Broken Heart
11 Cartas na mesa
Notas iniciais
Anteriormente:
— Sabe Carol, são nessas horas que um rei sente falta de ter uma rainha! — Falou Ezekiel olhando para a mulher e deixou no ar aquela proposta velada.
Carol não era nenhuma cega, e a um certo tempo, ela já havia percebido o interesse que Ezekiel demonstrava ter por ela. Quase todos os dias ele levava para ela frutas e verduras, mesmo com os incessantes pedidos dela, para que fosse deixada em paz. Os dois tinham conversas agradáveis, as vezes flertavam um pouco, ambos sempre envoltos de seus mistérios, porém quando estavam juntos, as máscaras simplesmente caiam.
"Não se engana um enganador." Ela se lembrou das palavras do próprio Ezekiel, quando ela tentou parecer uma mulher indefesa, e ele deixou claro, que aquela fantasia não o enganaria. Ele era um dos poucos que a enxergava como realmente era. E Carol não podia negar que gostava da atenção que estava recebendo, mas ao mesmo tempo se sentia um pouco assustada com aquilo.
Ela teve um breve relacionamento com Tobim em Alexandria, mas foi algo muito mais físico, do que sentimental. Em toda a sua vida, a única pessoa por quem ela se apaixonou, foi seu falecido marido Ed. Ela o conheceu na escola, ele era jogador do time de futebol, o mais popular, sempre sendo disputado pelas garotas, e Carol era uma jovem inteligente, boas notas, meiga, muito bela, contudo ela se subestimava muito. Ed começou a mostrar interesse por ela, e ela se sentia privilegiada por receber a atenção dele.
Não demorou muito e os dois começaram um relacionamento, e ela se casou cedo, logo depois de terminar o colegial. Não podia negar que nos primeiros anos, foi um casamento feliz. Teria sido um final de conto de fadas, mas infelizmente as coisas mudaram drasticamente. O homem apaixonado que Ed antes demonstrava ser, deu lugar a um marido violento, que a maltratava, com palavras e ações.
Quando ficou grávida de Sophia, Carol teve um pouco de esperança, achando que com a chegada da filha, talvez seu marido voltasse a ser quem era, entretanto, ao contrário das expectativas dela, as coisas só pioraram. A medida que sua barriga crescia, Carol se via cada vez mais desprezada por Ed. Sua rotina se resumiam as traições, humilhações e mal tratos. O homem que ela um dia amou, roubou dela sua alegria e juventude e ela sempre aceitou tudo calada, resignada. A única coisa boa que ele lhe deu, que era sua filha, o apocalipse tirou. Depois de sofrer muito, Carol aprendeu a lutar por si mesma, e pelos seus amigos, aprendeu a se impor e ser muito mais do que a dona de casa submissa.
Agora ali estava ela, ao lado de Ezekiel, e ele a olhava com expectativa, esperando a resposta dela. Era inegável a atração que Carol sentia por aquele homem. Por mais forte que ela fosse, e por mais resistentes que as muralhas que ela construiu em torno de si pudessem ser, ela se sentiu como a jovem insegura que ela um dia foi. Com medo de ser machucada, e humilhada de novo.
— Não acho que precise de uma rainha! — Respondeu ela por fim, quebrando o contato visual com Ezekiel.
— Talvez eu não precise, mas eu quero ter uma... — Falou ele segurando o queixo dela para que olhasse para ele.
— E acha que eu sou a pessoa certa? — Perguntou ela com um tom sarcástico.
— Não consigo pensar em ninguém melhor! — Respondeu ele com firmeza.
— Mas você nem me conhece... — Falou ela olhando para os olhos negros do rei.
— Então me deixa te conhecer... — Pediu ele, quase como uma súplica e ela soltou um suspiro cansado.
— Não é tão simples! — Falou ela por fim. — As coisas já estão suficientemente complicadas, e eu não posso me envolver mais!
— Não pode ou não quer? — Questionou ele em um tom um pouco irritado. — Você está sempre fugindo, não é? Fugiu de seu grupo, dos seus amigos, e agora está fugindo de mim... — Falou ele encarando os olhos cristalinos dela.
— Você não sabe nada sobre mim! — Vociferou ela com uma certa raiva interrompendo-o. Ela fugiu sim de Alexandria, mas Ezekiel não sabia nada sobre ela para julgá-la. Carol se posicionou para sair dali, quando sentiu seu braço sendo segurado por Ezekiel.
— Eu sei mais do que imagina, Carol. Sei que você é forte, mas que se esconde, por trás de toda essa armadura, não deixando ninguém se aproximar demais. — Falou ele com uma voz branda, e ela só escutou calada.
— Sei que você deve carregar muito sofrimento em suas costas, assim como eu carrego nas minhas. — Falou ele diminuindo gradativamente a distância entre os dois e ela não se afastou. — O que estou propondo, é que pare de fugir, e possamos dividir o peso! — Falou Ezekiel por fim e ela pode sentir a respiração dele no rosto dela.
— Eu já disse que não é tão simples! — Falou Carol, com um fio de voz.
— Sei que não é simples... sei como as coisas estão complicadas, ainda mais com essa guerra que estamos prestes a enfrentar. Sei que cada dia corremos um risco diferente, e cada um deles pode ser o último, mas tem certas coisas, que podemos simplificar... — Falou o homem por fim, acabando com a distância entre eles e beijando-a com ardor e desejo.
Por alguns milissegundos, ela sentiu suas pernas ficarem bambas. Ela bateu algumas vezes nos ombros dele, tentando afasta-lo, porém desistiu logo e entregou-se ao beijo. Sentia-se como uma adolescente, ridiculamente atraída por Ezekiel, por um instante, esqueceu dos medos que a assombravam e entregou-se aquela sensação.
****
(Algumas horas antes)
Liberdade! Como era boa aquela sensação. Daryl pilotava a motocicleta a toda velocidade. Aquela era uma das poucas coisas do velho mundo, que ele sentia falta. Merle quem havia lhe ensinado a dirigir, e desde muito jovem, ele pegou gosto por pilotar, principalmente motocicletas. A adrenalina que corria em suas veias o deixava extasiado.
Vez ou outra, o arqueiro passava de propósito em algum buraco na estrada, fazendo Paul, que estava em sua garupa saltitar e segurar ainda mais forte no assento para não voar longe.
— AAUU! — Reclamou Paul sentindo dor em suas nádegas, devido aos saltos. — Não dá pra maneirar aí? — Pediu ele.
— Tem que aguentar o tranco aí JC! — Daryl debochou soltando um riso anasalado.
Depois de mais alguns minutos pilotando, começou a sair uma fumaça do motor da moto, e logo ela acabou parando.
— Mas que lata velha! — Resmungou Daryl chutando a moto caída no chão
— Também pudera! Do jeito que você estava dirigindo! — Provocou Jesus e Daryl lhe lançou um olhar fuzilante.
— Merda! — Resmungou Daryl e começou a revirar no motor da moto.
— Essa merda fundiu! — Disse ele analisando o motor que soltava uma fumaça preta fazendo os dois tossirem.
— Ah que sorte! — Jesus debochou colocando o braço no nariz.
— É Valentim* vamos ter que ir andando! O lado bom é que minha bunda não vai ficar dolorida! — Troçou ele e Daryl deu mais um chute raivoso na moto e puseram-se a andar, fazendo o caminho de volta para Hilltop.
Os dois quase não trocaram palavra durante todo o trajeto. Paul até tentou puxar assunto, mas Daryl não dava nenhuma continuidade. Levaram quase quatro horas para chegar em Hilltop. A estrada estava tranquila, pois os Salvadores já haviam feito coleta naquela semana, e encontraram apenas alguns errantes avulsos pelo caminho.
Especialmente Beth e Maggie estavam ansiosas pela volta deles. Beth ainda tinha receio de que Daryl resolvesse seguir para Alexandria. Olhava pela janela do trailer a cada minuto. Temia ser deixada de novo, e não negava mais o quanto estava apaixonada por ele. Quando os dois finalmente chegaram em Hilltop, já havia anoitecido, e foram recebidos com euforia pelas duas irmãs.
— E então? Como foi? — Maggie perguntou apreensiva.
— O Ezekiel topou! Vai entrar para a "festa"! — Respondeu Jesus para Maggie que soltou um sorriso de satisfação.
— Agora o próximo passo, é elaborar um bom plano e treinar o pessoal. Daryl vai nos ajudar com essa tarefa. — Falou ele.
— Certo amanhã cedo, daremos um jeito nisso! — Falou Maggie soltando um bocejo.
— Eu vou para a cama! — Falou Maggie e olhou para Beth como que a convidando.
— Eu vou logo! — Falou Beth indo ao encalço de Daryl, que já tinha dado um jeito de escapar para o seu trailer.
— Hey... Como você está? — Perguntou ela aproximando-se dele.
— Ótimo! — Falou ele sem encará-la.
— Então acho que podemos conversar agora, como dois adultos! — Disse Beth com o olhar e postura firme. Ele recuou um pouco, se sentindo intimidado com a determinação dela, e com o olhar dela queimando em sua pele.
— Beth eu já disse que não temos nada para conversar...
— Como assim não temos nada para conversar? Será que você não percebe? — Falou ela, estava quase enlouquecendo com a indiferença que o caçador insistia em demonstrar. Nunca foi da natureza dela, esconder o que sentia, e não entendia como fora capaz de se apaixonar — duas vezes — por alguém que era completamente oposto dela.
— O beijo que aconteceu lá na floresta, e também aqui em Hilltop foram erros! — Falou ele olhando-a nos olhos. Viu a decepção nos olhos e na expressão dela. Era doloroso para ele faze-la sofrer, mas sentia que era melhor assim. Seria como arrancar um curativo, arderia muito na hora, porém logo depois passaria. Beth era jovem e logo o esqueceria.
— Então porque você disse que ficou por mim? Porque não me deixou lá no Santuário? Foi um erro também? — Questionou ela, tentando parecer firme e decidida, mas por dentro seu peito estava em frangalhos.
— Não! — Respondeu ele. — Não foi um erro! Eu realmente fiquei por você! Para te tirar de lá e salvar sua bunda! — Falou ele e Beth começou a rir, como se ele tivesse contado uma enorme piada.
— Salvar minha bunda? — Perguntou ela com um tom irônico. — Então deixa eu te perguntar uma coisa.... Quem me salvou quando eu tomei um tiro na cabeça? — Perguntou ela se sentindo ferida com as palavras dele, e falou em um tom mais acusatório do que ela pretendia.
— Quem Daryl? Quem estava comigo quando eu acordei sem memória naquele hospital? Quando Negan chegou lá montando banca, quem me protegeu? Quem me ajudou a não enlouquecer a cada dia que eu passei naquele inferno que o Negan criou? — Ela perguntou e ele sentiu o peso de tudo o que ela falava. Ninguém estava lá por ela.
— Eu não estou te acusando, nem acusando ninguém... mas não diz que ficou para salvar minha bunda, por que faz muito tempo, que eu tenho feito isso por mim mesma! — Falou ela batendo no próprio peito.
— Beth... — Falou ele entristecido, sentindo o peso das palavras que ela disse. Ele a machucara, e mais do que nunca compreendia isso.
— E tem mais uma coisa... — Falou ela interrompendo-o. — Não se preocupa que eu não vou mais insistir para conversar com você, ou para fazer qualquer outra coisa. Sei bem quando não sou bem quista! Boa noite Daryl! — Falou ela e saiu correndo em direção ao seu trailer.
Quando já estava de costas para ele, Beth chorou sentindo seu coração partido. Daryl via ela se afastando, com seus ombros tremendo devido ao choro. Beth entrou no trailer, sem olhar para trás, e ele se deu conta de que estava perdendo ela outra vez. E tudo por culpa dele.
Fale com o autor