Notas iniciais
Acompanhe o começo da história de James Winter, o detetive mais competente de toda Vengerberg.

BROKEN GLASS

— Cale essa boca, moleque! — O homem dá um tapa no rosto já quente de seu filho.

— Você vai acordar os vizinhos se continuar batendo nele, Phil! — Uma mulher de dentes tortos fala baixinho, quase que no ouvido do marido.

— Deixe-me em paz, Susan. Esse moleque continua perguntando do Jason sem parar. O Jason nunca mais vai voltar! E a culpa é toda sua!! — O barrigudo desfere outro tapa, agora na outra bochecha do menino; ele cai no chão de madeira e quebra seu nariz. Chora ainda mais.

— Se você não tivesse feito aquilo com o Jason... — A mulher se afoga em prantos. Os vizinhos começam a acordar, acendendo algumas luzes de suas cabanas em meio as árvores.

— Continue chorando, garoto. Você vai ter o que merece.

Os berros eram ouvidos desde as montanhas que cercavam o pequeno vilarejo. O menino nunca se esquecera daquela noite em que as mágoas encheram o seu copo até a boca, quebrando-o com um peso que, na época, ele não conseguia aguentar.

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Capítulo I

Março de 2010.

Mais um dia, mais uma papelada para preencher.

Ele estava sentado em seu banco de couro, girando, vendo todos os cantos da sala. Branco até arder os olhos, frio até congelar seus lábios. Procrastinava, tentando achar em si uma gota de motivação para começar.

Parou e fitou o quadro logo acima da porta, na frente dele: Detetive James Winter, Divisão de Homicídios.

Apoiou o braço sobre a mesa. O homem de cabelos negros passava levemente o dedo em seu nariz ondulado — a pequena parte torta é uma lembrança amarga do dia em que seu pai quebrou seu nariz. A textura macia e quente de sua pele o lembra, por um instante, o aspecto rústico e violento da madeira onde ele outrora se encontrou caído.

Ele finalmente desperta para a realidade com o toque do telefone ao seu lado.

— Alô.

— Oi James, tudo bem?

— Oi amor. Sim, está tudo bem. Fala.

— O Francis vai chegar daqui a pouco. Você não esqueceu, né?

— Para buscar ele no aeroporto? Não, não esqueci. Por quê?

— Por certeza mesmo. Imaginei que tivesse muita coisa para fazer, e eu como também tenho, quis ligar antes que nós dois fôssemos esquecer.

— Você me lembrou isso ontem de manhã, eu não iria esquecer hoje. Mas tudo bem. Pode deixar. Lisa, preciso muito trabalhar...

— Claro, desculpa. Tenha um bom dia amor. Beijos.

— Beijos.

“Que saco”.

James se espreguiçou e bocejou. O som que veio desde sua garganta reverberou por toda a sala. Pouco tempo depois, antes de começar a trabalhar, alguém bate do outro lado da porta. James coça sua testa e manda entrar.

— James, licença.

— Ryan? Chegou tarde hoje. Estou começando a sentir saudades do meu bom, velho e pontual parceiro.

— Ele está bem aqui, na sua frente! — Ele ri baixinho — Mas... Cheguei atrasado porque andei por uns... Uns acontecimentos. — Ryan sorri sem graça.

James cruza os braços e indaga com a expressão facial

— Se me der licença...

— Claro, sente-se. — Ryan Smith, melhor amigo de James e seu parceiro, loiro de olhos azuis cristalinos, senta a frente da mesa retangular, posta horizontalmente aos dois.

— O chefe deu essa notícia para mim primeiro. Não entendi no começo, mas ele me disse que seria melhor se eu lhe contasse.

— O que aconteceu?

O olhar de Ryan fica soturno, e o de James corresponde.

— A sua mãe, James... Ela foi encontrada morta, hoje pela manhã.

James arregalou os olhos, mas não por completo. Ele era frio e não gostava quando as pessoas liam os textos de suas emoções. Mesmo assim, a figura maternal de sua vida agora se foi.

Naquele momento, ele se lembrou de como ela foi dócil até o momento da morte de seu irmão. Com 10 anos de idade, James foi então maltratado, surrado, tanto pela mãe quanto pelo pai. A violência que sofrera impedira que uma ou duas gotas caíssem de seus olhos, rumo à bochecha corada. Não, tudo o que ele expressou foi um sentimento muito próximo à indiferença.

— Na casa dos meus pais?

— Sim.

— E o meu pai?

— Ele... Ele não estava lá. E é justamente isso que a polícia está questionando. Seu pai é o principal suspeito. — Ryan sentia medo, tentava dizer ao seu amigo a terrível notícia da forma mais delicada possível.

Novamente James se encontra fitando o infinito – um olhar inquebrável, não importa a interação física que ele poderia receber. Seus ouvidos nada captavam, seu nariz nada sentia. Ele estava petrificado.

— Nós temos que ir para lá.

— Huh... Esse é um dos males de se viver em um lugar pequeno. — James se levanta e coloca seu casaco bege — Você conhece todos que morrem, e investiga de perto todos os seus casos.

— É. — Como um bom amigo, Ryan apenas concordou.

— Eu sei o que você está pensando Ryan. Infelizmente, você conhece a minha história e isso me impede de sentir algo forte, tanto pela minha mãe quanto pelo meu pai.

— Eu entendo, James. Não precisa se explicar.

— Merda... Eu esqueci que eu tenho que buscar o irmão de Lisa no aeroporto.

— Não pode fazer isso outra hora?

— Não. Ele tem problemas... Não vou demorar mais que 20 minutos.

— Eu estarei na cena do crime, então.

— Faça isso.

James e Ryan saem do departamento de investigação da pequena cidade de Vengerberg. No estacionamento, James sai com o seu Hyundai.

James dá a partida, faz as curvas e chega na rodovia.

Os carros andam rapidamente, mas todos parecem parados. A sensação de movimento só existe para James por causa dos prédios e dos postes, mas todos os carros parecem monótomos, sem nem sair do lugar. É nessa sensação que em James desperta visões do passado, de um passado cruel e frio, frio como o fim da tarde de um novembro, o de 25 anos atrás. Dois irmão se empurrando, até que um irmão dá o último empurro.

Ele volta a sua atenção à estrada e quase bate em um carro. Vira fortemente para a esquerda e depois para a direita. A buzina ressoa de trás do carro, e James, após o alivio, continua a dirigir para o aeroporto.

Chegando no estacionamento do aeroporto, ele para ao lado da calçada e aperta a buzina para Francis o ver. O irmão de Lisa vem andando lentamente, com dificuldade. James sai do carro e o auxilia.

— Oi, Francis! Como vai?

— Bem.

— Que bom... Como foi no Alaska? Seus pais cuidaram bem de você?

— Sim... — Francis olha torto para James e aparenta estar bem pensativo.

— Vou te levar para a sua casa, ok? Lisa me ped—

— Eu sei. O-Obrigado. — Francis entra no carro com dificuldade, enquanto fala demorado.

Novamente na pista, James tenta olhar para Francis pelo retrovisor, com dificuldade, por estar sentado ao lado dele.

— Então... Como foram os exames?

— Não... Não... Não acharam nada.

— Entendi. Mas, veja! Você está firme e forte, não é mesmo?

O silêncio se prendeu no carro como um detetive se prende no suspeito. Só podia-se ouvir o som dos outros carros passando.

— Eu tenho... Medo de morrer... — Francis começa a chorar.

— Pare com isso, Francis! Você tem mostrado melhora nos exames, a Lisa me contou. O tombo que você levou só danificou uma parte que ainda pode ser consertada.

Francis continuava a chorar.

— V-Você não sabe... Você não sabe como é se sentir... Preso... Limitado... Não sabe! — Francis enxugava as lágrimas.

— Eu sei muito bem como é isso, Francis. — James continuava olhando para frente — Chega uma hora na vida de cada um de nós que nos perguntamos “E agora?”. A fraqueza toma os nossos movimentos físicos e as nossas incertezas emocionais. Destrói-nos. Hoje é um dia assim para mim.

Francis tentava ouvir com atenção.

— Meus pais sempre me maltrataram depois do evento com o meu irmão, você sabe o que aconteceu... Mas eu não deixei isso me vencer. Tudo o que eu via ao meu redor a partir daquele dia era morte e desgraça, então estudei para ser detetive, um cara que tenta entender e solucionar tudo isso. Hoje eu recebi a notícia de que a minha mãe foi assassinada, e o meu pai é o principal suspeito.

Francis parou de chorar.

— Eu não vou deixar isso me vencer também. — James faz contato visual direto com Francis. Consegue se ver no reflexo das lágrimas do homem — A vida não está aqui para nos agradar. Está para aprendermos a superar expectativas e vencer medos. Um dia se perde um ente querido. No outro dia, os movimentos da fala e das pernas. — O detetive olha para baixo, dá uma pausa e continua. — Viva ao máximo cada minuto de sua vida, Francis, pois esses minutos, mesmo que de tristeza e choro, e de dificuldades, nunca mais voltarão.

Francis olhava para baixo, não entendendo tudo que James disse, mas absorvendo a essência do que foi dito.

— Chegamos.

James e Francis saíram do carro. O celular de James começa a tocar.

— Alô.

— Oi querido, você não atendia o telefone do trabalho.

— Porque eu não estou lá. Estou com o seu irmão, já chegamos em casa.

— Ah, que bom! Obrigada.

— Lisa, quando eu chegar em casa... Tem umas coisas que eu quero lhe contar.

— O que houve?

— Depois eu conto. Nada para você se preocupar agora.

— Tudo bem então.

— Beijos.

James desliga. Ele olha sorrateiramente para Francis, que tenta colocar a chave na fechadura mas erra múltiplas vezes. Quase antes de James interferir, Francis consegue e abre a porta.

Dentro da casa amarela encontrava-se cômodos apertados, mas com uma decoração impecável.

— A janela... Está aberta. — Francis notou quando entrou em casa.

— Roubaram alguma coisa sua?

— Não... Nada...

— Acho que você só deixou aberto então.

— Não! Eu... Eu tenho cer-certeza que não.

James fitou Francis. Ele estava confuso. Foi checar a cozinha, o banheiro, nada mudou, só aquela janela.

— Bem, a Lisa me falou para te deixar aqui, e te deixei. Preciso ver a minha mãe... Investigar aonde está o meu pai, ou o assassino.

— Tu-Tudo bem...

— Você é um bom rapaz, Francis.

Ele sorriu.

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Chegando na rua da casa onde seus pais moravam, James saiu do carro.

Ao atravessar a rua, encarava a casa branca. Ele nunca havia visto essa casa por dentro, seus pais nunca o convidaram. Apenas sentia uma aura estranha. A cada passo, uma frase em sua mente.

“Imprestável!”.

“Você é o culpado!”.

“Por que você fez isso!?”.

Depois de muitos passos, chegou a porta. Olhando o interior, ele via placas amarelas com números no chão, na mesa, em todos os cantos. A perícia tirava fotos e mais fotos, os flashes atordoavam James, que tentava atravessar sem causar danos às evidências.

Subindo as escadas de madeira, ele vira à direita e encontra uma porta aberta no fundo do corredor. Lá, ele chega e vê Ryan, encarando o corpo de uma mulher.

— James...

— Obrigado por ter vindo, Ryan.

— Por que você está com a sua arma na cintura?

— Fui na casa de Francis. Uma janela estava aberta, e de lá vi uns movimentos em um arbusto. Saquei a arma mas era apenas um gato. Gato enorme, você não acreditaria nem se o visse.

— Huh... Sempre com pistolas automáticas. Marque minhas palavras: Pare de usar armas automáticas.

— ... Porque podem emperrar. Eu sei. O que temos aqui?

— Eu preciso mesmo falar?

— É o procedimento.

— Ah... — Ryan respira forte. — Corpo de uma mulher, Susan Grace Winter, 55 anos, morta a facadas. Múltiplas facas no tórax e um corte profundo no pescoço.

— James, minhas condolências...

— Perito, boa tarde.

— Do pouco que vi, pude notar, com toda a certeza, que a arma do crime foi uma faca de 8 a 10 centímetros de lâmina, não encontrada.. Encontrei 12 cortes no tórax e um corte longo e profundo por todo o pescoço — mais um corte desse atrás na nuca e a cabeça seria decepada. Detalhes à parte, houve sinais de luta, visto que a vítima tem sinais fortes nos pulsos, mas infelizmente, nenhuma digital. O assassino foi cauteloso ao usar luvas, mas entrou de tênis, possibilitando a definição da marca, Nike. Pelo estado do corpo, a vítima morreu ontem de noite. Uma vizinha, amiga da vítima, bateu na porta mas ninguém respondeu, e assim que percebeu que havia algo estranho, hoje de manhã, acionou a polícia. Nenhum vizinho ouviu algum tipo de grito ou pedido de socorro. Possivelmente, aquele travesseiro foi usado para silenciar a vítima.

— Muito obrigado, perito. Assumiremos daqui.

— Disponha.

O perito saiu do quarto junto com o fotógrafo. Restaram apenas James e Ryan, e é claro, Susan Winter.

— Quanto tempo, mãe. — Ele toca sua mão fria. — Parece que foi ontem que nos vimos pela última vez, você na porta, gritando comigo, dizendo para eu nunca mais voltar, e eu, sentindo todo o peso que a vida colocou naquela mochila... — Ele aperta a mão da mãe — Droga, eu não sei o que sentir, mãe... — As pálpebras fechadas impedem-o de ver a natureza sangrenta que ainda nela se manifesta, com os globos oculares torcidos para cima, e as cores castanhas escondidas na mesma linha das sobrancelhas.

— Eu vou dar uma olhada pelos cantos dos outros quartos.

— Faça isso. Eu darei uma geral por aqui. — Ele continua a encarar a figura gigante que quase preenche boa parte da cama de casal. Cabelos ruivos mal pintados e o mesmo ar de superioridade, mesmo morta.

James dá um último olhar para a mãe, pálida, com muitos fios cinzas em meio a um cabelo vermelho sangue.

Começa a procurar por indícios ou vestígios que o assassino deixara pela casa. Abria gavetas, movia móveis, mas nada. Tudo o que encontrara eram fotos de família, jóias, documentos, entre outros.

Em uma das gavetas, o detetive Winter encontrou um recado, numa folha amarela e amassada:

“Susan, saí da cidade para comprar cerveja. Essas merdas de mercados não tem a que eu quero! Você está no banho e eu realmente não quero te esperar para avisar. Volto assim que comprar uma caixa. Ou duas”.

— Ryan, encontrei uma carta do meu pai.

— E?

— Ele saiu enquanto minha mãe tomava banho, provavelmente de noite, para comprar cerveja. Se realmente foi ele quem a matou, então teve o trabalho de criar um álibi para si próprio por meio dessa carta. Se não, o assassino a matou enquanto meu pai esteve fora. Talvez ele voltou para cá e fugiu, por medo de ser acusado.

— O que você acha?

— Não tem nenhuma data... Há a possibilidade dele tê-la matado bem depois dessa carta ser escrita. Talvez, já com as cervejas compradas e bêbado, ele se alterou e a assassinou.

— Alguma pista de onde ele pode estar agora?

— Não, mas vou continuar procurando.

Mais gavetas.

Mais lençóis retirados da cama.

Mais documentos jogados pelo chão.

Era final da tarde, e James e Ryan não encontraram nada que pudesse incriminar o assassino.

— James?

— Diga.

— Seu pai ou sua mãe costumavam fumar?

— Não, por quê?

— Encontrei um cigarro jogado no vaso da planta. Onde fica a terra.

— Huh... Qual marca?

— Boss.

— É meu. Estou muito estressado, então preferi fumar um pouco...

— Bem... Era a única coisa que tinhamos. Obrigado por arruinar.

— Acho melhor encerrarmos por hoje, Ryan.

— Sério?

— Sim. Estou muito cansado, é fim de tarde, quero voltar para casa e esquecer tudo isso. Tranque todas as portas e janelas, amanhã eu voltarei para procurar por pistas.

— Ok então. James, erm... Dá uma carona?

— Seu carro não está lá fora?

— Eu vim de ônibus. Estou economizando. Pensei que não teria problema para você.

— Não tem problema. Vamos lá.

Ryan trancou toda a casa e entrou no carro junto com James. O detetive Winter acelerou o carro e virou a rua.

Depois de um tempo dirigindo, Ryan quebra o silêncio.

— James, você acredita que viemos com um propósito?

— Huh?

— É uma pergunta que me veio à mente. Nunca pensei que a faria, mas depois de ver tantas pessoas morrerem, tantas execuções sem sentido, tantas histórias sem desfecho... Para quê então? Pelo que aquela pessoa viveu?

— Você está me perguntando isso porque acha que o meu propósito de detetive foi concluído com ver minha mãe morta e investigar o caso dela?

— Na verdade... Sim.

— Então você está enganado. Eu acredito que não temos propósitos. Aliás, pode parecer frio demais, mas eu acredito que a consciência foi um erro da natureza, algo que não deveria ter existido, algo que só atrapalha o nosso instinto, seja lá qual for.

— James... — Ryan se mostra surpreso. — Isso é pesado, cara.

— O segredo é não ficar com essas crises existenciais nesse tipo de trabalho. Faz mal para o estado mental. Veja os mortos como um pedaço de carne. Veja os vivos assim também. Você viverá mais.

— Você é um bastardo sem sentimento, sabia?

— Pois é. — James para o carro. — Bem, chegamos.

— Obrigado, James. E desculpa o assunto estranho.

— Melhores amigos são para isso. — Os dois se cumprimentam com a mão. Ryan sai do carro e James vai para a sua casa. — Aliás, fui eu quem deixei o assunto estranho. — James sorri.

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“Que dia cansativo...”

James Winter estaciona seu carro na garagem de casa — modesta, com muitas plantas do lado de fora e duas colunas brancas que ligam o teto frontal, em forma de triângulo. A porta, de madeira rústica, é aberta, e ele finalmente entra em casa.

— Oi, amor! — Lisa Woods Winter, esposa de James, o abraça e beija carinhosamente. Suas mãos quentes pela fervura da comida se encontram nos ombros do detetive.

— Oi, Lisa. — Ele acaricia o cabelo claro da esposa. — Onde está o Junior?

— Jogando video-game, pra variar. — A moça cruza os braços.

James anda pelo corredor. Passa pelo escritório, pelas duas portas da cozinha, e finalmente chega na sala, onde encontra o menino com um controle na mão, jogando um jogo de detetive.

— Pai! — O menino se levanta, com dificuldade por causa da preguiça, e abraça James.

— Tudo bem, filho?

— Sim, mas eu não estou conseguindo achar o assassino!

— Como assim? — Enquanto James pergunta, o menino corre de volta para o sofá.

— É um jogo, pai. Você é um detetive, e você tem que achar o assassino. Ele já matou três mulheres, mas eu ainda não sei quem ele é.

— Hm...

— Você pega os objetos na cena do crime e vira eles assim, pra achar alguma pista. — O menino gira o analógico do controle para a direita e para a esquerda, até conseguir ver o nome do fabricante numa caixa de fósforos.

— E o que o nome do fabricante da caixa de fósforos vai te ajudar nisso?

— Ué, você é detetive, pai! Você deve saber.

James para por um instante e continua a ver o jogo. “Se ao menos as coisas fossem tão simples assim”, ele pensa. O personagem do jogo, com um chapéu retro e roupa dos anos 40, continua a investigar, agora mexendo no corpo da vítima, procurando por lesões no braço e no crânio.

— Esse jogo não é muito violento para um garoto de 12 anos?

— Não. — O menino sorri.

— Depois conversamos sobre isso. — James tira o casaco e coloca no pendurador. Ele vai até a cozinha e se senta na mesa.

— O Junior já jantou. — Sua esposa diz — Só falta eu e você. Lasanha e batatas cozidas. Tudo bem?

— Perfeito.

Lisa se senta ao lado de James. Os dois se entreolham. Lisa percebe o cansaço nos olhos caídos do detetive, em volta de uma grande olheira. Sua pele aparentava estar mais branca que o normal, e sua barba rala apontava o seu tratamento de segundo plano para com seu visual. James, após uma garfada da comida, encara a esposa, radiante, esbelta, um pouco cansada por fazer a comida, mas com um sorriso no rosto. Os cabelos longos e loiros caem como cachoeira até uma linha imaginária no meio das costas, que contrasta com sua roupa branca como neve.

— Está gostoso.

— Você disse que tinha algo para me falar.

— Antes de dormir. Pode ser?

— Pode.

— Achei o assassino! — O menino grita da sala; o som invade a calma e a tranquilidade do casal. — Era o atendente do bar! Eu tinha falado com ele antes, e ele disse que não viu nada. E era ele quem matou as mulheres! — Junior pulava de alegria por ter encontrado o suspeito.

“Quem dera se fosse tão fácil assim na vida real”.

James corta o pedaço da lasanha. Ele encara o molho de tomate e lembra do pescoço de sua mãe, encharcado de sangue escuro e espesso.

Ele mastiga.

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Sentado na ponta da cama, James rabisca em seu caderno. Depois, desliza suavemente a caneta nas linhas, terminando a frase. Ansiando terminar o texto, traça um risco mais profundo, ele está mais nervoso.

Ele aproveita enquanto tem seu tempo livre para escrever seus pensamentos mais íntimos naquele caderno cinza. Sua mulher está no banheiro.

Ouve a descarga e corre para a gaveta. Lá, joga o caderno e a caneta de qualquer jeito e fecha. Senta novamente na cama e ouve sua mulher abrindo a porta.

Ela senta do seu lado e pergunta, finalmente:

— Vai me dizer o que está acontecendo?

— A minha mãe morreu.

— Oh, não!

— Meu pai é o principal suspeito do assassinato.

— Assassinato!? Mas—

— Ela foi encontrada com múltiplas fraturas. Facadas. Uma longa no pescoço. Ela foi encontrada morta ontem de manhã, na própria casa.

— Meu Deus, querido... — Lisa passa a mão no peito nu de James.

— Eu estou bem, Lisa, é sério. É isso que me incomoda, para falar a verdade. Eu sempre faço um papel de durão na frente de todo mundo, mas tenho medo de ser frio. Não gosto disso. Ao pensar na minha mãe... Ao pensar nela, quando a vi hoje para investigar sua cena do crime... Não senti nada. Se senti, foi indiferença. Talvez um pouco de raiva no fundo. Não sei. — Ele olha para a parede escura, iluminada apenas pelo abajur.

— Você não tem culpa, James. — Lisa vira o rosto dele para o dela. — Você não tem culpa pelo que te aconteceu, nem pelo que você é hoje.

— Eu sei, eu não sinto culpa pelo que aconteceu. Eu sinto tristeza por ter acontecido dessa forma.

Nada mais foi dito, por um bom tempo. Foram dez segundos de puro silêncio, um silêncio ruim, constrangedor, sufocante.

— Achou alguma pista?

— Não. Estou tentando procurar pelo meu pai. Procurei cada canto da casa hoje e não achei nada. Amanhã eu tentarei de novo, junto com Ryan.

— Ryan é um bom rapaz e um ótimo detetive, mesmo sendo mais novo que você.

— Sou só 5 anos mais velho que ele. Ryan está entrando na casa dos 30 agora. Depois que ficamos adultos não tem mais tanta diferença comparar as idades.

— Pois é.

— Amanhã você vai ver Francis? Ele não falou nada de você, mas eu conseguia ver que ele estava carente.

— Sim, vou vê-lo. Como ele estava?

— Bem, mas eu acho que ele piorou. Ele está muito depressivo, sabe? Desde aquele acidente com o associado. Bater a cabeça daquele jeito...

— James, pare.

— Desculpe. Ser um detetive e ver essas coisas todo o dia nos deixa frio de uma tal maneira...

— Eu não gosto de lembrar que o meu irmão, praticamente da mesma idade que a minha, com o mesmo tratamento que eu e ele tivemos dos nossos pais, foi um traficante de droga. É humilhante... Tanto para mim quanto para ele.

— O que importa é que o Blake está na cadeia. Ele foi o culpado, ele quem deu o golpe no—

— Chega.

— ...

— Você quer um chá de camomila para se acalmar um pouco?

— Não, não precisa. Só preciso dormir. Amanhã eu terei um dia longo.

— Eu também. Muitos clientes querem seus processos adiantados.

— Entendi. — Os dois se deitaram — Boa noite, Lisa. — James a beija na testa.

— Boa noite.

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A luz entra em forma de feixes, formado pela cortina do quarto. James acorda lentamente, quase que cego de um olho. Ele se vira e vê sua mulher se trocando em sua frente.

A curva de seus peitos se mostravam como uma sombra, até que se virou, podendo James ver seus mamilos rosados e duros, empinados como uma grande onda que se quebra perto da costa. Ela coloca o sutiã e finalmente a camisa vermelha.

— Eu me casei com você, mesmo? — James coça a cabeça.

— Engraçadinho. — Diz Lisa, colocando a calça.

James se levanta. Lava o cabelo, escova os dentes e coloca uma roupa decente.

— Acho que já vou indo.

— Não vai comer nada?

— Não, estou sem fome.

— Ok, então vamos com um só carro hoje. Pode me levar pro Francis, para eu passar e dar um oi, e de lá pro escritório?

— Claro, acordei cedo mesmo.

— Ótimo! Então você me busca no fim da tarde?

— Sim, até lá a investigação da cena do crime vai ter sido encerrada.

Os dois descem as escadas.

— Junior já foi para a escola?

— Sim, quando você me buscar, nós aproveitamos e já buscamos ele também.

— Certo.

James tranca a porta de casa. Lisa senta no banco do passageiro e James assume o volante.

A cidade de Vengerberg sempre foi tranquila naquela época do ano. As folhas verdes, os troncos fortes, árvores e vegetação por todo o lado. Ainda não era a época das flores, a fama da cidade, mas estava para começar. Casas pequenas porém ricas de detalhes eram a atração da cidade.

Depois de 10 minutos passando por ruas estreitas, casas chiques e árvores preenchendo a vista, James e Lisa chegam na casa de Francis, o irmão da moça.

— Obrigado, querido. Vou demorar menos que 5 minutos, prometo.

— Sem pressa, amor. — Eles se beijam.

Lisa sai do carro.

James fica sozinho por um tempo. Já estava exausto só de pensar que teria que voltar para aquela casa de novo. Àquele ponto já retiraram o corpo de sua mãe, mas mesmo assim, lidar com os lencóis e as paredes cheias de sangue, do sangue de seu sangue, seria no mínimo incomum.

Já passando a mão na testa, James é interrompido por sua esposa, que aparece pelo vidro do passageiro.

— A porta não está abrindo. Francis deve estar dormindo, como sempre. Pode pegar a chave que está no porta-luvas?

James pega e entrega à Lisa. Ele a segue com os olhos, conferindo cada passo, cada volta da fechadura.

O detetive olha para baixo e fecha os olhos, numa tentativa de cochilo.

— AAAAAAH!! — Lisa grita.

James Winter sai disparado do carro e corre em direção a casa de Francis. Ele fica ao lado de sua mulher e vê o que ela vê.

O corpo de Francis, numa poça de sangue, com um buraco profundo na testa.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentem para um melhor feedback. Aceito qualquer sugestão, crítica e/ou xingamento.