Notas iniciais
A conclusão de uma jornada; o começo de outra. Agradeço a todos que leram até aqui. Por favor, comentem!

O sinal toca. Agudo, irritante, leva todos os alunos a se sentarem.

O professor de física entra. Careca, de óculos retangulares e barba rala. Todos os alunos falam alto, brigam, jogam caneta e régua uns nos outros.

— Calem a boca!! — O professor grita, segurando uma régua de madeira, e todos ficam quietos. — Hoje vocês vão se juntar em duplas e fazer o trabalho proposto na página 47, sobre Eletrostática. Valendo quatro pontos na média.

Todos começaram a se juntar. As meninas faziam duplas e sentavam juntas, como quartetos. Os meninos, igualmente. A movimentação era tamanha que dois meninos, nos pontos extremos da sala, apenas observavam. Quando um percebeu o outro de pé, notou que já havia o visto antes, mas nunca conversado. O outro tentava achar algum amigo, mas falhou ao ver que todos os seus já se juntaram com outros.

Eles se aproximam e um deles fala.

— Sobrou a gente. — Os olhos azuis tímidos miram para outro lado, no chão.

— Tudo bem. Meu nome é James. — O menino de cabelos negros estende a mão.

— O meu é Ryan. — Aperta a mão do colega.

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Epílogo

O pátio estava calmo. Os negros se juntavam em seus grupos, assim como os asiáticos e os mexicanos nos seus. O equilíbrio estava estabelecido, nenhum olhava para o outro. Aqueles que não pertenciam à nenhuma gangue jogavam basquete, os escuros contra os brancos, uma disputa acirrada. Nesses casos, o time vencedor sempre deixa o perdedor empatar, para não ocorrer nenhuma briga.

No lugar ao ar livre, duas torres faziam os vértices da entrada para os pátios das celas. Os homens tinham mais vinte minutos para curtir o Sol e o vento.

Blake tomava água, quieto, pensativo, no canto de fora da quadra, apoiado na grade. Um homem chega e se aproxima dele:

— Blake, com licença.

— Sim.

— Está tudo bem, amigo?

— Vai direto ao ponto.

— Os brancos querem fazer uma proposta contigo. — Blake, enquanto ouvia, encara um grupo musculoso e perigoso, também encarando o homem. — É para você ir rápido.

— Que tipo de proposta?

— Você não tem mais homens. Depois que você se misturou com o detetive e deixou Ivan morrer, todos se afastaram de você. Eles tem uma proposta irrecusável.

Blake olha com o seu único olho para baixo. O outro cinza não enxerga nada. Coloca a mão no queixo, passando os dedos em sua barba.

— Eu já assisti O Poderoso Chefão muitas vezes para entender do que se trata essa proposta... — Blake Albarus tira uma faca improvisada de sua calça e desliza a lâmina sobre o pescoço do homem, que tenta estancar o sangramento mas morre em segundos.

— Peguem o Blake! — Todos os grupos foram se juntando pouco a pouco, começando a perseguir o homem de longos cabelos negros.

Um deles, um mexicano, veio correndo com um soco inglês improvisado. Tentou golpear Blake mas ele desviou, segurando a nuca do homem e esfaqueando três vezes sua barriga. Continuou correndo até ser encurralado por dois homens, quando pegou uma cadeira e atacou os dois com um único golpe.

Por trás, um negro de dois metros de altura o golpeia. Blake cai no chão. Quando o homem foi golpear novamente, Blake defendeu com sua faca improvisada, rasgando a mão do homem da palma até o dedinho. Levantou e continuou a correr.

O sinal foi dado. O alarme soava alto. Alguns detentos deitaram e colocaram as mãos nas cabeças, outros, persistentes, continuaram a correr atrás do homem. Um deles tentou segurar Blake, mas o traficante conseguiu dominá-lo e virou-o em direção a uma das torres. O policial de uma das torres disparou a bala, que atingiu o escudo humano.

Assim que o homem caiu, um asiático apareceu contra Blake e o esfaqueou. Deixou a faca lá, nas costas.

— Aaaaah!! — Blake cai ajoelhado. Outro homem aparece e tira a faca de sua mão, rapidamente, quebrando-a. A lâmina e o cabo se desprenderam no chão. — Filhos da puta!

— Você vai ter o que merece, Blake. — Um homem, da gangue dos brancos, cercando Blake, musculoso e um tanto baixinho, apareceu com um taco de beisebol.

— Deixa eles se matarem, vai. O problema é com o Blake. — Um dos policiais fala com o outro pelo rádio.

— Menos um pra gente.

— O que foi que eu fiz para vocês, hein!? — Blake grita, ainda com a faca nas costas e ajoelhado.

— Ninguém trai os parceiros assim. Ivan era um bom homem.

— Vocês não sabem nem da metade do que aconteceu. Nem a metade!

— Não precisamos. — O homem pôs o taco de beisebol atrás dele, pegando impulso.

— Não, pare!!

Num rápido movimento, ele atinge sua cabeça.

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A campainha toca. O homem espera embaixo do pequeno telhado triangular de entrada, entre duas colunas brancas.

Ele olha para baixo e vê seu corpo fraco, ferido, quase que ultrapassado.

Depois de um tempo, uma mulher abre a porta.

— Ryan! — Ela sorri.

— Oi, Lisa. — Ele beija sua bochecha e a abraça. — Como você está?

— É... Indo... Ainda tenho que ficar em casa, descansar, mas... Tudo bem.

— Posso entrar?

— Oh, desculpe! Claro que pode. — Ela dá passagem e Ryan entra.

— Ei, Júnior!

— Oi, Ryan... — O menino, triste, de cabeça baixa, apenas cumprimenta à distância.

— Ele ainda não está muito bem... Venha, vamos para a cozinha, farei um café.

Ryan vai até a pequena cozinha, toda branca e preta, e senta na cadeira. Lisa, no fogão, seleciona o café e coloca num pote. Ela ferve a água.

— Muito obrigado mesmo por ter vindo, Ryan... Isso vai ser muito importante pro Júnior.

— Ainda não acredito que ele nunca conheceu o avô.

— James mal conheceu seu próprio pai, imagina Júnior então...

— É...

Silêncio.

— Lisa, eu voltei do trabalho. Meu chefe me deu o dia de folga para relaxar, meus ferimentos estão latejando um pouco ultimamente.

— Mas dói muito?

— Não, não... Só... Incomoda. Mas continuando. Antes de eu ir, ele me deu uma notícia. Não sei se você gostaria de saber disso, mas falarei mesmo assim: Blake foi morto por prisioneiros na Prisão de Vengerburg.

Lisa arregala os olhos. — Sério?

— Sim. E isso é desnecessário mas... Ele morreu com uma pancada de taco de beisebol no rosto. Na verdade foram três pancadas, mas já na primeira ele teve traumatismo craniano.

Lisa Woods Winter tenta esconder um sorriso. Ela se sente feliz, pois depois de todo esse tempo, um ato de, na opinião dela, justiça, foi feito.

— Isso é bom, Ryan...

— É... Imaginei que acharia isso.

— Pouco açúcar ou muito açúcar?

— Nada. — Ele pega a xícara e toma o café. — Delicioso.

— Obrigada.

— E como você está, Lisa? Depois de tudo isso...

— Bem... É difícil. Isso só mostrou que esses 15 anos foram uma mentira. Uma dolorosa mentira. Eu fui dispensável no final das contas, ele tentou me matar como se eu fosse meu irmão, ou sua mãe, enfim... Dei todo o apoio a ele, ouvia suas histórias dia e noite, aguentava suas lamentações... Ele era um homem feliz mas muito cinza por dentro. Mesmo assim, nunca imaginaria que fosse perder o controle, ou melhor, revelar que não tinha controle algum. É mais difícil ainda dizer que eu ainda amo esse homem...

— Isso é normal, Lisa... Eu ainda gosto de James.

— Pensamos nas coisas boas que ele foi, e Meu Deus, ele era um homem sensacional. Perspicaz, inteligente, sempre calmo e analítico.

— Os últimos dias com ele não pareceram reais. Na verdade, os meus últimos cinco ou seis minutos com ele pareceram um terrível pesadelo. James não parecia James, parecia outra pessoa... Uma pessoa que eu não gostava.

— Eu já não sei mais no que acreditar, se a culpa foi dele mesmo, ou do pai...

— Dos dois. — Ryan fala um pouco mais alto. — Mas... É bom saber que você está bem. Mesmo. Por um momento, quando te encontrei, achei que iria morrer.

— Foi por pouco, segundo os médicos. — Lisa segura a mão de Ryan. — Mas está tudo bem agora. Obrigado por ter me resgatado.

— Qualquer homem na minha posição faria isso. — Ryan sorri.

— E como você está?

— Desculpa a resposta mas não tão mal quanto vocês. Perdi o meu melhor amigo, claro, mas não sei como deve ser perder alguém tão mais próximo... Passamos por muitos casos juntos e já nem sei mais o que fazer ou o que pensar.

— Vai dar tudo certo.

— Posso levar o Júnior agora?

— Pode, claro. — Lisa se levanta e beija a bochecha de Ryan, que, confuso, apenas sorri envergonhadamente e se levanta também.

— Júnior! — Ryan chama.

— Oi.

— Vamos passear.

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Chegando no asilo, uma moça acompanha o homem de cabelos loiros e o menino de cabelos negros até o quarto onde Phil está.

— Obrigado. — Ryan olha para a moça; ela olha o detetive de cima a baixo e sorri maliciosamente. — “Jesus...”

— O que vocês estão fazendo aqui? — Careca, barrigudo, cansado, Phil reclama.

— Phil... Trouxe Júnior... O filho de James, para te conhecer. — O garoto se mostra confuso pela aparência semelhante que Phil tem com o pai, como os olhos iguais e os contornos dos lábios.

— Eu não pedi visita alguma, muito menos de gente que não é da minha família. — Enquanto o velho fala, os dois sentam.

— Mas Júnior é da sua família.

— James nunca foi meu filho desde o dia que matou Jason. Não vejo por que esse pirralho ser meu neto.

Júnior fica mais triste, olhando para baixo.

— Júnior, você poderia pegar um copo de água para mim, por favor?

— Sim. — O menino se levanta.

Ryan se aproxima de Phil, que tenta pedir por socorro, mas é tampado na boca, e com a outra mão, o detetive ataca sua nuca com dois dedos, fazendo o velho sentir uma dor extrema.

— Olha aqui, seu velho nojento, você vai conversar com o seu neto porque ele não teve nada a ver com o que James fez. Ele é o seu neto, cujo pai acabou de morrer, então você vai dar toda a atenção que esse “pirralho” desejar, você está me ouvindo bem?

Phil, deixando uma lágrima de dor cair, acena a cabeça rapidamente.

— Se eu ouvir desse “pirralho” qualquer reclamação onde você seja o motivo, eu voltarei para cá e farei certeza que a próxima visita que você tenha seja no cemitério. Não estou com paciência para escolher as minhas palavras, então é bom me obedecer. Fui claro?

Phil balança a cabeça mais rapidamente.

— Ótimo. — Ryan tira seus dedos da nuca do senhor, destampa a boca dele e se afasta. Ouve claramente Phil reclamar por ar, respirando forte.

— Aqui, Ryan. — Júnior aparece com um copo da água.

— Obrigado, Júnior! — Ryan sorri e toma um gole. — Seu avô só precisava de um abraço. Ele também está mal com o que aconteceu com o seu pai.

— O vovô... — Júnior olha para Phil. — Também está triste?

Ryan encara Phil, que percebe o olhar, mas logo volta a olhar para o neto.

— Sim... Ele era meu filho.

— Mas você acabou de dizer que—

— Eu só não quero lembrar, entende? É triste... Você quer conversar comigo sobre alguma coisa, pequeno James?

O menino tenta sorrir. — Eu também estou triste. Nunca pensei que meu pai seria um assassino... Ele chegou a te machucar, vovô?

— Não... O seu pai... Bem... Ele era uma boa pessoa, ele não quis o meu mal. Ele só era triste, assim como nós estamos hoje.

— Todos os meus amigos tem avôs que contam histórias para eles... — O garoto olha para baixo. — Você tem alguma história pra contar?

— Bem, eu... — Phil gagueja enquanto olha para Ryan. — Eu sou, ou era, um padre, então tenho vários casos que—

— Me conta um!

— Ahn... — Enquanto Phil pensa, o menino, carente de atenção, se aproxima do velho e senta no chão. — Bem... Um dia veio uma mulher com uma perna quebrada. Ela dizia que o diabo fez isso com ela. Daí—

— Júnior, já vou indo, ok? Volto daqui a pouco. — Ryan se levanta.

— Ok, Ryan. Obrigado.

— Daí veio uma equipe de exorcismo, porque na época não sabiamos como—

Ryan continua andando para a saída, e antes de virar, olha para trás.

Phil se mostra verdadeiramente empolgado, pela primeira vez, em anos, e o menino, por poucos instantes, esquece da figura ruim que o seu pai foi.

Os dois riem e continuam a compartilhar histórias.

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As árvores eram altas, gigantescas. Suas folhas, verdes como grama molhada em garoa do verão. O fim de tarde deixava o céu todo laranja, e os poucos prédios, vistos ao longe, pretos como a escuridão.

Ryan caminhava por entre pedras, todas da mesma altura, do mesmo formato, carregando o mesmo símbolo. Pobres, ricos, brancos e pretos, todos no mesmo lugar.

O cemitério de Vengerberg estava vazio. Ryan conseguiu achar facilmente a lápide que queria.

“Em honra de um dos maiores detetives de Vengerberg. Que sua vida na outra vida seja mais pacífica. James Winter”.

Ryan deixa uma lágrima cair, enquanto segura, fortemente, uma flor branca.

— Eu escrevi essa lápide. — Um homem chega logo atrás.

— O-Oi, não vi você, desculpe. — Ryan limpa a lágrima.

— Sem desculpas, eu acabei de chegar. — O detetive vê um velho, corcunda, andando com a ajuda de uma bengala, com a pele toda enrugada. — Quem é você, meu jovem?

— Ryan Smith. Sou... Eu era um amigo de James.

— Huh... Foi você quem matou James... Muito prazer...

— E você?

— Sou o avô de James Winter. — Ryan fica surpreso. — Mais conhecido como Lester Harx.

— O quê?

Os pássaros saem para voar dos galhos em que estavam pousados, Todos juntos, numa mancha quase sólida no céu.

— Quer que eu repita?

— Não, não, mas! Nossa! Você é Lester Harx... — Ryan passa a mão em todos seus fios loiros. — Nunca imaginei que fosse avô de James!

— Eu ensinei tudo o que James sabia sobre investigação.

— Mas... Como? Como você pode ser avô dele, se—

— As pessoas usam codinomes... Pseudônimos... Chame como quiser. Eu conheci um ótimo homem chamado Lester Harx e quis usar esse nome para o meu livro. Não queria que as pessoas soubessem quem eu realmente sou, vivo uma vida calma... — O velho treme, tentando se apoiar na bengala.

— Eu li o seu livro, Senhor Winter, Harx... Ah, estou sem jeito. Foi James quem me deu, com uma dedicatória dele, e...

— Recomponha-se, homem! — O velho ri.

— Eu sou um fã seu. Claro que não li todo o livro pois não tive tempo, mas...

— Não leu!? Ora, perdeu a melhor parte!

— Mas eu vou ler, eu prometo! Aliás, está aqui na minha mala e—

— Não precisa me mostrar. E eu não vou dar autógrafo algum, estou tremendo todo, velhos como eu... Hehe...

O Sol alaranjado ia descendo lentamente.

— Você quem escreveu esse epitáfio? — Ryan olha para a figura de extrema idade.

— Sim... Eu... Eu não te vi no enterro... Imagino que estivesse cuidando das suas feridas, não?

— Sim, eu estava no hospital... O disparo quase atingiu um dos meus rins...

— Hm...

— Não sei nem o que dizer para você por ter matado seu neto, Senhor Winter...

— Não, Ryan, você não o matou. — O velho olha seriamente para o detetive, falando pausadamente. — Você o libertou. De toda a dor, de toda a frustração que ele carregou. Eu tentei ensinar o meu melhor. Ele absorveu... Mas não tudo.

— Entendo.

— James era um ótimo menino. Mesmo depois da morte de Jason, ele conseguia ser feliz. Era quieto, reservado e antissocial, mas era muito inteligente, e alcançou o cargo de detetive de homicídio com muita maestria. Eu fiz o meu melhor.

— Tenho certeza disso. — Ryan mostra seu sorriso branco para o velho, que é contagiado por alguns instantes.

— Ryan, uma das coisas que eu coloquei no meu livro é uma das mensagens que eu mais tenho orgulho... Sabe... Eu tenho um filho religioso fervoroso que prega o racismo e a violência contra os infiéis... E um neto que tentou matá-lo, matou a esposa do meu filho e... Enfim... Se eu fosse levar essas coisas em consideração, eu não ia viver! — O velho sorri, se aproxima de Ryan e coloca a mão no seu ombro. — Não leve as mágoas do passado para frente, Ryan. James não conseguiu aprender isso mas espero que um amigo dele aprenda. Você matou seu amigo. Teve muitos momentos que você não se mostrou companheiro a ele. Não se arrependa dessas coisas, se não você vai viver como James... Preso... Enclausurado... Na própria incapacidade de superar.

— Obrigado pelo ensinamento, Senhor Winter. — O loiro explodia de alegria por dentro por ouvir tais palavras sábias pessoalmente, ao-vivo e em cores.

— Lisa. Como ela está? — O velho tira a mão do ombro do jovem.

— Está bem. Também quase morreu mas saiu dessa praticamente superada...

— E o filho dela? O pequeno James...

— Ele está mal. Mas está com Phil.

— Meu filho está num asilo, não é?

— Sim, com uma segurança mais reforçada.

— Huh... Sempre pensei que ia para o asilo mais cedo, mas eu, com meus 90 anos, até que estou indo bem, hehe... Ryan... Você sabe que Lisa e Júnior não vão ficar sozinhos para sempre, certo?

— Sim, claro.

— E nem você.

Ryan paralisa por um instante. Ele observa o sorriso malicioso do velho. “Como alguém tão culto pode ter ideias tão obscenas assim!?”

— Mas é a esposa do meu amigo!

— Que um dia vai superar a morte do meu neto e vai tentar achar outra pessoa para continuar vivendo! E eu só quero dizer que você tem o meu consentimento, para qualquer decisão que você for fazer.

— Obrigado, eu acho...

Os dois ficam em silêncio, observando a lápide por alguns segundos.

— Sabe... Phil não queria colaborar no começo. — Ryan continua o assunto. — Chamava Júnior de pirralho, negava ser seu neto... Mas depois que eu o convenci, passou um tempo e... As expressões forçadas passaram a ficar mais naturais, entende? Phil começou a conversar com Júnior sobre seus casos como padre... E ele estava gostando disso. Gostando de verdade. E Júnior, todo atento, ouvia, feliz também. Mesmo depois de tudo...

— É nosso dever como ser humano superar as coisas, Ryan... As crianças tem espíritos bondosos de superação, esquecem rápido, vivem como os adultos deveriam viver... E quanto ao Phil...

— Como Phil conseguiu ser tão natural com Júnior, mesmo não gostando dele?

— Essa resposta está no meu livro. — Senhor Winter sorri. — Página 204, os três últimos parágrafos. Pode ler agora.

Ryan rapidamente vai até a sua mala e pega o livro. Orientado por Winter, o detetive vira as páginas e chega até a passagem indicada.

“O pior erro dos detetives, além de arquivar casos, é não perceber que a pista essencial para a solução de um assassinato esteve na sua frente o tempo todo. Mas agora, paralisem: Esse não é um erro exclusivo dos detetives, é um erro abrangente ao ser humano.

Muitas vezes ‘arquivamos’ as nossas mágoas em nossas pastas do esquecimento, mas essa não é a solução. Nunca devemos desistir de tentar perdoar aquele amigo sacana ou superar a morte de um ente querido. Para isso, sempre há aquela pista, ou aquele sentimento, ou aquela decisão, que nunca enxergamos, mas está na nossa frente.

As soluções pros casos mais conturbados das nossas vidas sempre estão nas nossas frentes, mas nos cegamos a enxergar. Uma mágoa do passado é resolvida pela determinação do presente. Só cabe a você decidir o tamanho de seu esforço. Só conseguiremos solucionar os casos de nossas vidas se os tirarmos da pasta do esquecimento e analisarmos mais abrangentemente as pistas que nos recusamos a ver”.

— Linda passagem, Senhor Winter, mas o que isso tem a ver com— Ryan olha para os lados e não encontra o senhor em lugar algum. Olha para a descida dos campos e não encontra ninguém.

— Senhor Winter!? — Ryan chama pelo velho, quase que gritando. Anda para os lados, apreensivo, e pisa num pedaço de papel. Ele olha para o chão e vê uma fotografia. Pega e observa.

A foto, em preto e branco, mostra a família Winter. Phil Winter, Susan Winter, James Winter e Jason Winter. O pai forte e intelectual, a mãe magra de cabelos longos, James com cabelos negros e o irmão, pouco diferente de James, mas lembrando alguém a Ryan...

— Ele deixou a foto aqui... Uau... Jason parece exatamente com Júnior... E...

Ryan lembra da cena no asilo, onde Phil criou um escudo para si mesmo ao ver Júnior, mas assim que percebeu que estava conversando com um menino muito parecido ao seu filho Jason, morto tragicamente, sorriu e contou com mais empolgação suas histórias.

Ryan começa a rir de alegria, quieto, tentando não interromper o descanso dos mortos... — Ah, Senhor Winter...

Ryan olha para a lápide de James e ajoelha para conversar um pouco com o amigo.

— “As soluções pros casos mais conturbados das nossas vidas sempre estão nas nossas frentes, mas nos cegamos a enxergar”, seu avô disse isso, amigo... Phil está feliz, conversando com o seu filho... Imagine o quanto TUDO poderia ter mudado se você largasse seu passado de lado e fosse ver seu pai, que assim, largaria seu ódio e rancor e aceitaria Júnior como neto... Podendo até, em pouco tempo, te aceitar novamente como filho... — Ryan deixa outra lágrima cair, uma gota num misto de tristeza e felicidade. — As respostas estão sempre à nossa frente... Mas nos recusamos a ver... Seu vô está certo...

Ryan dá um forte suspiro e continua.

— Se passou um mês, amigo. Eu sinto a sua falta. Sinto muito a sua falta. Pode confiar em mim, eu cuidarei de sua esposa e de seu filho, não deixarei que nenhum mal caia sobre eles... Não sei se está me ouvindo ou se eu estou apenas delirando, mas se algo te prende aqui... Vá em paz. Não tenho mais remorsos, nem lamentações para compartilhar. Tudo o que tenho de você são memórias boas, James. — Ryan sorri novamente. — Quero que você parta assim.

Naquele exato momento, um feixe de luz passou pelas folhas da árvore e alcançou os olhos de Ryan. Após alguns segundos, a luz do Sol desapareceu e seu rosto ficou coberto pela sombra.

— Hoje eu entendo que o segredo não é deixar seu copo à mostra, sempre enchendo, até ao ponto de se esgotar e quebrar. Um copo de vidro quebrado. O segredo é tirar as águas do passado e colocar as águas do presente, e sempre manter a troca...

A sombra que a lápide forma começa a ficar mais curta à medida que o Sol desce por completo.

— Obrigado por tudo, amigo. Boa jornada pela frente. — Ryan deixa a flor branca em seu túmulo.

Ele levanta e vai embora.

Notas finais
Novamente, muito obrigado. Espero que tenham gostado!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!