriram para a filha. A sua mãe prendeu os cabelos tentando esconder o rubor.

–Bom dia mocinha! — as duas sorriram e a semelhança entre seus sorrisos era notável- pegou tudo? Livros, Maçã, remédios?

Liz assentiu pra tudo até lembrar-se que não havia tomado os seus remédios. Sua mãe puxou a cartela do bolso do jeans e a entregou.

–Mais atenção okay Liz?- ela piscou e Elizabeth assentiu.

A garota ganhou dois beijinhos na testa, e mais um abraço de Fred e saiu sorridente pela porta.

Ela caminhou até o ponto de ônibus e esperou, esperou, esperou e nada do ônibus. Impaciente, foi andando mesmo sabendo que chegaria atrasada.

Andava calmamente observando as casas, sua maçã estava em sua mão, intocada e a cartela de comprimidos no bolso do moletom. Se fosse uma pessoa normal, já teria comido a maçã e tomado o remédio, mas ela se considerava anormal. Seu estômago dava pequenos protestos e ela ignorava, andou até chegar numa esquina e parar com as mãos nos joelhos, cansada e faminta. Sua vista escurecia um pouco e ela rezou para não desmaiar ali.

Vacilou e caiu sentada na calçada, pressionou a mão contra os olhos tentando resgatar a força, em vão. Um carro prateado parou a sua frente e ela puxou ar com dificuldade. Uma silhueta saiu do mesmo e foi até ela a ajudando a se levantar.

–Você está bem senhorita? — perguntou com a voz preocupada.

–Aham- falou arrastando a palavra.

–Tem certeza? — ele quis saber.

Antes que confirmasse seu corpo tombou pra frente e ela se apoiou nele pra não cair. Jacob surpreso, segurou a garota pelos braços e sentia ela respirar com dificuldade. Levou-a até o carrou preocupado e a sentou no banco do passageiro.

Liz encostou o braço no painel do carro e afundou sua cabeça ali, pedindo força aos céus. Cavou o bolso do seu moletom pegando a cartela de comprimidos e logo em seguida respirando fundo antes de encostar-se no banco.

–Você...- começou- tem água?

Jacob assentiu nervoso e lhe entregou uma garrafinha de água. Elizabeth pegou um comprido e jogou na boca e logo após o tomou um gole de água, recuperando 1% da sua força.

–Senhorita, sem querer ser intrometido, mas acho que deve ir a um hospital- Jacob recomendou timidamente.

Sem forças para negar, Liz assentiu e passou a mão no rosto, não queria mais chamar atenção ou dar preocupação para sua mãe. Seus olhos foram pesando e ela sorriu tranquila pensando que estava a caminho de casa.

Jacob desesperou-se ao ver a garota desmaiando no banco do carro e rumou em direção ao hospital. Ao chegar, pegou a garota desfalecida nos braços e correu para dentro do estabelecimento.

–Alguém! Ajude essa garota por favor!- ele pediu ao entrar.

Duas enfermeiras trouxeram uma maca e ele colocou a garota nela. As pessoas estavam surpresas de ver o novo padre ali com a ex-suicida. Ele incomodado com os olhares, saiu do estabelecimento voltando ao carro e pegando o celular da garota em sua bolsa e procurando o contato de sua mãe, quando finalmente achou, discou e no segundo toque ela atendeu.

–Liz?!- sua voz estava alarmada.

–Bom dia- cumprimentou educadamente- Sua filha está no hospital, ela já está bem agora

– COMO ASSIM HOSPITAL?!- a voz do outro lado da linha se tornou desesperada

– Que brincadeira mais sem graça é essa? Quem está falando??

–Não é uma brincadeira senhora, sua filha passou mal a caminho da escola e eu a socorri- Jacob falava cautelosamente.

–Quem é você?Onde estão?- a voz de Grace ficou chorosa.

–Sou o Padre Jacob, sou novo aqui...-Jacob observou alguns passarinhos cantando suavemente- Sua filha está no Hospital St. Matthew

–Okay, estou a caminho- e encerrou-se a chamada.

Jacob voltou para dentro do hospital e procurou o quarto onde Liz estava com a ajuda de uma enfermeira, por sorte o quarto não era longe da recepção.

Ao chegarem ao quarto, a enfermeira o deixou só com a garota que estava desacordada e recebia soro através da veia. Ela estava com a feição serena o que infelizmente não se ajustava aquela situação.

Jacob se aproximou dela e fez o sinal da cruz em sua tem testa, fazendo uma pequena prece silenciosa pela recuperação da garota. Deu uma última olhada nela e apertou sua mão levemente antes de sair.

Queria muito ficar e zelar por ela mas tinha compromissos paroquiais demais naquele dia.

Ao chegar perto da recepção, percebeu que um casal procurava desesperadamente por algum parente seu, e ao vislumbrar melhor o rosto da mulher concluiu que ela só poderia ser a mãe de Elizabeth. Aproximou-se mais e viu que a enfermeira tentava acalmar o casal exaltado em vão.

–Você é a mãe de Elizabeth?- perguntou suave colocando a mão sobre o ombro da mulher.

–Sim, mas quem é você?- Jacob percebeu que a mulher estava prestes a desabar.

Jacob tinha um estranho dom, o qual lhe permitia fazer leitura dos sentimentos das pessoas por mais que elas tentassem esconder.

–Prazer, sou Jacob Sandler,um vigário novato por aqui- ele sorriu minimamente — Sua filha está bem, ela está no segundo quarto virando o corredor

Ele ensinou o caminho a mãe aflita e Grace antes de ir até a filha deu um abraço agradecendo ao padre por ter ajudado sua filha. Fred acenou levemente com a cabeça e seguiu Grace.

Jacob colocou as mãos nos bolsos da calça e saiu do hospital sem olhar para trás.

Notas finais
Esse saiu sem olhar para trás só me lembrou o Keanu em Constantine
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.