Broken Glass

3 Capítulo III - Parte Um


Notas iniciais
Primeiro, gostaria de pedir desculpas por dividir o Capítulo III em duas partes. O capítulo ficaria muito longo se fosse inteiro, e eu não queria deixar quatro capítulos, pois não faria sentido com a trama. Segundo, obrigado para quem está lento até agora. Comentem para eu saber o que vocês acham. As revelações vão aparecendo pouco à pouco, à medida que o caso se expande a patamares extremos.

— E da próxima vez que você errar a reza, você ficará mais um dia aqui! — Phil quase estoura a porta ao batê-la.

Qualquer um que visse o estado de James ficaria paralisado. O garoto de 13 anos ainda paga os pecados que cometeu. A ovelha negra da família, que enterrara seu irmão mais novo precocemente. Com dentes arrancados à força, cabelo puxado, um olho de uma imensidão roxa e cortes nos braços, o pequeno Winter fechava os olhos para esquecer.

Esquecer que vivia um pesadelo.

“Um dia eu vou te tirar daqui. Dê-me tempo, e não fale para o seu pai!” — O avô de James sempre o falava isso. Viver em uma pequena cidade significa depender de pessoas para quem você jamais desejaria depender. Phil era um padre da minúscula igreja de Brooke Mountains. Todos o adoravam. Ter um filho torturado era o seu pequeno segredo.

James olha para cima, nas escadas, e vê a porta abrindo.

É o seu avô.

“Vamos embora, pegue a mochila”.

Capítulo III – Parte Um

Ryan acorda.

Coça a cabeça, reclama e levanta. Ele despertou de madrugada devido ao seu problema com a insônia. Sentindo seu corpo descansado e pedindo atividade, ele abre a janela e encara a paisagem; dois únicos prédios, um ao leste e outro ao norte, pequenas casas, poucas luzes de poste, e apenas o som dos grilos festejando o escuro.

Ryan vai até a cabeceira de sua cama e pega um livro. “A História do Detetive Lester Harx”. Ele vai até a sala, a alguns passos do seu quarto num minúsculo apartamento, liga a TV, deita no sofá e segura firmemente o livro.

Nunca gostou de ficar sozinho. Desde a infância se sentia sufocado pelos familiares, desejando assim viver na solidão. De todas as coisas que Ryan se arrepende, morar sozinho é uma delas.

Ele deixa a TV ligada para se sentir acompanhado de alguém. Do brilho, do som, das imagens, qualquer coisa que não aponte que ele se encontra só.

Depois de ter lido algumas páginas no bar, Ryan retoma a leitura:

“Não há nada a se fazer quando se está triste, a não ser superar. Como superar, então, é uma escolha sua. A dor existe, mas cabe a você decidir o que fazer com a dor. A solidão é eterna para os detetives, mas você faz o que bem entender com ela. Um detetive deve achar as pistas da sua própria investigação e solucionar a si mesmo, antes de achar que deve solucionar os casos dos outros.

Enquanto muitas pessoas se sentem horrorizadas com a morte, com o sangue e com a mutilação, você a trata com desdém, com uma sensação de ‘eu já vi isso muitas vezes antes’.

Em um bom detetive, só há a frieza, nada mais. Foi com essa frieza que eu desvendei a maior parte dos meus casos. Encontrei-me muitas vezes enclausurado na minha própria casa, na minha própria família. Minha esposa, meu filho, e eu simplesmente não conseguia lhes oferecer o carinho que mereciam. Eu só pensava no caso. Ser um detetive me deixou frio.

Nada melhor do que reler algumas pistas para desviar a atenção das coisas negativas e ruins, porque afinal de contas, sua energia vai aonde sua atenção está. Esse é o meu tipo de superação”.

— Acho que vou fazer isso mesmo. — Mesmo estando sozinho, Ryan conversa com ele mesmo, concordando com o que está escrito no livro.

Ele vai até seu quarto, abre a gaveta e coloca as luvas. De um saco ao lado delas, tira as evidências: Uma folha dizendo que Francis foi assassinado com uma pistola 9 milímetros e que o tênis usado pelo indivíduo no assassinato de Susan era Nike. Outra folha era a carta de Phil.

Ryan lê novamente a carta:

“Susan, saí da cidade para comprar cerveja. Essas merdas de mercados não tem a que eu quero! Você está no banho e eu realmente não quero te esperar para avisar. Volto assim que comprar uma caixa. Ou duas”.

— Essa foi a carta que Phil escreveu para Susan enquanto ela tomava banho, antes de sair de casa. Será que isso foi escrito antes do assassinato ou depois para criar um álibi?

Ryan estica sua mão para pegar uma caneta, para anotações, e esbarra no livro que James lhe deu, que cai no chão.

— Merda. — Ele agacha e pega. O livro abre apenas a capa, mostrando na parte inferior o recado que James deixara para ele.

Ryan cerra os olhos. Coloca seus óculos e repara. Faz uma comparação rápida entre as anotações de James com as anotações de Phil. Para por um instante e faz uma análise mais analítica dos dois textos.

— Não é possível... — Ryan não quer acreditar mas já sabe que a letra dos dois textos é da mesma pessoa.

— Isso não faz sentido... Ou Phil deu esse livro para James, e ele só colocou o meu nome depois, ou James escreveu o recado que supostamente Phil deixara para Susan... Mas... O que isso quer dizer?

Ryan coça a cabeça.

— Tenho que ir para a casa dos pais de James, deve ter algo lá.

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— Mas pai... Eu tô com sono... — Junior tenta se cobrir melhor.

— Filho, temos que ir agora, papai está com pressa. — James tira-o da cama.

— Tá bom...

— Você quer ajudar o papai a pegar o assassino, não quer? — O detetive ajoelha.

— Quero. — O menino coça uma das pálpebras.

— Então vamos! Eu vou precisar da sua ajuda. Você já virou um profissional com o video-game. Sem você, eu acho que não vou conseguir.

— Mesmo?

— Mesmo!

O menino sorri pouco, para não gastar muita energia e cair no sono novamente.

— A mamãe vai também?

— Você quer mesmo acordar a mamãe? Ela estava morrendo de sono e agora finalmente está dormindo.

— Não... Não precisa acordá-la...

— Bom garoto. — James passa a mão no cabelo ralo do menino.

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Ryan, enquanto dirige, vê um caminhão de lixo passando pela casa dos Winters, os pais de James. Eles param na frente da casa e começam a recolher o lixo. Ryan Smith buzina rapidamente e os homens param.

Assim que o detetive para o carro, ele desce, tira o distintivo de seu bolso e aponta.

— Detetive Ryan, eu preciso vasculhar esse lixo. Pode conter informações para o caso que estou investigando.

— Mas hein!?

— Por favor, afaste-se do lixo. — Ryan guarda o distintivo.

— Olha, cara, é o seguinte, me pagam pouco, mas eu sou pago para recolher lixo. Não vou confiar num cara qualquer mostrando serviço de madrugada. Lixo é uma coisa íntima, sabe? Uma coisa rara. Não se mexe nessas coisas.

— Ei, pare de asneira e vamos, ele é um detetive! — O amigo tenta convencê-lo.

— Eu não, esse zé aí tem que reconhecer a importância com o que trabalhamos. Não é qualquer um que vai—

— Isso pode te expulsar daqui? — Ryan saca uma nota de 20 dólares.

— Tá bom mermão, que seja. — O lixeiro pega e vai embora com o amigo.

O caminhão vai embora, deixando Ryan com o lixo. Do bolso de seu jaleco ele retira uma lanterna, joga todo o lixo no chão e começa a procurar por alguma coisa valiosa.

“Eu sempre deixo os lixos para o James vasculhar... Mas algo me diz que...”

Entre latas de refrigerante, garrafas de cerveja, revistas recortadas, caixas vazias de chocolate e pacotes de cereais, Ryan Smith encontra um papel amassado.

Ele pega, e percebe que as letras estão recortadas de uma revista recortada. O detetive lê:

“Olá, como vai? Deixei as coisas meio bagunçadas por aqui, mas preciso que você vá até a Rua Walkers, número 57. Uma janela estará aberta. Entre. Lá, você encontrará outro bilhete. Siga as instruções daquele bilhete à risca.”

— Merda, o que está acontecendo!? — Ryan não entende nada. — Provavelmente essa carta é para o pai de James. Esse é o endereço da casa de Francis, mas não há nenhuma instrução lá, nada! Nem nos lixos, que não havia nada devido a ausência de Francis por meses.

Ryan entrou no carro e acelerou.

— Por que será que James escondeu isso de mim? Ele ao menos sabia disso? Preciso falar com ele, agora.

Chegando em frente a casa de James, Ryan desce do carro. “Vão me achar um louco de chegar de madrugada, mas eu não tenho outra opção”. — O detetive pensa, enquanto toca a campainha.

Ryan toca novamente a campainha depois de um tempo e ninguém o atende.

Passa dois minutos e ele, já impaciente, bate à porta.

— James! Preciso falar com você! — Ele continua batendo.

Repentinamente, algo maior toma conta de Ryan e ele arromba a porta. Aproveitando o momento de adrenalina, sobe as escadas até o quarto de James.

— James, onde você—

Ao entrar no quarto do amigo, Ryan encontra Lisa no chão.

— Lisa! — Ele corre até ela e se ajoelha. — Acorde! — O detetive segura firmemente o pulso da moça e sente poucas batidas fracas.

Tremendo, ele agarra o celular e liga.

— 911, qual é a sua emergência? — Uma moça atende.

— Rua Snow Crow, 32, rápido! Uma moça está inconsciente, com batimentos cardíacos lentos e fracos. Ela deve estar entrando em coma, rápido!

— Uma unidade estará a caminho. Quem está falando?

— Detetive Ryan Smith, número 00493, é urgente!!

— Mandarei mais unidades para investigar a cena. Sabe se foi tentativa de homicídio? Ou acidente?

— Eu... Eu não sei... — Ryan checa a mulher. — Ela tem uma ferida na sobrancelha... O rosto dela está todo manchado, acho que de choro. Tem um travesseiro... Alguém usou um travesseiro para sufocar ela, acho que foi isso.

— Ok, fique comigo pelo telefone e me fale qualquer coisa de importante.

— Ela está suando... Muito. Eu não sei mais o que falar.

— Isso é um bom sinal, ela não está entrando em um coma profundo ainda. A ambulância e as viaturas chegarão aí rapidamente, não se preocupe, detetive Ryan.

— Tudo bem.

Depois de tremer por mais dois minutos, as viaturas chegam e Lisa é socorrida.

Dois policiais sobem as escadas, logo depois que os médicos descem, e conversam com o detetive.

— Como você chegou aqui, Detetive Ryan?

“Merda” — Eu arrombei a porta.

— Por quê?

— Eu achei uma pista essencial para um caso. Essencial mesmo, e precisava mostrar para o meu parceiro. Ele não respondia, então arrombei a porta. Não sei, eu sabia que tinha algo de errado.

— Tem alguma ideia de quem pode ter feito aquilo com Lisa Winter?

Ryan pensa logo em James.

— Não faço ideia.

— Ok, obrigado, detetive. Investigaremos mais acerca desse caso. Assim que precisarmos te chamaremos. Já que você está aqui... Bem...

— Sim, pode deixar. — Os olhos confiantes de Ryan contagiam o policial. — Eu vou investigar por aqui.

— Ok, muito obrigado pelo empenho. Quanto à Lisa... É quase certo que ficará tudo bem com ela. Ela ficou sem ar, e quando caiu no chão teve dificuldade para respirar. Mas é só uma breve inconsciência, creio que tudo será resolvido de forma rápida.

— Obrigado. Sério.

Os policiais saem e fecham a porta de casa.

“Sozinho, novamente”.

Ryan coloca as luvas de investigação que sempre carrega no seu bolso e senta na cama. Passa a mão nos seus médios fios loiros de cabelo, que para na nuca. Olha para baixo e sente desconforto no corpo todo. Uma dor aguda nas costas. Ouve, bem de leve, gotas serenas caindo no céu, chocando com o telhado. O sono se manifesta novamente.

Ele olha para o lado e vê um caderno jogado na cama. 200 folhas, capa preta, nada escrito nem na frente nem atrás. Ryan, com um olhar curioso, abre o caderno.

“Nem mil demônios causaram tanta dor para o mundo que eu recebi. Não há mais salvação. Deus me deu uma mãe ignorante para sustentar o ódio de um pai religioso que bate, e bate, e bate...” — São anotações do James. É a letra dele. Será que tem algo aqui?

Depois de virar algumas páginas sobre o passado duro e difícil que Ryan já conhecia, o detetive encontrou passagens recentes, começando a partir dos últimos dois dias.

Ele leu.

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As gotas caem tranquilamente sobre o vidro do carro de James. O detetive dirige, passando por um caminho escuro, cheio de árvores e animais pequenos atravessando a estrada. Ao longe, podia-se ver umas linhas embaçadas amareladas, denunciando o quão breve o amanhecer estava. Ele passava por uma placa dizendo “Limites de Vengerberg”.

Junior boceja alto. James tenta olhar para o filho pelo retrovisor. Consegue enxergar apenas seu cabelo ralo, de mesma cor negra à sua.

— Tudo bem aí, filho?

— Sono. — Ele coça a cabeça. — Eu vou mesmo perder aula?

— Hoje vai. Você precisa ajudar o papai hoje.

— E esse assassino, como ele é?

“18 de Março de 2010.

Ontem eu matei a minha mãe. Nem todos podem dizer isso, dessa maneira. Aliás, foram poucos homens na história da humanidade que puderam dizer que mataram alguém, muito menos a mãe.

Eu não me importei muito, para falar a verdade. Não pensei na minha esposa nem no meu filho, pensei em mim, em como me agradar, como aliviar a tensão que ainda existe dentro de mim. Não foi algo fácil mas também não foi difícil. Isso deveria me assusar mas já estou acostumado.

Entrei na casa dela e esperava ver meu pai junto, mas ele infelizmente não estava por lá, apenas a minha mãe, dormindo. Acordei-a de seu terrível sono e a trouxe para a feliz realidade, onde ela tem um filho maltratado que se vingou justiceiramente, com 12 cortes no tórax. Ela me bateu 12 vezes, e para cada ação, há uma reação.

Na primeira ela gritou, na segunda eu a calei, na terceira abafou, na quarta eu me exaltei, a quinta, a sexta e a sétima eu não lembrei, mas na oitava seus olhos viraram para trás, na nona eles se fecharam, na décima podia-se ver sua luta para estar conosco se desmanchando, na décima primeira ela cerrou o punho, e na décima segundo ela soltou. Uma lágrima caiu, mas com certeza não foi por ter visto um filho matando-a. Não, ela não gostava de mim, ela com certeza gostava do Jason, meu irmão caçula. Foi naquele momento, que eu lembrei dele, que tirei o travesseiro de sua boca e pude ver seu rosto por completo. Cortei seu pescoço e o silêncio se estabeleceu.”

— Ele é alto... Careca... Religioso, bem religioso, mas ele é do mal, sabe? Aqueles que roubam dinheiro dos fiéis?

— Sei sim.

— Ele estava na nossa cidade, mas ele fugiu. Agora estou indo atrás dele.

— Que legal!

— Não se exalte tanto, você só vai ficar no carro por enquanto.

— Aaaaaah... — O menino lamenta.

O Hyundai de James acelerava mais à medida que sua empolgação aumentava. Outros carros iam aparecendo, estava amanhecendo rapidamente.

Junior vê pelo retrovisor os olhos frios e gelados do pai, que sem mudar a feição, continua a dirigir, como se estivesse vendo uma revelação, atento, conformado, com os olhos arregalados.

“Assim que eu terminei, deixei uma carta na gaveta, para confundir Ryan, ou qualquer um que viesse a investigar. Coloquei também uma carta para o meu pai, dizendo para ele ir até a casa de Francis. Eu tive um plano e pensei: ‘Por que matar apenas meu pai, se eu posso também limpar as ruas de outro traficante?’. Um plano perfeito. Eu só precisaria pedir um ou dois favores para o Blake e tudo estaria resolvido.”

James estaciona em um estacionamento perto de um parque. Do lado direito havia uma trilha curta que levaria exatamente para o interior das montanhas, onde estaria a pequena vila onde ele morou.

— Filho, é importante que você me ouça agora... — O detetive se vira para poder olhar nos olhos de Junior. — Você vai ficar no carro. Eu vou perseguir o assassino. Preciso que você fique aqui para me alertar se alguém suspeito passar, ok?

— Ok, mas... Como isso vai te ajudar?

— Esse cara suspeito pode ser o assassino! Se eu voltar e não tiver achado ele, você vai me falar como era o suspeito e para onde ele estava indo, entendeu?

— Que legal!

— Xiu! Sim, mas fique no carro e se comporte, ok?

— Ok.

— Vou deixar o vidro um pouco aberto para você. Papai já volta.

James sai do carro e garante que sua arma esteja no coldre escondido. Ele abre a porta de trás e abraça o filho.

— Te amo, filho.

— Também te amo, pai.

“Falei com Blake e ele me deu dois saquinhos de metanfetamina, como eu pedi. Na verdade um dos homens dele me deu assim que eu sai do presídio. Ainda me pergunto como Blake conseguiu falar com o cara, mesmo estando preso. Ele é muito estranho. O que importa é que ele me deu a chance de poder ligar o assassinato de Francis com Phil.

Depois de me encontrar com Blake, fui trabalhar, esperando, é claro, com que Ryan me desse a notícia. Foi o que aconteceu. Tentei fazer uma cara de surpresa lá, outra aqui, ele caiu direitinho. Fui buscar Francis, a parte essencial de todo meu plano. Chegando na casa dele, a janela estava aberta. ‘Merda’, eu pensei, ‘meu pai não faz uma única coisa certa’. Francis se perguntou se alguém tinha entrado. Enquanto ele começava com os seus surtos, eu coloquei minhas luvas e segurei minha arma.

Ele se virou para mim, e eu, escondendo a arma, disse, ‘Você é um bom rapaz, Francis’. Eu ainda não sei ao certo o por quê de eu ter dito aquilo. Acho que era a única coisa decente que eu poderia ter dito a ele, antes de matá-lo. Só sei que ele deu um sorriso inocente e bobo, que quase fez eu desistir de apontar minha arma e disparar. Mas eu não desisti. Assim que levantei o braço, vi em seus olhos uma rápida súplica, algo como ‘Por favor, não, eu já paguei por tudo’.

Ele estava com problemas mentais. Ele não entendia certas coisas que se passavam ao redor dele. Mas ele sabia exatamente do que uma arma apontada em seu rosto era capaz de fazer. Puxei o gatilho, pressionado a um travesseiro do sofá que eu rapidamente peguei, e em poucos instantes, ele caiu. Uma poça vermelha se alastrou, como se fosse o fundo circular de uma aura maligna.”

James anda pela trilha. Os galhos quebrados, as folhas ganhando vida. 20 de Março, era o primeiro dia de primavera, e essa estação é mais bonita em Brooke Mountais, com suas árvores das mais variadas cores de tronco e folha. Os pássaros cantavam sobre sua cabeça, namoravam enquanto batiam asas, o macho perseguindo a fêmea.

Por um momento, James é feliz. Vê em si a solução de tudo. Logo se esquece e continua andando ao seu objetivo.

Na trilha, só andava James, mas vinha surgindo ao longe um senhor, que foi se revelando passo a passo e puxou assunto com o detetive.

— Meu bom homem... Com licença. — Com dificuldade na fala, o velho falava.

— Pois não, senhor.

— Você saberia me dizer onde fica a farmácia mais próxima daqui? O pastor Phil está passando muito, muito mal, e não tem dinheiro para comprar nada. Nós da vila juntamos um dinheiro e...

— Não conheço nenhuma farmácia, senhor.

— Oh... Ok, obrigado...

James continua andando, quando de trás dele, ouve novamente a voz do senhor.

— Você por acaso seria James Winter... Filho do pastor? — O detetive paralisa.

— Sim, por...?

— O pastor Phil conta muitas histórias em seus cultos. Histórias envolvendo um irmão assassinado a sangue frio. — James mostra a imensidão negra de seu olhar para o velho. — Histórias de um menino problemático, que foge de casa com seu avô.

— Devemos estar falando de crianças erradas, então.

— Não, mas é você, sim. Te reconheci pela falha que você tem no nariz, quando seu pai o quebrou. Quando ele contou a história, soube que o Senhor lançou sobre ele uma onda de aceitação e calma, pois se fosse comigo, eu faria coisa pior.

— Que o senhor quebre as pernas e braços de seu filho ou filha, e mostre o poder da sua piedade, então. Passar bem.

O velho lança uma energia extremamente negativa para James, cospe no chão e continua a andar.

“O restante do dia foi cansativo. Investigar a cena do crime que eu causei. Enganar o parceiro que eu formei. Esconder todas as evidências possíveis. Antes de sair da casa de Francis, verifiquei se o fragmento do mapa estava cortado. Eu deixei uma imagem com dois mapas, de propósito, e uma mensagem, obrigando-o a ir para o local marcado no mapa. Um mapa era para meu pai rasgar e confirmar que ele estava indo para a casa antiga dele. Ele rasgou, então ele mordeu a minha isca. Impressionante como homens de Deus ficam tão assustados quando a morte chamam seus nomes. Tudo estava encaixado. As digitais de meu pai estavam por toda a casa de Francis, e isso, mais a metanfetamina, ia ligar os dois casos. Eu ia sair ileso e meu pai ia sair como o homem que matou a minha mãe e Francis, por questões envolvendo droga.

Só falta alguém para levar a culpa quando eu for matar o meu pai. Já tenho uma ótima ideia.”

Enquanto andava, o homem de cabelos e olhos negros começava a ver casas. Pequenas construções quadradas com um teto de dois lados. Ele contou sete. Nada mudou. Conhecia a Senhora Beth, o Senhor Folk, o açougueiro Ben e o seu filho Billy, a viúva Jenny, o bêbado Park, o advogado aposentado Fawler, a dona de casa Maryanne, e finalmente, o guarda da vila, Tarik. O guarda, de dois metros de altura, andava pela calçada irregular, quando James puxa assunto.

— Tarik?

— James Winter? É você mesmo? — O homem pasma.

— Sim, sou eu.

— Meu Deus, quanto tempo. — O brutamontes aperta sua mão. — Ouvi muitas histórias do seu pai mas... Bem, eu te conheço, sei como você é, do que é capaz. As coisas que você fez podem até serem verdade mas teve um motivo.

“Teve um motivo”

James vê rapidamente sangue, sangue por todo o lado. Sua mãe morta em frente a ele.

— Sim... A maior parte das coisas que eu fiz tiveram um motivo. — Winter suspira. — Ele gosta de sensacionalizar as coisas.

— É... Mas o que faz por aqui? Não é bem a sua estação do ano para curtir a primavera em Brooke Mountains, hehe.

— Quê?

— Seu sobrenome, Inverno... Ah, deixa pra lá.

— Vim conversar com o meu pai. Onde ele está?

— Já vou avisando que ele passa mal. Você já deve saber mas...

— Que a minha mãe foi assassinada? Sei, quero falar com ele justamente por isso, para coletar mais informações, pistas, qualquer coisa.

— Que causa nobre, senhor Winter. Deve ser difícil ter que falar com seu pai depois de tanto tempo, só para poder investigar a morte... Bem, desculpa, falei demais. O senhor Phil Winter está na casa mais alta. Conhece a moça Hollinger?

— Baixinha, magrinha, de intensos olhos azuis e de longos cabelos loiros?

— Essa mesma.

— Então não mudou nada...

— Não mesmo... Phil está na casa dela. Ela saiu para viagem na casa dos pais e cedeu a casa para o padre se recuperar.

— Entendi. Bem, Tarik, muito obrigado pelo apoio. Mesmo.

— Imagina, senhor Winter. Em 10 minutos você chega na casa. Ela é bem isolada, só não fique com medo.

“Não sou eu quem devo ficar”. — Não ficarei. — James sorri. — Obrigado.

“19 de Março de 2010.

Assim que acordei, levei Lisa para a casa de Francis, para ela visitar o irmão. Foi o momento mais duro do dia, pois tive que mostrar todo meu poder em atuação. ‘Oh meu Deus, Francis está morto’, ‘Oh não, Lisa, isso é horrível’, toda essa bobagem. Eu amo ela, mas... Às vezes ela só me atrapalha. Ryan e eu fomos investigar a casa. Eu fingi ter achado um saquinho debaixo da cama, sendo que na verdade já estava comigo, e contei a Ryan. Fomos então até a casa dos meus pais. Aproveitei que o corpo da minha mãe tinha sido retirado, e fingi, também, tirar um saquinho do suporte da cama. Consegui ligar tudo.

Fui no hospital e garanti que Lisa estava bem, mas... Ela sabe. Merda. Ela sabe que tem algo errado! Lisa conhece muito bem o irmão dela, me disse que ele não seria capaz de ter cometido erros de novo, não depois do incidente com Blake. Ele ficou defeituoso mas sabia dos erros que cometeu e não repetiria de novo. Lisa é esperta e isso é um problema. Talvez eu esteja enlouquecendo, não sei.

Fui de encontro com Blake. Óbvio que ele não ficou feliz em ter que se misturar novamente com gente da minha laia, muito menos em prestar favores a mim, mas no final das contas, concordou. Pedi pelos serviços de um de seus homens. Esse homem irá se encontrar comigo assim que eu encontrar o meu pai. Ele matará meu pai a facadas e deixará a arma do crime lá. Suas digitais não serão rastreadas, por ele, segundo o plano, usar luvas, e isso deixará a polícia intrigada. Blake convocará um oficial e contará que o assassinato foi arranjado por ele.

É genial.

Blake negociará os 50 anos de pena por um número bem menor. A polícia não irá recusar, pois será o maior caso já registrado da cidade. Blake Albarus contará a polícia que: Phil tinha problemas com bebida e drogas, e que Francis a fornecia. Quando Francis parou de fornecer a droga, num ato de fúria, matou Francis, e assim que sua mulher soube, matou ela também para silenciá-la. Sabendo disso, mandou um de seus homens para matar Phil e não lhe causar mais problemas.

É simples, quando os policiais souberem disso, reduzirão a pena de Blake por ter contribuído com a solução de um caso, e o comparsa será preso no meu lugar.

Claro, como esses comparsas seguem devotamente os líderes, ele não vai se importar. O que as nossas ideologias não influenciam em nossa comodidade, não é mesmo?”

— Eu sou o cara. — Um homem passa a andar com James assim que o vê.

— Qual é o seu nome? — O detetive pergunta.

— Ivan. Só Ivan está bom.

— Ok, Só Ivan... Você encarnará o papel mais importante de sua vida. Eu preciso matar um assassino por motivos emocionais, de vingança, mas se a polícia descobrir, provavelmente vão tirar meu cargo. Então você vai matá-lo por mim e será preso por mim. Quando preso, você tem a minha palavra e a palavra de Blake Albarus, que nós dois juntaremos recursos suficientes para que você fique no máximo dois anos na prisão.

— Dois anos?

— Dois. Consegue fazer isso pelo homem que te tirou das podridões da sociedade?

O jovem de cabelo pintado de cor laranja e olhos castanhos pensa.

— Sim, com certeza.

— Ótimo. — James dá um tapinha nas costas do jovem. — Você só entrará quando eu te chamar, ok?

— Ok.

— Ótimo, então, já se esconda.

— Certo. — O homem invade os arbustos e continua andando por um caminho alternativo entre árvores.

“O ponto alto do dia foi beber com o Ryan.

Ele é um cara ingênuo, mas muito legal. Salvou-me umas vezes. Eu invejo ele. Morar sozinho, não ter responsabilidades com mulher, com a vida... Era tudo o que eu queria. Pena que ele não entende nem valoriza o que a vida lhe dá.

Pontos negativos de lado, ele é uma ótima pessoa. Dá bem com todo mundo, tem assunto com todo mundo, faz todo mundo feliz, e é leal, é competente. Deixei um livro com ele para distrai-lo das coisas que estão acontecendo. Espero que ele foque sua atenção na história e não em mim, pois...

Amanhã será um grande dia”.

James, depois de tanto andar e subir umas escadarias feitas de pedra, chega no local. Ele vê, no topo, um terreno liso, pouco irregular, perfeito. A casa, de dois andares, era grande para o local onde eles estavam.

Ele olha para o céu azul, o Sol nascendo por trás das montanhas, as nuvens deslizando pelo ar tão lentamente quanto o riacho desce ao seu lado.

James Winter pega a arma de seu coldre, confere as balas e avança.

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O caderno cai, como se a queda durasse uma eternidade.

Os lábios semi abertos e os olhos fixos num ponto infinito denunciavam a surpresa do detetive novato. Ele coloca a mão na boca, passa por entre o resto e termina na testa, puxando alguns fios de cabelo para trás. Ryan aperta os fios e deixa uma lágrima cair. Ele puxa o ar pelo seu nariz e levanta. Pela janela, consegue ver que está amanhecendo.

Desce as escadas, sai da casa e entra no carro.

Ele olha para as suas mãos segurando o volante, imóveis, estáveis. Com a mão direita, manipula o retrovisor e vê uma feição negra, fria, um azul que condizia mais com a morte da primavera que o início dela. Abre o porta-luvas e encontra seu revólver lá.

De seu bolso, tira um fragmento do mapa, o mesmo que James mostrou a ele, apontando a localização de seu pai em Brooke Mountains.

Ryan Smith encara por alguns instantes o ponto vermelho.

Ele pisa no acelerador.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Comentem! Parte dois prevista para Segunda/Terça.