Notas iniciais
Mais um incidente. James terá que juntar as peças do quebra-cabeça para solucionar o caso mais marcante de sua vida.

BROKEN GLASS

— Você não me pega! — O pequeno corria para lá e para cá, escorregando no asfalto molhado que a chuva serena trouxe.

— Você vai ver! — James corria em direção ao outro menino, que possuia pés mais ligeiros que os seus.

Os pais se encontravam do outro lado da rua, conversando com os vizinhos. A mãe, magra, alegre e radiante, e o pai, sério, intelectual, religioso fervoroso, amante das obras divinas.

Havia uma densa e traiçoeira floresta ao outro lado da calçada onde os meninos estavam. As crianças eram protegidas da floresta por estacas de 50 centímetros de altura, uma do lado da outra.

De uma das árvores que invadia o espaço da calçada, Jason pegou um graveto. James pegou o que sobrou e começaram a duelar.

Jason dançava com sua espada improvisada pelo ar, enquanto James deslizava bem abaixo, desviando de todos os ataques do irmão mais novo.

Finalmente, James acerta o graveto de Jason que cai no chão. O irmãozinho o empurra, ainda como parte da brincadeira, e James devolve. O irmão, novamente, empurra o garoto quase que para a rua, dessa vez mais forte.

James, não querendo perder, pega impulso e corre. Seu corpo toca com o corpo do irmão

O momento pareceu durar uma eternidade.

Ainda sorrindo, Jason caia lentamente, como pássaros que pousam em troncos retorcidos e frágeis. A nuca de Jason encosta em uma das estacas de madeira, que atravessa o seu pescoço.

O sorriso desaparece.

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Capítulo II

Lisa tremia. Seus olhos pareciam pedras, sem cair uma gota. James não sabia como reagir, olhava para a mulher e olhava para o corpo do irmão dela.

O detetive a puxa para fora de casa, dois passos dali. Coloca as duas mãos sobre seus ombros e começa a falar.

— Lisa, calma. — James via na mulher um grito que estava prestes a sair.

— O meu irmão morreu, James!!

— Calma, venha cá. — Ele a abraça.

— Ele morreu!!

“Merda, o que eu faço agora??”

— Olha para mim — James a afasta. — Você tem que ser forte agora. Eu chamarei uma ambulância para te levar e cuidar de você. Francis se foi. Eu vou chamar o Ryan e constar o departamento... Vamos investigar isso agora.

— Eu quero ver o meu irmão, James!

— Você não pode, Lisa, a casa do seu irmão é uma cena do crime agora! — Ele fala alto. — Alguém matou ele. Se você entrar lá, nunca vamos descobrir quem foi.

Lisa olha para baixo, relutante. Ela deseja bater em algo, ou em alguém, mas se controla, limpa as lágrimas e acena com a cabeça.

James pega o celular e liga.

Dois minutos depois a ambulância chega. Lisa não conseguia parar de chorar.

— Moça, vamos cuidar de você agora, ok?

— Ok...

— Eu vou achar o cara que matou seu irmão, Lisa. Confie em mim. — O homem passa a mão pelo rosto dela suavemente.

Ela entra no carro da ambulância. Um dos médicos fala com James.

— Onde está o corpo?

— Na sala.

— Não toque nele até o perito chegar.

— Eu sei como fazer o meu trabalho, agora faça o seu e leve minha mulher para um psicólogo ou algo do tipo.

O médico encara o detetive e entra na ambulância.

O carro sai.

— James! — Ryan desce do carro e coloca rapidamente seu casaco. — O que aconteceu?

— Francis, o irmão da Lisa, foi morto.

— Não pode ser...

— Não mesmo, essa merda de cidade não para de ficar violenta. — James passa a mão em seus cabelos negros.

— Alguma chance de...

— Sim, totalmente. Eu tenho quase certeza que foi o meu pai.

— Por quê ele faria isso?

— Me mandar um recado. Mandar um recado para alguém. Não sei. Podemos estar falando asneiras. Um detetive trabalha com aquilo que é sólido. Vamos procurar por aqui.

— Temos que esperar o perito.

— Um detetive falando para outro detetive como fazer seu trabalho? Como se já não bastasse o médico.

Naquele exato momento chega o perito em um Bel-air preto com placa preta. Ele desce, tira o óculos e veste a luva. Fazendo pouco contato visual, ele entra dialogando.

— Alguém encostou no corpo?

“Porra”.

— Não.

— Ótimo.

— Nós vamos investigar a casa, tudo bem?

— Claro. — O perito acena enquanto passa a mão na testa de Francis.

— Vou começar pelo quarto. Você vai para a cozinha. — James diz e Ryan logo afirma.

Chegando no quarto, ele não percebe nada de drástico. Na verdade, tudo estava como há meses atrás, quando Francis viajou.

Ele colocou a mão em baixo da cama. Sua mão entrou em contato com um pedaço de plástico. James retirou e observou-o friamente. Os formatos pequenos e cristalinos do produto denunciavam ser metanfetamina, uma droga altamente viciante, e potencialmente perigosa à saúde humana.

Do lado do saquinho ele encontrou um fragmento de mapa. Nele, aparecia uma grande área amarela, um rio, e uma parte verde mais elevada. Um pequeno ponto vermelho no canto do mapa. Aparentava ser rasgado de alguma revista.

— Ryan, venha cá!

— O que foi? — Ele aparece em alguns segundos.

— Encontrei isso de baixo da cama.

— Metanfetamina?

— Exato.

— Como assim? — Ryan observa James encostar na parede com os braços cruzados.

— Francis... Bem, ele tinha uns problemas. Ele, assim como eu e você, não era perfeito. Ele não conseguia achar trabalho. Tempos depois, se viu numa situação em que, sem estudo, entrou para o mundo das drogas, mas ele não usava. Não, ele vendia. Ele trabalhava para o traficante mais perigoso da área.

— Blake Albarus. — Ryan completa.

— O mesmo. Anos depois, Francis cansado de fugir, se esconder da polícia... Enfim, se esconder da vida, ele denuncia Blake para a polícia.Você só conhece o Blake hoje por causa de Francis.

— Eu me lembro. Blake ficou na ativa durante 5 anos até alguém do bando dele denunciá-lo.

— Antes de ir para a cadeia, Blake tentou matar Francis. Por vingança... Por raiva... Eu não sei... — James olha para baixo. — Mas não conseguiu, obviamente. Blake encontrou Francis em um parque por meio de seus informantes, atacou-o com um taco de beisebol na cabeça e saiu correndo. Foi pego logo depois.

— Meu Deus.

— Blake foi condenado por tráfico de drogas e tentativa de homicídio, sem direito a condicional. 50 anos na cadeia. Francis, na hora de ser julgado, teve a sua deficiência levada em conta, por isso não foi acusado. Seria julgado caso mostrasse alguma melhora em alguma de suas consultas mensais com seu psiquiatra. Chegou a um ponto que eu não sabia se ele realmente estava piorando, ou forçando uma piora com medo de ser preso.

— Certo... Mas então, o que essa droga quer dizer, exatamente?

— Francis não estava usando a droga. Ele nunca usou. Ele estava vendendo. Eu preciso voltar à casa dos meus pais para ver se acho alguma pista em relação a isso. Preciso ligar essa droga com o meu pai. Então, tudo começará a fazer sentido, menos, é claro, o porquê dele ter matado Francis... A única conexão que meu pai tem com Francis sou eu, pela minha esposa, ela, claro, sendo irmã dele.

— Não consigo ver nenhuma motivação pro seu pai matar Francis.

— Nem eu, por isso irei lá investigar. Encontrei um fragmento de um mapa também.

— O que descobriu?

— Rapazes! — O perito chama da sala.

— Diga.

— Corpo de um homem, Francis Woods, 28 anos de idade, morto com um disparo na testa. A arma do crime foi uma 9 milímetros. Os restos de pólvora ao redor da sua testa aponta que o disparo foi feito a uma distância de 2 a 10 centímetros de distância da vítima. Foi usado uma almofada de sofá para abafar o som, por isso nenhum vizinho se manifestou quanto ao barulho. Os fotógrafos já estão obtendo imagens para o caso, e daqui algumas horas o pessoal da criminalística constatará se há ou não digitais por aqui.

— Muito bem, perito. Obrigado.

— Ao passar meus dedos pelo crânio da vítima, percebi umas ondulações estranhas, como se o osso tivesse sido retorcido. Saberia dizer, você, que é mais familiar à vítima, se isso tem algo a ver com o caso?

— Eu sei o que causou. Não teve nada a ver, confie em mim.

— Ok então. — O perito coloca a mão no braço de James. — Sinto muito, mesmo, por essas duas mortes tão próximas à você. Qualquer coisa que precisar, qualquer coisa mesmo, me chame.

— Obrigado, perito.

O velho vai embora.

— Arma automática, para variar. — Ryan coça a cabeça.

— Só você usa revólver na polícia.

— Porque eu sei o que é melhor.

— Vou para a casa dos meus pais. Vem comigo?

— Claro. Podemos voltar para cá depois.

James vai com seu carro e Ryan com o dele.

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Em poucos minutos chegam na casa.

— Está com a chave?

— Estou. — James confirma e abre a porta. Ele entra. A casa estava como eles deixaram ao sair no dia anterior. As paredes limpas, os tapetes nos lugares corretos. Ao subir as escadas, voltaram ao quarto do casal; as paredes ainda cheias de sangue e os cobertores também, só que dessa vez, sem o corpo da mãe.

— Ryan, checa melhor aquele banheiro, por favor.

— Sim.

— O detetive Winter se aproxima da cama. O colchão ainda está lá. Ele, com as luvas colocadas, levanta o colchão. Coloca sua mão em uma das madeiras de sustentação e pega outro saquinho.

“Metanfetamina...”

Ele parou por um instante e encarou o saquinho. Tudo estava ligado, mas nada estava inteiramente explicado. Aparentemente, seu pai pegava drogas com Francis, mas o que isso tem a ver com os dois assassinatos?

— Ryan!

— Diga.

James balança o saquinho.

— Não!

— Sim, essa história está cada vez mais confusa.

— Mas isso não faz o menor sentido.

— Não mesmo.

— Como você não encontrou isso ontem?

— Estava escondido na cama. Minha mãe estava lá ontem, então não teve como encontrar.

— E aquele fragmento de mapa que você me mostrou na casa do Francis?

— Verdade. — James retira de seu bolso. — Não faço ideia de onde é esse lugar. Mas eu posso descobrir, deixe comigo.

— James. — Ryan encara o amigo detetive. Esse fica pasmo, segurando o fragmento na mão. Monótomo, tenta esconder o que Ryan já percebeu. — Não precisa mentir para mim. Eu sei que você sabe onde fica esse lugar.

— Eu quero ir para lá sozinho. — James olha para baixo, com medo, preocupado, pela primeira vez demonstrando sentir algo, o sentimento de um desfecho próximo.

— Foi onde você cresceu, não é?

— Brooke Mountains... Não é muito longe daqui. Tenho certeza que o meu pai está lá. Está marcado no mapa. Um ponto vermelho.

— Eu não vou te impedir, James. Se quiser ir sozinho, vá. Mas você sabe que eu não gosto muito dessa ideia.

— Eu vou ficar bem. — James sorri, quando seu celular toca e sua feição muda. — Alô?

— É da criminalística, conseguimos um resultado apurado.

— E?

— O DNA encontrado na casa do senhor Francis Woods é de um homem chamado Phil Winter, de 60 anos de idade.

— ... Ok. Obrigado.

James se vê surpreso, mas sem motivo, pois no fundo já sabia que o pai esteve por trás de tudo aquilo.

— Eu tenho as provas que eu queria, Ryan. O DNA da casa de Francis é de fato do meu pai. — James suspira forte. — Vou ajeitar as coisas na minha vida. Preciso ver como está a minha mulher. Depois buscar o meu filho da escola... Eu estou muito nervoso, que merda.

— Ei, calma. — Ryan se aproxima de James. Seus olhos azuis claros acalmam o homem de olhos negros. — Tudo vai ficar bem.

— Quer saber de uma coisa? — James se afasta. — Que tal irmos para um bar? Hoje mesmo, final da tarde, aquele à duas ruas da minha casa. O que acha?

— Você tem certeza, James? — Dizia Ryan, quase sorrindo.

— Claro, por que não?

— Nada não, vamos.

— Isso!

— Hehe, vamos lá.

Silêncio.

— Mas primeiro, preciso ver a minha mulher e—

— Claro, claro. A gente se vê depois.

— Ok, obrigado por tudo, Ryan. — Os olhos de James penetram nos do parceiro.

— Parceiros são para isso.

— Acho que não precisamos mais investigar. Diga para o nosso chefe que não achamos nada de mais, mas que continuaremos a procurar.

— Claro.

James sai da casa, deixando a chave com Ryan. Ele dá partida no carro e vai até o hospital.

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Os vidros do hospital eram enormes. No segundo andar, James podia ver perfeitamente seu reflexo contrastando com uma distante e única nuvem no céu.

— Sr. James? — Uma linda enfermeira de olhos verdes o chama. Ele jurava que ela usava lentes de contato.

O homem aponta para ele mesmo e acena para a moça, que também acena.

— Sua mulher está nessa sala. — A moça aponta para uma porta, a cinco passos de lá.

— Obrigado.

James, ao chegar perto da porta, abre-a cautelosamente. Lá, ele encontra Lisa, sentada numa cama e apoiada à parede.

— Lisa?

— Oi, James.

— Melhorou um pouco?

— Sim, um pouco. Não muda o fato do meu irmão ter morrido mas... — Ela muda de assunto. — Descobriu aguma coisa?

— Eu já temia por isso, mas eu descobri que foi Phil quem o matou.

— Seu pai!?

— Sim. Encontramos digitais dele por toda a casa.

— Meu Deus... Mas querido... Isso é horrível.

— Sim, eu nem sei o que falar para você.

— Não fale nada, James. A culpa não é sua. É uma merda tudo isso ter acontecido, uma merda... Eu queria poder acordar de um terrível pesadelo, mas essa é a vida real.

— Isso também está sendo um pesadelo. Nunca imaginaria que as coisas seriam assim.

A enfermeira de olhos verdes entra no quarto. Lá, ela rapidamente deixa um pequeno pote com 4 comprimidos dentro, variando entre amarelo e verde. Depois sai.

— Estão cuidando bem de você?

— Muito bem, para falar a verdade. A enfermeira vem conversar comigo a cada dez minutos. O psiquiatra já deu uma breve conversada e foi muito útil para mim...

— Que bom, que bom...

— Sim.

— Lisa, tem mais coisas também.

— Eu tenho quase certeza que sei o que é. — Ela olha sério para James. — Eu não perguntei como seu pai pode estar envolvido com o assassinato do meu irmão por medo. Muito medo. Mas eu acho que eu preciso saber.

— Era exatamente isso que ia falar. — James cruza os dedos. — Eu encontrei dois sacos de metanfetamina. Um na casa dos meus pais e o outro na casa de Francis.

— Você acha que Francis vendia drogas para o seu pai?

— Tenho quase certeza disso.

— Isso é impossível, James. Eu conheço meu irmão.

— Lisa, mesmo ele não sendo mais traficante, Francis sempre foi instá—

— Eu conheço meu irmão, James! — Lisa eleva a voz. — Depois do incidente, com os pontos à mostra, um risco grosso e vermelho pela cabeça dele, encarei-o pelos olhos e eu vi a verdade. Ele estava arrependido. Ele estava arrependido, merda! Ele chorava e... E...

— Lisa...

— Não foi ele, James. Pode anotar. Francis parou com esse tipo de negócio. Ele sofreu um homicídio com outro motivo, não esse.

— Eu vou trabalhar com as provas que eu tenho, Lisa. Até elas se mostrarem erradas, investigarei alternativas.

A mulher se mantém em silêncio com a cara emburrada.

— Faça o que quiser.

— Eu encontrei um fragmento de mapa na casa do Francis. Bati o olho e já percebi, pelo ponto vermelho feito provavelmente pelo meu pai, que ele está em Brooke Mountains.

— Por que alguém que está fugindo deixaria um papel com sua localização?

— Embriaguez? Insanidade? Talvez ele queira que eu vá até ele. Eu não sei. Mesmo. Só tenho certeza que ele está lá, e eu vou sozinho.

— Você está tão disposto assim a matar o seu próprio pai?

James para por um momento.

— Eu não vou matá-lo, vou prendê-lo.

— Você não me engana, James. — A mulher sorri para ele.

— Partirei ao amanhecer.

— Ainda hoje estarei lá em casa, só estou esperando terminar as medicações.

— Vá apenas quando estiver melhor. — O detetive se levanta.

— Já me sinto bem melhor.

— Fico feliz. Depois a gente se vê, Lisa. — Ele a beija carinhosamente. A moça abre a boca e entrelaça sua língua na dele. Seus olhos se fixam.

— Obrigada, James. Vingue Francis por mim.

— Farei isso.

James Winter sai do quarto.

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As pessoas gritavam. Xingavam. Queriam sair daquele lugar, matando todos a suas frentes. James andava pelos corredores escoltado por um policial, que também ouvia todo o barulho.

— Cinco minutos. — Disse o policial. — Ele é imprevisível. Quanto menos ficar, melhor.

— Obrigado, Joe. — O detetive aperta a mão do policial e entra na cela.

— Filho da puta!

— Saia daqui, esse lugar é nosso! Nosso!!!

— Finalmente a sós. — Blake diz, sentado, olhando para baixo. — Bem, mais ou menos, né? Meus amigos não estão muito felizes de ver gente da sua laia por aqui.

— Eles não são seus amigos.

— Não mesmo. Mas dividimos muitas coisas em comum. Eu, por exemplo, também não gosto de gente da sua laia. — Blake Albarus encara James Winter. O detetive olha para seus longos cabelos negros e seu típico olho direito cinza, com uma grossa cicatriz que termina na ponta inferior da sobrancelha.

Eles ficam sem se falar por alguns segundos.

— Então... — Blake estica suas pernas e senta mais confortavelmente. — A que devo sua almejada visita? Aliás, sua outra visita.

— Eu já pedi um grande favor seu ontem. Você se arriscou. Mas agora eu preciso concluir o nosso acordo.

— Acordo!? Hahahahahaha!! — Blake gargalha, quase que até engasgar, deixando uma lágrima cair de seu olho esquerdo. James apenas observa. — Você nem me falou do que consistia o acordo. Eu arrisquei meu pescoço por você e até agora eu não sei por quê.

— Muito interessante você rir tanto para alguém que está cumprindo 50 anos de prisão.

Blake fica nervoso, mas guarda. Não grita. Não xinga. Apenas fita James com a pior parte de sua aura.

— Chegue logo no seu ponto antes que você saia daqui com apenas um dente torto.

— Você vai fazer um favor para mim, e eu, com os meus contatos, reabrirei o seu caso, e conseguirei para você, no máximo, 5 anos de prisão. Seria 10% do que você cumpriria.

— Fascinante. — Blake sorri. — Mas como eu posso confiar em você?

— Confiando. Eu sou um homem de palavra. Aliás... Você não tem muitas opções mesmo, certo?

— Do que você precisa? — Blake cruza os braços.

— Primeiro eu preciso que você me diga uma coisa. — James encosta na parede. — Você é justo para com seus homens?

— Quando me convém.

— Perfeito, porque você vai trair um dos seus. — Detetive Winter sorri.

— Isso não é problema. Por quê?

— Eu vou precisar de um dos seus. Qualquer um. Mas saiba, que ele pagará pelo que ele fará.

— E o que ele vai fazer?

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O lugar era fechado, rústico e avermelhado. Muitas risadas invadiam os ouvidos despreparados de James, que logo à sua frente, segurava um pequeno copo cheio de uísque.

À direita, olhava para uma bela moça de seios fartos conversar com a amiga, igualmente bela, porém mais reclusa.

As quinze mesas daquele bar estavam todas lotadas. James encontrava-se sentado logo perto do balcão, com a postura corcunda e os olhos analíticos.

— James!

— Ryan! Sente-se aqui. — O amigo senta.

— Um Jack Daniels, por favor. — Ryan sorri para o bartender. — Então amigo... Como foi lá?

— Lá aonde?

— Ué...

— Ah, sim. Bem, Lisa está melhor. Tomando medicamentos. Acho que a essa hora ela já deve estar saindo de lá e indo para casa.

— Não vai acompanhá-la?

— Ela já é grandinha. E também, ela precisa de um tempo sozinha.

— Imagino.

O bartender colocou um pequeno copo na frente de Ryan e encheu-o com Jack Daniels.

— Obrigado.

— E como é morar sozinho, huh?

— Legal. Às vezes é solitário. — Ryan toma um gole. — Às vezes é maravilhoso. Estou quase chegando nos 30 e sinto a necessidade de ter um filho. É difícil. Mas é bom também.

— Estranho.

— É.

Os dois detetives passaram a ouvir os sons do bar. Talheres se encostando, copos voltando à mesa, conversas descontraídas. James toma um gole.

— Lembra daquele assassinato que investigamos no bar perto do Parque Vengerburg? — Detetive Winter puxa assunto.

— Nem me lembre daquilo. — Ryan diz sorrindo. — A vítima esqueceu do seu marido morto e já foi partindo para cima de mim, dizendo que me queria, que se sentia solitária.

— Acho que nenhuma mulher resiste a um garanhão de olhos azuis e cabelos loiros. — James ri e termina o uísque.

— Para com isso. — Ryan toma outro gole.

— Hehe... Faz tanto tempo.

— E daquela vez que o açougueiro bêbado fatiou um corpo humano achando que era porco e colocou à mostra no mercado da cidade.

— Nossa, é verdade!! — James arregala os olhos. — “Não, mas é carne de porco mesmo!”, e logo em seguida, ele come!!

— Eu não me lembrava disso, muito obrigado. — Ryan sente nojo.

— Como não!? O açougueiro comeu o dedão do pé na nossa frente, com unha e tudo.

— Pare com isso, James! — Ryan entra numa gargalhada.

— Vão querer mais, senhores? — O bartender interrompe.

— Sim! — Os dois proclamam em uníssono.

— Você é um bom amigo, Ryan.

— Você também, James.

— De todos os casos, nunca esquecerei o nosso primeiro. — James vê seu copo enchendo, e assim terminado, já toma um gole. — O caso do padre louco. Tivemos que ir na igreja, e como chegamos cedo, aproveitamos para ouvir suas palavras para o povo.

— Nunca ouvi palavras mais radicais. Racismo, ódio...

— No fim, todos aplaudiram, louvaram e foram embora. Nós fomos conversar com ele...

— Homem perturbado. Aquilo justificava três belas adolescentes desaparecidas.

— O lunático dizia que via visões no fogo. Na luz. Que a verdade estava lá, e que todos que a seguissem iriam ser salvos. Que o fogo purifica. Que o fogo lava a alma. Lembra?

— Sim. — Ryan beberica.

— E então você disse a frase que começou tudo. “Não gosto do fogo. Quando fico muito perto dele, eu me queimo”. De lá para cá, eu sabia que você já tinha uma malícia para esse trabalho.

— Hehe...

— E claro, foi a sua fala que fez com que o pastor nos golpeasse com um pedaço de pau e saísse correndo, colocando fogo na igreja em meios aos risos sádicos.

— Nem parecia real.

— Eu acordei do lado de fora, no jardim, céu nublado, poucas gotas caindo. Vi uma pequena poça de sangue no chão. Era sua. Mesmo com sangue jorrando do seu rosto, você me salvou.

— Para com isso. — Ryan sorri.

— E ainda por cima, deteu o padre, que logo em seguida foi preso. Você me salvou, Ryan. Se não fosse por você, eu teria virado churrasquinho.

— Eu fiz o que um homem na minha posição faria, James. — Ryan olha para o horizonte. — Sempre tentei fazer o certo e seguir o certo, e você me mostrou esse caminho. — O amigo coloca a mão no ombro do detetive Winter.

— Muitos casos ainda estão por vir... Pensar nisso me deixa até feliz.

— A mim também.

O bartender enche novamente os copos com a permissão dos homens. O bar vai lotando mais e mais, à medida que vai escurecendo.

— Eu não gosto muito de falar dessas coisas, mas estou com medo de amanhã. — James coloca o copo na mesa. — Será que eu verei o meu pai, nos olhos, depois de tantos anos? Isso ainda me deixa apreensivo.

— Você mesmo disse que tudo vai dar certo, e eu sei que vai. Você é competente. Você vai trazer ele para cá, preso.

— Que assim seja. — James toma toda a bebida.

— Tem certeza que não quer que eu vá junto?

— Absoluta. Isso é uma coisa de pai e filho, e vai acabar dessa maneira. — James aperta o copo. — Besteira minha pensar em tragédia. Vai dar tudo certo. Amanhã de manhã eu partirei e voltarei com ele no lugar que ele merece estar.

— Isso.

— Tenho que ir, Ryan. — James pega o celular e vê as horas. — Lisa deve estar me esperando.

— Tudo bem, amigo. Obrigado.

— Ah, já ia esquecendo! — James tira um livro de bolso do seu casaco. — Quero te dar esse livro. Ganhei assim que me formei como detetive, do departamento.

— “A História do Detetive Lester Harx”.

— História fascinante. Lembra você, um detetive solitário. Mas a história dele é inspiradora. Já li quatro vezes.

— Obrigado, James. Mesmo.

— Vou nessa, amigo. — James toca no ombro do amigo, levanta e sai do bar.

Ryan, novamente, se sente sozinho. Olha para cima e vê uma luz logo contra ele. Pisca duas vezes e volta a olhar para o ambiente. Pessoas conversando, rindo, ao som de uma música agradável, tomando cerveja, uísque, como se o mundo fosse acabar em alguns dias.

O detetive abre o livro, e já na primeira página, lê:

“Para o melhor detetive que a cidade de Vengerburg já teve. Lester Harx fez de sua história uma inspiração. Corra atrás de suas novas aventuras e inspire almas. Para o lendário, e único, Ryan Smith”.

Ele sorri.

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Ele rabisca ferozmente, e depois, com um tom soturno, dança com a caneta nas linhas finas da página amarelada de seu caderno. James sente, deixa a emoção fluir até chegar em seu instrumento com uma pequena ponta de tinta, e deixa correr como o vento suave de uma brisa da primavera no fim da tarde.

Mas logo volta o momento de raiva, angústia, ele força a caneta contra a página e faz movimentos retos, uniformes, inconscientemente.

Subitamente, ouve passos profundos, que ecoam, vindo da escada logo antes de seu quarto. James corre até o armário e coloca o livro lá, junto com a caneta.

Sua mulher entra, e James começa a se despir para dormir.

— Está tudo bem, Lisa?

— Sim, estou bem melhor.

James sorri.

— Eu tenho uma semana de folga do trabalho. Vai dar para descansar bem a cabeça até lá.

— Assim que eu voltar de Brooke Mountains, pedirei folga do departamento e ficarei um pouco com você.

— Obrigada, James. — Lisa sorri, mostrando seus dentes brancos radiantes.

— Bem, eu estou muito, muito cansado... Então...

Lisa interrompe James e empurra-o na cama. A moça sobe em cima dele e beija seus lábios; toca, tanto suave quanto forte, a língua dele. Ele se permite, e a moça começa a tirar seu sutiã.

— Lisa, mas—

— Shh... Eu preciso disso. — Ela beija seu pescoço, enquanto James segura seus seios.

James tira a calça, e logo depois, os dois gemem.

O abajur de lâmpada amarela continuava iluminando o lugar.

Por um bom tempo.

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James toma um susto e acorda. Ele levanta rapidamente e vê sua mulher ao lado dele, sentada num banco de madeira. O abajur ainda aceso. Olha para a cama e vê o objeto que o espantou: Seu caderno.

— Lisa?

— Eu li tudo, James! — Ela não havia tirado a maquiagem, portanto, podia-se claramente ver manchas pretas em sua bochecha, como marcas d’água.

— Do que você está falando?

— O seu caderno. São três da manhã agora, passei a noite inteira lendo.

— O quê?

— Eu sei como você funciona. Você só precisa de uma boa transa para dormir feito pedra.

— Não, Lisa... — James cobre o rosto com as duas mãos.

— Que merda foi aquela que eu li? Hein!? Me explique agora!!

— Cala a boca!!! — James soca o abajur e ouve estalos de sua mão. Não sabe se um ou dois dedos quebraram, mas continua seu ato de fúria. — Quantas vezes eu disse para você NÃO ler aquilo? Eram documentos confidenciais!

— Eu vi o quão confidencial aquilo é!

— Merda!

— James... Como, mas... Eu tenho NOJO de você! — Ela gritava cada palavra pausadamente. — Eu disse que Francis nunca faria aquilo, eu disse! E você sabendo de tudo, seu monstro, mentiu para mim!

— Amor, olha... Calma. — James distancia as duas mãos e tenta chegar perto da esposa.

— Não chegue perto de mim.

— Vamos resolver isso com calma, ok? De uma vez por todas. Vou abrir o jogo com você. Todo o jogo. — James tenta sorrir.

— Saia de perto de mim, James, é a última vez que eu peço!

— Por favor, Lisa. — Winter vai andando lentamente a ela. — Deixa eu ter a chance de me explicar.

— James, pare com isso, agora! — A mulher grita, forçando os ouvidos de Winter.

— Eu te avisei.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Por favor, comentem; deixem seus elogios ou críticas.