Broken Ice
2 Arrivals and Departures
Notas iniciais
Meses se passaram, o inverno, enfim, se findaria. Seren não fez muito progresso no seu quadro depressivo. Não queria comer, dormir era quase impossível, chorava todas as noites e não suportava chegar perto das dependências da floresta. Guardara consigo o cajado e os patins que ficaram sobre as aguas congeladas e os acomodou ao lado da sua cama, uma forma de deixar a presença de seu valioso filho, perdido para o gelo.
Idun perdera a alegria de criança, não queria brincar ou ir à escola, não queria sair de casa. Como se divertir sem Jack ao seu lado? Impossível, era ele que animava aquela casa e aquecia o pequeno coração da garota, só restara o silêncio e o vazio.
A família vizinha havia se tornado sua única família, Niels trazia mantimentos, já que Seren não saia de casa, Kaira vigiava-a para que se alimentassem bem e ensinava lições para Idun, que não queria ir para a escola. A tristeza delas preocupava a vizinha, ela tentava dar forças mas sabia que a situação de sua amiga era devastadoramente lamentável
Uma noite, Niels trouxe algumas frutas enviadas por Kaira, mas, em meio às cestas de frutas, Seren percebeu algo. Levou sua mão até o objeto e se sobressaltou. Em meio ao emaranhado de cestas uma flor de inverno se ergueu, exuberante, sobre a mão da jovem mulher. Seria algo normal, se essa não fosse a flor que Jack adorava, ele dizia que era sua flor preferida, pois lembrava os olhos brilhantes de sua mãe.
Lembrança que a fez se debulhar em lágrimas mais uma vez. Por que seu filho tivera que partir tao jovem? Daquela forma? Por quê? A dor em seu peito aumentou, ajoelhou-se como se o mundo estivesse sobre seus ombros, olhou em volta, cada pedacinho daquela casa a fazia se lembrar dele, seu nascimento, os primeiros passos, primeiras palavras, seus choros, risadas, tudo a atingiu como rajadas de vento, tudo de uma vez. Encarou o cajado, lembrou-se de quando ele o encontrou e mostrou orgulhoso para a mãe. Era dor demais, não suportaria ver tudo aquilo sem a alegria presente na essência de seu garoto.
Um pensamento rápido se fez presente, seu filho não gostaria que estivesse assim, afinal, ele salvara Idun, sua princesinha que dormia no andar de cima, ela tinha que estar orgulhosa, mas estava, só que a tristeza da perda sobrepujava esse sentimento. Mas Jack não iria gostar, ele era seu guardião da alegria, fazia de tudo para nunca vê-la sofrer, e ela se esforçava para isso antes, mas não agora.
Sempre fora uma mulher forte, perdeu seu marido e criou seus filhos com todo o amor que pôde, mas perdeu essa garra ao ver aquele buraco no gelo. Mas isso não era certo, seu filho sempre elogiara sua força de vontade, mas ela não tinha conseguido seguir isso agora, não poderia continuar assim.
E, dessa forma, percebeu que, pela memória do seu filho e pela sua pequena Idun, tinha que dar a volta por cima ... mas como? Como se tudo naquele lugar lembrava ele e fortalecia a dor em si. Só tinha uma forma. Partir. Deixar tudo de lado, deixar sua dor naquela casa e sumir.
Mas tinha que se despedir.
❄
A noite decorrera rápido, depois de tanto tempo conseguiu um pouco de paz no espirito para ter uma noite sem pesadelos, dormira abraçada à Idun, aquecendo um pouco o que restava de amor no seu ser. Pela manha estava disposta depois de muito tempo. Arrumou mantimentos para viajar. Pra onde? Não sabia, só tinha que ir embora dali e assim faria. Não tinha dito nada à Kaira, faria isso momentos antes de ir, não gostava de despedidas.
O dia transcorreu normalmente, Kaira a visitara pela manha e pela tarde, Contara à Idun sua decisão, ela não ofereceu resistência, parecia que também achava que saindo dali poderia ter um pouco de alivio em seu pequeno coração congelado. Seren, depois de refletir na noite passada, permitiu-se dar um pequeno sorriso ao ver Idun bem, se não fosse por Jack, jamais seria possível ver aqueles olhinhos curiosos novamente.
O crepúsculo se fez presente e a noite começara a cair. Seren tomou coragem e os mantimentos previamente separados, e, com o cajado de Jack em uma das mãos e Idun na outra, saiu de sua casa em direção à porta vizinha. Três batidas e Kaira estava lá para recebê-la.
– Algo de errado Seren? – disse ao reparar no que a mulher a sua frente carregava, lançou-lhe um olhar preocupado e curioso
– Estamos indo embora minha amiga – disse esboçando um triste sorriso, para convencer a mulher a frente de que estava bem
– Como assim? Embora? Pra onde? – seus olhos se arregalaram
– Ainda não sei – disse sincera – mas não posso continuar aqui, as lembranças estão em todos os lugares e eu quero tentar reconstruir a parte de mim que meu filho mais gostava e se esforçava para manter: minha força de vontade – seus olhos brilhavam por lágrimas contidas presentes em seus olhos
– Isso é loucura – disse a outra – você não tem pra onde ir! Vai ficar sozinha na rua? E Idun? Vocês podem passar frio – queria fazer Seren desistir disso, mas sabia o quanto era teimosa. Em partes ficara feliz em saber que ela, finalmente, queria recomeçar a vida depois do trágico inverno passado
– Não importa, sinto que tenho que partir, alguma coisa dentro de mim diz isso, e não quero deixar isso passar – disse confiante como nunca se sentira nesse ano que se passou – vim agradecer a você e sua família por tudo que fizeram por mim – disse deixando uma pequena lagrima escorrer – Não sei o que faria sem vocês – agarrou-se à mulher em sua frente, depositando um longo e significativo abraço.
Kaira retribuiu logo, não queria deixar sua amiga ir, mas sabia que era a única forma que conseguira de suavizar a dor que sentia, não iria tentar impedir mais – Sabe que podes voltar quando quiser Seren – disse com o rosto no ombro da outra.
–Claro que sim – Seren soltou-se de Kaira, dando-lhe um sorriso doce que fora retribuído.
– Tia Kaira, obrigada por tudo – disse a pequena Idun abraçando a mais velha – espero poder voltar a vê-la – um pequeno sorriso surgiu na face da menor, juntamente com algumas lágrimas. A garota ganhara maturidade com a perda, nem parecia mais uma criança, o que fez Kaira sentir-se um pouco angustiada.
– Voltem quando puderem meninas – disse Kaira em meio as lagrimas, desejava que elas conseguissem se estabelecer e ficarem felizes novamente.
– Voltaremos – Seren sorriu antes de se virar, pegar a pequena e gélida mãozinha de Idun e partir, sem conseguir dar uma ultima olhada para trás.
Ao invés de seguir em direção à estrada, Seren seguiu em direção à floresta, não fazia isso desde o inverno passado, mas viu a necessidade. Sentiu Idun parar e a viu olhar assustada para si.
– Onde está indo mamãe? – disse a pequena, confusa
– Tenho que entregar isso ao seu irmão – disse ao sinalizar o cajado, com a voz distante.
Calada, Idun não respondeu, apenas deixou ser levada para dentro daquela floresta, onde habitavam suas piores lembranças e pesadelos.
Chegaram ao lago, hesitante Seren se aproximou da borda, já não havia mais o buraco, a agua já congelara de novo, não tinha resquícios de que uma tragédia acontecera apenas alguns meses atrás. Idun não se aproximou, apenas decidiu por aguardar a mãe retornar, sentou-se encostada em uma árvore, fitando com o tom distante o lago à frente.
Seren empunhou o cajado e, temerosamente, avançou sobre as aguas congeladas, em direção ao lugar onde seu filho pisara pela ultima vez. A lua iluminava o lugar em que Seren sentou-se onde sentiu que o lugar do ocorrido, tremeu, uma lagrima surgiu em seus olhos e desceu pelo rosto alvo da moça. Aquilo era difícil demais.
Deixou o cajado naquele lugar e encarou o gelo – Meu filho, espero que esteja bem onde estiver – depositou sua mão na superfície gelada – sabe, não está sendo nada fácil pra mim – as lagrimas caiam sobre o lago – mas eu queria fazer algo que não consegui antes, te agradecer, por dar sua vida em prol de salvar sua pequena irmã – deu um sorriso triste em meio às lágrimas – estamos partindo, nossa casa não é a mesma sem você .. mas vou deixar o cajado aqui, ele sempre pertencerá somente à você — alguns momentos de profundo silencio levantou-se, mais ainda olhava para baixo – eu te amo Jack, você e sua irmã são as coisas mais importantes da minha vida, prometo cuidar dela e tentar colocar o mínimo sorriso em meu rosto – virou-se e tornou a andar em direção à filha, que não mudara de posição até então – Obrigada meu filho, sempre estarás em meu coração.
Tomou a mão pequena e gelada de Idun. Silenciosas, deixaram a floresta em direção à estrada, ao desconhecido, buscavam apenas uma forma de viver sem que o simples ato de sorrir doesse ao ponto de dilacerar seus corações.
–--- ❄ ----
Os povos nórdicos possuíam muita crença em deuses e lendas, uma delas era sobre o Espírito de Inverno, um jovem rapaz, invisível aos olhos humanos, que podia manusear e criar gelo usando um objeto magico. De séculos em séculos ele era escolhido pelo Guardião da Lua para se tornar imortal, levando a neve e o espírito da diversão contida nela para os corações aflitos. Mas não era apenas isso, o Espírito do Inverno tinha um objetivo, um destino, muito bem estipulado, mas nem ele, nem ninguém sabiam qual, apenas o Guardião da Lua que nunca sinalizava diretamente o que era, atiçando a curiosidade do espírito brincalhão.
Inesperadamente, ou não, o Guardiao da Lua estava a agir naquela noite. Horas depois de uma mulher e uma criança marcarem presença em um lago congelado ao norte das montanhas, uma movimentação rara e inusitada se fazia presente. A Lua iluminou a superfície congelada, concentrando seu brilho em um ponto específico e eis que surge o motivo, quebrando a fina camada de gelo que encobria as aguas congeladas.
Um jovem rapaz, de cabelos prateados e brilhantes é erguido do fundo do lago, arfando. Seus olhos se arregalaram, deixando as grandes esferas azuladas à mostra, podia-se notar medo e confusão nelas. Caiu em pé sobre o gelo e encarou a lua, grande e bela, sentiu o medo se esvair e um pensamento, uma voz grave e profunda se fez presente em sua mente “seu nome é Jack Frost”, dito isso, ela se dissipou e desapareceu, deixando o rapaz desconfiado.
Analisou suas mãos e roupas, notara que ao tocar o chão os cortes no gelo sumiram, como magia. Estranhou mas tornou a encarar a lua enquanto deslizava, escorregando as vezes e quase caindo no gelo e, de repente, um de seus pés tocaram um objeto jogado na superfície do lago, um cajado, que teve uma parte congelada com o toque. Pegou-o em suas mãos geladas e mais gelo se fez presente, arfou sentindo algo se acender em seu interior. O cajado brilhou, assustando-o, o que fez o objeto tocar a superfície do lago congelado, formando desenhos de gelo, como flores de inverno congeladas.
Encarou novamente o objeto e resolveu testar, tocou de leve a ponta do cajado em uma arvore e os desenhos se fizeram presentes novamente, sorriu e tocou em outra, aconteceu o mesmo.
Ele começou a se agitar mais ainda, rindo e achando graça de tudo que fazia. Começou a correr e deslizar pelo lago, o cajado estava em contato com o chão, enchendo-o de mais e mais desenhos, Jack gargalhava, estava se divertindo muito e não queria parar. De repente um vento bateu e ele foi lançado desajeitado para cima, sentiu que aquilo fazia parte de si, sentiu que podia voar, viu o seu trabalho no lago maravilhado, mas se manteve por pouco tempo, até cair sobre o galho de uma arvore. Ria o tempo todo.
–Aai – soltou ao se chocar no galho, riu novamente e olhou em direção a algo que chamou sua atenção. Luzes se destacavam na escuridão da floresta, decidiu ver do que se tratava.
Voou desastradamente até lá, tentou um pouso suave mas não conseguiu, caiu rolando no chão e parou de pernas para o ar, soltou um riso descontraído e se levantou. Deparou-se com um vilarejo, pessoas andavam em volta de fogueiras em busca de se aquecer, crianças brincavam e pareciam se divertir em meio ao frio do inverno.
Empolgado adentrou no vila, saldou as mulheres que passavam, mas sem resposta, não ligara, estava animado e queria saber onde estava.
–Boa Noite senhora – disse a uma mulher de meia idade sentada conversando com um homem que parecia ter a mesma idade, não obteve resposta – senhora; — achou estranho
Viu um garoto correndo atrás de um cachorro e resolveu pergunta-lo – Ah garoto, você pode me dizer aonde é que eu tô – disse se abaixando, porem o garoto não parara a passou através de seu corpo, como Jack não existisse.
Um vazio se fez presente em Jack, parecia que faltava algo em si, assustado começou a andar de costas, com os olhos arregalados enquanto gritava “olá, olá” por entre as pessoas que passavam através de si, implorando em seu interior que não estivesse sozinho.
Se deu por vencido, ninguém o veria, questionou a lua o que era aquilo, o que tinha acontecido, mas ela não respondeu, estava sozinho.
Jack Frost estava ali, não havia sangue no seu corpo, não havia calor, não havia resquícios de vida em seu ser, ele estava morto, frio, confuso, e solitário, sabia apenas o seu nome, por quê? Porque a lua o contou, não sabia mais de nada, nem o porquê de estar naquele mundo, só sabia que tinha que seguir adiante e ver o que o Homem da Lua, como decidiu chamar a voz que ouvira mais cedo, queria com ele. Com o cajado, seu único companheiro, e suas duvidas partiu daquele lugar que, por hora, adotara como casa.
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