Broken Heart
1 Take me away
Eu estava ali, parada. De frente para uma verdade incontestável. Coloquei algumas rosas brancas e lírios nos túmulos que jaziam os meus irmãos e os meus pais. Havia se passado uma semana desde o acidente que os tirou de mim e a dor ainda era insuportável. Cai de joelhos na grama e meu coração parecia que estava sendo esmagado dentro de meu peito. “Por quê? Oh meu Deus, Por quê?” sussurrava para mim mesmo em meio às lágrimas que não cessavam.
Cheguei em casa e fui para o meu quarto, quando ouvi duas criadas conversando baixinho:
– Pobre garota, tão nova, 21 anos e tendo que enfrentar essa tragédia.
E a outra concordou dizendo:
– Estou com tanta pena dela, todos que ela amava se foram.
Aquilo só aumentava minha revolta. Eu, que sempre fora tão sensata e lógica, estava me vendo em uma situação de descontrole. Por que eu não morri também? Sentia tanta falta da proteção de Peter, das provações de Edmund, da alegria de Lucy e da presença dos meus pais. Eu estava sozinha, não havia restado mais nada.
Levantei da cama e me olhei no espelho, enxuguei as lágrimas de meus olhos. Enxerguei um rosto magnífico, apesar dos olhos inchados. Porém, não fiquei mais impressionada com tamanha beleza, alguma coisa dentro de mim havia mudado. Já não me importava em retocar a maquiagem, em arrumar o cabelo, em colocar roupas de cores vivas. Não queria mais ver ninguém, só queria ficar ali, no meu canto, onde eu poderia ter as lembranças das pessoas que eu mais amava nesse mundo.
Até havia um cavalheiro que se chamava Pietro e eu costumava a gostar dele. Ele era muito bonito, bom partido, cabelos dourados, grandes olhos azuis, boca volumosa e sua a roupa era perfeitamente alinhada. Ele era tudo que eu procurava em um homem. Mamãe costumava a dizer que eu e ele formávamos um casal perfeito. Agora, nem isso me importava mais.
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Hoje, faz um ano que minha família se foi e eu estava a caminho do cemitério, quando eu notei algo diferente. Não achava a rua certa. O que havia acontecido? Eu estava perdida? Não podia, eu fazia esse mesmo caminho há um ano e nunca havia me perdido. Não havia ninguém ali perto. Será que eles haviam bloqueado a rua ou algo assim? Era só o que faltava. Olhei em volta e meus olhos capturaram algo deslumbrante. Havia uma estrada estreita que estava iluminada pelos raios de sol. Nunca tinha avistado essa estrada, e como eu estava “supostamente” perdida, o que eu tinha a perder, certo? Estava curiosa, para que lugar essa estradinha levava? Provavelmente me levaria ao cemitério. Minha sensatez gritava: “Susan, fique onde está! Pode ser perigoso!” Mas eu sentia que deveria continuar.
Quando entrei na estradinha, não podia acreditar. Havia um campo muito grande, a grama era tão verde, as flores tão vivas e tinha um rio, onde a água era cristalina e eu achei, por um instante de loucura, que eu finalmente estava no Paraíso. Mas sabia que eu não tinha morrido. O que era isso? Nunca tinham me dito a respeito desse campo. Então, eu vi algo que me fez hesitar por um instante. Bem no centro desse lindo lugar, havia um lampião. Não sei por que isso mexeu comigo de uma forma intensa, parecia um sonho... Um sonho que eu já havia sonhado. Fiquei fascinada com aquela paisagem. Cheguei mais perto do lampião e quando o toquei, senti um turbilhão de emoções, senti alegria, tristeza, raiva e principalmente felicidade, tudo ao mesmo tempo. Fechei meus olhos, e cenas vieram a minha mente como uma correnteza de um rio, rápido e muito forte. Vi flashbacks dos meus irmãos em um lugar distante... Avistei Peter erguendo uma espada, vi Edmund cuidando de um cavalo chamado “Philip”, vi Lucy rindo com faunos. E oh! Vi um Leão. Ao longe ouvi uma voz forte dizendo “Rainha Susan, a Gentil”. Abri os olhos, meu coração palpitava forte e sentei na grama. Tudo fazia sentido agora, era Nárnia. Comecei a ter recordações de um tempo muito distante... Eu tinha apenas 12 anos quando fui enviada para aquele mundo desconhecido, vivi por muito tempo lá, como uma Rainha, a mais bela, a mais desejada. Depois, voltei para o meu mundo real, comecei a me acostumar de estar na Inglaterra novamente e tentei esquecer aquele outro mundo. Era horrível estar em um lugar onde os animais falavam, os pássaros cantavam lindamente e outras criaturas fantásticas existiam lá, onde eu era tão feliz e ter que voltar a rotina normal, sem ser Rainha, sem estar no meu Paraíso particular, sem saber se um dia eu poderia voltar...
Mas então, algo incrível aconteceu. Um ano depois, lá estava eu, novamente naquele lugar mágico com os meus irmãos. Mas sabia que um dia eu voltaria ao meu mundo normal, então eu não quis me apegar tanto a Nárnia novamente e me machucar como na última vez. E foi o que houve, voltei ao meu mundo e já tinham me avisado que eu nunca mais poderia voltar para aquela Terra. Dessa vez, a dor foi maior. Eu tinha 13 anos e aquilo era mágico para mim, algo impossível de acontecer, mas aconteceu para mim e para meus irmãos e então, eu fui retirada de lá para sempre. Peter levou isso com mais facilidade, ele sempre foi mais forte. E toda vez que Edmund, Lucy e até Peter falavam em Nárnia, eu me sentia desolada. Então, eu comecei a falar para mim mesma que aquilo não passava de uma brincadeira de criança, um sonho. Nada mais que isso, para eu não me machucar mais. E eu comecei a acreditar fielmente nisso, até que esqueci de que havia uma Nárnia. Porém, bem lá no fundo, eu sempre a levei em meu coração...
Eu ainda estava deslumbrada com aquele campo magnífico e as lágrimas brotaram de meus olhos quando eu comecei a relembrar de tudo. Então eu vi um Leão grande se aproximando, Ele era tão dourado quanto o Sol que estava iluminando aquele campo... Ou pensando melhor, acho que era Ele próprio que estava irradiando luz naquele lugar. Seu semblante era de alegria e ao mesmo tempo de compaixão. Ele falou com uma voz profunda e serena:
– Venha comigo, filha de Eva.
– Aslan! As palavras saíram de minha boca com uma intensa alegria, misturado com saudade.
Corri para ele e abracei-o forte, senti suas patas corresponderem ao meu abraço e por um momento, percebi que ele também chorava. Senti tudo aquilo que ansiava nesse último ano que passou. Eu senti alívio, uma felicidade imensa. E eu sabia que meu coração não seria partido novamente. Agora, eu não estava mais sozinha. Eu estava segura.
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