Broken Lines
51 Capítulo 51
Notas iniciais
Nós tentamos domar nosso mundo, mas nunca conseguimos os ter totalmente em nossas mãos. Ou nós mesmos não conseguimos nos domar. Somos selvagens como qualquer outro animal, só que nós somos racionais e sabemos perfeitamente como afetar outra pessoa.
Principalmente quando amamos alguém, o amor nos deixa fraco.
– ... Nove e Dez, lá vou eu, quem não se escondeu morreu!
Pude me ver correndo pelo pátio com meus seis anos de idade, procurava Bianca em todos os lugares, na verdade a mesma sempre se escondia em cima da árvore que eu fazia a contagem, e não demorou muito pra que ela descesse da árvore e ganhasse a brincadeira.
Sempre que brincávamos de pique esconde eu sempre ficava emburrado, olho para os lados e percebo que um terço da minha vida, eu passei em um orfanato junto com Bianca, até que me tiraram ela também.
– Bianca! Não Bianca! Volta Bianca!
Eu gritava desesperadamente enquanto minha irmã era levada, e mais uma vez, eu fui abandonado. E assim meu rancor começou a tomar conta de min, a raiva pelas pessoas me largarem sempre, ou até mesmo por medo de me machucar novamente. Será que eu seria capaz de suportar outra perda? Os anos passaram, e assim como o relógio anda, nós e nossa vida também tomam alguns rumos.
Depois das adoções falhas que sofri, e alguns tipos de violências eu não tinha raiva somente das pessoas, mas acabei tomando raiva de mim mesmo.
Será que nós conseguimos realmente nós odiar? Será que quando tentamos nos proteger estamos sendo egoístas? Será que nossos medos são insignificantes em relação do que acontece no mundo a cada minuto? Será que o ser humano não consegue parar de sentir pena de si mesmo?
Alguns dias foram os piores, outros melhores, mas a dor que corroía minha alma nunca passava. Algumas pessoas são escolhidas pra sofrer ou pra serem fortes? De alguma forma nós temos que vencer nossos medos, realmente, temos que vencer barreiras que parecem ser invencíveis para que possamos sair vivos.
Até porque, tudo que não nos mata nos deixa mais forte.
Todos os acontecimentos daquele dia trágico passavam por minha mente, cada momento sombrio, as dores, os rancores que nós ouvíamos. Novamente a minha maldição decaia sobre as únicas pessoas que me acolheram de alguma forma estavam sofrendo por mim. Seria esse realmente o significado do amor? Será que todas as pessoas que se importam com você de alguma forma devem sofrer? Realmente amar nós deixa fracos, distraídos. É um mar, que você deve lutar pra se manter vivo a cada segundo, cada respiração, cada batida do nosso coração. Tudo que há em nosso corpo nós dedicamosa pessoa que nós amamos. Algumas pessoas dizem que o amor é o sentimento mais forte, realmente, nós podemos matar para proteger alguém que amamos, ou até mesmo morrer por essa pessoa, mas será que toda essa dor é essencial? O amor vicia, assim como a dor. Nós estamos a acostumados a sofrer, e quem sabe algumas doses desse sentimento não podem nós levar praum caminho sem volta.
Novamente aquela noite passava por minha mente.
O Fogo, os cortes, o desespero e a perca. Será que o ser humano não consegue aceitar alguns fatos?
Realmente, em alguns casos são culpa dos pais por não educarem seus filhos.
As cenas aconteciam repetidamente, e a pior de todas era a queda do carro. A sensação de estar sendo sufocado, da água entrando em seus pulmões. Parece que em nossa alma há um buraco sem fundo, que vai consumindo pedaços de você tentando preencher esse abismo. Até um momento que você é sugado.
E quando eu me afogava, eu voltava a minha infância no orfanato, e assim se seguia a sequencia.
Dizem que quando morremos, nossa vida fica passando em nossos olhos como um filme. Será que eu estava morrendo aos poucos? Um sofrimento longínquo?
Estava eu no auditório do orfanato, quando duas sombras aparecem do fundo da sala e vão se aproximando do palco, a luz finalmente tocou o rosto das duas figuras sombrias.
Um homem com olhos vazios, rosto desolado pelo sofrimento e pela raiva. Parecia não estar satisfeito com nada. E do seu lado uma mulher com um olhar fúnebre, e um sorriso alucinado em seus lábios sendo tomada pela loucura que a rodeava.
Logo os reconheci, meus pais.
Duas figuras fúnebres em minha frente, fazendo com que eu chorasse.
– Quero saber o que esta fazendo aqui Nicolla. – disse meu pai me olhando sério.
– Não sei pai, não sei como eu cheguei aqui. – Respondi soluçando.
– Nicolla, você é mais forte que isso, vai deixar algumas situações ruins te dominarem? – olhou para mim sério.
– Como assim? – perguntei confuso.
– Você passou por um monte de coisas em sua vida, sofreu, venceu e agora que você tem uma família que te apoia, você vai se render e deixar todos eles sofrem por você? Você sofreu pelas perdas e sabe melhor que ninguém que essa dor é insaciável, ela vai consumindo nossa alma e nos deixa loucos, como sua mãe depois da minha morte. Você consegue superar isso Nico. Você é meu filho, meu menino. O mais forte que eu conheci, volte para aquelas pessoas que te amam e de a eles um novo sorriso Nico. – Mantive contato visual com meu pai até que ele deu um sorriso de canto. – E me desculpe por não ter sido tão forte, se eu não tivesse morrido nada disso teria acontecido com você e sua irmã, mas do que adianta, o que está feito está feito, não se tem como voltar atrás. Então Nicolla, não faça o que eu fiz com você e sua irmã, lute, seja forte, você vai conseguir, e lembre-se, eu e sua mãe estaremos sempre com você, de um jeito ou de outro.
É a caixa de sombras que envolviam os dois começou a aspirá-los de volta, eu corri, não deixaria os dois irem embora assim. Cada passo que eu dava, o palco começava a aumentar de tamanho deixando um caminho enorme em minha frente. Corri até que cai em um alçapão.
Acordei em um rompante vendo que eu estava em um hospital. E Peter estava do meu lado dormindo e finalmente eu estava acordado.
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