Broken Arrow
9 Capítulo Oito
Notas iniciais
Demorei um pouco né? Desculpa, as coisas ficaram meio complicadas por aqui e para completar fiquei doente, então foi meio difícil escrever.
Bem, eu quero dedicar esse capítulo a mademoiselle payne que fez uma recomendação linda da fic. Obrigada por apoiar a fic dês do comecinho amore, eu adorei e fiquei muito feliz com a recomendação.
E quero dedicar também a Cat Styles, essa linda que também fez uma recomendação diva da fic, obrigada flor, eu amei a a recomendação.
Enfim, aqui está mais um capítulo. Tentei fazer um pouco mais grandinho para recompensar vocês haha
Boa leitura lindas (:
Capítulo Oito.
Até os anjos têm seus planos perversos.
E você leva isso a novos extremos.
Mas você sempre será meu herói,
Mesmo que você tenha perdido a cabeça.
(Love The Way You Lie — Rihanna)
Londres, Julho de 2010.
Os nós dos dedos das suas mãos já estavam brancos; tamanha era força que Melody apertava o volante. Ao seu lado, sentado sobre o banco do carona estofado de couro, Harry mudava insistentemente a estação de rádio, não parando em nenhuma por mais de 10 segundos.
Era um claro e calorento dia de verão. No céu de um azul límpido, se via pouquíssimas nuvens brancas como algodão; a temperatura já quente para uma manhã. O sol a pino irradiava seus raios para todos os lados, distribuindo calor e claridade por toda a cidade inglesa e seus confins.
Melody tentava prestar atenção no caminho a qual controlava o carro para percorrer, nervosa que só, era realmente difícil conseguir se fixar apenas na estrada; principalmente quando estava aprendendo a dirigir e o único barulho do carro vinha das músicas rapidamente trocadas no rádio.
— Quer parar? — pediu a cantora, um tanto impaciente. O carro percorrendo a estrada lisa e deserta com mais velocidade a cada minuto.
— Não estou encontrando uma música legal. — se explicou Harry, abrindo um sorriso aberto, tentando não se amedrontar com o olhar nada amigável que Melody o lançava.
— Então não escute nada. — o respondeu Melody com mau humor, desligando o rádio ao mesmo tempo em que tentava não desviar os olhos da estrada. Pedir para Harry lhe ensinar a dirigir não fora uma boa ideia. Harry não era o mais esperto da One Direction e definitivamente irritava qualquer um sem ao menos ter noção disto. Além do perfume do garoto que parecia a embriagar e lhe despertar hora ou outra da atenção na estrada.
— MELODY. — gritou Harry, pondo uma das mãos sobre o volante, virando-o com agilidade para o seu lado, ao mesmo tempo em que desviava o Ranger Rover de outro carro de uma marca inferior qualquer. O carro de passeio passou buzinando por eles e Harry jurara vislumbrar o dedo do meio sendo posto para fora da janela deste. — Você quer nos matar?!
Melody freou o carro de supetão, subindo o freio de mão e abrindo com rapidez a porta ao seu lado. Saiu do carro, fechando a porta atrás de si com força, descontando sua frustação contra o Ranger Rover recém-comprado de Harry. Era uma péssima motorista. Como não percebera que o carro estava na contramão? Burra.
Harry parou ao lado da garota que se encontrava enfrente ao carro e respirava fundo, tentando controlar suas emoções. Não tivera um dia bom e o mesmo somente piorava. Talvez o dia não fosse um dos melhores para se querer aprender a dirigir. Fora definitivamente uma péssima ideia obrigar Harry a vir lhe ensinar a dirigir após a briga que tivera com o pai em casa.
— Que porra Harry, nem mesmo dirigir eu consigo fazer direito. — exclamou Melody de repente, chamando a atenção de Harry para a garota. Ele a encarou com o cenho franzido enquanto ela começava a andar de um lado para o outro, a sua frente. Uma brisa fresca brincava ao redor dos dois e balançava as copas das árvores na mata que cercava ambos os lados da estrada deserta em que Melody parara o carro.
— Tudo bem, foi só um descuido. É seu primeiro dia, está indo bem até. — Harry tentou acalmá-la, mas Melody parecia sequer te escutado o que o garoto falara. Revirando os olhos, Harry se meteu na frente da garota, tomando os ombros da mesma com suas mãos, parando-a em seu percurso de andar em círculos e obrigando-a a encarar seus olhos. A mania de Melody em ter de ser perfeita e levar êxito em tudo que fazia às vezes o irritava. — Se acalme mulher, não morremos e John não levou nenhum arranhão. Estamos bem.
Melody não pode deixar de abrir um sorriso à citação do nome que Harry colocara no carro. Nunca entendera a necessidade do garoto em apelidar os pertences que mais gostava, mas achava engraçado o modo que Harry tratava seus pertences preferidos como se fossem pessoas.
— Certo, desculpe. Não estou tendo um dia bom. — murmurou, desviando os olhos dos de Harry e sentindo as bochechas esquentarem. Estava agindo como estúpida, fazendo todo aquele estardalhaço por conta de apenas um incidente que graças a Deus, e ao bom reflexo de Harry, não resultara em nada grave.
Um silêncio recaiu sobre os dois, somente o som do vento balançando as folhas das árvores soava entre eles. Melody suspirou, voltando a fitar os olhos verdes de Harry. Talvez pelo bom tempo, seus olhos estavam mais claros naquele dia e sem um olhar mais crítico poderiam ser facilmente confundidos com azul. E ela podia facilmente se perder neles.
— Eu te amo. — Harry confessou de supetão, quebrando o silêncio entre os dois e surpreendendo Melody. Fora a primeira vez que Harry confessara que a amava; e também a última. Ao contrário dos demais amigos, Harry não tinha o costume de admitir em voz alta o que sentia a todo o tempo.
Sobretudo, ao contrário do que Melody pensara na época, Harry não a considerava como mais uma em sua lista de amigos. De corpo esbelto e pele esbranquiçada, Melody tinha uma excentricidade no modo de agir que o deixava louco. Seu rosto de traços delicados dava-lhe um ar de fragilidade, contudo, de longe a garota era frágil. E esse seu lado de menina forte que ela tentava de qualquer forma demonstrar, encantava Harry e também o instigava. Sentia que Melody era mais do que deixava transparecer e essa vontade de descobrir o que se escondia por trás de toda a personalidade forte, apenas o aproximava mais da amiga que ele adorava irritar.
Nunca fora de se apegar a garota alguma, estava na fase de desfrutar a fama que estava somente começando a conquistar, e não podia simplesmente recusar todas as garotas que apareciam praticamente jogando-se aos seus pés. Talvez não estivesse com intenção de cultivar algo mais sério com a amiga naquele instante. Contudo, não podia evitar as sensações que Melody o proporcionava; seu coração insistia em bater mais forte quando a cantora estava próxima demais.
Melody abriu um tímido sorriso e abraçou o garoto, pondo seu queixo no ombro largo do moreno. Não entendia o porquê, mas algo dentro dela remexia em desconforto. As palavras de Harry não soavam tão fraternais como os "eu te amo" que Louis costumava dizer a ela todos os dias; ela sentia que havia algo mais por trás daquelas pequenas palavras de significados tão grandes.
E como covarde que era, decidiu não retribuir ao carinho empregado em palavras.
Harry fechou os olhos, desagradado com o fato dela não ter dito palavra alguma sobre o que ele acabara de disser, mesmo que para ela soasse como sentimentos de um bom amigo. Talvez Melody não o considerasse o tanto que considerava os outros amigos.
Mal sabia ela que aquele fora somente o começo de uma grande bola de neve.
Paris, atualmente.
Mesmo com o mau tempo e a forte chuva que caíra durante toda tarde, a Bercy Arena estava lotada naquele começo de noite. A gritaria dos fãs estava tão alta que provavelmente poderia ser ouvida a quadras de distância; toda aquela euforia parecia fazer o chão tremer, muito embora o primeiro show da turnê em terras francesas já houvesse terminado.
A sala extensa com paredes pintadas impecavelmente de brancas, com uma mesa de madeira clara divinamente polida ao centro; garrafas de água, algumas canetas e diversos mini pôsteres da turnê autografados pelas seis estrelas estavam postas sobre a mesa. Um grande e largo pôster com o logotipo da One Direction e o de Melody pegava toda uma parede e uma câmera montada enfrente a esta tirava a última foto da noite das seis celebridades com as últimas fãs no recinto. Melody não acreditava que tinha finalmente acabado. A fila que formara atrás do fotógrafo, outrora parecia infinita de fãs histéricas, agora já não mais existia.
— Obrigada meninas. — agradeceu Melody. Com um último abraço nas garotas, observou-as tomarem rumo, afastando-se do grupo para logo sumirem ao passar pela porta, sendo instruídas por Paul parado em pé ao lado de fora da sala.
Enquanto escutava os amigos comentarem algo a qual estava totalmente alheia, Melody se aproximou do fotógrafo francês, que ria discretamente do grupo de garotos que mais pareciam adolescentes fugidos de algum hospício.
— Muito obrigada Pierre. Você foi ótimo. — agradeceu a morena, recebendo do fotógrafo um grato sorriso por seu elogio enquanto o mesmo desmontava seu equipamento de fotografar.
— Se você me contar como consegue ser tão fotogênica, eu te pago um sorvete. — Pierre brincou, dando uma piscadela à cantora que riu um tanto forçada, observando-o limpar a lente de sua câmera com extremo cuidado.
Melody deu espaço para Pierre finalizar sua tarefa, voltando-se para os cinco garotos que riam de algum comentário, provavelmente maldoso, que um deles fizera.
— MEL VOCÊ É LINDA. — gritou Louis um tanto afetado ao ver a amiga novamente se aproximar do grupo; o garoto pulava e agitava as mãos para cima, como observara as fãs fazerem durante todas as intermináveis horas que estiveram sorrindo e posando para fotos.
— Sabe, ás vezes me pergunto se você não contratou Eleanor para fingir ser sua namorada e esconder sua verdadeira opção sexual. — comentou Melody dirigindo um olhar divertido a Louis.
— Não preciso esconder. As fãs já sabem do meu verdadeiro amor. — Louis rebateu, abraçando Harry ao seu lado, rindo junto ao moreno de cachos. Harry levou as mãos para os cabelos de Louis, despenteando-os propositalmente. — Ei garoto idiota, fique quieto ou irá conhecer a fúria...
— Do Boo Bear? — Harry completou, o interrompendo no meio da frase. Louis estreitou os olhos em direção ao garoto e logo começavam um estilo estranho de luta livre.
— Estou com fome. — ignorando os dois amigos, Niall comentou pondo as mãos sobre a barriga incrivelmente lisa, coberta pela blusa polo vermelha que vestia. Melody sentia um tanto de inveja de Niall, o loiro comia como um esfomeado e não engordava um grão. Vez ou outra Melody se perguntava para onde ia toda aquela quantidade excessiva de comida.
— E quando você não está com fome? — indagou Harry, revirando os olhos, parando ao lado de Liam para manter uma distância segura de Louis. O mais velho poderia levar a sério uma briga até o final, mesmo tal sendo na brincadeira.
— Quando eu estou comendo. — o loiro respondeu dando de ombros, fazendo uma pequena risada correr entre os amigos.
— Mas tenho que concordar com Niall, também estou com fome. — confessou Liam, apoiando-se em Zayn, pondo um dos braços sobre o ombro do mesmo.
— Podemos sair para comer. — propôs Zayn, um sorriso extremamente animado e grande abrindo em seus lábios. Harry pareceu se animar com a ideia, enquanto Louis, Liam e Niall se entreolharam, sabendo onde aquela conversa daria. Sabiam que para Zayn sair para comer não era equivalente a ir a algum restaurante e voltar, logo após a refeição, para o hotel.
— Podem ir vocês garotos, eu vou voltar para o hotel. — Melody interveio na conversa, logo recebendo sobre si olhares espantados. Não era do feitio de Melody negar uma noite de balada, principalmente quando estavam em outro país. — O que foi? Estou resfriada, esqueceram? Tenho que descansar.
A desculpa pareceu convencê-los, com exceção de Harry que pescou os olhos castanhos da garota com seus olhos inexpressíveis, como se soubesse sua verdadeira intenção de trancar-se no quarto de hotel.
Melody, um tanto desconfortável, desviou seus olhos dos verdes de Harry, prendendo-os em um ponto qualquer que não fosse aquelas orbes que lhe pareciam um lembrete para as palavras dele na noite passada.
Naquele momento, tudo o que queria era distância de Harry Styles.
——
Seus olhos se prendiam na iluminada Torre Eiffel, alta e imponente, com uma beleza e exuberância de tirar o fôlego; era difícil de imaginar algo que faria aquela enorme construção de ferro desabar. Melody desejava ser como aquela torre. Mas ao contrário do que queria, Melody mais parecia uma pena e qualquer ventinho a abalava.
Sua respiração embaçava o local que atingia no vidro fumê que a separava da sacada úmida do luxuoso quarto de hotel e a protegia do vento frio que soprava do lado de fora, sobre a cidade francesa.
Estava sentada sobre uma poltrona afofada de estampa florida, a qual arrastara para frente do vidro, com o intuito de observar sua última madrugada em Paris recair frienta. Com a garganta arranhada e o corpo ainda um tanto dolorido, Melody não se sentia nada bem.
A tela do celular acesa mostrava o twitter de um hater seu qualquer e seus comentários maldosos surgiam efeito na cantora com a rapidez de um raio.
"Fã de Melody Lewis? Quem é Melody Lewis? Oh, sim, a cantora que além de ridícula, não consegue cantar sem desafinar."
E o hater tinha toda razão. Fora tão ridícula e agora teria de arcar com as consequências.
Muito embora soubesse que naquela noite não poderia abusar em tons muito altos e agudos, além de ter de maneirar nas acrobacias de seus passos de dança, acabara por ignorar a adversão do médico que a consultara minutos antes de entrar ao palco. Tentara uma nota alta demais e não fora surpresa alguma ter fracassado. Os fãs não pareciam se importar ou ficarem menos animados com a desafinação, pelo contrario, gritaram e cantaram mais e mais a cada segundo de música.
Porém aquela gafe fizera um grande estrago em Melody.
Se antes de subir ao palco não conseguia se sentir pronta para entrar em seu personagem e mentir para os fãs que a ovacionam de fé, fingindo que tudo estava bem e que nada a abalava, naquele momento conseguia sentir-se pior que um nada. Simplesmente não se sentia boa o suficiente e tão pouco conseguia esconder isso.
A garota levantou da poltrona, puxando a cortina verde para tampar a visão privilegiada que tinha da cidade. Sua cabeça começava a latejar, não por conta do mal estar, e sim pelas palavras que insistiam em rondar a sua mente, mostrando o quanto era fraca, vulnerável; o quanto era ridícula.
E para completar todo o circo, as palavras de Harry vinham em sua mente, como cobras traiçoeiras e a picavam, seu veneno correndo por suas veias, aos poucos tomando todo o corpo da morena.
"Na verdade não passa de uma medrosa, sim medrosa, você tem medo de sofrer e é tão covarde que afasta as pessoas para isso não acontecer, machucando você a elas e é por isso que ninguém gosta de você, Lewis."
"Ninguém gosta de você."
Harry provavelmente estaria coberto de razão. Quem gostaria de alguém como ela? Tão egoísta. Melody não conseguira nem mesmo enfrentar os problemas junto a sua família. Fugira, como a covarde que era. Deixara sua mãe enfrentar tudo sozinha, deixara o fardo pesado que antes ajudava a mulher sustentar, agora recair somente sobre a mais velha. Dera as costas a quem sempre estivera para ela em todos os momentos. Conseguira ser tão mesquinha e só pensar em seu bem estar. Se fora tão ridícula com a pessoa que dizia ser a única importante de sua vida, o quão ruim poderia ser para os demais?
E adiantara de alguma forma fugir? Os fantasmas do passado sempre estariam a perseguindo, nunca a deixariam em paz. Sua fuga só mostrara o quanto poderia ser podre por dentro, o quão individualista poderia ser. Quem poderia gostar de alguém assim? Ninguém.
Talvez chegasse a entender a indiferença do pai. Melody também se odiava.
"Quer tanto ser perfeita para chamar a atenção da sua família, mas eles devem saber que você não passa de uma vadia amarga e sozinha, por isso não se importam."
Harry não pudera estar mais certo.
— E eu te odeio Styles. — murmurou a garota com a voz embargada. Aos poucos Melody sentiu uma raiva descomunal ir tomando cada célula de seu corpo. As mãos fecharam-se em punhos, uma dela fechando com força em torno do celular, ainda aberto no twitter.
Com os olhos ardendo, Melody levantou a mão que segurava o aparelho e arremessou o mesmo contra a parede do outro lado do quarto. O barulho do celular chocando-se contra a parede e logo em seguida caindo aos pedaços sobre o chão era um tanto reconfortante, mas nem por isso diminuía a raiva que sentia por dentro.
A raiva que nada mais era a dor camuflada. A raiva de Harry nada mais era a dor dilacerante em saber que cada letra proferida por Harry era apenas a verdade. A dolorosa verdade sobre Melody Lewis.
Se pôs a caminhar pelo quarto, trajando o pequeno caminho até o banheiro enquanto se despia com raiva das roupas que fizera o show.
Abriu a porta do banheiro com raiva, fazendo-a se chocar contra a parede em um barulho estrondoso, que ecoou alto por todo o quarto silencioso.
Adentrou o cômodo sentindo o chão gélido contra o pé descalço. Levou a mão até o interruptor, batendo com força no local, tentando extravasar a raiva que borbulhava suas veias e fervia seu sangue.
A luz iluminou o recinto revestido de mármore branco e com os demais detalhes em tom de pastel. Sem dar importância à decoração luxuosa do banheiro, Melody andou com passos pesados até a pia; a bancada que revestia esta estava repleta de artefatos de higiene e beleza feminina.
Fechou as mãos em punho, as palavras do hater flutuando em sua mente junto as de Harry. Sentia raiva de si mesma por se deixar abalar, por não conseguir ser forte e aqueles comentários simplesmente encadear a abertura de suas cicatrizes, tanto por dentro quanto por fora.
Soltando um grunhido de raiva, Melody passou as mãos sobre a bancada, derrubando tudo o que ali se encontrava, ao chão. Escutou o barulho das maquiagens e do vidro de perfume quebrarem em pedaços ao se chocar com o chão. E aquele ato era semelhante a como se sentia todo o tempo. Quebrada em pedaços.
Antes que pudesse sucumbir ao vício, Melody caminhou até a banheira, sentindo minúsculos cacos de vidro a ferirem na sola do pé. Mas não se importou, a dor incomoda nem chegava a doer de verdade. A dor do peito era muito forte para ser substituída por algo tão banal.
Ao chegar perto da banheira, ergueu a mão esquerda para abrir a torneira de água fria, com intuito de encher o aparelho sanitário. Sua cabeça pesada latejando, as palavras pareciam gritar em seus pensamentos, deixando-a cega a pela dor. Ela somente queria que tudo aquilo acabasse.
Voltou a passos lentos para frente do espelho, apoiando ambas as mãos sobre a bancada. Enxugou o suor em sua testa com o dorso de uma das mãos. Inspirou, fechou os olhos e pensou. Pensou no que estava passando, nos acontecimentos diários, nas reflexões dos seus meros 17 anos, às quais talvez estivesse atribuindo mais importância do que mereciam. Seu coração pegava fogo e seu peito ardia em chamas.
Abriu os olhos e fitou o reflexo destes no espelho. Seus olhos castanhos ferviam de emoções. A falta que uma família fazia, toda a pressão do mundo em cima dela, todas as humilhações que já haviam a feito passar. Era um turbilhão de tristezas que existiam no coração dela, e as centenas de lembranças que invadiam o seu pensamento a cada minuto só serviam para querer afundar algo pontudo na pele.
Estava sempre tentando ser boa o suficiente, tentava agradar ao público, contudo, cada passo parecia errado, fazia se sentir como se afundasse dia após dia.
Ali estava, sozinha, com aquele velho sentimento no peito. Meio melancólico, triste, mas era somente isso que baseava a verdadeira Melody.
Algo brilhou em seus olhos e lhe chamou a atenção. Levando os olhos ao chão, procurando o que refletira, a achou. Pescando seus olhos e prendendo sua atenção estava a sua grande amiga jogada ao chão junto aos produtos que outrora estivera dentro da nécessaire. A lâmina parecia chamar seu nome, gritando para ser usada.
E Melody era fraca demais para conseguir ignorá-la.
Seus olhos desviaram-se para um dos braços apoiados na bancada, as linhas um tanto avermelhadas enfeitavam um de seus pulsos; os cortes em um dos braços nem mesmo houvera cicatrizado direito e ali estava Melody, pronta para realizar novos machucados.
Sendo vencida pela vontade que ardia em seu peito, a cantora se abaixou e pegou o objeto cortante jogado ao chão. Não se importou quando o ato descuidado talhou seu dedo indicador da mão esquerda; nem mesmo sentira a dor. Estava submersa a dor dilacerante de todo o passado humilhante e não seriam cortes tão bobos que lhe faria emergir daquele estupor.
Ergueu na altura de seus olhos a lâmina já suja pelo pouco sangue que corria pelo corte superficial de seu dedo. Ali estava sua escapatória. Talvez não adiantasse nada, estava somente sendo fraca, mas aquela dor era um desespero enorme se formando em seu peito, queria uma forma desesperada de eliminar aquela dor e o buraco em seu peito. E causar a dor física era apenas amenizar a dor interna.
Se afastou da pia, dando alguns passos para trás. Sentiu uma dor aguda quando seu pé afundou sobre um pedaço de vidro maior que os cacos que provavelmente estariam pregados na sola de seu pé. A garota olhou para baixo, observando o mármore branco manchado com marca de sangue dos seus pés. Levantou o pé o qual o pedaço de vidro maior estava agarrado, observando com interesse o machucado. Aquela cena chegava a ser doentia. Levou a mão que não segurava a lâmina ao pé, puxando sem dó o pedaço de vidro sujo de sangue. O latejar do machucado somente servia para lhe aliviar, mesmo que pouco, a dor do peito.
Jogando o vidro para algum canto do banheiro, Melody voltou a atenção para a lâmina. Precisaria mais do que cortes superficiais para emergir daquela dor ridícula a qual se encontrava afundada. Cada vez eram mais fundos os cortes, cada vez sangrava mais e cada vez era mais difícil de parar.
Em seu íntimo uma fraca vontade implorava para ela parar e ela chegava a desejar que alguém a fizesse parar.
Queria poder parar. Queria voltar a viver. Queria poder se achar no meio daquela confusão. Mas era fraca, não tinha mais controle sobre seus vícios. Estava acabada, despedaçada, fracassada, perdida. Contudo, ninguém podia ver isso, ninguém conseguiria entender. Ela afastava as pessoas, como poderia desejar que alguém a salvasse?
Lembrou de como errou demasiadamente com os poucos que se aproximavam dela, Harry estava com a razão. Ela afastava as pessoas, sem importar com o que causaria nelas. Pensava somente em si mesma, contudo, ninguém pensava em Melody, deveria ela pensar nos outros?
Estendeu o braço, querendo ignorar aquelas pontadas no peito. O aperto familiar, a ardência nos olhos.
Levou a lâmina ao braço com as cicatrizes mais claras e deslizou a lâmina perto do pulso, um pouco mais fundo do que fizera da última vez. O pulmão gritou por ar, e junto a um arfar veio a dor. A lâmina abrindo a pele alva e o vermelho sangue manchando esta.
Sentiu o sangue escorrer por seus dedos finos, pelas mãos delicadas e marcadas de dor. Enquanto admirava o líquido correr por sua pele em uma mão, na outra segurava a lâmina afiada pronta para novos cortes. E ela os fez. Deslizou a lâmina outra vez, degustando a dor física que refrescava seu interior. Fez outro e mais outro corte. Eram muitas histórias, muitos traumas e muitos conflitos que não precisavam ser recordados, mas que vinham à tona conforme o sangue escorria por sua mão e manchava o chão.
Sorriu de lado, um sorriso que seria digno de piedade se não fosse assustador. Por mais que fosse doentio, aquele ato refrescava a dor de ter de forjar o que sentia pra ninguém saber que seu mundo estava perdido e ela estava morrendo por dentro. A vida não fazia mais sentido algum, as angústias eram tão imensas que chega ser insuportável.
Ela vira seus sonhos e expectativas desmoronar como um prédio vindo ao chão.
O barulho da água a despertou. Virou o rosto em direção a banheira e assistiu por alguns segundos a água transbordar da banheira e invadir lentamente o chão do banheiro.
Não querendo que tudo percutisse em algo maior, Melody largou a lâmina ao chão, deixando-a cair junto a possa que seu sangue havia feito ao chão. Andou até a banheira, sentindo os machucados arderem quando encontraram a água ao chão, colorindo rapidamente a mesma de sangue.
Levou a mão esquerda à torneira e fechou a mesma, fazendo imediatamente a água parar de cair para dentro da banheira cheia. Seus pés adentraram a banheira branca, sujando um tanto a água de sangue. Sem tirar as peças íntimas, logo se afundou na mesma, sentindo a água gelada formigar o corpo e arder os machucados. Então, submersa pela água que transbordava, chorou.
Chorou pelo tempo em que se dizia feliz, despreocupada, e pelas lembranças serem tão vagas. Tão nova quando toda aquela tsunami de problemas e decepções começaram. Para ela, cada decepção era o fim do mundo. Hoje, julgava-se infeliz. Emergiu, buscando ar. Repousou sua mão próxima ao coração, sentiu seus batimentos acelerados, sua respiração ofegante. Aproveitou cada segundo de sofrimento e degustou cada lágrima derramada. Era apenas mais uma masoquista.
Estava morrendo aos poucos.
Mas por hora, estava salva.
——
Somente o som do All Star branco batendo contra o piso liso em tom claro anunciava sua caminhada, ecoando ao longo do corredor vazio; todas as portas de madeira clara que compunham o corredor da cobertura do requisitado hotel francês estavam fechadas.
Respirou fundo ao parar enfrente a uma das portas do extenso corredor, encarando o número 1052 em prata, preso a porta na altura de seus olhos.
Se perguntou no que estava pensando ao parar enfrente a porta de Melody. Deveria ter ficado na balada com Zayn, e não ter voltado ao hotel atrás da cantora. Contudo, sabia o real motivo por qual Melody preferira se enfiar no quarto ao invés de acompanhá-los ao pub, afinal, uma virose nunca fora empecilho para Melody deixar passar uma noite de curtição. E mesmo tentando negar, Harry se sentia culpado.
Balançando a cabeça a fim de espantar aqueles pensamentos, levou os nós dos dedos da mão direita ao encontro da madeira, dando três leves batidas na porta.
Se passou algum tempo e ninguém atendera a porta. Harry se negou em bater novamente, em seu interior desejava que Melody não abrisse aquela porta, pois caso o contrário, não saberia o que fazer.
Harry estava prestes a dar meia volta, desistindo daquela ideia estúpida, quando a porta se abriu, revelando Melody a sua frente.
Seus olhos castanhos estavam um tanto inchados e avermelhados, denunciando que a garota outrora havia chorado. Seus pés sobre o carpete bege do quarto estavam cobertos por um par de meia que ia até seus joelhos, trajava apenas um grande moletom e o cabelo estava preso em um coque alto.
Ao reconhecer a figura pálida que atendia por Harry Styles, seu pesadelo particular, o corpo da morena fez menção de dar as costas, com o intuito de voltar ao aconchego do quarto e fechar a porta na cara do garoto. Mas Harry a puxou firmemente pelo pulso, fazendo-a voltar com um gemido alto. O som fez o moreno olhar para sua própria mão fechada sobre o pano do moletom e soltar o local de imediato, como se houvesse pego em um metal recém-saído das chamas.
O cantor engoliu em seco observando Melody massagear o local enquanto arfava. As imagens do ônibus invadindo-o sem pudor, o pulso de Melody repleto de machucados faziam um frio percorrer sua espinha toda vez que aquelas imagens o assombravam.
Ao sair do estado de estupor, voltou com seus olhos aos castanhos de Melody, se surpreendendo com o tanto de emoções que poderia facilmente ler ali. Não lembrava a última vez que vira Melody naquele estado, parecendo tão indefesa a ponto de imaginá-la se desfazendo a sua frente.
— Porque isso Melody? — questionou finalmente Harry, quebrando o desconfortável silêncio recaído sobre os dois.
— Vai embora Harry, por favor. — Melody pediu em um fio de voz, desviando os olhos dos verdes do garoto.
Fazendo o oposto de seu pedido, Harry deu alguns passos para frente, obrigando-a a dar alguns passos para trás, mantendo distância do garoto que na noite anterior se mostrara quase um monstro. Estava com medo de Harry, medo do que o garoto poderia se mostrar a ela estando sozinhos.
E Harry poderia facilmente ler isso em seus olhos e expressões. E ao oposto do que desejava antes, não mais conseguia sentir prazer no medo de Melody. Não queria representar algo ameaçador para a garota.
Naquele momento, ele queria somente que tudo voltasse a ser como anos atrás.
Com a mandíbula trancada, não sabendo se sentia raiva ou compaixão, Harry tomou a mão macia de Melody entre a sua. A garota tentou puxá-la de volta, mas Harry resistiu, segurando-a e a fitando nos olhos. Por fim ela desistiu, sabendo que Harry só constataria algo que ele já tinha conhecimento.
O garoto retirou a mão da morena de cima do pulso puxando o tecido do moletom para cima com brusquidão. Apertou a mão macia com um pouco mais de força ao ver a pele irritada, as linhas avermelhadas mostrando a profundidade de cada corte na pele esbranquiçada. Passou os dedos da mão livre sobre os machucados, o contato da pele fria do garoto contra os cortes causaram um tremor sobre Melody.
Harry cerrou os dentes com um zumbido insuportável em seus ouvidos. Afastou as mãos dela, mas não seus olhos que ainda encaravam as provas da recaída. Piscou mudando a atenção para os olhos castanhos mortos que o encaravam.
Ele não sabia o que era pior. Constatar que fora ele o grande culpado dos cortes daquela vez ou ver a garota a qual amava se autodestruindo, porque sim, ele a amava e mesmo que conseguisse esconder isso de todos, era impossível mentir para si mesmo.
Encarando-a com ternura, Harry se aproximou e a tomou em seus braços. Sentiu Melody resistir, debatendo-se contra ele por algum instante, mas logo a garota se rendeu, passando os braços pela cintura de Harry. Escutou o choro baixo de Melody irromper o silêncio do quarto e a apertou mais contra seu corpo. O coração apertado.
— Está tudo bem. — ele sussurrou, sua voz rouca soando perto do ouvido da cantora e incrivelmente dando-a, mesmo que pouco, conforto.
Chegava a ser irônico, o garoto que houvera sido grande parte do motivo que antes estivera se cortando, agora fosse quem estava a confortando.
Mas naquele momento ela não quis se importar com seu passado complicado com Harry, não quis lembrar as palavras e desaforos que já haviam desferido um sobre o outro. No final das contas, Harry era também mais um de seus vícios. E o pior de todos.
Por mais que tentasse se afastar, não havia escapatória. Algo estranho em seu interior chamava por Harry. Implorava por sua presença.
Talvez fosse seu lado masoquista.
O abraçou com mais força, inalando seu perfume embriagante, sentindo seus pensamentos, dúvidas, dores e lástimas se dissiparem.
Naquele momento tudo o que precisava era estar nos braços do moreno de cachos.
Ambos abaixaram suas barreiras, contudo tinham consciência que era somente por aquela noite.
Afinal de contas, nenhum dos dois estava disposto a se atirar no fogo novamente.
Notas finais
Se achar que a fic merece, também aceito recomendações haha
> Lembrem-se, quanto mais reviews, mas rápido eu posto.
Beijões lindas. xx
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